Parece
que não lhe pesa a idade e isso, para além de especial, é um tremendo conforto
e uma dádiva que não consigo imaginar. Não sou capaz de pensar no meu corpo
envolvido por essa pele. É esta um tanto da imagem da minha avó materna, ainda
hoje matriarca da minha família. O pêndulo que não dispensamos, a imagem que
não desvalorizamos, a presença que não descuramos. A minha avó é forte no
trato, bem como, na rigidez com que leva a postura. Desmonta-se noutros
afectos. Na facilidade com que encara o outro e as suas diferenças. Admiro-a
por tanto, um pouco mais por isso. Porque a idade nunca lhe roubou a sabedoria
de entender. De conhecer e aprender. De encarar e aceitar. De sossegar,
processar e, sem falsos panos, deixar ficar. Lembro-me das conversas rápidas,
de outras demoradas. Ela sentada na cadeira principal, à cabeceira da mesa,
onde era, vezes repetidas, mais ouvinte do que outra coisa. Palreávamos sem
fim. À sua volta e com a sua permissão. À parte dessa rigidez, deixava fugir um
sorriso. Hoje já se permite rir. Falamos de amores que morrem, de corações que
amam o mesmo sexo, de filhos que escolhem outros caminhos profissionais, de
pessoas cuja cor é um tom e nada mais, da importância do sexo, do prazer. Do
mundo que segue às avessas. Das escolhas que, no fundo, queremos livres. Para
mulheres e homens. A minha avó materna já viveu imenso. Do sofrimento à euforia.
Comprou alguns momentos de luta, livrou-se de outros. Viveu o que eu sou
incapaz de sonhar. E, curiosamente, é hoje uma mulher ainda afoita, sagaz,
intuitiva, livre nos seus pensamentos. Um pouco mais moldada nas atitudes.
Ouvir da boca da minha avó discursos cheios de sabedoria e noção de humanidade –
capazes de deixar envergonhados quaisquer indivíduos com a minha idade ou menos
– é um privilégio. Hei-de guardá-lo para sempre. O vinte e cinco de Abril de
1974 é um povo. É também, se me permitem, a minha avó. E não posso negar, soube
trazer o propósito até aos dias de hoje. Avó, a linda dos meus dias. Tenho a
sorte de comemorá-la todos os anos, todos os dias. Liberdade é ter tacto. Ouvir
o outro e dar-lhe corda. Viver sem recorrer ao mimetismo social. Mesmo que não
se repita, mesmo que nos soe impossível.
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26.4.17
27.4.15
Português revolto.
Sexta-feira,
vinte e quatro de Abril, tarde coberta, céu acinzentado, nuvens zangadas. Ouvem-se
gritos e passos desassossegados, fazendo imaginar um grupo largo de crianças. Abordam
os transeuntes, dão-lhes algo. Entram em espaços de negócio e voltam para a rua
de mãos vazias. Chegam perto de nós e percebemos, estão a distribuir a simplicidade
e a liberdade em pequenos papéis. Cada um, uma frase, um destino sem volta.
Verdades sem contra-argumentação. No que me ofereceram, podia ler-se: “A
liberdade tem de ser respeitada”. Noutros, a alusão ao actual quotidiano das
massas. Ainda divertidos cravos feitos à mão. Justiça, era a palavra escolhida.
Não sei, mas pelos relatos que vou ouvindo, pelo que vou lendo e, acima de
tudo, pelo que vou procurando saber, a noite que antecede o dia lembrado é, sem
pensar, esquecida. A emoção, a comoção, a vontade da revolução vividas na pele.
Tudo deve ter ultrapassado os poemas que têm paciência ou os que matam em cada
verso. Zeca Afonso cantou a intervenção política. Por mais anos que passem, o
vinte e cinco de Abril será, vezes sem conta, o maior e melhor pretexto para
lembrar a flor da revolução, encher as ruas e as avenidas com vontade de
comemorar o que passou, mas com mais e ferozes ganas de limar o presente e
ultrapassar o desgoverno, com a necessidade de alicerçar um futuro próspero,
condizente com a estrutura ambiciosa e criativa de mil novecentos e setenta e
quatro. Nunca esquecer a educação, a formação. Volvidos estes quarenta e um
anos, é impossível não rever a democracia e não pensar no quão embrionária é no
nosso país. Sossegada, por força dos inexperientes que brincam ao faz de conta.
Talvez não seja como nós queremos. Mas desligar e deixar andar, não é a razão
dos sentidos.
24.4.14
Democracia. Portugal.

De lá para cá. Do vinte e cinco
de Abril, do tão revolucionário ano de mil novecentos e setenta e quatro. Da
Democracia em Portugal, tenra no percurso. De estrutura manca, por lhe faltar
experiência e experientes. Do mesclado de intentos vários. Contudo, que nunca
se castre, mesmo que se questione, o que nasceu daí. Mesmo que nos surja
desfocado. Mesmo que nos vendam o percorrer da miopia ideológica. Há questões
de uma vida que se espalham por aí. Porque nem tudo o que nos servem numa
bandeja adornada, é elegância. E a sobranceria que se opõe, tantas vezes se
sobrepõe.
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