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26.4.17

Efemérides e outras liberdades.

Parece que não lhe pesa a idade e isso, para além de especial, é um tremendo conforto e uma dádiva que não consigo imaginar. Não sou capaz de pensar no meu corpo envolvido por essa pele. É esta um tanto da imagem da minha avó materna, ainda hoje matriarca da minha família. O pêndulo que não dispensamos, a imagem que não desvalorizamos, a presença que não descuramos. A minha avó é forte no trato, bem como, na rigidez com que leva a postura. Desmonta-se noutros afectos. Na facilidade com que encara o outro e as suas diferenças. Admiro-a por tanto, um pouco mais por isso. Porque a idade nunca lhe roubou a sabedoria de entender. De conhecer e aprender. De encarar e aceitar. De sossegar, processar e, sem falsos panos, deixar ficar. Lembro-me das conversas rápidas, de outras demoradas. Ela sentada na cadeira principal, à cabeceira da mesa, onde era, vezes repetidas, mais ouvinte do que outra coisa. Palreávamos sem fim. À sua volta e com a sua permissão. À parte dessa rigidez, deixava fugir um sorriso. Hoje já se permite rir. Falamos de amores que morrem, de corações que amam o mesmo sexo, de filhos que escolhem outros caminhos profissionais, de pessoas cuja cor é um tom e nada mais, da importância do sexo, do prazer. Do mundo que segue às avessas. Das escolhas que, no fundo, queremos livres. Para mulheres e homens. A minha avó materna já viveu imenso. Do sofrimento à euforia. Comprou alguns momentos de luta, livrou-se de outros. Viveu o que eu sou incapaz de sonhar. E, curiosamente, é hoje uma mulher ainda afoita, sagaz, intuitiva, livre nos seus pensamentos. Um pouco mais moldada nas atitudes. Ouvir da boca da minha avó discursos cheios de sabedoria e noção de humanidade – capazes de deixar envergonhados quaisquer indivíduos com a minha idade ou menos – é um privilégio. Hei-de guardá-lo para sempre. O vinte e cinco de Abril de 1974 é um povo. É também, se me permitem, a minha avó. E não posso negar, soube trazer o propósito até aos dias de hoje. Avó, a linda dos meus dias. Tenho a sorte de comemorá-la todos os anos, todos os dias. Liberdade é ter tacto. Ouvir o outro e dar-lhe corda. Viver sem recorrer ao mimetismo social. Mesmo que não se repita, mesmo que nos soe impossível.

27.4.15

Português revolto.

Sexta-feira, vinte e quatro de Abril, tarde coberta, céu acinzentado, nuvens zangadas. Ouvem-se gritos e passos desassossegados, fazendo imaginar um grupo largo de crianças. Abordam os transeuntes, dão-lhes algo. Entram em espaços de negócio e voltam para a rua de mãos vazias. Chegam perto de nós e percebemos, estão a distribuir a simplicidade e a liberdade em pequenos papéis. Cada um, uma frase, um destino sem volta. Verdades sem contra-argumentação. No que me ofereceram, podia ler-se: “A liberdade tem de ser respeitada”. Noutros, a alusão ao actual quotidiano das massas. Ainda divertidos cravos feitos à mão. Justiça, era a palavra escolhida. Não sei, mas pelos relatos que vou ouvindo, pelo que vou lendo e, acima de tudo, pelo que vou procurando saber, a noite que antecede o dia lembrado é, sem pensar, esquecida. A emoção, a comoção, a vontade da revolução vividas na pele. Tudo deve ter ultrapassado os poemas que têm paciência ou os que matam em cada verso. Zeca Afonso cantou a intervenção política. Por mais anos que passem, o vinte e cinco de Abril será, vezes sem conta, o maior e melhor pretexto para lembrar a flor da revolução, encher as ruas e as avenidas com vontade de comemorar o que passou, mas com mais e ferozes ganas de limar o presente e ultrapassar o desgoverno, com a necessidade de alicerçar um futuro próspero, condizente com a estrutura ambiciosa e criativa de mil novecentos e setenta e quatro. Nunca esquecer a educação, a formação. Volvidos estes quarenta e um anos, é impossível não rever a democracia e não pensar no quão embrionária é no nosso país. Sossegada, por força dos inexperientes que brincam ao faz de conta. Talvez não seja como nós queremos. Mas desligar e deixar andar, não é a razão dos sentidos.

24.4.14

Democracia. Portugal.


De lá para cá. Do vinte e cinco de Abril, do tão revolucionário ano de mil novecentos e setenta e quatro. Da Democracia em Portugal, tenra no percurso. De estrutura manca, por lhe faltar experiência e experientes. Do mesclado de intentos vários. Contudo, que nunca se castre, mesmo que se questione, o que nasceu daí. Mesmo que nos surja desfocado. Mesmo que nos vendam o percorrer da miopia ideológica. Há questões de uma vida que se espalham por aí. Porque nem tudo o que nos servem numa bandeja adornada, é elegância. E a sobranceria que se opõe, tantas vezes se sobrepõe.