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21.1.15

Em diferido. #26

Mesmo quando vens lá de longe - Se vislumbrar os recados, vem de longe a minha necessidade de me centrar em objectos. Em pontos de partida, uma roda que vem da pausa desse escopo. Gira dele em diante. É amor pelo descanso da matéria. Prefiro, se me é permitido, chamar-lhe encantamento, por ser o amor um terreno de génio estouvado. Base melindrada mas capacitada para qualquer máquina, assim é o cimento e o alcatrão que inventam um palco. Rua decorada e boémia. Não se queixam as gentes, por não lhes resistirem. Às banquetas, cadeiras e sofá encostados a uma parede lavada de arte do desvio. Um friso sem igual. O amarelo fica-lhe bem, ao sofá. Senta-se a miúda que descarrila nas amizades de circunstância. Senta-se como se fosse o seu destino. Tem os joelhos melindrados. Descruza as pernas e leva os pés calçados ao assento. Sorrindo, pergunta se temos um cigarro. Soa a resposta em uníssono. Despreocupada, foge-lhe a mão para a mala e tira um cigarro. Arriscando, as pessoas procuram os lugares.

17.11.14

Mesmo quando vens lá de longe.

Se vislumbrar os recados, vem de longe a minha necessidade de me centrar em objectos. Em pontos de partida, uma roda que vem da pausa desse escopo. Gira dele em diante. É amor pelo descanso da matéria. Prefiro, se me é permitido, chamar-lhe encantamento, por ser o amor um terreno de génio estouvado. Base melindrada mas capacitada para qualquer máquina, assim é o cimento e o alcatrão que inventam um palco. Rua decorada e boémia. Não se queixam as gentes, por não lhes resistirem. Às banquetas, cadeiras e sofá encostados a uma parede lavada de arte do desvio. Um friso sem igual. O amarelo fica-lhe bem, ao sofá. Senta-se a miúda que descarrila nas amizades de circunstância. Senta-se como se fosse o seu destino. Tem os joelhos melindrados. Descruza as pernas e leva os pés calçados ao assento. Sorrindo, pergunta se temos um cigarro. Soa a resposta em uníssono. Despreocupada, foge-lhe a mão para a mala e tira um cigarro. Arriscando, as pessoas procuram os lugares.

1.9.14

A (des)medida do (des)amor.

Uma sem noção de vezes, não importa o mote, senão quando a matéria que dele nasce não oferece petisco. Outras, por tanto se encerrar no todo, guardamos o principio, por temer uma negligente e inóspita composição. O ideal era desmaiar de amor. Guardar, sempre, a ressalva. Recuperar, se possível e necessário, na vontade seguinte. Esquecer os contos de outras ideologias, das que jogam com o prisma das emoções e sensações. Sossegar os romances pesados num canto. Deixar para depois o quadro que conta histórias de amor. De desamor. O amor tem sempre um lado tão mais apetecível. Para quem conta, relata. Para quem lê, escuta e, por fim, pensa. A tragédia atrai. A felicidade de outros repele. Ler desenfreadamente, desde cedo, é ter a convicção de que o amor e todos os seus predicados, move interesses. Acções, por certo. Ensina-se que o amor mata. Mas não lembram soluções, sequer opções. Ler o amor é pensar no lugar de quem está de fora, à margem dessa medida. Viver o amor é regredir, voltar ao lugar de aprendiz.

27.8.14

Formar ideias sobre o (des)embaraço.

Justifica a selfie, ou o desfile de selfies que, guardadas no iPhone, desafiam várias caras, com a independência. A vulgaridade do termo e do acto desinteressa-lhe. Importa-se um nada. Perturba-lhe tanto como o destino de bandas desapossadas de talento. Fotografar-se é um talento. Um privilégio fazer um retrato sem que precise de outras mãos. É um tempo que não ganha rugas de espera e desespero. É instantâneo, como se pretende por estes dias. A alternativa da longevidade é o desinvestimento. Não convém prestar atenção à qualidade. Veste-se a vaidade. Mostra-se o momento à sociedade. Ganham-se posturas e posições que favorecem a fotografia de objectiva que treme. Justificar, por si só, comporta culpa. Ou, no limite, desconforto, constrangimento. A selfie, assim como, outras modas e manias, é uma opção. Válida se não contrariar. Altera-se todo o tabuleiro de posturas e coerência no jogo, quando a explicação e sobrepõe à acção. Quando demora bem mais do que a reacção.

5.8.14

Verão matizado, impetuoso como sereno.

Veranear algures. Percorrer o encanto nacional, conhecer e fotografar o ambiente de um exterior tão desejado como a saudável condução de um país. Também o nosso, de preferência. Guardem-se os costumes, poupem-se as palavras, apavorem-se as pessoas, ridicularizem-se as acções. De umas e das outras. Toca desafinado o movimento bolsista de um antro. Um cenário que soa desacorde com uma sucessão de opções que persistem numa alinhavada separação de classes. Opiniões de outrora, recentes como o verão delicado, suportavam a solução interna, poupando o desgaste, mal-grado a dificuldade de encontrar concordância e veracidade na combinação das ideias expelidas em discurso de horário nobre. É um mistifório pegado, ausente de senso. Experimentam-se, neste canto de privilégios sem fim, um pedaço do tanto que é um rolo sem fim de expectativas e necessidades imediatas de fazer acontecer. Fazem-se ensaios. Depois perguntas. Escutam-se os mesmos. Discursos e aqueles que os lêem. Enquanto nos assaltam os primitivos acontecimentos, penso como é sereno olhá-la a passar a mão no cabelo. Há sempre melhor.

3.7.14

O objecto perdido.

Fim do dia. Sou visita. Gente a chegar e estacionar. Outros a partir. Na rua que não tem saída. Os portões são os números. Os jardins que espreitam ensaiam nas mentes distraídas um paraíso. Quebra-se o silêncio e soa um clamor sem fim. Foi levada em braços um tanto de vezes. Desgrenhada e de voz gritada. A roupa denunciava desleixo de quem havia de ser surpreendida na cama de quem pagou. Naquele bairro não é típico esse rancho aglomerado de desavindos actos. Tanto quanto sei. Preferem calar os desgostos, mantê-los da porta para dentro. Não se amarrota o tecido, não se desvia a gravata, não se ousa pensar, sequer, em tocar nas jóias penduradas num corpo que desliga, por não ser próprio. O outro corpo, carregado como um animal de caça, praticamente desnudado foi a excepção. Pendurada nos braços de quem a chamou. A magreza num todo mistifório. Berros de quem foi, uma vez mais, posta à margem. Naquele bairro, tanto quanto conheço, não se expõe. Compõe-se. A bronca é transversal. Lamento a desumanização autónoma ou induzida. Lastimo a carência de quem deixou o corpo e a alma por mãos alheias.

18.12.13

O charme de disfarçar o medo.

O Carlos, quando está sozinho, tem medo do escuro. A cada noite, despido de companhia, acende uma lâmpada em cada divisão do moderado apartamento. Só assim, dá permissão, a si mesmo, para se passear pelo ébrio e acinzentado andar. Até ao dia em que uma das imprescindíveis luminosas, se fundiu. Homem enganado, pensa em tempos e termos redobrados. Desde então, as velas fazem a honra da casa. Há males que vêm por bem. Assim, o charme da dançante e hipnótica chama que remexe sobre a vela, ultrapassa a solidão e o baço do candeeiro. O Carlos, agora, tem companhia, mesmo quando não está sozinho.