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7.12.15

Ladeira acima.

Ligo-te depois, avisou-me a mensagem que fiz esquecida. Travava, no instante, uma luta verdadeira. Querer e fazer. Ladeira acima, a calçada insinua-se húmida, os ténis laranja forte, azul concentrado. New Balance, um pouco da tua atenção. Ladeira acima, o pensamento consome. Quão hipster me parece esta ideia. Havia de ganhar coragem, voltar atrás e, de novo, entrar. Chamam-me atrevido, se avançar. Ladeira abaixo, invertendo o meu sentido, vem uma camisa carregada de beijos, uma mala de um amarelo gritante, uma saia mexida e uns sapatos de menino, não fosse a moda um entendedor que basta. Um cabelo longo de madeixas bronzeadas. Um peito hirto, um decote reservado. Sorri com convicção e os óculos escuros obrigam a adivinhar-lhe toda a expressão. Menina bonita, de passo acertado e flores na mão. Trouxe de um amor preso no coração ou leva para o destino dono da paixão. Ladeira abaixo, não resisto e levo, na sua direcção, o olhar. Lá vai ela, dando os bons dias. Aqui e ali. Acenam-lhe e devolvem a simpatia matinal. Por pela hipster montra passar, da minha vontade tornei-me a lembrar. Quão confuso é pensar, insistir e  não actuar. Ladeira acima, lá vou as ideias a juntar. Jogo assim, para desta ideia me livrar. Olha que a rima no momento do acaso, soa mal mas ajuda a avançar. Bom dia, oiço junto ao ouvido. Bom amigo, que oportuno encontro. Conversa passada, pergunta-me por ela. Diz-me, sem pausa para responder, que já não há casamento. Arranjou um trinta e um. Vai ao sabor do vento. Optou por um bigode e sexo constante. É relativamente incerto, mas não lhe falta humanidade. Certamente, dono de outra liberdade. O tempo voa, até mais ver, bom rapaz. Ladeira íngreme e sem fim. É o ponto de partida. Chegado ao carro, um anúncio de cartomante sapiente. Ri sozinho, livrei-me da publicidade. Já decidi, não levo flores, não defino o bigode. Deixo ficar a barba de dias, os ténis juvenis, a carteira no bolso e o carro no jardim. Leva-me para onde quiseres, fala-me ao ouvido e não leves a mal. Quão hispter pode ser a montra de alguém. Ter a certeza, viver sem receio, sem pensar no eventual desdém. Liga-me quando quiseres. Se a paixão ainda respirar, levo-te um coração a palpitar. Um ramo de flores, a promessa de voltar.

30.11.15

A ocasião propõe a relação.

O cabedal de um tom ébano, esconde uma t-shirt amarrotada, desviando o olhar das jeans desalinhadas e, tal e qual, engelhadas. O nascer do dia aconteceu há instantes, embora, dê mostras de ainda não ter acontecido. Está acinzentado, o velhaco. Quem és tu, já estás habilitado a responder. Quem ficou para trás, é um caso sério. Desconjuntado nos conhecimentos, delinquiste na abordagem. Impossível de escamotear, tens insuficientes informações. Amotinado no estilo que delata a noite e surpresas inopinadas, saltam à vista umas alegres peúgas. Pões a chave à porta, esboçando um sorriso, enquanto te assalta a memória uma atrevida verdade. Em todo o esboço, há um ângulo que realça a variedade. E dás as costas. Não há que tomar desgosto pela vida alheia.

3.7.14

O objecto perdido.

Fim do dia. Sou visita. Gente a chegar e estacionar. Outros a partir. Na rua que não tem saída. Os portões são os números. Os jardins que espreitam ensaiam nas mentes distraídas um paraíso. Quebra-se o silêncio e soa um clamor sem fim. Foi levada em braços um tanto de vezes. Desgrenhada e de voz gritada. A roupa denunciava desleixo de quem havia de ser surpreendida na cama de quem pagou. Naquele bairro não é típico esse rancho aglomerado de desavindos actos. Tanto quanto sei. Preferem calar os desgostos, mantê-los da porta para dentro. Não se amarrota o tecido, não se desvia a gravata, não se ousa pensar, sequer, em tocar nas jóias penduradas num corpo que desliga, por não ser próprio. O outro corpo, carregado como um animal de caça, praticamente desnudado foi a excepção. Pendurada nos braços de quem a chamou. A magreza num todo mistifório. Berros de quem foi, uma vez mais, posta à margem. Naquele bairro, tanto quanto conheço, não se expõe. Compõe-se. A bronca é transversal. Lamento a desumanização autónoma ou induzida. Lastimo a carência de quem deixou o corpo e a alma por mãos alheias.

12.5.14

O facilitismo instituído.

Num golpe de rodopiar, somos a sombra do muito que nos acontece, somos o que os instantes experimentados nos provocam. Procuram-se refúgios. As ripas de madeira, antes de chegar à praia, já desenhada de pessoas que, ao longo do areal, aproveitam o sol e as temperaturas picantes, cedem barulho ao ritmo das passadas. Mesmo leves, roubam som. Um som que, soa e entoa ao jeito do que nos permitimos sentir. Um regalo para um dos sentidos, se assim quisermos, ou um tormento desgovernado. Num reflexo, tudo se desmorona. E, não penso nas palavras, mas a desarmonia de uma humanidade despida, propina veneno no furto que é desapropriar o outro. Depois, não importa mais nada. Senão erigir.

16.4.14

Impressão viva.

Ainda a fotografia. O tempo deseja, com frequência, pregar partidas. O céu tapado, a neblina a tomar conta de tudo. Os verdes ao redor, estão molhados. Não está frio, mas sente-se o ar. A taça que carrega os cereais atabalhoadamente misturados com o iogurte e a fruta, embora, colorido e agradávelmente apetitoso, disfarçam a hora de começar mais um dia. É precoce o horário. Marcámos para as cinco horas. Cinco horas da manhã e alguns minutos. Antes, parece-me sempre tão plausível. No momento, praguejo, desejando não mais me comprometer. O meu amigo ficou de me apanhar. Vamos fotografar, como outras vezes. Carregamos o material, meio sem norte, e vamos à procura da tal sensibilidade. Vamos até, ver se essa sensibilidade é intrínseca ou floresce de quando em vez. Procuramos, no meio disto, encontrar o nascer do sol. A luz e o enquadramento. Uma vez mais, testamos não mais do que o senso para a fotografia. E, quando a manhã já se aproximava da procura pela hora do almoço, encontramos um senhor, de mãos nos bolsos, numa caminhada sossegada, no sentido contrário ao nosso. Viramos à esquerda, queriamos aproveitar aquele ponto. E, quando reparamos, o senhor estava junto a nós. E ensinou-nos tanto. Conto depois. Vale a pena, garanto.