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16.11.15

Entre nós.

Entre cá e lá. Permite-me a saudade e os sentimentos revoltados que use a palavra que continuas a imaginar colada a mim, pensar sintonizado com a picuinhice que lembra a alma vazia, desenhar a vontade de ter certezas. Em cada palmo, sentimentos colhidos, factos salpicados e novas perspectivas. Suspende-se a respiração, adivinhas a loucura reinventada. Nos dedos, tintas felizes. E desenhando, fica na pele a certeza. Na ausência forçada, um tanto instante saborosa. Entre a distância, a despesa física e obrigada. Entre o pé aqui e o braço ali. Entre as imperfeições de estar longe. Embrenhados nessas horas que desassossegam a psique. Que mordem as carnes, que dão forma à fome do desejo. Entre cá e lá. Entre nós. Nessa gigantesca ginástica, nesse áspero incómodo. Entre cá e lá, neste mundo de disparates, desenhar-te-ia o mundo na pele. Corpo, tela de arte elevada a qualidade. Neste percurso, percorrido entre o espaço, por saber-te verdade, aprender-te na lealdade. Restar-nos-á, nunca a fraquinha memória perdida em nenhures, mas sempre a pele despida, o mundo nas mãos. Entre cá e lá, está tudo bem. Voltas de lá, como sempre, a lembrar-nos a pressa, nesse caminho certinho e seguro. A comunicação, a presidente da união.

17.6.15

A mais nova.

Escrevi no ano passado, neste dia, perto da hora. Repito-me, sabendo que o faço. Só a doçura faz sentido, mesmo que se multiplique por vezes sem fim. Mesmo que me repita. Só porque faz sentido. Houvesse um sem número de minutos ou linhas e perder-me-ia a descrever o primeiro dia da vida dela, o primeiro dia das nossas vidas com uma nova parte. Não é parte, não é, pelo menos, uma qualquer, se insistirmos no quão apoucada pode ser a porção de um todo. Neste tempo, tiramos verdade das expectativas. É uma das partes maiores da nossa vida. É o lado de menina, de criança. Ambas de jeito eterno. É liberdade nas expressões garridas, no trato rasgado de quando em vez. Na eterna forma de sonhar, de deslindar avarias de um percurso ou de se desmanchar com o peso e a dor de outros. Aquela miúda, de quem me lembro de pés em riste, para se afirmar numa altura que ainda não era a sua. Em pontas, qual bailarina treinada, voltava sempre à posição. E teimava na impaciência e na liberdade precoces. Porventura, artérias fundamentais da idade de menina. Gritava, em achando necessário, porque imaginava que lhe dava os centímetros ainda ausentes. Imitava os animais com uma personalidade desigual. Não guardava as suas opiniões e amputava os discursos dos outros que, em antecipação, achava nocivos. Não foi menina bailarina na pista, mas guardava nos actos a intempérie que lhe permitia ser dona de uma genica de pensamento. Hoje é uma jovem mulher. Opina sobre tudo e sobre nada. Sempre com tamanha convicção. Defende todas as questões com o mesmo peso e a mesma medida. Continua a acreditar em tudo o que a movia no passado. Ri-se com a intensidade característica, enquanto os cabelos ligeiramente ondulados lhe tapam a cara maquilhada. Hoje temos praticamente a mesma altura. Miúda velhaca. É uma data especial, bem sei. Mas escrevi sobre ti por me lembrar o ano inteiro. Fosse do teu gorro felpudo na neve, num inverno distante, fosse nos teus olhos claros, ainda mais claros pelo reflexo da piscina, onde fazias poses várias para a fotografia. A minha irmã mais nova foi essa rabina, mas é hoje outras coisas. Tantas que nunca sei o que vem a seguir. É uma impressionável amostra da nossa mãe, física e psicologicamente. Sem que as comparações se sobreponham. É individual no que é mais íntimo, sem se influenciar com as vozes alheias. Gosto de sabe-la preocupada por um punhado de tantas questões. Não adormeceu no conforto que lhe coube em sorte. A paciência cai-lhe em saco roto, diz-me, por não lhe fazer sentido. Como se tivesse poder de decisão, escolhe tudo para ontem. Havemos de comemorar logo à noite, depois de um dia cheio. Entre grande parte dos que te admiram e querem sempre presente. E, por momentos, vais ficar envergonhada, quando fores, merecidamente, o centro de toda a atenção. De bolo decorado, de velas da liberdade. Diferente das vezes em que, junto à piscina, de biquíni piroso, pousavas para a máquina fotográfica, de rosto tão divertido, de olhar ainda mais reguila. Parabéns! Um conjunto inumerável de beijos. O melhor, garanto-te, ainda está para vir.

13.1.15

Faz sol no meu país.

Ó, tempo, volta para trás. Por um instante, vale um cachimbo da verdade. Há tão poucos. Motes há, imagine-se, que são tão inocentes. Tão banais na situação, tão relevantes na emoção. Quando pegamos numa memória física, jamais, reconhecemos o propósito de inventar a primeira intervenção. Não partimos daí. Um perfeito quebra-cabeças. Lembro-me de uma máquina fotográfica antiga, das que já ninguém se lembra, fala ou revela. Mostraram-ma numa cruel desvantagem. Num tempo em que não conhecia, senão, a sozinha paixão pela fotografia. Pela imagem, antes. Em pequeno rapaz, onde não era mais do que atracção. Onde não prestei a devia atenção. No outro dia, uma Polaroid foi a entretenha da comunhão. Enquanto esperávamos pelo resultado, falámos de uma Manhattan de outros tempos. De uma década onde as fatiotas janotas eram predicado e condição. Onde saíam dos lugares e dos transportes com casacos sem comparação. Perdia-se de vista toda a razão. Estreavam todas as passagens na rua da moda. O pai e a mãe levavam as crianças pela mão. Depois corriam para o parque de animações. Nessa altura, outra Polaroid nas mãos, guardava os momentos partilhados. Devolviam os olhares. Indutora paixão. Naquele serão, de novo, a memória na mão. Não conheço quem não tenha. Não conheço, não.

6.11.14

Secou a humanidade.

Julgo ter visto o Pai Natal. O tempo não tem pausa. E, permitam-me a infantil necessidade de me lembrar e, por força, fazer referência ao excelso trava-línguas – O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem - Ano de velhos relhos. Relhos ligados de emoções, desligadas as famílias, que se distanciam. A facilidade de depositar algures, na promessa de regressar em breve. Na boca a conversa de que não se ajeitam as condições de os receber. Esta manhã tive oportunidade de estar algum tempo num hospital. É público, mas podia tratar-se de um outro regime. E perde-se o juízo na soma do homem com o abandono. Ludibriam-se vidas e ocupações para justificar ausências e severas acções. Quem persiste, resiste. Quem ama, cuida e rega sob e sobre tudo e todos. Aflição é pensar no que foste, em quem és. Para onde vais. Sufocam-se as vozes daqueles velhos de cama em cama. Voltam sempre mas nem ao telefone lhes ouvem as vozes. Não resisto pensar, dá Deus nozes a quem não tem dentes. Desabafo de um relho homem. Imitava um passeio num corredor de pouca luz. Na cadeira de rodas seguia de sorriso agitado. As barbas compridas e brancas. O porte típico de quem tem carnes. É o Pai Natal. Foi, no exacto instante em que vi, o que me assaltou a ideia. Suportei as minhas desconfianças depois de o ouvir contar vidas. Julgo ter visto o Pai Natal. Num corredor de hospital, com uma bata clara e um frasco de soro ao lado. Quando nem o Pai Natal tem quem o sufoque de mimos e companhia, mal vai o mundo. Um mundo que é uma caixa onde se esconde o pior no fundo.

17.7.14

Míngua de opções.

Sob um calor que pesa, numa esplanada de pessoas a conviver. Aquele top de cor atraente e envolvente como uma chama bamboleante, naquele corpo que tem na pele a cor do bronze, chama a atenção. Ambos, o top, logo de seguida, o corpo. Entre nós, não há fumadores. A tempo inteiro, por ora. Pede-lhe um cigarro, apenas porque quer saber os seus hábitos e ouvir a sua voz sem que, por qualquer instante, ceda à fraqueza de lhe perguntar o que lhe interessa. Mudam as regras, neste jogo de fogo e água. Deste jogo do apanha e foge. Do chega e segue. Aumenta o som e a desenvoltura com que tantos de nós, deliberadamente, expõem a sua íntimidade. Na forma descompensada como muitos de nós se entrega sem que lhes perguntem. No jeito fácil e frágil em que se tornou a exposição do que nos deve ser mais intrínseco e profundo. Neste vício de criar relações. Um espécie de paródia mal sucessida, que envergonha a obra que está a ser imitada. Esqueçemo-nos do tempo de falar. Esqueçemo-nos da palavra. Inventam-se e compõem-se subterfúgios para chegar mais perto e mais depressa. Mudam-se os tempos, mudam-se as verdades. E esquecemo-nos das reais raridades. Fugiu-nos a discrição, chegou-nos a copiosa exposição.

16.7.14

Ligação afectiva e efectiva.

Alinham-se anseios no momento de desvendar um dos tantos pontos indiscretos. Sorrimos, hesitando horas de tormento em que se assume a ponte entre o gostar e o sentir. Não falo de relações, tampouco de relacionamentos. Estão cansados, alguns. Fugazes, qual moda de rua. Qual modelo de passerelle. Como se desfilar, independentemente do lugar, fosse o ponto mais importante. A alma cansa-se com o testemunho vivido. Discutem-se corpos treinados, opções fugidias. Combinam-se festas, ocasiões díspares, exigindo modelitos diferentes. Mas volto ao sorriso, que tão gasto, oferece-se sempre como alternativa. Sorrio, instantes antes de admitir ter comprado uns ténis. Mais um par, pensarão tantos. São os ténis, digo eu. Por obra do acaso, no mesmo dia, comprei mais um par de sapatos. Mas prefiro os ténis, sempre. Ao meu pai, numa conversa tão descontraída, contei-lhe primeiro dos sapatos. Um pré-aviso. Em tantas vezes, assume a sua postura irredutível no que concerne ao uso dos ténis. Limitem-se a usá-los nos espaços apropriados, diz ele. Refere-se, claro, a ginásios, desportos vários e uma ou outra situação bem mais casual. Refuta qualquer ligação entre um par de ténis e um fato. Hei-de escrever sobre isto. Agora, sorrio. Antes mesmo de dizer que comprei uns ténis. Alinham-se anseios por nada. E por tudo.

17.6.14

17 de Junho de 1996.

Houvesse um sem número de minutos ou linhas e perder-me-ia a descrever o primeiro dia da vida dela, o primeiro dia das nossas vidas com uma nova parte. Não é parte, não é, pelo menos, uma qualquer, se insistirmos no quão apoucada pode ser a porção de um todo. Neste tempo, tiramos verdade das expectativas. É uma das partes maiores da nossa vida. É o lado de menina, de criança. Ambas de jeito eterno. É liberdade nas expressões garridas, no trato rasgado de quando em vez. Na eterna forma de sonhar, de deslindar avarias de um percurso ou de se desmanchar com o peso e a dor de outros. É amarga, por escolha. É doce, na íntima relação dos que lhe importam. É determinação e decibéis articulados no momento de se afirmar. É uma impressionável amostra da nossa mãe, física e psicologicamente. Sem que as comparações se sobreponham. É individual no que é mais íntimo, sem se influenciar com as vozes alheias. Procura, contudo, a opinião. É paixão por acessórios sem fim, pelas roupas que compra e que, invariavelmente, as justifica com a necessidade, que bem sabemos, é dissonante da sua feliz realidade. É dona de um discurso tão coerente e pragmático que nos delicia ouvi-lo. É a nossa, a minha menina. Tornou-se, volvidos os instantes primários da gestação, por isso, antes mesmo do primeiro dia da nossa convivência, o meu orgulho. Não sei explicar, senão assim. Gosto de sabe-la preocupada por um punhado de tantas questões. Não adormeceu no conforto que lhe coube em sorte. A paciência cai-lhe em saco roto, diz-me, por não lhe fazer sentido. Como se tivesse poder de decisão, escolhe tudo para ontem. Apraz-me saber que me procura quando alguma situação a aflige ou quando o momento é feliz. Deliciam-me as conversas sem fim, por nunca as concluirmos, que temos tantas vezes. Daquelas que ficam sem direito a conclusão. Talvez, por força da idade que nos separa. Não sendo uma diferença extraordinária, molda-nos alguns pontos de vista. Nas outras questões, somos sintonia. Mas, volto ao primeiro dia. Eu estava fora, só havia de chegar mais tarde. Assim, todo o aparato escapou-se-me. Dispensaram-me a ansiedade de perspectivar o seu nascimento. Depois, ganhei em dobro, quando a vi. Hoje, dezoito anos depois, tenho o discurso tão emaranhado, que tudo me parece estranho, cada palavra que leio, depois de escrever, me soa confusa. Dezoito anos. É a apropriação de uma liberdade que, sem saber, já existe. É o reforço da razão e da compreensão que se suportam no feliz acontecimento de ter direito à responsabilidade. Havemos de comemorar logo à noite, depois de um dia cheio. Entre grande parte dos que te admiram e querem sempre presente. E, por momentos, vais ficar envergonhada, quando fores, merecidamente, o centro de toda a atenção. De bolo decorado, de velas da liberdade. Diferente das vezes em que, junto à piscina, de biquíni piroso, pousavas para a máquina fotográfica, de rosto tão divertido, de olhar ainda mais reguila. Parabéns!!! Um conjunto inumerável de beijos. O melhor, garanto-te, ainda está para vir.

30.5.14

Da miopia captada à mercê de um telemóvel. #6


Doçura, candura, cores e travessura. Espaço para, lá ao fundo, a brincadeira se desenhar no carrinho. O entusiasmo e o carinho, apoderam-se, livres, dos olhos e dos movimentos das mãos. Que aplaudem, enquanto sorri. Já lá vai o tempo da expressão, mas faz sempre todo o sentido. As crianças, nossas e felizes ou longe e dos outros, são o melhor. Do mundo.

26.5.14

Ensejo propositado.

Aquele movimento frenético, tantas vezes, lhe sentimos a falta. A forma possuída como a cidade grande, de tão impaciente, consegue, roçando a convulsão, gerir o quão rabugento que é o marchar daquele lugar. Quando não estou, por temporadas, em Lisboa, falta-me esse ademane social. Nunca estou o tempo suficiente. Longe, ganho-lhe saudades, da cidade e da impaciência que afasta o vagar. Por seu turno, voltar às raízes de um espaço mediano, oferece-me o descanso da serenidade beliscada meigamente pelo espancar do quotidiano. E, entre tudo isto, julgando que nada tem que comparar, lembro-me das relações. Entre pessoas. Do amor e do desamor. Da amizade e da desamizade. Do afecto e do desafecto. Como que as sentando rivais. Afastando qualquer cotejo. Desde logo, refuto qualquer maneirismo de psicologia enviesada com filosofia de mesa de café. Mas, tal como, os lugares, as pessoa ganham estratégias de viver e sobreviver. As relações, se quisermos, espelham factos do nosso reflexo nos outros. Se me ofereces excitação ou se me desenhas experiências quentes mas serenas. Somos aprendizes. De qualquer lado da barricada. Mesmo e, sobretudo, se mudarmos de azo.

13.1.14

(In)Validar lembranças.

Há expressões ou inócuas palavras que, sem espicaçar a memória, me lembram alguém. São fáceis. Hábeis. Desbastam levantamentos de outros tempos. (Risada!) Ironia das ironias. Não esqueço. Porventura, esta é a palavra que mais vezes me induz lembranças. Porque me leva para uma relação feliz. Tão feliz! Mas, também as lembranças deviam ser passíveis de consumo com data de validade. Pois, mudam. Pois, esgotam-se. Pois, no instante final, tiram a vida ao atrasado. No mexido centro da nossa cidade, ambos acompanhados. Ela com ele. Eu com ela. Em sentidos opostos, passamos lado a lado. Cruzamos olhares. Um sorriso desmaiado. Seguimos. Quem me acompanhava, reparou. Bonita, disse-me. Sorri-lhe. Sim, mas já passou, disse-lhe eu. De linhas e contornos literais. Hoje, sou brutalmente mais feliz. E seguimos caminho. Não sei se para sempre. Mas felizes.

23.12.13

A batalha que pisca o olho ao afecto.


 
Agigantam-se as corridas de última hora para o primeiro lugar nas filas que abrem caminho para as compras de alguns dos putativos presentes de natal. O espírito, pingado pelas ruas e corredores dos centros comerciais, através das luzes garridas e dos adereços da época, juntam-se aos números redondos desenhados em grande escala nas montras que cozinham estratégias para atrair metade dos que, apenas, vêem e o dobro dos que compram. A cada vez mais apoucada capacidade das carteiras de muitos que compõem o país, não impede a reunião das famílias, o amor e a fraternidade, a mesa composta e, se possível, a sabida troca de presentes perto da hora que merece atenção. Os que, felizes, têm oportunidade para jogar outra aposta no momento de escolher, não escondem a vontade incessante de consumir. Afinal, queremos acreditar, estamos na época da troca. Não disse de quê. Não nos fiquemos pelo material pois, ficar-nos-á a amargo o sabor da ausência maior, a do sentimento. Recuso a fatalidade da generalização repetida, assim se aproxima o cheiro a natal. Num país de realidades altamente opostas, por uma vez num ano, se viva a igualdade da partilha, Que se ambicione o que não obtém valor em notas altas. Que se procure o extraordinariamente acessível. Nem por um minuto se espere desistir, mesmo que estejamos numa fila interminável de uma loja de centro comercial. Uma vez no ano, que alguém seja digno de uma espera demorada. Para que, no final, de presente na mão, lhe diga feliz natal.