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22.6.16

Lugarejo com raça e no coração o ensejo.

Os lugares pequenos guardam um género capaz e característico, um jeito meio mimoso de estar, de pensar, de receber, até de olhar. É encantador, quase literário. Voltar é ver o tempo a acontecer. É ter sossego no poial da porta de entrada, é pousar os braços no mármore da janela adornada pela cortina costurada pelas mãos. É ter no postigo um compromisso, no vizinho um lance de prosa e no petiz a esperança. Ouvem-se os pássaros a passar por nós, a irromper pelas árvores, soando as folhas a bailar. A mercearia não tem outro nome, senão este. É a única venda do lugar e à semelhança da tasca de azulejos sem fim, o ponto de encontro. Entre o pacote de arroz carolino, o garrafão de vinho e o detergente em pó, as novidades ganham caminho, de boca em boca. O senhor do chapéu axadrezado já leva a vida dos outros na ponta da língua, conta à senhora da bengala e da saia digna de fato domingueiro. A dona Gertrudes, de bata a cobrir as vestes, leva um cesto de fruta e canta, sem preciso pedir, uma modinha das antigas. No poste, logo à esquina, fica o cão da netinha, fugindo da calma, vivendo a sombra. Passa fazendo-se notar, a motinha do outro senhor. Larga fumo e barulho para os que ficam. O capacete mínimo mas no tom da máquina de duas rodas que o carrega. Logo adiante, um fogareiro mesmo à porta, sardinhas e carapaus a assar, o lume a passar, a mão a abanar o leque e a desesperar. Os carros, mesmo poucos, alinham-se pela rua, tão certinhos. Se acontece reconhecerem o rosto da visita, perguntam pela vida, pelo amor e pela carreira, tudo de forma genuína. Não se esquecem de pedir a idade para, num soluço, apresentarem o espanto. As pequenas povoações carecem, e não é displicente lembrar, de suportes. A desertificação oferece novos tempos a uns e esquecimento a outros, aos que ficam. Nestes lugares, mais isolados, pequenos e pouco povoados, vive gente. A mesma gente que, assim como, os lugares, tem traços pejados de raça, de conversas cheias, que nem a rasa ou nenhuma literacia lhes rouba. São gente humilde, de rotinas repetidamente felizes. Tão encantador, mesmo literário. Acenam no momento da partida, pedem-te que voltes, como num bonito fado. Deixam saudade, mesmo que não lhes conheças o presente, tampouco o passado.

15.4.15

Em diferido. #32

A aprendiza de coisa nenhuma - Não é mentira, ai não, não é. Conta-se um conto, acrescenta-se um ponto. Voltas e voltas dadas ao redor da verdade escrita e da língua portuguesa a sentir, de boca em boca. Como no tempo das Marias de nome, hoje vale mais o acrescento do ponto, do que o próprio do conto. Fica triste, a verdade escondida. Aldeias pequenas, gente grande. Ou o inverso, mas é timidez no ardor de preferir não dizer. Ainda me lembro de se ouvir falar da Rita. Daquele lugar distante. Maria Rita de nascença, que ao grito maior se lhe despediu o primeiro nome. Rita ficaria daí em diante. A Rita, de novo nome, de lá para cá, não se importa. Nem com o bem maior, nem com o mal menor. É-lhe semelhante. Tem a mesma medida. Não quer saber. Quer a vida que lhe calhou, logo depois do primeiro nome que não vingou. E subia as paredes grossas, os muros que seguram como raízes. De saias leves, colocava os rapazes num chinelo. Repetia a expressão de neta aprendiz. Ria alto e comia amoras silvestres. Corria com pressa e sujava as vestes. O tempo mudou, a Rita não aguentou e partiu. Perdeu os tiques e a conversa de quem, por vontade e educação, lhos ensinou. Largou com a mesma pressa com que corria sobre a terra solta. E, certo dia, voltou o nome primeiro. Maria Rita, a doutora que não desiste do combate. É um caso concreto, desenho de um conto que não tem fim, nem perde protagonistas. É uma correria de trocas. Triste, a verdade escondida. Cruzam-se as medidas. Perdem-se as Marias. Quem conta um conto, por certo e, tantas vezes sem pensar, acrescenta um ponto. Ou dois, ou três. Porventura, uns cinco como conta numa mão.

7.1.15

A aprendiz de coisa nenhuma.

Não é mentira, ai não, não é. Conta-se um conto, acrescenta-se um ponto. Voltas e voltas dadas ao redor da verdade escrita e da língua portuguesa a sentir, de boca em boca. Como no tempo das Marias de nome, hoje vale mais o acrescento do ponto, do que o próprio do conto. Fica triste, a verdade escondida. Aldeias pequenas, gente grande. Ou o inverso, mas é timidez no ardor de preferir não dizer. Ainda me lembro de se ouvir falar da Rita. Daquele lugar distante. Maria Rita de nascença, que ao grito maior se lhe despediu o primeiro nome. Rita ficaria daí em diante. A Rita, de novo nome, de lá para cá, não se importa. Nem com o bem maior, nem com o mal menor. É-lhe semelhante. Tem a mesma medida. Não quer saber. Quer a vida que lhe calhou, logo depois do primeiro nome que não vingou. E subia as paredes grossas, os muros que seguram como raízes. De saias leves, colocava os rapazes num chinelo. Repetia a expressão de neta aprendiz. Ria alto e comia amoras silvestres. Corria com pressa e sujava as vestes. O tempo mudou, a Rita não aguentou e partiu. Perdeu os tiques e a conversa de quem, por vontade e educação, lhos ensinou. Largou com a mesma pressa com que corria sobre a terra solta. E, certo dia, voltou o nome primeiro. Maria Rita, a doutora que não desiste do combate. É um caso concreto, desenho de um conto que não tem fim, nem perde protagonistas. É uma correria de trocas. Triste, a verdade escondida. Cruzam-se as medidas. Perdem-se as Marias. Quem conta um conto, por certo e, tantas vezes sem pensar, acrescenta um ponto. Ou dois, ou três. Porventura, uns cinco como conta numa mão.

4.11.14

Vale uma centena.

Era ainda petiz quando ouvi esta conversa. É a certeza de que a cidade te recebe, mas a criação nunca esquece. O possante carro ficou logo ali. Anda à roda num lugarejo de vizinhas curiosas, de jardim à boca da singela capela. Murmúrios de mural em frente ao café das novidades, saudades que atiçam as memórias de amores, relações, traições e tradições. É aldeola de meninas que ainda vestem saias rodadas, que não sustentam da boca para dentro a malvada necessidade de saber e conhecer quem passa. É calçada molhada da humidade da noite fria, é a fonte que seca mais vezes do que os nervos têm ganas de a procurar de garrafão nas mãos. Mas não desiste de pingar. Enquanto se matam lembranças da porta da Maria Etelvina, da mercearia do José Joaquim, da garagem do bonito carro do Cesário. Do coreto inventado nas costas do jardim. Da cantoria da Carmelita. Ora chove, ora faz sol. O vento vai dando tréguas. A idade pesa tanto quanto o estojo do caminho passado. Neste lugarejo que provoca as estruturas de uma cabeça que ainda não esqueceu. Neste cenário, o homem que anda na viva roda, leva um lenço de bolso. Dele, do homem, hei-de voltar a escrever. Dele, do lenço de bolso, hei-de me lembrar de escrever, sobre a estória que conheço e a importância que lhe ofereço.

21.8.14

A aldeia veste-se de festivo fato.

Há festa na aldeia. É filme e de inspiração certeira. Fora da grande tela, é aldeia de um Portugal que se escuta no fado, que se lê nas demoradas palavras de Eça de Queiroz e nas linhas estreitas e desformes de Fernando Pessoa. Relíquia de um jogo de palavreado. Que se mostra esquecido, assim de quando em vez. Tinha graça na moça. A que leva saia rodada à festa. Dela ouvir-se um bizarro discurso cantarolado, ouvindo, ao fundo, uma guitarra. Há festa. Na aldeia que vive no verão, apaga no sossego das restantes estações. É dormitório. Voltamos à festa. Palco ao centro. Artes e sabores são o mote. Soa, desde cedo, o popular dos tocadores. Uma voz arranhada e esforçada mede-se com o acordeão que carrega nos braços. É cor espalhada nos enfeites que fazem tecto. Ainda há rigor na farpela dos que lhe pertencem, à aldeia e à romaria. Ainda há novos e velhos. Grupos que naufragam por águas diferentes. Mas partilham o murmúrio dos dias. É regresso. Um ano de ausência, numa festa, a presença. É a lei do distante. Do ausente.

17.8.13

Uma provida vila. Uma herança.

A aldeia que deu lugar a vila manteve-se, a olho nu, intacta. Tal e qual a conhecemos. Sem pretensões irreais e desmedidas. Eu, real desprovido, até de memória, havia esquecido que a aldeia de sempre, afinal, se tornara vila. Sabia-o tão bem. Contudo, durante a mais ou menos entusiasmada escrita, do lugar que adoro, fugiu-me, vezes sem conta, a memória, nem sempre ausente, daquele lugar, em tempos, aldeia. Agora uma bonita e portentosa vila. Na verdade, os lugares, tal como as pessoas, quando evoluem, quando mudam de condição, podem, não raras vezes, manter-se intactas, fiéis e verdadeiras. Admiro, sempre, essa capacidade de evolução sem mutação. Ali, onde estive todo o dia, respirei fundo, tantas vezes quantas possíveis. E senti que, não sendo nunca o meu lar, há heranças que nos chegam. Que nos chegam, antes mesmo, de nós chegarmos.

15.8.13

O Algarve tem uma aldeia.

Além, onde a serra se funde com as mais belas espécies existe uma aldeia. Uma aldeia que deu lugar a ascendentes familiares que tanto prezo. Que amo. Desde sempre. Da infância guardo as visitas, o regresso. À aldeia. Às pessoas. Aos familiares que, amiúde, me esqueço. Engraçado lembrar-me que nunca havia ficado por lá mais que um dia. Nunca. Era uma visita em jeito de passagem. Cada vez menos, muito menos, são os regressos, as visitas. Contudo, não esqueço o lugar. As casas pintadas. As pessoas às janelas. As pessoas sentadas no poial, como se diz por lá. As ruas empinadas. A calçada. As ruas estreitas. As janelas de madeira. A matriz. A garagem que deu lugar à mercearia. As árvores e as flores reluzentes nos canteiros. O eucalipto. Os amores perfeitos. As ribeiras de água escorreita. O cheiro, o cheiro é inigualável e indescritível, no entanto, ao longe já se faz sentir. No Algarve, num outro Algarve existe uma aldeia. Também, no Algarve, existem aldeias. Onde pessoas e paisagem fazem sentido. Onde o postigo, por momentos, mantém-se aberto. E é aqui que, não quando quero, mas quando preciso, regresso. Na última quarta-feira regressei. Novamente, não porque quero, mas porque a vida chamou. A vida não. A morte. Maria Rosa, partiu. Melhor assim, dizem. Partiu da aldeia e das pessoas de sempre. De e para sempre.