Os
lugares pequenos guardam um género capaz e característico, um jeito meio mimoso
de estar, de pensar, de receber, até de olhar. É encantador, quase literário.
Voltar é ver o tempo a acontecer. É ter sossego no poial da porta de entrada, é
pousar os braços no mármore da janela adornada pela cortina costurada pelas
mãos. É ter no postigo um compromisso, no vizinho um lance de prosa e no petiz
a esperança. Ouvem-se os pássaros a passar por nós, a irromper pelas árvores,
soando as folhas a bailar. A mercearia não tem outro nome, senão este. É a
única venda do lugar e à semelhança da tasca de azulejos sem fim, o ponto de
encontro. Entre o pacote de arroz carolino, o garrafão de vinho e o detergente
em pó, as novidades ganham caminho, de boca em boca. O senhor do chapéu
axadrezado já leva a vida dos outros na ponta da língua, conta à senhora da
bengala e da saia digna de fato domingueiro. A dona Gertrudes, de bata a cobrir
as vestes, leva um cesto de fruta e canta, sem preciso pedir, uma modinha das
antigas. No poste, logo à esquina, fica o cão da netinha, fugindo da calma,
vivendo a sombra. Passa fazendo-se notar, a motinha do outro senhor. Larga fumo
e barulho para os que ficam. O capacete mínimo mas no tom da máquina de duas
rodas que o carrega. Logo adiante, um fogareiro mesmo à porta, sardinhas e
carapaus a assar, o lume a passar, a mão a abanar o leque e a desesperar. Os
carros, mesmo poucos, alinham-se pela rua, tão certinhos. Se acontece
reconhecerem o rosto da visita, perguntam pela vida, pelo amor e pela carreira,
tudo de forma genuína. Não se esquecem de pedir a idade para, num soluço,
apresentarem o espanto. As pequenas povoações carecem, e não é displicente
lembrar, de suportes. A desertificação oferece novos tempos a uns e
esquecimento a outros, aos que ficam. Nestes lugares, mais isolados, pequenos e
pouco povoados, vive gente. A mesma gente que, assim como, os lugares, tem
traços pejados de raça, de conversas cheias, que nem a rasa ou nenhuma
literacia lhes rouba. São gente humilde, de rotinas repetidamente felizes. Tão
encantador, mesmo literário. Acenam no momento da partida, pedem-te que voltes,
como num bonito fado. Deixam saudade, mesmo que não lhes conheças o presente,
tampouco o passado.
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22.6.16
15.4.15
Em diferido. #32
A
aprendiza de coisa nenhuma - Não é mentira, ai não, não é. Conta-se um conto,
acrescenta-se um ponto. Voltas e voltas dadas ao redor da verdade escrita e da
língua portuguesa a sentir, de boca em boca. Como no tempo das Marias de nome,
hoje vale mais o acrescento do ponto, do que o próprio do conto. Fica triste, a
verdade escondida. Aldeias pequenas, gente grande. Ou o inverso, mas é timidez
no ardor de preferir não dizer. Ainda me lembro de se ouvir falar da Rita.
Daquele lugar distante. Maria Rita de nascença, que ao grito maior se lhe
despediu o primeiro nome. Rita ficaria daí em diante. A Rita, de novo nome, de
lá para cá, não se importa. Nem com o bem maior, nem com o mal menor. É-lhe
semelhante. Tem a mesma medida. Não quer saber. Quer a vida que lhe calhou,
logo depois do primeiro nome que não vingou. E subia as paredes grossas, os
muros que seguram como raízes. De saias leves, colocava os rapazes num chinelo.
Repetia a expressão de neta aprendiz. Ria alto e comia amoras silvestres.
Corria com pressa e sujava as vestes. O tempo mudou, a Rita não aguentou e
partiu. Perdeu os tiques e a conversa de quem, por vontade e educação, lhos
ensinou. Largou com a mesma pressa com que corria sobre a terra solta. E, certo
dia, voltou o nome primeiro. Maria Rita, a doutora que não desiste do combate.
É um caso concreto, desenho de um conto que não tem fim, nem perde
protagonistas. É uma correria de trocas. Triste, a verdade escondida. Cruzam-se
as medidas. Perdem-se as Marias. Quem conta um conto, por certo e, tantas vezes
sem pensar, acrescenta um ponto. Ou dois, ou três. Porventura, uns cinco como
conta numa mão.
7.1.15
A aprendiz de coisa nenhuma.
Não
é mentira, ai não, não é. Conta-se um conto, acrescenta-se um ponto. Voltas e
voltas dadas ao redor da verdade escrita e da língua portuguesa a sentir, de
boca em boca. Como no tempo das Marias de nome, hoje vale mais o acrescento do
ponto, do que o próprio do conto. Fica triste, a verdade escondida. Aldeias
pequenas, gente grande. Ou o inverso, mas é timidez no ardor de preferir não
dizer. Ainda me lembro de se ouvir falar da Rita. Daquele lugar distante. Maria
Rita de nascença, que ao grito maior se lhe despediu o primeiro nome. Rita
ficaria daí em diante. A Rita, de novo nome, de lá para cá, não se importa. Nem
com o bem maior, nem com o mal menor. É-lhe semelhante. Tem a mesma medida. Não
quer saber. Quer a vida que lhe calhou, logo depois do primeiro nome que não
vingou. E subia as paredes grossas, os muros que seguram como raízes. De saias
leves, colocava os rapazes num chinelo. Repetia a expressão de neta aprendiz.
Ria alto e comia amoras silvestres. Corria com pressa e sujava as vestes. O
tempo mudou, a Rita não aguentou e partiu. Perdeu os tiques e a conversa de
quem, por vontade e educação, lhos ensinou. Largou com a mesma pressa com que
corria sobre a terra solta. E, certo dia, voltou o nome primeiro. Maria Rita, a
doutora que não desiste do combate. É um caso concreto, desenho de um conto que
não tem fim, nem perde protagonistas. É uma correria de trocas. Triste, a
verdade escondida. Cruzam-se as medidas. Perdem-se as Marias. Quem conta um
conto, por certo e, tantas vezes sem pensar, acrescenta um ponto. Ou dois, ou
três. Porventura, uns cinco como conta numa mão.
4.11.14
Vale uma centena.
Era
ainda petiz quando ouvi esta conversa. É a certeza de que a cidade te recebe,
mas a criação nunca esquece. O possante carro ficou logo ali. Anda à roda num
lugarejo de vizinhas curiosas, de jardim à boca da singela capela. Murmúrios de
mural em frente ao café das novidades, saudades que atiçam as memórias de
amores, relações, traições e tradições. É aldeola de meninas que ainda vestem
saias rodadas, que não sustentam da boca para dentro a malvada necessidade de
saber e conhecer quem passa. É calçada molhada da humidade da noite fria, é a
fonte que seca mais vezes do que os nervos têm ganas de a procurar de garrafão
nas mãos. Mas não desiste de pingar. Enquanto se matam lembranças da porta da
Maria Etelvina, da mercearia do José Joaquim, da garagem do bonito carro do
Cesário. Do coreto inventado nas costas do jardim. Da cantoria da Carmelita.
Ora chove, ora faz sol. O vento vai dando tréguas. A idade pesa tanto quanto o
estojo do caminho passado. Neste lugarejo que provoca as estruturas de uma
cabeça que ainda não esqueceu. Neste cenário, o homem que anda na viva roda,
leva um lenço de bolso. Dele, do homem, hei-de voltar a escrever. Dele, do
lenço de bolso, hei-de me lembrar de escrever, sobre a estória que conheço e a
importância que lhe ofereço.
21.8.14
A aldeia veste-se de festivo fato.
Há
festa na aldeia. É filme e de inspiração certeira. Fora da grande tela, é
aldeia de um Portugal que se escuta no fado, que se lê nas demoradas palavras
de Eça de Queiroz e nas linhas estreitas e desformes de Fernando Pessoa. Relíquia
de um jogo de palavreado. Que se mostra esquecido, assim de quando em vez.
Tinha graça na moça. A que leva saia rodada à festa. Dela ouvir-se um bizarro
discurso cantarolado, ouvindo, ao fundo, uma guitarra. Há festa. Na aldeia que
vive no verão, apaga no sossego das restantes estações. É dormitório. Voltamos
à festa. Palco ao centro. Artes e sabores são o mote. Soa, desde cedo, o
popular dos tocadores. Uma voz arranhada e esforçada mede-se com o acordeão que
carrega nos braços. É cor espalhada nos enfeites que fazem tecto. Ainda há
rigor na farpela dos que lhe pertencem, à aldeia e à romaria. Ainda há novos e
velhos. Grupos que naufragam por águas diferentes. Mas partilham o murmúrio dos
dias. É regresso. Um ano de ausência, numa festa, a presença. É a lei do
distante. Do ausente.
17.8.13
Uma provida vila. Uma herança.
A
aldeia que deu lugar a vila manteve-se, a olho nu, intacta. Tal e qual a
conhecemos. Sem pretensões irreais e desmedidas. Eu, real desprovido, até de
memória, havia esquecido que a aldeia de sempre, afinal, se tornara vila. Sabia-o
tão bem. Contudo, durante a mais ou menos entusiasmada escrita, do lugar que
adoro, fugiu-me, vezes sem conta, a memória, nem sempre ausente, daquele lugar,
em tempos, aldeia. Agora uma bonita e portentosa vila. Na verdade, os lugares,
tal como as pessoas, quando evoluem, quando mudam de condição, podem, não raras
vezes, manter-se intactas, fiéis e verdadeiras. Admiro, sempre, essa capacidade
de evolução sem mutação. Ali, onde estive todo o dia, respirei fundo, tantas
vezes quantas possíveis. E senti que, não sendo nunca o meu lar, há heranças
que nos chegam. Que nos chegam, antes mesmo, de nós chegarmos.
15.8.13
O Algarve tem uma aldeia.
Além,
onde a serra se funde com as mais belas espécies existe uma aldeia. Uma aldeia que
deu lugar a ascendentes familiares que tanto prezo. Que amo. Desde sempre. Da
infância guardo as visitas, o regresso. À aldeia. Às pessoas. Aos familiares
que, amiúde, me esqueço. Engraçado lembrar-me que nunca havia ficado por lá mais
que um dia. Nunca. Era uma visita em jeito de passagem. Cada vez menos, muito
menos, são os regressos, as visitas. Contudo, não esqueço o lugar. As casas
pintadas. As pessoas às janelas. As pessoas sentadas no poial, como se diz por
lá. As ruas empinadas. A calçada. As ruas estreitas. As janelas de madeira. A matriz.
A garagem que deu lugar à mercearia. As árvores e as flores reluzentes nos
canteiros. O eucalipto. Os amores perfeitos. As ribeiras de água escorreita. O
cheiro, o cheiro é inigualável e indescritível, no entanto, ao longe já se faz
sentir. No Algarve, num outro Algarve existe uma aldeia. Também, no Algarve,
existem aldeias. Onde pessoas e paisagem fazem sentido. Onde o postigo, por
momentos, mantém-se aberto. E é aqui que, não quando quero, mas quando preciso,
regresso. Na última quarta-feira regressei. Novamente, não porque quero, mas
porque a vida chamou. A vida não. A morte. Maria Rosa, partiu. Melhor assim,
dizem. Partiu da aldeia e das pessoas de sempre. De e para sempre.
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