Acabo
de receber um vídeo e dois pedaços com som. Remonta às idas para o Algarve
diferente. Afastado das massas. Preservado pelos amantes daquele lugar,
daquelas bandas. Com direito a praias de mar revolto e caminhos íngremes.
Gentes da terra com o sotaque fresco e pronto a soltar o verbo. O rádio do
carro solta as mais diversificadas canções. Sem incomodar ou impedir de cantar.
As casas seguidas, poucas e quase na boca do mar, de branco imaculado, com o
verde e o azul a fazer as vezes de adorno. Também pintadas de cores diversas e
garridas. Sem esquecer o amarelo que passou da cozedura ou o rosa velho, os
pequenos jardins logo à entrada ou as pedras na parede desenhadas. O verde a
manter a postura, sem mazelas graúdas. O ar que inalamos é superior e tem um jeitinho
sem igual. Os surfistas tomam as ganas das ondas que não perdem o génio. Os
lugares, pequenos e familiares, que oferecem tempo e sossego. As pequenas
mercearias que servem as necessidades da população, que matam o tempo a todos e
a cada um, inclusivamente. O jardim, cujo cenário vive de dois ou três bancos
feitos de ripas de madeira, alguns arbustos a envolver e flores com cor de
primavera. As velhotas e os velhotes numa tertúlia quase silenciosa. Dão os
bons dias, desejam uma boa tarde e só falta a noite feliz. Aí, já no resguardo
do lar. Os restaurantes primam pelos pratos da região, nunca falta o peixe
fresco. O cenário é atrevido e peculiar, convida à conversa demorada, às
partilhas de pele com pele e às indefinidas fotografias. E, claro, sem esquecer
as largas memórias que nos traz. Recebi, há escassos minutos, a certeza de que
vamos voltar. As imagens de outros dias, tremendamente bem embrulhadas, feitas
convite. Tenho saudades. Temos saudades. Tomo com elas a certeza de que há
sempre mais. Há ir e voltar. As vezes que entender. As vezes que nos receber.
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13.4.17
19.7.16
Em diferido. #51
Gente
com traquejo algarvio - A questão impõe-se, tão válida. Volta e meia
esqueço-me, volto à expressão. Por seu turno, depois de me atiçarem a
justificação, depressa me lembro que não faz sentido. Ainda assim, deixo-me
tentar. Entre amigos e, ironicamente, aqui no blogue, a discussão teve semente
e deu frutos. Gente bonita. Pessoas com pinta. Tipos arranjados e miúdas
aperaltadas. Não é ficção, é o espelho da observação. Não é coisa certa e
universal. É o entendimento da definição. No Algarve de verdade, com encantos
travessos e paixões que tiram o folgo, assisto à desconstrução. O mar não
mente, é água com tom imaginado de céu, ondula conforme indicação, a areia
brilha por força da cor fina e da luz que reflecte. Os escassos chapéus-de-sol
são coloridos, as pessoas estendidas. Outros, entre cá e lá. Poucas pessoas,
alguns turistas curiosos. Também amantes e conhecedores da quão bravia e montês
pode ser esta região. Mergulhos em água fria, ganha a excelsa vista. Lá ao
fundo, quase a perdê-los de vista, um velho casal. Desprotegidos do sol, lêem
livros pesados, tão grossos que consigo entrever. Aqui, bem mais perto, três
jovens mulheres ganham o desejado tom dourado na pele. Mexem o corpo com a
convicção de quem tem vinte e tal anos e não passa despercebida. No meio das
ondas avessas, uns quantos tipos a divertirem-se, enquanto fazem por manter-se
em equilíbrio na prancha, que o surf é ordem e lição por aqui. Fico entretido
nisto. Até voltar a calçar as minhas alpercatas e seguir caminho. Não sem antes
tirar-te uma fotografia. Algarve encantado este. E com gente bonita.
7.7.16
Relação de intensidade.
O
calor traz gente. A nossa e a outra. Rumas a sul na expectativa repetida de
encontrares o mar no mesmo lugar, as ondas que vão e trazem, o sol no tempero
certo, os petiscos favoritos, os cheiros da época, a fruta vendida na berma, os
sotaques variados e ricos, os corpos com a devida cor, o pôr-do-sol na
cobertura, cujo nome chega-nos noutra língua. O humor condensa atrevimento,
alguma corrosão até, que aprecio. A bebida partilhada com o grupo certo. Os
amigos que regressam, as conversas que não perdoamos. Parte dos amigos de
sempre, outros que chegam por favor das relações. Os mesmos amigos das idas
para o Algarve diferente. Onde, afoitos, partíamos no desassossego da noite,
rumo à praia e não deixávamos à margem as boas e dinâmicas tertúlias. A casa
listada de amarelo e a outra de verde seco no cimo, o abismo sobre as ondas
revoltas. A aragem temperada, a areia húmida, as pranchas no mar. Um livro ou
outro. A piscina lotada. Paixões desmedidas. E rir sem parar. Inventávamos um
futuro, escolhíamos partes avulsas. Grande parte, na terça-feira passada, por
nós lembradas e relatadas com o devido entusiasmo. Ironicamente, numa qualquer
cobertura do verão algarvio, o outro, o mais comercial. Com uma piscina
discreta, porém, atractiva. De copo na mão, fervilharam centenas de relatos. E,
com maior ou menor prejuízos, colocámos as cartas na mesa. O futuro reservado é,
noutra escala, melhor do que havíamos imaginado. Ou, pelo menos, mais
diversificado. Coisas há, contudo, que não mudam. A praia mais sossegada, os
copos bem servidos, a visita ao melhor café da região e o jantar da praxe no
restaurante da nossa estória. E eu chego à praia, não poucas vezes, de paez e chapéu. O calor tem as devidas
oferendas. As nossas e as dos outros. E Portugal na grande final.
9.7.15
Gente com traquejo algarvio.
A
questão impõe-se, tão válida. Volta e meia esqueço-me, volto à expressão. Por
seu turno, depois de me atiçarem a justificação, depressa me lembro que não faz
sentido. Ainda assim, deixo-me tentar. Entre amigos e, ironicamente, aqui no
blogue, a discussão teve semente e deu frutos. Gente bonita. Pessoas com pinta.
Tipos arranjados e miúdas aperaltadas. Não é ficção, é o espelho da observação.
Não é coisa certa e universal. É o entendimento da definição. No Algarve de
verdade, com encantos travessos e paixões que tiram o folgo, assisto à
desconstrução. O mar não mente, é água com tom imaginado de céu, ondula
conforme indicação, a areia brilha por força da cor fina e da luz que reflecte.
Os escassos chapéus-de-sol são coloridos, as pessoas estendidas. Outros, entre
cá e lá. Poucas pessoas, alguns turistas curiosos. Também amantes e
conhecedores da quão bravia e montês pode ser esta região. Mergulhos em água
fria, ganha a excelsa vista. Lá ao fundo, quase a perdê-los de vista, um velho
casal. Desprotegidos do sol, lêem livros pesados, tão grossos que consigo
entrever. Aqui, bem mais perto, três jovens mulheres ganham o desejado tom
dourado na pele. Mexem o corpo com a convicção de quem tem vinte e tal anos e
não passa despercebida. No meio das ondas avessas, uns quantos tipos a
divertirem-se, enquanto fazem por manter-se em equilíbrio na prancha, que o surf é ordem e lição por aqui. Fico
entretido nisto. Até voltar a calçar as minhas alpercatas e seguir caminho. Não
sem antes tirar-te uma fotografia. Algarve encantado este. E com gente bonita.
16.9.14
Toda a esfera nacional.
O
tempo tem espaço, corpo e difere do dia para a noite. É uma maré cheia na Praia
da Rocha, um pôr-do-sol na Manta Rota, um vendaval da Costa Norte de um outro
Portugal, a fama da Meia Praia. O tempo é das pessoas. Mesmo que nos centremos
nos minutos que escapam. Seja das Amoreiras ao Chiado. De Alfama à Graça. O
Cais do Sodré é a roupa de quem no defeito do tempo, procura as escadinhas de
espuma de uma Lisboa que pode ser o leme. E é tão castiço. Da mesma que veste, liberta
e valente, de adornos vários e dourado. O pensamento vive profundamente ligado
ao tempo a passar. Como lembrar que somos do tempo em que o comércio era,
inevitavelmente, rua. Depois, o tempo lembra que viver é coordenar vontades.
Como o Bairro Alto desenhado de gente, de lotaria em cada passo. Voltas e mais
voltas. Sabes que sentir é ter tempo. Mesmo que supere uma imponente fachada da
mais falada estação.
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19.8.14
Algarve, posto de obrigação.
Fazer
fotografia, ou fotografias, como se alguém as fizesse, é um puro deleite.
Talvez, sem que perceba, me roube as palavras, as definições. As esconda antes
de colocar rigor na conclusão do que é fotografar. Repetir-me, nessa e noutras
questões. Samba na reprodução do repetido. As regras de um léxico que desvenda
coisas. Também pessoas, lugares. Um léxico que treme como a lente. Que foca ou
desfoca conforme o suporte e ligeireza de um corpo e mente sãos. Teimas, fazes
escolhas. Procuras o enquadramento. Fixas pessoas, estratégias de um gosto tão
pessoal. Como o negro e o branco. Outras, ganham na forte e infindável raça da
cor. Agora, carregas no botão. E tens uma imagem. Num cinzento que tem brilho
nos pontos certos. Um verão, num Algarve de requinte. Onde, à beira de uma
piscina ou numa praia de água gelada, duas pessoas se sentam. Ela tem uma coroa
de flores na cabeça, depois os cabelos caídos e secos do sol. Ele olha-lhe com
o mesmo entusiasmo. Há tanto movimento ao redor, que parece mentira. Fazer
fotografias ou o plural, é guardar e isolar. Guardar e resguardar. Precisamente
para abrigar estes e outros momentos de futuros danos.
4.8.14
De soslaio num Algarve de agitação sem fim.
Praia,
sol de quando em vez, esplanadas carregadas de gente, conversas e bebidas
frescas, uma típica aragem de fim de tarde num dia de céu mais buliçoso. Pelo
Algarve de pessoas sem fim. No Algarve que vive o ano inteiro, mas exprime
excelso movimento por esta altura. Verão quente, como dantes. Verão desregrado,
como agora. Chegados ao portão grande, aguardamos que a câmara de vigilância
nos anunciasse. Aguardamos no carro. Havia sossego, do que nos era possível
entender. Contudo, esperar-nos-ia uma festa. Por fim, abriu-se o portão.
Entramos. Fomos recebidos e convidaram-nos a entrar. Bem-vindos, desfrutem. Disse-nos
o dono da casa enquanto nos encaminhava para o jardim, um patamar acima da
piscina. As colunas estrategicamente colocadas pelo espaço, salpicavam o
ambiente. O resto, quando for propositado, saber-se-á. De qualquer modo, não
deixou de ser um agradável amuse bouche
para o aniversário que se seguiria. Algarve, mar de qualquer destino.
15.8.13
O Algarve tem uma aldeia.
Além,
onde a serra se funde com as mais belas espécies existe uma aldeia. Uma aldeia que
deu lugar a ascendentes familiares que tanto prezo. Que amo. Desde sempre. Da
infância guardo as visitas, o regresso. À aldeia. Às pessoas. Aos familiares
que, amiúde, me esqueço. Engraçado lembrar-me que nunca havia ficado por lá mais
que um dia. Nunca. Era uma visita em jeito de passagem. Cada vez menos, muito
menos, são os regressos, as visitas. Contudo, não esqueço o lugar. As casas
pintadas. As pessoas às janelas. As pessoas sentadas no poial, como se diz por
lá. As ruas empinadas. A calçada. As ruas estreitas. As janelas de madeira. A matriz.
A garagem que deu lugar à mercearia. As árvores e as flores reluzentes nos
canteiros. O eucalipto. Os amores perfeitos. As ribeiras de água escorreita. O
cheiro, o cheiro é inigualável e indescritível, no entanto, ao longe já se faz
sentir. No Algarve, num outro Algarve existe uma aldeia. Também, no Algarve,
existem aldeias. Onde pessoas e paisagem fazem sentido. Onde o postigo, por
momentos, mantém-se aberto. E é aqui que, não quando quero, mas quando preciso,
regresso. Na última quarta-feira regressei. Novamente, não porque quero, mas
porque a vida chamou. A vida não. A morte. Maria Rosa, partiu. Melhor assim,
dizem. Partiu da aldeia e das pessoas de sempre. De e para sempre.
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