Chamar-lhe
pelo nome próprio ou pelo último, muda tudo. Um amigo de longa data, desde os
primórdios das descobertas de cada um, faz-se, ainda hoje, amigo próximo.
Apura-se a amizade nas pausas do desassossego dos dias. Corre-nos algures uma
massa que é similar. Toleramos o avesso do excedente. Partilhamos noites bem
regadas, tardes bem passadas. Manhãs escassas, mas bem aproveitadas. Levamos
neste trajecto as nossas vidas cruzadas. Ele, que o trato sempre pelo último
nome é um tipo inteligente. Mas carece de menos emoção na hora de experimentar
o sexo, de viver o sexo. Sequer chego à paixão, amor ou paixoneta. Tampouco às
relações com duração superior a oito horas. É o tipo que, há alguns anos,
decidiu inscrever-se num ginásio para, segundo o próprio, chegar-se à linha da
frente do acontecimento físico-emocional. Numa frágil certeza de que o cupido
andaria mais próximo por aqueles lados. Com ele, fui eu e outros tantos. Era a
necessidade de expressar no corpo as entrelinhas do intelecto. Soa estranho,
assumo, mas é risada desde lá. Escusado será dizer que dali não saíram senão
corpos mais ajeitados e a psique mais aliviada. Hoje continua o mesmo. Visita
frequente do ginásio. Bambo nas certezas das relações. Não investe porque julga
o fim antes de tudo começar. Não oferece tempo porque teme o depois antes de
viver o agora. Procura ficar nas noites rápidas, ao invés dos dias demorados. É
um amigo de quem gosto bastante. A inteligência vive numa luta constante com os
sentimentos. Embrulhados como num intolerante às águas revoltas. Já lho disse e
ele ri-se. Conversamos sobre tanto que, às vezes, este parece um pormenor
irrelevante. Mas não é. Assistir à dor que este modo de viver lhe infringe é a
prova. Espero que a M.C., amor de perdição dos últimos tempos, consiga navegar
neste turbilhão. Embora nessa viagem, meu bom amigo. Fico a assistir e à espera
do brinde.
Mostrar mensagens com a etiqueta amigo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta amigo. Mostrar todas as mensagens
11.4.17
30.3.17
Prosa servida com o som da perseverança.
Conheci
o D. ainda petiz. Éramos dois putos, imberbes como a idade exigia, aflitos na
vontade de aproveitar todo e cada momento. Às vezes menos. Mas, sucintamente,
era assim. Não me lembro do instante exacto. Mas sei que foi na primeira classe
– cuja distância potencia a minha sobejamente conhecida falta de memória. Os
anos seguintes foram de amizade e proximidade. Concluímos juntos a primária e
todos os restantes anos de escolaridade até que, à porta do ensino secundário,
escolhemos destinos diferentes. Partilhámos muitas horas, fosse sentados na
mesma carteira, fosse nos acontecimentos fora da escola. O D. era um puto
pejado de sonhos. Tinha uma característica que ele olhava com cautela, tinha-a
como sendo o seu tendão de Aquiles. Nunca lhe atribui importância, pela sua vã
relevância. O D. vivia no limite. Ele respirava fora do tempo nos momentos em
que a ansiedade tomava conta do corpo. E não foram raras as vezes em que
sucumbia aos nervos a fervilhar. Atropelava-se no discurso quando o tema lhe
importava. Desde sempre foi um sonhador. Preferia a imaginação à realidade. Não
coincidíamos em muito. Mas fomos amigos por isso mesmo. Soube, em primeira mão,
da primeira paixão. Não teríamos muita idade. Conheceu-a numa caixa de
supermercado. Trocaram uns olhares e isso bastou-lhe. Pensou nela nos meses
seguintes e voltou à mesma hora e ao mesmo local noutros dias para garantir uma
nova troca. Sem sucesso. Anos mais tarde, conhecemos uma rapariga. Nova na
escola. Foi a primeira namorada. Ela era tímida, ele também. Ela usava óculos e
isso dava-lhe toda a graça. Ele era ansioso inveterado. Ela tinha calma para
partilhar. Foram felizes até onde foi possível. Lembro-me do discurso nervoso
mas cauteloso no momento em que me contou da primeira vez. Brilhavam-lhe os
olhos e isso resumia o coração. Os anos avançaram, fomos ficando afastados, por
força da distância. Fomo-nos cruzando, sempre com a simpatia de sempre. Fui
conhecendo outras relações e uma que lhe roubou horas de sossego. As redes
sociais aproximam a informação, mas é só. O D. sempre sonhou na medida certa,
nunca foi alto demais. Porque isso não existe. O D. foi embora de Portugal.
Está num país bem mais cinzento, mas mais livre no pensamento de rua. O D. quis
um dia ser DJ. Foi em Portugal mas quis mais. Hoje trabalha num bar típico da
região. E quando pode, dá asas à imaginação. Largar tudo não é para todos. É
para alguns. Genuinamente capazes. E de convicção dotados.
22.3.17
Em diferido. #57
Bravo - Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele
gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos,
algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças
daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada.
Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me
agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha
vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido
beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e
a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da
altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda
hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as
vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais
amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca
como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem
de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem
qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel.
Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há
gajos do caraças.
7.12.15
Ladeira acima.
Ligo-te
depois, avisou-me a mensagem que fiz esquecida. Travava, no instante, uma luta
verdadeira. Querer e fazer. Ladeira acima, a calçada insinua-se húmida, os
ténis laranja forte, azul concentrado. New
Balance, um pouco da tua atenção. Ladeira acima, o pensamento consome. Quão
hipster me parece esta ideia. Havia
de ganhar coragem, voltar atrás e, de novo, entrar. Chamam-me atrevido, se
avançar. Ladeira abaixo, invertendo o meu sentido, vem uma camisa carregada de
beijos, uma mala de um amarelo gritante, uma saia mexida e uns sapatos de
menino, não fosse a moda um entendedor que basta. Um cabelo longo de madeixas
bronzeadas. Um peito hirto, um decote reservado. Sorri com convicção e os
óculos escuros obrigam a adivinhar-lhe toda a expressão. Menina bonita, de
passo acertado e flores na mão. Trouxe de um amor preso no coração ou leva para
o destino dono da paixão. Ladeira abaixo, não resisto e levo, na sua direcção,
o olhar. Lá vai ela, dando os bons dias. Aqui e ali. Acenam-lhe e devolvem a
simpatia matinal. Por pela hipster
montra passar, da minha vontade tornei-me a lembrar. Quão confuso é pensar,
insistir e não actuar. Ladeira acima, lá
vou as ideias a juntar. Jogo assim, para desta ideia me livrar. Olha que a rima
no momento do acaso, soa mal mas ajuda a avançar. Bom dia, oiço junto ao
ouvido. Bom amigo, que oportuno encontro. Conversa passada, pergunta-me por
ela. Diz-me, sem pausa para responder, que já não há casamento. Arranjou um
trinta e um. Vai ao sabor do vento. Optou por um bigode e sexo constante. É
relativamente incerto, mas não lhe falta humanidade. Certamente, dono de outra
liberdade. O tempo voa, até mais ver, bom rapaz. Ladeira íngreme e sem fim. É o
ponto de partida. Chegado ao carro, um anúncio de cartomante sapiente. Ri
sozinho, livrei-me da publicidade. Já decidi, não levo flores, não defino o
bigode. Deixo ficar a barba de dias, os ténis juvenis, a carteira no bolso e o
carro no jardim. Leva-me para onde quiseres, fala-me ao ouvido e não leves a
mal. Quão hispter pode ser a montra
de alguém. Ter a certeza, viver sem receio, sem pensar no eventual desdém.
Liga-me quando quiseres. Se a paixão ainda respirar, levo-te um coração a
palpitar. Um ramo de flores, a promessa de voltar.
23.4.15
A causa do fundamento.
Saiu-lhe
um palavrão sem pensar. O modo de viver que decorre do nascimento até ao ponto
final é digno daquela palavra. Qualquer dia ensandeço, viro costas e vou-me
embora, compro uma quinta que me faça perder o horizonte. Deixo-me ficar lá,
hei-de gozar o triplo. Dizia ele e não deixa de ser verdade. As opções existem,
falta a coragem, a insensatez e o desapego aos nossos. Lembrei-me desta
conversa enquanto ouvia música. Um som dos anos oitenta, se não me engano, de
mil novecentos e oitenta e dois. Está sol lá fora, falam-se dos altos níveis
dos raios UV, antecipando cuidados. Nas ruas há gente a viver as temperaturas
mais secas. Há chinelos no pé, t-shirt no lombo, calções sem condizer. Vestidos
fluídos às cores. Flores e riscas por todo o lado. Chapéus com fitas à volta
que ganham nomes tão técnicos que nos fazem parecer descerebrados. Também
importa, mas não interessa nada. Assusta-me a banalidade com que se abordam
certos temas. A facilidade em tomar a vida do outro pelo nosso olhar. O nosso
prisma, as nossas vivências vão, inevitavelmente, talhar as nossas opiniões.
Ficam inquinadas e, para sermos justos, não traz benefícios. Como a exposição,
tempo sem conta, ao sol. Sem protecção e sem juízo. A última é uma
característica deste homem, do mesmo que ameaça mudar de vida. É mais velho que
eu, habituei-me a escutar-lhe as estórias e a sabedoria. Talvez, seja essa a
procura de todos os dias. Uma das maiores, se quisermos. Pior do que não saber
onde estamos, é não saber quem somos. Não acredita em Deus, mas sabe que quando
lhe chegar perto, será, por demais, bem recebido.
13.4.15
Tipo genuíno e uma convicção verídica.
O
fim-de-semana é o recurso dos ocupados. Mesmo que a labuta não cesse, fica
sempre um gosto mais requintado. Tens o tempo camuflado. Travestido de outra
coisa. Tomas o básico qualificado, como se estivesses a digerir e a aproveitar
o alambicado altamente classificado. Dás um, dois ou três beijos, conforme o
apetite, porque não interessa nada a flora etiquetada e a fauna desinvestida de
uma certa zona de extremos. As gentes boas à beira do mar, junto aos barcos. Os
senhores de boa índole que têm relógio bom no pulso e gravata desenhada ao
peito. Cruzas-te, física e telefonicamente, com uma série de gente que importa.
Recuei ao corredor descoberto do ensino secundário. Em que lavar os dentes e
fechar a torneira em cada intervalo da escova, era primordial. Para alguns. Uma
discussão que se fundia e confundia com a ambição de um mundo mais cuidado.
Tratar para ter retorno. Sempre assim. Cada um de nós opinava e tinha, mais do
que uma opinião formada, uma opinião válida. Pelo menos, uma visão com
validade. Mesmo que a acção ganhasse terreno. Sobre o conhecimento, portanto,
sobre a teoria e a razão. Fora desse ambiente, um amigo que não frequentava os
mesmos lugares. Mas batia-se, feroz e eloquente, contra todas as políticas
instrumentalizadas pelo defeito e gritava por um mundo cuidado e bem tratado.
Cheguei a gabar-lhe a vontade e a genica. Disse-lhe, também nessa altura, sem qualquer
espécie de troça, que faziam falta mais tipos como ele. E mantenho. Voltando
lá, ele tinha a certeza de que havia de correr mundo, ser feliz e, o mais
importante ser pai. Cumpriu quase tudo até ontem. É feliz, vive do mundo,
percorrendo-o com vagar. Mas ainda não é pai. Ainda é cedo e não conheceu a mãe
dos descendentes. Um dia, dizia-me, tem de voltar para ficar. Só tem uma
certeza, pai vai ser, porque só quer continuar a partilhar.
4.3.15
Bravo.
Aquele
gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é
descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa
adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os
ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com
uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as
camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e
de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso.
Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das
conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que
já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na
minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não
me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que
com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um
gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa.
Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno
dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda
hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.
19.2.15
A sociedade é tramada.
Não
nos vemos todos os dias, não falamos sempre. Vemo-nos às vezes, quando dá ou
quando decidimos que já passou muito tempo. Mas voltamos sempre iguais. Em
grande parte do que deixamos na última vez em que nos encontramos. E, novamente
frente-a-frente, anunciamos as boas-novas. As chatices também. Ele, depois de
algumas imperiais, falou sem parar - Se te perguntar, prometes responder e
guardar? Se me decidir, ganhando coragem, a perguntar a tua opinião, vais
fazê-lo sinceramente e guardar, apenas e só, para ti? - Talvez, não fossem exactamente
estas as palavras que ele usou, mas foi esta a conversa e lembro-me dela assim.
Ressalva garantida, sei que lhe respondi que sim. Que não é preciso pedir
silêncio. Que vou ouvir, pensar e responder como sempre faço. De forma viva e
verdadeira. Sapiente, se os ligamentos do bom amigo mo permitirem. Se não
estiver saturado. Mas fá-lo-ei, sim. Manda vir. – Perder-me da razão e
embeiçar-me por uma espécie de caça talentos, é fora do circuito? – Depende da
postura de quem caça e do que caça, pensei. – É a mais atestada e testada que
já conheci, continuou. – Não me ri, mas sorri. É, se calhar, a mais sincera que
já conheceste. A nossa conversa avançou e não merece mais pormenores aqui.
Garanti-lhe que só é um problema se nos enche o pensamento. Outra imperial.
Deixa-te disso. Segue em frente que o circuito, as suas definições e o próprio
conceito de sociedade já não são os mesmos. Perde a vergonha e esquece a
pressão. A forma de viver é a liberdade do outro. Esquece a quilometragem. E
sai pela primeira vez. No final, rimo-nos. Como sempre.
10.11.14
Lixam-nos os filmes e as bengalas.
Deram,
algures na história, um papel malfadado ao amor. Por força, avanço eu, do
desamor que lhe segue. Ainda que nunca se lhe conheça a definição. Do amor que
foge ao ritmo da dormência e do desamor que rebola no sentido de um frenético
quintal de urtigas. Ou as múltiplas acções. Tão trôpegas e disfuncionais. Se
pararmos para pensar, o amor pesa. Felizes, os que amam sem razão. Vivem a
emoção e o humor da relação. Não é uma escolha, é a coerência da necessidade de
gostar e viver. Falar do amor é custoso. Tira a alma e deixa nódoas. O desamor
lembra-nos que a outra pessoa, sem dar por isso, faz falta. Como me contava um
amigo meu, que tem a mania de andar pela manhã. Na melancolia da madrugada.
Partilha esse prazer com outro. Ouvir música ao vivo. Foi esse o defeito.
Terminou uma relação de longos meses há menos de um. Qual palmadinha nas
costas, vingou-lhe o discurso da infinita boa disposição e a métrica de quem
não se melindrou. Mas, e contra mim falo, macho ferido define estratégias, mas
nunca se guarda preparado para a queda da bengala. Ele terminou, em desabafo,
assumindo que lhe doía a ausência dela. Também nas noites em que, juntos e
dinâmicos, sentiam a música. E ainda partilhavam mais do que o corpo. Respeito,
é o que se pede. Homem que não grita, não é, inevitavelmente, o mau da fita.
20.10.14
O amor tem uma imagem em cada vivência.
Quando
era bem petiz, desenhar nos vidros pálidos da humidade era entretenha de
momentos mortos. Fazíamo-los vivaços e soberbos. Obrigávamos, se preciso, a
base de quem queria desenhar, a ficar tal e qual necessário. O inverno parecia
que entrava no jogo. Por isso, a sazonalidade trazia a lembrança. Não sei ao
certo, porque me lembro disto agora. Na verdade, antes de começar a escrever,
pensava na realidade que um amigo me contou. Está longe, algures nos meandros
de um país, embora, europeu, com oportunidades guardadas. Mas esse é o lugar, que
aqui é um pormenor de somenos. Ele contava-me que o amor era uma estratégia inútil.
Por mais que inventes e organizes as tuas vontades, misturar-se-á sempre o
descalabro do que guarda o teu corpo. O corpo pode tomar a condução da
entretenha, em detrimento, claro, da vontade de uma cabeça insegura e pouco capaz
de gerir, a partir da base, uma convicção. E continuou no desfio das questões
que lhe vêm roubando tempo. Não cedeu, por entender que assim devia ser. Havia,
contudo, um corpo a provocar. O seu. Porque as relações terminam. É o caso.
Agora, dizia-me ele, não se arrepende de ter castrado a aflição de ir mais
longe no ânimo que o corpo lhe oferecia de quando em vez. Questionar-se, por
seu turno, melindra-lhe a dor de ter gostado. Perguntou-me, por fim, a minha
opinião. Era grande o suficiente para não lha dar por escrito. Pequena,
porventura, capaz de se resumir a silêncio. Sinceramente, não importa o que lhe
disse. Mas uma coisa é certa, nos tempos e/ou momentos mortos, havemos sempre
de ter outras soluções. Ainda que, em algum momento, nos possam ter parecido
tão rudimentares.
22.9.14
Gosto delicado de deixar nu.
Recebi
na minha caixa de e-mail um anúncio. Nele, um conjunto de imagens, que lado a
lado com outras, estão numa exposição. Lembrava-me, o mesmo amigo, no mesmo
e-mail, que as fotografias, de um fotografo recente, aconteciam numa cidade,
que não sendo capital, é movimento de cultura. Não falo, portanto, de Portugal.
Fatalmente, o nosso país prefere esconder a necessidade de viver e conhecer. Não
conhecia o recente fotografo, nem de nome. Fui procurar saber. Afinal, o
artista apelidado de recente, conta com um vasto número de exposições e imagens
premiadas. Desta feita, volto a ter a certeza de que as legendas cansam.
Valorizam-se ou perdem-se sem grandes questões. As imagens, voltou a
escrever-me o mesmo amigo, eram o espelho de cada corpo nelas representado.
Tive de concordar. E, nisto, lembrei-me de uma mulher que conheci há muitos
anos atrás. Uma professora de português que desenhava. Era desgovernada e sem
feitio para o espartilho de uma educação com cintos. Não será necessário
escrever que não tinha particular popularidade entre os da mesma classe. Mas
insisto. Soube mais tarde, desenhava corpos. Nus e, preferencialmente, corpos
nus de mulheres. No desatino do destino, conheci-lhe algumas obras, anos mais
tarde. E percebi. O gosto pelo desenho. A primazia pelo nu. A simpatia pelo nu feminino.
Ainda, o afastamento que ela cultivava de uma certa vaidade colectiva que
tomava o ambiente por onde, inevitavelmente, tinha de se movimentar. E nas
legendas, que dotada de palavra, simplificava o todo. É ver para acreditar.
24.6.14
Contas de um corpo desenhado.
A
matemática é o absurdo de uns, a paixão de tantos, o desgosto de um sem fim de
progenitores, a máxima descoberta de alguns, o desaire de uns quantos. Mas, o
que não se ousaria supor, é que a matemática pudesse, em algum momento,
intervir na decisão de desenhar num corpo despido. A barba desgrenhada, tal o
seu comprimento, as calças de ganga largas da marca que todos conhecemos, os
ténis imponentes que chamam para si todos os olhares, o pólo que ganha logótipo
no lugar do coração, os óculos graduados grandes e estilosos, oferecem aos
disponíveis de definir com a antecipação de conceitos vagos e memorizados, que
o rapaz é um noctívago, deambulante por tentações desmedidas e piedosas.
Lamento, não é. Preferiu, se escolho bem a palavra, manter-se fiel às
convicções que só a ele lhes competem respeito, em detrimento de um lugar na
norma de uma sociedade de obrigações proporcionais à idade de um indivíduo. Escolheu,
algures na matemática que não tem fim, um motivo para tatuar. Um motor que
impulsionou e um conjunto de linhas com sentido que, por fim, desenhou.
16.5.14
Um amigo sujeito à ventura.
Feliz
de quem tem ginástica intelectual para escolher, em conformidade, ser feliz. A
perfeição junta as palavras e as imagens. Às vezes, proporciona encontros entre
pessoas que se colam na personalidade e ganham vida daí em diante. Por força da
experiência que é extravasar. Mas, porque persiste, fazemo-lo, apenas, a seguir
ao efeito de ter realizado. Um dos meus mais próximos amigos contava, desde
tenra idade, que a sua vida seria como vinha idealizando. Não se justificaria a
ninguém, mas responderia, ao invés do comum, do uso das palavras, com um
sorriso gigante. Todos lhe apontam essa qualidade, nunca desiste e sempre
insiste em devolver um sorriso. Haveria de correr mundo, de desleixo no corpo e
de ganas na alma. Procrastinou por obrigação. Contudo, em cada encontro de
amigos, ou em conversas isoladas, voltava o discurso e a sede de viver como criou
na imaginação, de voar sem destino, de conhecer outras raízes, de brincar com a
novidade e de quando em vez esquecer o enfadonho e o espartilho de cada dia
aqui, num país e família castradores. Afiançávamos-lhe, então, rijeza e apoio
no compromisso. Foi carregando a ansiedade. Até que, chegado o encontro de
condição, largou tudo e foi embora. Avisou, somente, uns quantos. Onde me
incluo. À família prometeu que eram uns dias de férias. À antiga namorada
agradeceu o carinho e a entrega, a disponibilidade de tantos momentos. Deixou
quantos e quanto lhe fizeram passado. Entrou no avião, devolveu sorriso. Já lá
vão uns bons meses, mais do que um ano, ainda menos que dois. Sentimos-lhe a
falta. A família roça a tentativa de rogar-lhe pragas. Pela ingratidão,
justificam-se desse modo. Ele, pelos diferentes meios, vai fazendo chegar-nos a
sua experiência. As vivências que guardou, só para si, antes mesmo de saber, no
íntimo do seu interior. Relata-nos, de viva voz, as peripécias mais
convidativas, outras que superam o surreal. As fotografias com que nos vai
brindando falam por si. Entre paisagens sem classificação, de tão belas e
imponentes, e ele que as usa como décor. Mantém o sorriso rasgado. Ainda mais.
Um dos meus amigos mais chegados teve a ousadia de riscar. E arriscar. Num
período em que o país carrega problemas de várias frentes. Numa altura em que
tudo tira a esperança. Sujeitou-se ao risco. Hoje é francamente feliz e
realizado. Cumpriu um sonho de raiz. Voltará um dia, sem data. E, tem a
certeza, vem para mudar e cortar com tudo o que o impediu de sonhar.
16.4.14
Impressão viva.
Ainda
a fotografia. O tempo deseja, com frequência, pregar partidas. O céu tapado, a
neblina a tomar conta de tudo. Os verdes ao redor, estão molhados. Não está
frio, mas sente-se o ar. A taça que carrega os cereais atabalhoadamente
misturados com o iogurte e a fruta, embora, colorido e agradávelmente
apetitoso, disfarçam a hora de começar mais um dia. É precoce o horário. Marcámos
para as cinco horas. Cinco horas da manhã e alguns minutos. Antes, parece-me sempre
tão plausível. No momento, praguejo, desejando não mais me comprometer. O meu
amigo ficou de me apanhar. Vamos fotografar, como outras vezes. Carregamos o
material, meio sem norte, e vamos à procura da tal sensibilidade. Vamos até, ver
se essa sensibilidade é intrínseca ou floresce de quando em vez. Procuramos, no
meio disto, encontrar o nascer do sol. A luz e o enquadramento. Uma vez mais,
testamos não mais do que o senso para a fotografia. E, quando a manhã já se
aproximava da procura pela hora do almoço, encontramos um senhor, de mãos nos
bolsos, numa caminhada sossegada, no sentido contrário ao nosso. Viramos à
esquerda, queriamos aproveitar aquele ponto. E, quando reparamos, o senhor
estava junto a nós. E ensinou-nos tanto. Conto depois. Vale a pena, garanto.
13.3.14
Café da manhã.
A
janela fica sempre a descoberto. Não cerra as portadas, porque lhe roubam mais
sol do que o pretendido. Não usa cortinas porque desmaiam a luz. O despertador,
contava-me, toca sempre no momento mais inoportuno. No instante contado em que
o melhor da metamorfose acontece. Em que, estendido na cama de todos os dias,
avesso na postura, o corpo cede tempo. Eleva-se-lhe, disse-me tal e qual assim,
eleva-se-lhe o espírito e entra numa zona possessa, rítmica, desconstruída, sexuada,
pujante e descontraída. Sem artimanhas banais. É possível. Acontecem-lhe, com
frequência, os sonhos que lhe excitam a mente e o corpo. E nem precisa de sexo
ficcionado no cardápio. Reduzir excitação e prazer ao sexo teórico, não
compensa. É travestir. E, tudo volvido e vivido, são horas de levantar. Guardou
a memória. Mas não esquece. Não consegue esquecer que, até no sonho, ficou pela
metade. Entendes, perguntava-me enquanto o açúcar fugia-lhe das mãos, antes de
envolver e casar com o café. Vou-me embora.
Subscrever:
Mensagens (Atom)