Mostrar mensagens com a etiqueta amigo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta amigo. Mostrar todas as mensagens

11.4.17

Combate corpo a corpo.

Chamar-lhe pelo nome próprio ou pelo último, muda tudo. Um amigo de longa data, desde os primórdios das descobertas de cada um, faz-se, ainda hoje, amigo próximo. Apura-se a amizade nas pausas do desassossego dos dias. Corre-nos algures uma massa que é similar. Toleramos o avesso do excedente. Partilhamos noites bem regadas, tardes bem passadas. Manhãs escassas, mas bem aproveitadas. Levamos neste trajecto as nossas vidas cruzadas. Ele, que o trato sempre pelo último nome é um tipo inteligente. Mas carece de menos emoção na hora de experimentar o sexo, de viver o sexo. Sequer chego à paixão, amor ou paixoneta. Tampouco às relações com duração superior a oito horas. É o tipo que, há alguns anos, decidiu inscrever-se num ginásio para, segundo o próprio, chegar-se à linha da frente do acontecimento físico-emocional. Numa frágil certeza de que o cupido andaria mais próximo por aqueles lados. Com ele, fui eu e outros tantos. Era a necessidade de expressar no corpo as entrelinhas do intelecto. Soa estranho, assumo, mas é risada desde lá. Escusado será dizer que dali não saíram senão corpos mais ajeitados e a psique mais aliviada. Hoje continua o mesmo. Visita frequente do ginásio. Bambo nas certezas das relações. Não investe porque julga o fim antes de tudo começar. Não oferece tempo porque teme o depois antes de viver o agora. Procura ficar nas noites rápidas, ao invés dos dias demorados. É um amigo de quem gosto bastante. A inteligência vive numa luta constante com os sentimentos. Embrulhados como num intolerante às águas revoltas. Já lho disse e ele ri-se. Conversamos sobre tanto que, às vezes, este parece um pormenor irrelevante. Mas não é. Assistir à dor que este modo de viver lhe infringe é a prova. Espero que a M.C., amor de perdição dos últimos tempos, consiga navegar neste turbilhão. Embora nessa viagem, meu bom amigo. Fico a assistir e à espera do brinde.

30.3.17

Prosa servida com o som da perseverança.

Conheci o D. ainda petiz. Éramos dois putos, imberbes como a idade exigia, aflitos na vontade de aproveitar todo e cada momento. Às vezes menos. Mas, sucintamente, era assim. Não me lembro do instante exacto. Mas sei que foi na primeira classe – cuja distância potencia a minha sobejamente conhecida falta de memória. Os anos seguintes foram de amizade e proximidade. Concluímos juntos a primária e todos os restantes anos de escolaridade até que, à porta do ensino secundário, escolhemos destinos diferentes. Partilhámos muitas horas, fosse sentados na mesma carteira, fosse nos acontecimentos fora da escola. O D. era um puto pejado de sonhos. Tinha uma característica que ele olhava com cautela, tinha-a como sendo o seu tendão de Aquiles. Nunca lhe atribui importância, pela sua vã relevância. O D. vivia no limite. Ele respirava fora do tempo nos momentos em que a ansiedade tomava conta do corpo. E não foram raras as vezes em que sucumbia aos nervos a fervilhar. Atropelava-se no discurso quando o tema lhe importava. Desde sempre foi um sonhador. Preferia a imaginação à realidade. Não coincidíamos em muito. Mas fomos amigos por isso mesmo. Soube, em primeira mão, da primeira paixão. Não teríamos muita idade. Conheceu-a numa caixa de supermercado. Trocaram uns olhares e isso bastou-lhe. Pensou nela nos meses seguintes e voltou à mesma hora e ao mesmo local noutros dias para garantir uma nova troca. Sem sucesso. Anos mais tarde, conhecemos uma rapariga. Nova na escola. Foi a primeira namorada. Ela era tímida, ele também. Ela usava óculos e isso dava-lhe toda a graça. Ele era ansioso inveterado. Ela tinha calma para partilhar. Foram felizes até onde foi possível. Lembro-me do discurso nervoso mas cauteloso no momento em que me contou da primeira vez. Brilhavam-lhe os olhos e isso resumia o coração. Os anos avançaram, fomos ficando afastados, por força da distância. Fomo-nos cruzando, sempre com a simpatia de sempre. Fui conhecendo outras relações e uma que lhe roubou horas de sossego. As redes sociais aproximam a informação, mas é só. O D. sempre sonhou na medida certa, nunca foi alto demais. Porque isso não existe. O D. foi embora de Portugal. Está num país bem mais cinzento, mas mais livre no pensamento de rua. O D. quis um dia ser DJ. Foi em Portugal mas quis mais. Hoje trabalha num bar típico da região. E quando pode, dá asas à imaginação. Largar tudo não é para todos. É para alguns. Genuinamente capazes. E de convicção dotados.

22.3.17

Em diferido. #57

Bravo - Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.

7.12.15

Ladeira acima.

Ligo-te depois, avisou-me a mensagem que fiz esquecida. Travava, no instante, uma luta verdadeira. Querer e fazer. Ladeira acima, a calçada insinua-se húmida, os ténis laranja forte, azul concentrado. New Balance, um pouco da tua atenção. Ladeira acima, o pensamento consome. Quão hipster me parece esta ideia. Havia de ganhar coragem, voltar atrás e, de novo, entrar. Chamam-me atrevido, se avançar. Ladeira abaixo, invertendo o meu sentido, vem uma camisa carregada de beijos, uma mala de um amarelo gritante, uma saia mexida e uns sapatos de menino, não fosse a moda um entendedor que basta. Um cabelo longo de madeixas bronzeadas. Um peito hirto, um decote reservado. Sorri com convicção e os óculos escuros obrigam a adivinhar-lhe toda a expressão. Menina bonita, de passo acertado e flores na mão. Trouxe de um amor preso no coração ou leva para o destino dono da paixão. Ladeira abaixo, não resisto e levo, na sua direcção, o olhar. Lá vai ela, dando os bons dias. Aqui e ali. Acenam-lhe e devolvem a simpatia matinal. Por pela hipster montra passar, da minha vontade tornei-me a lembrar. Quão confuso é pensar, insistir e  não actuar. Ladeira acima, lá vou as ideias a juntar. Jogo assim, para desta ideia me livrar. Olha que a rima no momento do acaso, soa mal mas ajuda a avançar. Bom dia, oiço junto ao ouvido. Bom amigo, que oportuno encontro. Conversa passada, pergunta-me por ela. Diz-me, sem pausa para responder, que já não há casamento. Arranjou um trinta e um. Vai ao sabor do vento. Optou por um bigode e sexo constante. É relativamente incerto, mas não lhe falta humanidade. Certamente, dono de outra liberdade. O tempo voa, até mais ver, bom rapaz. Ladeira íngreme e sem fim. É o ponto de partida. Chegado ao carro, um anúncio de cartomante sapiente. Ri sozinho, livrei-me da publicidade. Já decidi, não levo flores, não defino o bigode. Deixo ficar a barba de dias, os ténis juvenis, a carteira no bolso e o carro no jardim. Leva-me para onde quiseres, fala-me ao ouvido e não leves a mal. Quão hispter pode ser a montra de alguém. Ter a certeza, viver sem receio, sem pensar no eventual desdém. Liga-me quando quiseres. Se a paixão ainda respirar, levo-te um coração a palpitar. Um ramo de flores, a promessa de voltar.

23.4.15

A causa do fundamento.

Saiu-lhe um palavrão sem pensar. O modo de viver que decorre do nascimento até ao ponto final é digno daquela palavra. Qualquer dia ensandeço, viro costas e vou-me embora, compro uma quinta que me faça perder o horizonte. Deixo-me ficar lá, hei-de gozar o triplo. Dizia ele e não deixa de ser verdade. As opções existem, falta a coragem, a insensatez e o desapego aos nossos. Lembrei-me desta conversa enquanto ouvia música. Um som dos anos oitenta, se não me engano, de mil novecentos e oitenta e dois. Está sol lá fora, falam-se dos altos níveis dos raios UV, antecipando cuidados. Nas ruas há gente a viver as temperaturas mais secas. Há chinelos no pé, t-shirt no lombo, calções sem condizer. Vestidos fluídos às cores. Flores e riscas por todo o lado. Chapéus com fitas à volta que ganham nomes tão técnicos que nos fazem parecer descerebrados. Também importa, mas não interessa nada. Assusta-me a banalidade com que se abordam certos temas. A facilidade em tomar a vida do outro pelo nosso olhar. O nosso prisma, as nossas vivências vão, inevitavelmente, talhar as nossas opiniões. Ficam inquinadas e, para sermos justos, não traz benefícios. Como a exposição, tempo sem conta, ao sol. Sem protecção e sem juízo. A última é uma característica deste homem, do mesmo que ameaça mudar de vida. É mais velho que eu, habituei-me a escutar-lhe as estórias e a sabedoria. Talvez, seja essa a procura de todos os dias. Uma das maiores, se quisermos. Pior do que não saber onde estamos, é não saber quem somos. Não acredita em Deus, mas sabe que quando lhe chegar perto, será, por demais, bem recebido.

13.4.15

Tipo genuíno e uma convicção verídica.

O fim-de-semana é o recurso dos ocupados. Mesmo que a labuta não cesse, fica sempre um gosto mais requintado. Tens o tempo camuflado. Travestido de outra coisa. Tomas o básico qualificado, como se estivesses a digerir e a aproveitar o alambicado altamente classificado. Dás um, dois ou três beijos, conforme o apetite, porque não interessa nada a flora etiquetada e a fauna desinvestida de uma certa zona de extremos. As gentes boas à beira do mar, junto aos barcos. Os senhores de boa índole que têm relógio bom no pulso e gravata desenhada ao peito. Cruzas-te, física e telefonicamente, com uma série de gente que importa. Recuei ao corredor descoberto do ensino secundário. Em que lavar os dentes e fechar a torneira em cada intervalo da escova, era primordial. Para alguns. Uma discussão que se fundia e confundia com a ambição de um mundo mais cuidado. Tratar para ter retorno. Sempre assim. Cada um de nós opinava e tinha, mais do que uma opinião formada, uma opinião válida. Pelo menos, uma visão com validade. Mesmo que a acção ganhasse terreno. Sobre o conhecimento, portanto, sobre a teoria e a razão. Fora desse ambiente, um amigo que não frequentava os mesmos lugares. Mas batia-se, feroz e eloquente, contra todas as políticas instrumentalizadas pelo defeito e gritava por um mundo cuidado e bem tratado. Cheguei a gabar-lhe a vontade e a genica. Disse-lhe, também nessa altura, sem qualquer espécie de troça, que faziam falta mais tipos como ele. E mantenho. Voltando lá, ele tinha a certeza de que havia de correr mundo, ser feliz e, o mais importante ser pai. Cumpriu quase tudo até ontem. É feliz, vive do mundo, percorrendo-o com vagar. Mas ainda não é pai. Ainda é cedo e não conheceu a mãe dos descendentes. Um dia, dizia-me, tem de voltar para ficar. Só tem uma certeza, pai vai ser, porque só quer continuar a partilhar.

4.3.15

Bravo.

Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.

19.2.15

A sociedade é tramada.

Não nos vemos todos os dias, não falamos sempre. Vemo-nos às vezes, quando dá ou quando decidimos que já passou muito tempo. Mas voltamos sempre iguais. Em grande parte do que deixamos na última vez em que nos encontramos. E, novamente frente-a-frente, anunciamos as boas-novas. As chatices também. Ele, depois de algumas imperiais, falou sem parar - Se te perguntar, prometes responder e guardar? Se me decidir, ganhando coragem, a perguntar a tua opinião, vais fazê-lo sinceramente e guardar, apenas e só, para ti? - Talvez, não fossem exactamente estas as palavras que ele usou, mas foi esta a conversa e lembro-me dela assim. Ressalva garantida, sei que lhe respondi que sim. Que não é preciso pedir silêncio. Que vou ouvir, pensar e responder como sempre faço. De forma viva e verdadeira. Sapiente, se os ligamentos do bom amigo mo permitirem. Se não estiver saturado. Mas fá-lo-ei, sim. Manda vir. – Perder-me da razão e embeiçar-me por uma espécie de caça talentos, é fora do circuito? – Depende da postura de quem caça e do que caça, pensei. – É a mais atestada e testada que já conheci, continuou. – Não me ri, mas sorri. É, se calhar, a mais sincera que já conheceste. A nossa conversa avançou e não merece mais pormenores aqui. Garanti-lhe que só é um problema se nos enche o pensamento. Outra imperial. Deixa-te disso. Segue em frente que o circuito, as suas definições e o próprio conceito de sociedade já não são os mesmos. Perde a vergonha e esquece a pressão. A forma de viver é a liberdade do outro. Esquece a quilometragem. E sai pela primeira vez. No final, rimo-nos. Como sempre.

10.11.14

Lixam-nos os filmes e as bengalas.

Deram, algures na história, um papel malfadado ao amor. Por força, avanço eu, do desamor que lhe segue. Ainda que nunca se lhe conheça a definição. Do amor que foge ao ritmo da dormência e do desamor que rebola no sentido de um frenético quintal de urtigas. Ou as múltiplas acções. Tão trôpegas e disfuncionais. Se pararmos para pensar, o amor pesa. Felizes, os que amam sem razão. Vivem a emoção e o humor da relação. Não é uma escolha, é a coerência da necessidade de gostar e viver. Falar do amor é custoso. Tira a alma e deixa nódoas. O desamor lembra-nos que a outra pessoa, sem dar por isso, faz falta. Como me contava um amigo meu, que tem a mania de andar pela manhã. Na melancolia da madrugada. Partilha esse prazer com outro. Ouvir música ao vivo. Foi esse o defeito. Terminou uma relação de longos meses há menos de um. Qual palmadinha nas costas, vingou-lhe o discurso da infinita boa disposição e a métrica de quem não se melindrou. Mas, e contra mim falo, macho ferido define estratégias, mas nunca se guarda preparado para a queda da bengala. Ele terminou, em desabafo, assumindo que lhe doía a ausência dela. Também nas noites em que, juntos e dinâmicos, sentiam a música. E ainda partilhavam mais do que o corpo. Respeito, é o que se pede. Homem que não grita, não é, inevitavelmente, o mau da fita.

20.10.14

O amor tem uma imagem em cada vivência.

Quando era bem petiz, desenhar nos vidros pálidos da humidade era entretenha de momentos mortos. Fazíamo-los vivaços e soberbos. Obrigávamos, se preciso, a base de quem queria desenhar, a ficar tal e qual necessário. O inverno parecia que entrava no jogo. Por isso, a sazonalidade trazia a lembrança. Não sei ao certo, porque me lembro disto agora. Na verdade, antes de começar a escrever, pensava na realidade que um amigo me contou. Está longe, algures nos meandros de um país, embora, europeu, com oportunidades guardadas. Mas esse é o lugar, que aqui é um pormenor de somenos. Ele contava-me que o amor era uma estratégia inútil. Por mais que inventes e organizes as tuas vontades, misturar-se-á sempre o descalabro do que guarda o teu corpo. O corpo pode tomar a condução da entretenha, em detrimento, claro, da vontade de uma cabeça insegura e pouco capaz de gerir, a partir da base, uma convicção. E continuou no desfio das questões que lhe vêm roubando tempo. Não cedeu, por entender que assim devia ser. Havia, contudo, um corpo a provocar. O seu. Porque as relações terminam. É o caso. Agora, dizia-me ele, não se arrepende de ter castrado a aflição de ir mais longe no ânimo que o corpo lhe oferecia de quando em vez. Questionar-se, por seu turno, melindra-lhe a dor de ter gostado. Perguntou-me, por fim, a minha opinião. Era grande o suficiente para não lha dar por escrito. Pequena, porventura, capaz de se resumir a silêncio. Sinceramente, não importa o que lhe disse. Mas uma coisa é certa, nos tempos e/ou momentos mortos, havemos sempre de ter outras soluções. Ainda que, em algum momento, nos possam ter parecido tão rudimentares.

22.9.14

Gosto delicado de deixar nu.

Recebi na minha caixa de e-mail um anúncio. Nele, um conjunto de imagens, que lado a lado com outras, estão numa exposição. Lembrava-me, o mesmo amigo, no mesmo e-mail, que as fotografias, de um fotografo recente, aconteciam numa cidade, que não sendo capital, é movimento de cultura. Não falo, portanto, de Portugal. Fatalmente, o nosso país prefere esconder a necessidade de viver e conhecer. Não conhecia o recente fotografo, nem de nome. Fui procurar saber. Afinal, o artista apelidado de recente, conta com um vasto número de exposições e imagens premiadas. Desta feita, volto a ter a certeza de que as legendas cansam. Valorizam-se ou perdem-se sem grandes questões. As imagens, voltou a escrever-me o mesmo amigo, eram o espelho de cada corpo nelas representado. Tive de concordar. E, nisto, lembrei-me de uma mulher que conheci há muitos anos atrás. Uma professora de português que desenhava. Era desgovernada e sem feitio para o espartilho de uma educação com cintos. Não será necessário escrever que não tinha particular popularidade entre os da mesma classe. Mas insisto. Soube mais tarde, desenhava corpos. Nus e, preferencialmente, corpos nus de mulheres. No desatino do destino, conheci-lhe algumas obras, anos mais tarde. E percebi. O gosto pelo desenho. A primazia pelo nu. A simpatia pelo nu feminino. Ainda, o afastamento que ela cultivava de uma certa vaidade colectiva que tomava o ambiente por onde, inevitavelmente, tinha de se movimentar. E nas legendas, que dotada de palavra, simplificava o todo. É ver para acreditar.

24.6.14

Contas de um corpo desenhado.

A matemática é o absurdo de uns, a paixão de tantos, o desgosto de um sem fim de progenitores, a máxima descoberta de alguns, o desaire de uns quantos. Mas, o que não se ousaria supor, é que a matemática pudesse, em algum momento, intervir na decisão de desenhar num corpo despido. A barba desgrenhada, tal o seu comprimento, as calças de ganga largas da marca que todos conhecemos, os ténis imponentes que chamam para si todos os olhares, o pólo que ganha logótipo no lugar do coração, os óculos graduados grandes e estilosos, oferecem aos disponíveis de definir com a antecipação de conceitos vagos e memorizados, que o rapaz é um noctívago, deambulante por tentações desmedidas e piedosas. Lamento, não é. Preferiu, se escolho bem a palavra, manter-se fiel às convicções que só a ele lhes competem respeito, em detrimento de um lugar na norma de uma sociedade de obrigações proporcionais à idade de um indivíduo. Escolheu, algures na matemática que não tem fim, um motivo para tatuar. Um motor que impulsionou e um conjunto de linhas com sentido que, por fim, desenhou.

16.5.14

Um amigo sujeito à ventura.

Feliz de quem tem ginástica intelectual para escolher, em conformidade, ser feliz. A perfeição junta as palavras e as imagens. Às vezes, proporciona encontros entre pessoas que se colam na personalidade e ganham vida daí em diante. Por força da experiência que é extravasar. Mas, porque persiste, fazemo-lo, apenas, a seguir ao efeito de ter realizado. Um dos meus mais próximos amigos contava, desde tenra idade, que a sua vida seria como vinha idealizando. Não se justificaria a ninguém, mas responderia, ao invés do comum, do uso das palavras, com um sorriso gigante. Todos lhe apontam essa qualidade, nunca desiste e sempre insiste em devolver um sorriso. Haveria de correr mundo, de desleixo no corpo e de ganas na alma. Procrastinou por obrigação. Contudo, em cada encontro de amigos, ou em conversas isoladas, voltava o discurso e a sede de viver como criou na imaginação, de voar sem destino, de conhecer outras raízes, de brincar com a novidade e de quando em vez esquecer o enfadonho e o espartilho de cada dia aqui, num país e família castradores. Afiançávamos-lhe, então, rijeza e apoio no compromisso. Foi carregando a ansiedade. Até que, chegado o encontro de condição, largou tudo e foi embora. Avisou, somente, uns quantos. Onde me incluo. À família prometeu que eram uns dias de férias. À antiga namorada agradeceu o carinho e a entrega, a disponibilidade de tantos momentos. Deixou quantos e quanto lhe fizeram passado. Entrou no avião, devolveu sorriso. Já lá vão uns bons meses, mais do que um ano, ainda menos que dois. Sentimos-lhe a falta. A família roça a tentativa de rogar-lhe pragas. Pela ingratidão, justificam-se desse modo. Ele, pelos diferentes meios, vai fazendo chegar-nos a sua experiência. As vivências que guardou, só para si, antes mesmo de saber, no íntimo do seu interior. Relata-nos, de viva voz, as peripécias mais convidativas, outras que superam o surreal. As fotografias com que nos vai brindando falam por si. Entre paisagens sem classificação, de tão belas e imponentes, e ele que as usa como décor. Mantém o sorriso rasgado. Ainda mais. Um dos meus amigos mais chegados teve a ousadia de riscar. E arriscar. Num período em que o país carrega problemas de várias frentes. Numa altura em que tudo tira a esperança. Sujeitou-se ao risco. Hoje é francamente feliz e realizado. Cumpriu um sonho de raiz. Voltará um dia, sem data. E, tem a certeza, vem para mudar e cortar com tudo o que o impediu de sonhar.

16.4.14

Impressão viva.

Ainda a fotografia. O tempo deseja, com frequência, pregar partidas. O céu tapado, a neblina a tomar conta de tudo. Os verdes ao redor, estão molhados. Não está frio, mas sente-se o ar. A taça que carrega os cereais atabalhoadamente misturados com o iogurte e a fruta, embora, colorido e agradávelmente apetitoso, disfarçam a hora de começar mais um dia. É precoce o horário. Marcámos para as cinco horas. Cinco horas da manhã e alguns minutos. Antes, parece-me sempre tão plausível. No momento, praguejo, desejando não mais me comprometer. O meu amigo ficou de me apanhar. Vamos fotografar, como outras vezes. Carregamos o material, meio sem norte, e vamos à procura da tal sensibilidade. Vamos até, ver se essa sensibilidade é intrínseca ou floresce de quando em vez. Procuramos, no meio disto, encontrar o nascer do sol. A luz e o enquadramento. Uma vez mais, testamos não mais do que o senso para a fotografia. E, quando a manhã já se aproximava da procura pela hora do almoço, encontramos um senhor, de mãos nos bolsos, numa caminhada sossegada, no sentido contrário ao nosso. Viramos à esquerda, queriamos aproveitar aquele ponto. E, quando reparamos, o senhor estava junto a nós. E ensinou-nos tanto. Conto depois. Vale a pena, garanto.

13.3.14

Café da manhã.

A janela fica sempre a descoberto. Não cerra as portadas, porque lhe roubam mais sol do que o pretendido. Não usa cortinas porque desmaiam a luz. O despertador, contava-me, toca sempre no momento mais inoportuno. No instante contado em que o melhor da metamorfose acontece. Em que, estendido na cama de todos os dias, avesso na postura, o corpo cede tempo. Eleva-se-lhe, disse-me tal e qual assim, eleva-se-lhe o espírito e entra numa zona possessa, rítmica, desconstruída, sexuada, pujante e descontraída. Sem artimanhas banais. É possível. Acontecem-lhe, com frequência, os sonhos que lhe excitam a mente e o corpo. E nem precisa de sexo ficcionado no cardápio. Reduzir excitação e prazer ao sexo teórico, não compensa. É travestir. E, tudo volvido e vivido, são horas de levantar. Guardou a memória. Mas não esquece. Não consegue esquecer que, até no sonho, ficou pela metade. Entendes, perguntava-me enquanto o açúcar fugia-lhe das mãos, antes de envolver e casar com o café. Vou-me embora.