Prendeu-o,
há coisa de uma ou duas semanas, uma voz doce, simpática, harmoniosa e
cúmplice. Guardou-a assim, pelo menos. Não fosse o ontem, e avançava uma mão
cheia de dúvidas. Assim, conhecendo este tipo, que é meu amigo faz muito tempo
e a sua longa vocação para paixões, paixonetas e ambas misturadas com o acaso,
dou-lhe crédito. E juntou à voz sedutora, a poesia e um jardim. Parece
literatura, sequer lembrei o episódio do supermercado biológico. Parece
literatura, mas é tentação em tempos do agora, sob um calor típico e um verão
que oferece tempo. Imagino-o, pois foi assim que me fez chegar o acontecimento,
sentado na relva de um jardim composto, envolvido por gente, garantidamente bem
mais interessada do que ele em ouvir o que haveria de se seguir. Atento o
suficiente, ia trocando mensagens. Fora, algures entre a mensagem recebida e a
resposta sôfrega, que há-de ter-se feito magia. - Sugeria umas teclas ou umas
cordas para acompanhar - Vem de lá, do que me permito pensar ser um palco sem
ornatos nem enfeites, apenas uma base a suportar uma jovem mulher hirta
recitando, a voz. Aqui, já o telemóvel havia perdido terreno. Focou-se na
silhueta, na voz e, não esmorecendo, nas palavras. No íntimo, ia cogitando
donde é que se lembrava daquele tom doce. Parece que a jovem partilhou algumas
composições poéticas. Umas da sua autoria, outras de autores nacionais e
internacionais altamente conhecidos. Tão breve, quanto possível, uma vez que se
lhe seguiam outros. Antes da tarde de poesia chegar ao fim, eis que se lhe assoma
na memória, a jovem e um pacote de leite. Impulsivo, dirigiu-se à jovem
senhora, cumprimentou-a, deu-lhe os sentidos parabéns e apresentou-se. Qualquer
coisa como, “G, o tipo do leite”. Ela deve ter devolvido um sorriso e, garante
ele, lembrou-se. Sem vergonha, quis mais do que a árdua tarefa de a encontrar
no Facebook. Pediu-lhe um contacto.
Queria aprender sobre estrofes, versos e culinária biológica. Safou-se e,
segundo actualizações recentes, deu frutos. O destino é um paraíso entre profanos.
Se não voltam, são uns meninos. Há verões assim. Cujo amor brota no meio de
poesia e leite de arroz.
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22.8.16
8.8.16
Entre o auge da tarde e o final da mesma.
O
ambiente é de férias. Um paraíso tão próximo. As palmeiras quase que cedem à
calma, nada balançam, têm o tom viçoso, envolvem o espaço, compõem a vista e
deixam imaginar o resto. Vêem-se as ondas claras lá ao fundo, a espuma a tecer
borbulhas. As espreguiçadeiras cheias, as cores do verão salpicadas pelo areal.
Aqui, sentados num lugar bonito, numa mesa privilegiada, ladeados pela piscina,
envolvidos pelo frenesim de quem trabalha contrastando com o sossego de quem
descansa. As mesas, tal como a piscina, estão lotadas. Na água, entre mergulhos
desgovernados, salpicos desorientados, saltos invertidos, braçadas e
braçadeiras, óculos de mergulhador e bóias de diversão, risadas fáceis e
chamadas de atenção, estão novos e velhos. Em ameno convívio veranil. Ouvem-se
línguas diferentes, sotaques também. Não falham os fatos de banho, os biquínis,
os calções e, claro, os óculos de sol. Alguns arriscam numa indumentária mais
formal, impecáveis ao fim da tarde. Servem-nos uma bebida fresca e bastante
agradável, outros entreténs a seguir. Falámos tanto, mas não esgotámos prosa.
Ao lado, uma senhora de honrosa idade joga as mãos à cabeça loira sempre que o
neto escapa dos braços do avô e joga-se sem medida para a água. Depois, duas
jovens partilham outra mesa, não se olham, não trocam uma palavra e fumam umas
cigarrilhas e, parece, passam assim a tarde, entre uma aspiração e outra. Chega
ao recinto um senhor cuja espécie de tanga reduzida parece trazer a via láctea
em exposição, a camisa aberta e solta, chama a atenção. Segue caminho, airoso e
divertido. De gente comum também se enche a zona. Em tempo algum são esquecidas
as fotografias para o Facebook e Instagram. Os vídeos animados para o Snapchat, a anunciar que são felizes no
verão. Fomos embora, dali a nada aconteceria um jantar demorado, com gente que
nos importa. Não sem antes me gabarem a camisa. Não faço questão, mas não digo
que não.
2.8.16
Ataviar o verão com a bonita canção.
Solta
uns vocalizes. Faz os típicos exercícios de voz, sem apontar notas ou palavras.
Antecipa a letra, a música e o volume. Há-de chegar Aretha Franklin. É
impossível tocar-lhe, mas vem uma interpretação entusiasmada e sentida. Gabo as
vozes certas, os tempos sabidos de memória, a música e o compasso na ponta do
entendimento. O compromisso certeiro entre o querer muito e o fazer melhor.
Fico a assistir, meio embevecido, quando as vozes me atraem. A voz colocada, o
microfone mesmo à frente, uns tipos a tocar, uns amigos a sentir e a comunhão
acontece. Neste cantinho um tanto escurecido, acontece fazer-se, com empenho,
música de qualidade. Os instrumentos são conduzidos de feição, ouvem-se os
primeiros acordes, aludem a outros nomes e compõem a exposição. Não é mentira
se garantir que gozo do prazer de ter grandes amigos, bem mais, tenho o gosto
de ter amigos muito talentosos. No verão, com Agosto a começar, funciona largar
todo e cada pedaço de areia, de sol a queimar e das ondas a relaxar, para sentar
algures, ouvir cantar e tocar. Aplaudir e felicitar no final é um pertinente
ponto final. Logo depois, há verão outra vez. A lamentar só o facto de não ser
um dos dotados. Assim, aceito um copo e mais uma rodada de calor.
25.7.16
Bons amigos (bons).
Caravaggio,
cuja origem do nome, embora escusa de relatos maiores, é um empolgante regresso
às origens. Já lá vão uns anos bons desde que mo apresentaram. Escrevo como
penso. Foi um amigo bom, daqueles meio sacanas e atrevidos, que guardam no
intelecto e no geral, bem mais do que o azougar nas horas vagas. Do que
acautelar os instintos na sede da pele. Que, não vamos retirar o crédito
devido, também é importante. Não será, em tempo algum, de somenos relevância.
Mas voltemos ao artista, ao outro. A Caravaggio e à sua obra. No passado,
quando eu era bastante jovem, miúdo até, contou-me o seu percurso, influência e
irreverência natural. Esse amigo, em abono da verdade, amigo do meu pai, depois
por convivência, amigo da minha mãe e, por inevitabilidade do destino, meu bom
amigo. Eu, um petiz interessado, ele um homem sabedor, conhecedor do mundo e
das voltas que dava. Levava Portugal num bolso, como fazia por repetir e voltava
com o mundo no peito. Arranjei-lhe, na imaginação, um peito que não tinha fim.
A altura e robustez do tipo ajudavam. Paulatinamente, fora revelando-me mais
pormenores, outras obras. Ganhei, se não for exagero, um certo fascínio. Pelo
homem e pelo artista, pelas obras igualmente. A enumeração serve a ambos. Ainda
converso sem fim com este homem grande. Hoje de cabelo grisalho e dono das mais
convincentes histórias. Cruza as pernas e esse pode ser o mote. Fora solteiro
até tarde, casou por amor e ganhou. Só acrescentou. Hoje de corpo ainda vivaço,
não pega num cigarro e dá corda aos ténis. Traz um livro na mala e esse pode
ser o mote. Hoje ainda enche o bolso da nacionalidade que não esquece. Enche o
peito de folgo, faz-se ao mundo e volta cheio. Esse pode ser o mote. Tal como
Caravaggio fora lá atrás.
7.7.16
Relação de intensidade.
O
calor traz gente. A nossa e a outra. Rumas a sul na expectativa repetida de
encontrares o mar no mesmo lugar, as ondas que vão e trazem, o sol no tempero
certo, os petiscos favoritos, os cheiros da época, a fruta vendida na berma, os
sotaques variados e ricos, os corpos com a devida cor, o pôr-do-sol na
cobertura, cujo nome chega-nos noutra língua. O humor condensa atrevimento,
alguma corrosão até, que aprecio. A bebida partilhada com o grupo certo. Os
amigos que regressam, as conversas que não perdoamos. Parte dos amigos de
sempre, outros que chegam por favor das relações. Os mesmos amigos das idas
para o Algarve diferente. Onde, afoitos, partíamos no desassossego da noite,
rumo à praia e não deixávamos à margem as boas e dinâmicas tertúlias. A casa
listada de amarelo e a outra de verde seco no cimo, o abismo sobre as ondas
revoltas. A aragem temperada, a areia húmida, as pranchas no mar. Um livro ou
outro. A piscina lotada. Paixões desmedidas. E rir sem parar. Inventávamos um
futuro, escolhíamos partes avulsas. Grande parte, na terça-feira passada, por
nós lembradas e relatadas com o devido entusiasmo. Ironicamente, numa qualquer
cobertura do verão algarvio, o outro, o mais comercial. Com uma piscina
discreta, porém, atractiva. De copo na mão, fervilharam centenas de relatos. E,
com maior ou menor prejuízos, colocámos as cartas na mesa. O futuro reservado é,
noutra escala, melhor do que havíamos imaginado. Ou, pelo menos, mais
diversificado. Coisas há, contudo, que não mudam. A praia mais sossegada, os
copos bem servidos, a visita ao melhor café da região e o jantar da praxe no
restaurante da nossa estória. E eu chego à praia, não poucas vezes, de paez e chapéu. O calor tem as devidas
oferendas. As nossas e as dos outros. E Portugal na grande final.
5.7.16
A um passo dos ditosos.
Estive
há instantes com um amigo, quase que o apelido de conhecido. Em tempos, um
amigo muito próximo, com direito às partilhas mais inusitadas. Do sexo a
experimentar às relações furtivas, da música boa e meio marginal ao jogo
dividido por uma rede, da burguesia que nos assentava à rivalidade campal. Mas
o espelho não engana, vamos avançando e perdendo pormenores. Porventura,
acumulando outros, tão dignos, ligeiramente diferentes. Foi o caso,
perdemo-nos, por força do trajecto individual e pela distância no geral.
Continua um tipo porreiro, pareceu-me. É no direito que se vem cumprindo. E no
braço uma tatuagem enorme. Atrevida, mas calma e de gosto feliz. Invejo, se me
perdoam o termo, as tatuagens bonitas que vou vendo por aí. Os tipos que não
perdem a pinta, pelo contrário, agarram-na com outra fé. As raparigas que não
desmaiam na hora de escolher e guardam no corpo o desenho certo. Invejo, ainda
mais, a bravura e a decisão. A minha, adiada sem hora, por um receio meio tosco
do arrependimento, quase injusto. No Instagram
uma amiga vai lançado a deixa, passeando o corpo definido, a roupa interior
que lhe eleva a confiança, as pernas torneadas, as mamas no sítio e a tatuagem
que caminha por grande parte da pele. Do ventre à anca, não perdendo as coxas
de vista. Ali, à minha frente, um amigo distante com a sorte de fazer o que bem
entende. Exibe-a nas horas vagas, guarda-a para si no momento do expediente. É
uma opção válida e sensata, que cumpre a razão e não belisca a moral. Vou
pensar, atrever-me a cogitar. Enquanto oiço uma cover que merece toda a atenção. Quão fascinante é quando a obra
foge-nos das mãos e vira arte na acção de alguém.
4.7.16
Imaginação com fundamento.
A
hora do almoço chega e somos marionetas do tempo. A manhã levanta e somos
dependentes do frenesim do mesmo. A tarde já vai longa e somos abalroados pelos
maneirismos da série ininterrupta de segundos. Não ousamos sequer pensar o
contrário. As excepções fascinam-me, acreditem. Toma chá, não sei se
imperiosamente às cinco horas da tarde, mas lembra-me os donos da quezília do
momento – os que se deixam toldar pela ideia, tão ultrapassada, da idílica
sobranceria de guardar no espaço de terra rodeado por água, a obsoleta e
falível verdade; contribuiu para isso, como se sabe, a idade avançada e as
fábulas dos votantes - Esta jovem toma chá, traz o português limpo e escorreito
na ponta da língua, tem pequenas sardas desordenadamente espalhadas pelo rosto.
O cabelo claro combina com isso. E não me recordo, como é apanágio, se alguma
vez trocámos impressões sobre o tempo. É portuguesa e o físico quase que a
desmente. Voltamos ao chá, toma-o a que hora lhe aprouver, e traz o sorriso no
rosto, os saltos altos escondidos numa mala, os rasos nos pés e a revista na
mão. Lê a GQ e a VOGUE internacionais, escreve prosa bonita e poesia atrevida. Foi a
menina da praia e do surf, das ondas repentinas e rebeldes. Cruza as pernas e
tem tempo para pensar. Defende a confiança, a entrega e a competência. Maldiz a
rotina, o comodismo, a lista de tarefas e a ficção entre pares. Atrevo-me a
apelidá-la de mulher de sucesso, mas mais importante, mulher de sucessos. Como
não raras vezes lhe atirei. Bem sei, não é sistema para todos, tampouco, para
qualquer um. É, também não desminto, uma privilegiada, com uma bagagem que a permite
ser como e quem é, sem prejuízos de maior. Mas é feliz e é a sombra reluzente
de que há mais para lá da escravidão do tempo. Um livro ao adormecer, ganas ao
levantar, chá ao entardecer e o sonho a insistir, faz por ti. Uma grande parte
e sem espinhas.
27.6.16
Em diferido. #50
Início de citação - Ouve-se
o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de
camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a
ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as
vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as
entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz
sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de
direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor.
Gosto do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e
meio. Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á
brincar com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é
o tipo que já calçou VANS, como se o
mundo fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem
desmérito, ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como
noutras, alguns pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda,
há largos meses, a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados
atraentes. Uma defensora acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de
cabeça das antigas. Até ao momento em que percebeu grande parte do que falámos
nessa noite e que, inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque,
primeiro acontece, depois porque exige partilha. O argumento de direita que
está do outro lado é, por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum,
sequer se imaginou que uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão
bem. O amor acontece, pelo menos, até ao fim da citação.
20.6.16
Vida ladeada de encontros.
Dei-lhe
os parabéns, um beijo e um sorriso. Talvez porque é agradável, simpática,
atrevida até na postura avessa e no discurso provocador. Também, na equação,
porque nos conhecemos desde os dez anos, se não me falha a memória. Fomos
amigos, partilhámos a mesma carteira nas horas dedicadas à matemática. Lançávamo-nos
para a bravura da disputa saudável no que aos números respeitava. Rimos do
professor um tanto calvo, outro tanto grisalho. Alto, naquela idade ainda mais
corpulento nos parecia, e dono do tiro certeiro. As balas, no caso, enviava-as
da boca, que não guardava sossego. Fico-me pelo apontamento, para não cair na
tentação de chegar ao demasiado gráfico. Fomos nos anos seguintes, embora na
mesma turma, na precisão da tenra idade, avançando noutros interesses. No fim
da adolescência, pela mão de amigos comuns, tornámos o contacto. Falámos, usurpámos
a esplanada que já era do nosso grupo bom e grande, rimos outra vez, bebemos
cerveja como se o mundo pensasse sucumbir. Não voltámos à estimulante luta de
números. Havia de perder eu, já reduzo a especulação. E, num desses harmoniosos
convívios contou-me que estava no curso de arquitectura. Isso e outros
pormenores, do curso e do pessoal que por lá andava. Entre um cigarro e outro e
mais outro, foi colocado prosa no ambiente. Usava decotes generosos, os lábios
coloridos, os olhos felinos e o cabelo perto do tom do fogo. Era, se quisermos,
uma excepção na imagem do grupo e o oposto da pequena com quem partilhei as
aulas da ciência do cálculo. E isso era para todos, sem falsas justificações,
indiferente. Guardámos, a dada altura, outra ausência. Voltámos a cruzar-nos,
já ela era uma arquitecta formada. Os mesmos decotes, os lábios igualmente
pintados, o olhar mais singelo e o cabelo mais sóbrio. Deu-me um beijo. Daí,
fomos sabendo um do outro pelas redes sociais. Eu mais, que ela aqui e ali ia
deixando cair uma selfie, e teve uma
relação fugaz com um amigo meu. No outro dia, em sentido inverso na mesma rua,
parámos. A propósito do aniversário, dei-lhe os parabéns. Agradeceu-me com um beijo
num lado do rosto e a mão no outro. Tivemos tempo para trocar alguns momentos,
olhou-me com calma e avançou que não perdi a magia. Mesmo noutra fase, mesmo
sem a outra rapariga. E que o intelecto aguçado ainda o trago no rosto
estampado. A verdade nela e a verdade dela sempre me interessaram. Por isso,
tantas horas dispensámos ao diálogo. Terminou dizendo que gostou de me ver, e o
meu nome foi o ponto final.
8.6.16
Inelutáveis circunstâncias.
Oiço,
de quando em vez, música clássica. Ainda é costume neste admirável mundo novo?
É uma questão que me assalta. Poucas vezes, é certo, mas fica na estória do que
vou cuidando no pensamento. Para minha defesa – como se o crime fosse meu – sou
um ouvinte que pende para o ecléctico. Termo que aprecio, muitas vezes mitigado
pela desonra com que alguns o aproveitam para salvar o segredo de que a música
segue os tempos de cada um pejado de guilty
pleasures. Também os guardo. E vou, enquanto apreciador musical, do mais
erudito à poesia popular – com as devidas ressalvas. Na prática, a música
avança pelas nossas vidas, mais ou menos, à revelia. Marcando desde o sorriso
maroto ao tempo perdido. Mudar deve ser das situações mais avessas à comunhão
do espírito, corpo e sociedade. Tão tramada que, ou arrepias caminho sem grande
pausa para pensar ou recuas com toda a bagagem de questões e medos que foste
alvitrando até ao ponto. Isso ou é feitio do tipo avançar sucessivamente na
procura do que é suficiente para ele. Estagnar, por arrependimento do que
sequer sabemos que vinha a acontecer é amplamente desleal. Para quem comete,
claro. Em tese, um amigo pondera manumitir o presente para colher frutos mais
adiante. Faz todo o sentido. Quem sabe, o paraíso não mora por lá. Desta feita,
conversar é bom, mas escutar é melhor ainda. A decisão é unilateral. E a música
clássica não é desajeitada e não perdeu a força no passado. Inventa o que
quiseres, mas mudar é querer certezas e crer no vazio. Rasga o peito e faz o
que o instinto te ditar. Que os ditados servem para isso. Tentar, errar e o
conhecimento guardar.
2.6.16
Numa espécie de corrida a favor da psique.
Faz
tempo, numa saída madrugadora, junto ao rio, numa tentativa desleal de fazer o
corpo mexer, fomos conversando. Na companhia de dois, fomos, literalmente, à
vontade do vento. Para lá, para lá onde quer que isso seja, até que chegássemos
ao ponto certo. Com o corpo fatigado e a mente em liberdade. Não se conheciam,
foram por mim apresentados naquele instante. Ele pensa no que já fez, no que
alcançou e no que vive. Maldiz da chefe, que o incomoda pelo menor. Antes
disso, ele sonhou que chegaria a qualquer estado, próximo do que vem
experimentando. É verdade e comprovado. Vai voltar a estudar, fazer uma
especialização. Não quer amor, senão uma ou outra relação. Das suas estórias
pseudo-amorosas, - a definição com as devidas aspas, - conheço de um todo. Das
juras de infidelidade à prova que o sexo por si, não aguenta uniões. Parece
desorganizado, mas fica pela aparência. Quem o conhece já lhe entende as linhas
e os espaços desnudos. Ela, um pouco mais velha do que nós, mostra maturidade
no discurso, até na postura. Mas, ao contrário dele, não se esgota no que
aparenta. Cai, aqui e ali, num discurso pesado, de quem vem ganhando pavor aos
acontecimentos. Independente, atrevida e recta atitude do corpo. Sonhou, pelo
menos desde que a conheço, com o príncipe encantado. E aprecio-lhe a
ingenuidade. É tão sincero, que não merece perder a oportunidade. Envolveu-se,
tanto quanto vem contando, com tipos mais velhos, em boas posições
profissionais, cujas relações não vingaram. Até chegar ao que se apresentou
como o tão esperado homem encantando. Juras de paixão intermináveis, trocas de
alianças, apresentações à família e amigos. Viveu, começo a acreditar, uma
excepção. Teve o que sempre pediu. Contudo, não foi eterno. Primeiro a
desavença que ninguém sabe, depois a morte que ninguém conheceu. Não invejo ter
razão e contra mim falo, mas os príncipes não saem da imaginação para a vida
real, materializando-se no que a outra pessoa procura. No máximo, ficam-se pelo
encantamento de aceitar partilhar o quotidiano, o corpo e a mente. Enquanto for
verdadeiro, mesmo que redefina o sentido de sempre. O até aqui pode, muito bem,
ser um autêntico e saboroso trecho da nossa história. Sem prejuízo para a
fantasia do para sempre.
24.3.16
Reunião de gente boa.
Imagino Mozart a irromper, numa sinfonia completa. Entre vinhas vistosas e verdejantes. O soalho é terra de verdade, pisada pelos senhores sabedores e pelos analfabetos da situação. Corredores e mais corredores, tantos sem fim. Imagino galerias, que por ser lerdo, permito-me inventar e largar na mais profunda errata. As folhas têm toque de rainha abismada. E os cachos são límpidos e certos. O ambiente compõe-se, assim, ao jeito de uma sequela da sétima arte. Devolvemos a passada e é acontecimento de verdade. O horizonte é infinito e perdemos a herdade de vista. De costas para a quinta, imaginamos o norte, que os olhos já não alcançam a arquitectura esbranquiçada adornada com a pedra escura. Vamos ao jeito da vontade e da curiosidade. Conhecer e, se possível, aprender. Lá em cima, logo à chegada, um copo servido com o vinho que ganha fama de qualidade. O mote para aguçar a necessidade de saber mais. A convite de uma amiga, agora senhora erudita da vinicultura, lá fomos à descoberta. Lamento, sempre que o vinho partilha a atenção da refeição, não saber mais sobre os processos empregues na sua feitura, assim como, na evolução que o desenvolvimento da qualidade vem sofrendo. Foram, com certeza, umas horas de excelsa convivência e aprendizagem. A suficiente, espero, para não me perder numa próxima. A mesma amiga, cicerone de serviço, impecável na sua posição, foi-nos falando da actualidade. Desmente os rumores, não admite casamento. Largou tudo na cidade, o noivo, a apatia e a infelicidade. Pensar que esta jovem mulher fora, em tempos, vítima de uma relação absolutamente nefasta. Embora, recusasse o semblante lutuoso, foi, a dada altura, perceptível o mal que vinha causando. Física e, por demais, psicologicamente. Agora, brindámos ao sucesso, à vinha rainha e ao amor-próprio. De copos bem servidos, ao alto, rimos de muito. Neste instante, oiço Mozart e não me engano. A música de grau elevado favorece o guião. A ti, ao vinho bom e ao amor que é libertador. Cheers!
10.3.16
Em diferido. #46
Sem a reflexão imprescindível - Lamentavelmente, os convites já não vêm em carta fechada, com o endereço certo e o nome do destinatário com todas as letras. Sem erros, nem ausentes letras. Por fim, entregues em mão. Hoje em dia, vêm por bem, mas na força proporcional ao quotidiano desta gente invertida. O rio pode ser a passadeira perfeita. As palmeiras que abanam ao sabor do vento, enquanto dão um toque de paraíso à esplanada, podem, perfeitamente, ser bailarinas de serviço. Mas de qualidade. Não têm beleza no nome. Os caixotes de lixo, tão disfarçados, podem ser pratos imaculados de uma bateria. Os sofás que vemos no interior, numa putativa referência vaga às elegantes zebras, podem ser um qualquer piano de cauda. O funcionário, que nos atendeu com a postura correcta, contudo caída em desuso, de braços no lugar, podia, sem mazelas, ser um actor de uma película branca e negra. O sol que nos apanha não tem comparação. Éramos quatro à mesa. Um deles, um puto com graça. Levantou uma questão, que não tem resposta e da qual falarei em breve. Outra, uma mulher que conhecemos no acaso. Simpática, católica praticante e defensora dos grupos e de uma sociedade em definição constante. Posso ter-me enganado, mas foi o que me passou. A terceira pessoa, olhando-me nos olhos, atiça-me com – Quem diria que havíamos de estar numa esplanada, a esta hora, numa segunda-feira, a tomar algo. – É verdade, ninguém. O tempo não acalmou. Gastamo-lo sem dar por isso. Agora é um novo dia e chove copiosamente. Bad girl, bad girl.
23.2.16
Locutório à mercê.
Aquele
aloquete atiçou-me a memória. A parede branca, imaculada. A porta de madeira,
num castanho vestido de chocolate, meio gasta, de ranhuras descobertas. Numa
espécie de armário. De apoio ao jardim. Noutros tempos, um jardim tão cheio.
Hoje, inteiro e cuidado, perdeu alguma da variedade. Onde tudo era felicidade e
candura. Onde, nesta altura, é simplicidade. Tudo muda, já me lembrou a minha
avó. E não mentiu. Que dela, tratando da saúde às plantas do jardim ou
bebericando um chá e saboreando levemente um bolo fino, as palavras saem com a
mesma dimensão. Sem que recorra a artefactos para dilatar o discurso. Tudo
muda, então. Como a C., agora uma mulher prevenida, mas disponível. Uma amiga
de longo curso. O G., patrono de uma filosofia de franqueza, de ideias
liberais. Até ontem. Amizade mais recente, sem que isso belisque a importância.
O que não surpreende é o facto de, há uns anos, o afamado dito sentencioso ter
surtido efeito. Inevitavelmente, os opostos atraíram-se. E o balanço foi, sem
desprimor, fazendo sentido. A C. e o G. apaixonaram-se e viveram, enquanto
possível, um amor às direitas. Ela, um tanto altiva, quase arrogante. Que, no
fundo, resumia a fragilidade da autoestima. Ele, desprovido de afectação, dono
de uma simpatia e proximidade naturais. Foram cedendo em pontos fundamentais.
Outros, mais artificiais. Como numa metáfora, a distribuição parecia fazer-se
ao ritmo certo. Até à desarrumação final. Nesta rotina de casal, inverteram-se
os papéis. Os opostos mantêm-se. Mas mudaram de lugar. A C. já não aguenta as
conversas chatas. O G. aprecia um serão a ouvir relatos sobre viagens de barco,
a dimensão das velas e o sentido do vento. A eles, assumidamente, incomoda.
Inclusivamente, exerce influência no trato entre ambos. A nós, amigos e
espectadores, pouco importa como conduzem, mas preocupa-nos o trajecto. As
pessoas alteram minudências, aguçam pormenores, aprimoram o feitio, limam
interesses. Sufocam-se e deixam-se sufocar. Em nome de algo, de alguém.
Deixam-se enlear num fio tão emaranhado que perdem o foco. A essência do que
vieram construindo. Preferem esconder, a ter de avançar a solo. Preferem forçar
o aloquete que já não existe, a cometer a tentação. Não devemos, em tempo
algum, perder de vista a realidade. Neste jardim, ontem e hoje, não há quem
cuide dos males, senão os próprios. Ao contrário do jardim da minha avó. Os
anos passam, e a afeição e a adoração são as mesmas. Bons amigos, esqueçam o
resto e aproveitem a bonita janela de sacada que têm mesmo à vossa frente. Não
há inspiração melhor do que o sol nacional e a conversa entre o casal.
18.2.16
Compensação das coisas.
Já
se fez noite. Está frio. O sobretudo e o cachecol quentes fazem as honras. O
telemóvel não sossega. Ultimamos pormenores. Nos pés levo New Balance, numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos
juntos, logo nos toma de assalto a ideia de que começamos a ficar velhos.
Podemos estar numa mesa de restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num
jeito meio snobe. A decoração pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade
exigida, o tom certo. Os copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo
como, noutra altura, nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de
longa data. Em tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos
noutras alturas. Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa
conversa que não termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no
carro de outro, a lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar
simpático ou numa discoteca da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou
menos tóxicos. E bebidas com teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa
e já não somos iguais. Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se
não soubéssemos. Um amigo atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro
já não aguenta fumar presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro,
esperto e atrevido como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de
volta, recebe um valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe
ajudava a cortejar. Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por
juventude. Ou, a lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder é motivo de conversa. Queremos
saber das trocas. A noite já vai longa. Fica tudo por sublinhar. Amanhã é outro
dia. À noite, temos, de novo, a mesma companhia. Até que um avião, um
aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame de novo. Novos ou menos jovens,
somos gente feliz. Mais ainda, porque temos amigos azougados, embora, donos de
inteligência emocional e apostamos num bom par de ténis.
2.11.15
Ideias não nos faltam.
Não
venhas tarde, meu bom conviva. Ora, gente afoita e dada à rambóia, façam o
favor de entrar. Na mão, a surpresa da ocasião. Nesta sala por almas
trivialmente apaixonantes composta. Logo adiante, já o tempo se sumiu. Sobre a
mesa já jazem várias garrafas. Por restarem vazias, já lhes perdemos a conta.
Os copos multiplicam-se e com destino. O vinho é senhor, na voz é rei. Podia
rimar, mas fico-me pela conversa. A troca de prosa válida e com substância. A
noite é grande, nada curta. Olhos nos olhos, que dos senhores e da verdade reza
a história. Boa comida para sossegar as ânsias. Estômago compostinho abrevia
caminho. A pitada apimentada, a dona da gargalhada. Hei-de, numa corrida cheia
de paleio, tão breve quanto a minha memória desmembrada, falar sobre a artista
de variedades que encabeçou a arte e monopolizou, para gáudio dos comensais, o
humor da mesa. Guardam-se, algures, fotografias e vídeos. Escondem-se porque a
intimidade tem barreiras. Nunca a força do vinho, sempre as ideias que não nos
largam. Imaginamo-la, baixa e frenética, num palco grande. Cartazes à porta,
anúncios com trejeitos de outros tempos. Ora, tomem atenção, é chegada a hora
da comédia que agrada ao povo. Pois, entre linguagem habilmente prosaica e
gestos esbeltos, vem do coração.
29.10.15
Dérbi (mais ou menos).
A
boa gente não se perde, tampouco se esquece. Os bons amigos partilham clubes
rivais, muito menos outras coisas. Discute-se sobre o Benfica, os seus e os
fracos resultados. Acredita-se com a fé de quem é adepto. Discutem-se medidas
que urgem. Não se maldiz, que cai mal. Mas pede-se coerência, mudanças no
terreno. Jogar-se nas quatro linhas com o poder e a confiança que se esquece
fora delas. Sugerem-se mudanças de posição, até mesmo de jogador. Lamenta-se a
actualidade, não se esquece o passado. Surgem gordas nos jornais, caras
lavadas, mãos sujas pelo que por elas vai passando. Lembrei-me, a propósito, do
antigo compincha de mesa de café, que lia o jornal todos os dias. Uma e outra
vez, se necessário. Que, bem me lembro, algumas letras e palavras lhe custavam
a entrar. Do Benfica, sempre o discurso mais sincero. A alma deste homem envolve-se
com a essência de adepto. Às vezes, de voz no tom certo, desdenhava as
actuações, mas não passava da necessidade de arremedar outras núpcias. Muito me
diverti com ele, nessas conversas avermelhadas sem fim. Nisto, fica-nos o amor
e a cabana. Havemos sempre de a eles voltar. Agora, em frente ao espelho. Ensaiei
o nó da gravata, mantive o colarinho subido. Cansei-me da ideia. Mas há sempre
quem mereça a pena justificada. Amigos porreiros, tipos convictos. Mesmo que
vista verde e branco e cante as suas razões. Nó impecável, fato escolhido a
dedo. Embora jogar. E que a sorte dite as regras de um futuro que se espera feliz.
Ide, ide.
14.10.15
Em diferido. #41
Vai
guiando os ensaios por onde quiser - Volto sempre lá. Ou voltava até ao dia em
que se mudaram. Que a cidade é bela e tem encantos sem fim, já todos sabemos.
Tem luz de casa real e prédios de decoração fina. Tem beicinho se não prometer
voltar. Sem ser preciso supor, tenho uma paixão sem fim. A cidade é fina e tem
lugares vários. Na mesma cidade, volto às visitas. Volto sempre. Agora, volto a
outro lugar, a mesma cidade. Antes, aqueles prédios enormes. Cá do asfalto,
antes do padrão português e do jardim trabalhado, olho para cima e parece que
nunca mais se endireita. É um indutor, tão sedutor, do pensamento. Lá em cima, numa
varanda larga, o cigarro de ocasião. A visão inversa, o mesmo sentimento, a
mesma sedução. Entre a conversa e a vertigem passageira, passa no asfalto uma
velha mulher. Se não me engano, vi-a todas as vezes que os visitei. Sempre a
passar naquela rua. De negro se tapava. Só lhe víamos o rosto. Tão cansado e
abatido. Um lenço negro a tapar-lhe os cabelos, uma saia negra pelo joelho. Um casaco
negro ou uma camisa no mesmo tom. Umas meias negras a esconder a pele. Curva,
parecia que nunca tirava os olhos do chão. Puxava, com as mãos que imagino
vencidas pelo tempo, um carrinho. Daqueles que servem para o auxílio das
compras. Era, sem falsas ideologias, a excepção daquele lugar. Chamou-me,
particularmente, a atenção. Todas as vezes. Nesse fim de tarde, a última vez em
que estive naquela casa, enquanto a velha senhora passava, perguntei-lhes sobre
ela. Não tinham muito para contar. Somente, que todos os dias arranjava um
canto para estender os livros e tentar vendê-los. Assim, o carrinho com duas
rodas era o armazém. Quão valioso o conteúdo, permiti-me pensar. Como na
literatura, a vida quotidiana é um ensejo permanente. Até à página final.
6.10.15
Início de citação.
Ouve-se
o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de
camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a
ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as
vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as
entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz
sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de
direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor. Gosto
do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e meio.
Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á brincar
com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é o tipo
que já calçou VANS, como se o mundo
fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem desmérito,
ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como noutras, alguns
pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda, há largos meses,
a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados atraentes. Uma defensora
acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de cabeça das antigas. Até
ao momento em que percebeu grande parte do que falámos nessa noite e que,
inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque, primeiro acontece,
depois porque exige partilha. O argumento de direita que está do outro lado é,
por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum, sequer se imaginou que
uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão bem. O amor acontece,
pelo menos, até ao fim da citação.
27.8.15
Dos relhos amigos reza a história.
Estamos
velhos. O mundo gira, gira e volta ao eixo, mas deixa-nos gastos. A idade não
perdoa, queixumes inapropriados para a idade que carregamos. Mas parece-nos
bem, soa-nos melhor. Desta forma, achincalhar a idade do momento, com putativos
e prematuros acontecimentos. No telemóvel, o combinado antecipado. Voltaríamos
juntos, ao lugar de outros tempos. Ao sítio e à série interna de instantes em
que chegávamos e logo se apressavam a expor, na força da memória, o nosso pedido.
Já éramos da casa e, largando falsas modéstias, naqueles momentos, fazíamos a
casa. Tantos anos. Perdi-lhes a conta. Fica a dúvida. Éramos, certamente, seres
inebriados com o encanto, tipicamente imberbe, da adolescência a despontar.
Agora, adultos conversadores, de intelecto estimulado – acreditamos nisto,
deixem-nos viver com isso - e com mitos desfeitos, vontades sôfregas
ultrapassadas, ambições desviadas e vidas que, em grande ou pequena escala,
jamais as havíamos alinhavado desta forma. Ali estávamos. À excepção do espaço,
tudo mudou. Inclusivamente e em grande importância, mudámos nós. Todos e cada
um à mercê das experiências acumuladas. Guardamos actualmente, claro, tantas
questões, relações falhadas, amores inopinados, expectativas goradas, profissões
mais ou menos instáveis, quotidianos ressentidos por tudo. Mas, sem pudor,
vamos avançando na conversa. Estamos velhos. As relações são rápidas e
consumidas no átimo. Abordagens há em que já não nos encontramos. Como me
contavam neste jantar, uma rapariga de uns vinte anos aborda um rapaz de
dezanove. Pede-lhe o número, certifica-se que tem mais de dezoito anos. Daí em
diante, é fácil imaginar. Padronizou-se uma certa faixa. Eles são assim, elas
também. Aqueles são os que as levam a sair. Aquelas são as que atraem. Padrão a
que, parece, é fácil ceder. Mentindo, estamos velhos. Mesmo que o mundo pareça
estar longe dos eixos, as coisas repetem-se. Na nossa geração, na deles, nas
outras do mesmo modo. Fazer por partilhar um cigarro, ainda se faz? Deixámo-nos
de questões frívolas e decidimos ir onde toda a gente vai. É bom, encontrámos
muitos do nosso tempo. Estão na roda-viva da idade, alguns casados, outros
cansados. Qualquer nugacidade que possa, eventualmente, sobressair deste
compêndio, é absoluta simultaneidade de eventos. Mas estamos a ficar velhos,
que ninguém ouse enganar-nos.
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