Trocámos
o abraço de todo o tempo. Demorado como a distância exigiu. Não doutrinamos a
pressa. Jogamos com a solenidade da presença. Não sabia por palavras dela, o
que já sentia. Guardava, singela e constrangida, para o jantar que se seguia. Neste
frente-a-frente, fico a perder. Somos amigos desde tenra idade, sequer sabíamos
eleger categorias de uma vida que havia de chegar. Adivinhávamos. À sorte, pela
sorte. Aqui, olhos nos olhos, nesse certame que é a amizade. Ao redor, há
burburinho, cabeças baixas, ora atentas ao prato, ora presas no telemóvel. Quase
não damos por elas. Alongámo-nos na prosa com recheio. Matámos saudades.
Cumprimos necessidades. Deixámos esfriar os pratos. Tomámos água, para não
adulterar o discurso e a apreensão. E deixei-me seguir, sendo todo ouvidos, com
pausas para retorquir. Neste frente-a-frente, particular e inopinado, fico a
perder. Somos amigos de longa data. Dos tempos em que o meu cabelo já gritava o
quão beto me guardava e em que o dela não desmentia a sua vocação para
menina-princesa. Aprecio quem conversa sem desviar o olhar, atenta e
convictamente. Como acontece. Apreensiva, foi soltando o que guardava para me
contar. Vejo a mulher do momento e a criança do laço gigante na cabeça. Quer
contar-me. E já sei. Finalmente, a coragem fez sair cada palavra. Sorri-lhe,
porque não sei fazer de outra forma. Não dei falsos confortos. Compreendi e
opinei. Não defendo, mas entendo. Neste frente-a-frente, sou manifestamente
menor. Pelo amor que a amizade construiu, pela necessidade de protecção que não
dispenso. Recuso ardilosas palestras sobre o outro. Como se as acções fossem o
resultado do todo. Ou a moral uma presa fácil. Ninguém é tão autómato ou irrepreensível.
Finda a noite, neste frente-a-frente, um inesperado empate. Pela hombridade com
que conduz a sua vida, e eu por vê-la fincar o pé em terreno pantanoso, quando
estava num passeio no parque. Mesmo sem o laço de outrora, continuas a fazedora
de todas as coisas.
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22.2.18
25.5.17
Afecto ardente numa 'Vespa'.
Vem
uma Vespa disparada, de azul petróleo
pintada. Nela segue o rapaz e a sua amada. Ele traz um capacete de couro
escuro, com os olhos protegidos por uns RayBan
clássicos. Ela traz um capacete menor, de couro claro, com os olhos
resguardados por uns Dior. Nos pés,
trazem calçados uns ténis capazes e com raça. Ela enverga um vestido com
leveza, desenhado com flores e isso só lhe traz beleza. Ele veste uma camisola
às riscas, num azulão e branco que convive em harmonia. Faz lembrar os
marinheiros e a sua embarcação. Uns calções cuja cor pisca o olho ao tom escuro
das riscas. A chegar, para a malta avisar, ele deixa fugir umas apitadelas.
Levantam as mãos, ele e ela, com a maior sintonia, e acenam ao pessoal. Os
convivas devolvem ainda com maior entusiasmo. Ouvem-se assobios, pequenos e
médios gritos. Vozes finas e mais encorpadas. Mãos com vida, braços levados ao
céu. Aplausos. Ela desce da Vespa
azul petróleo, tira o capacete menor de couro claro, ajeita o vestido florido e
comprido, compõe a mala que traz no colo. Mexe a cabeça, rodando o cabelo, como
a melhor das divas faz no cinema. Desmancha-se numa gargalhada e fica quase
envergonhada. Ele segue-lhe os passos. Deixa a lambreta, tira o capacete de
couro escuro e passa a mão no cabelo para lhe restituir o jeito. Segura-o com
firmeza, sacode os calções escuros como se estivessem tomados pelo pó. Cede o
lugar dos óculos, agora coloca-os presos na gola redonda. Levanta a mão e
cumprimenta todos. Lado a lado, ela e ele enlaçam as mãos. A direita dele casa
com a esquerda dela. Regressam os assobios, os pequenos e médios gritos. As
vozes finas e as mais encorpadas. O arrebatamento repete-se. Mãos com vida,
braços levados às alturas. Aplausos. Abraços demorados. Beijos de cumplicidade.
Imaginam-se dias longos de felicidade. Quisemos guardar numa imagem a comunhão
e o amor. Saltem, se quiserem. Acabámos de experimentar o amor.
23.5.17
Moderação dos dias.
Sento-me
de fronte para o computador portátil, na cabeça traço um sem fim de ideias.
Elaboro-as de um jeito precoce, ainda sem tempo para as desenhar no papel. Ameaço-me
com a certeza de que muitas não vão avante. Ficam na intimidade dos meus
desmazelados pensamentos. E, sem prejuízo, não me constrange, nem tira a
liberdade. Hei-de arranjar espaço. O disco externo morreu, parece não fazer
sentido. Mas cabe nele toda a cumplicidade. Nele, uma vida engolida. Perto do
esquecimento. Tomo notas para me lembrar que os dias vão mudar. Lixei um dedo
com uma inócua - contudo potente arma - folha branca. Lancei um palavrão ao ar.
Faço uma pausa. Descarrego um café. Não lhe coloco açúcar e deixo-o temperar
com um curto descanso. Assomo-me à janela. Tudo como dantes. Nesta travessa há
descanso. Na rua seguinte, avançam carros sem cessar. Volto ao computador, a
regra mantém-se. Tudo como dantes. Sigo entre e-mails antigos, a recuperar
pendências. Ligo uma vez mais o som, para fazer companhia. No telemóvel um dos
grupos pergunta para quando uma conversa pelo Skype. A verdade é que venho procrastinando, à espera de dias mais
propensos. Que não chegam. Com promessas de que é sempre amanhã, no máximo
depois. Afastando-me dos copos de vinho que não partilhámos, da prosa que
deixámos pendente. Dos rumores que não chegam a verdades contadas. Chega mais
uma cobrança e não me sinto confiante com o termo. Não me obrigam, não me
maniatam nem constrangem. É a saudade da distância a tomar as rédeas. E tristes
os dias em que o inverso se torne na norma. Tenho de tentar salvar os
documentos putativamente perdidos no disco externo. Há sempre quem nos acorde.
E não merece senão gratidão.
18.5.17
Em diferido. #59
Virente memorizar - Rabiscar a parede como se fosse uma tela.
Permitir carburar as ideias, burilar sobre o branco limpo, o que se lhe assoma
no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a para o efeito. Ora desenha com o
traço fincado, ora risca com o desmérito que promove. Ambas resultam numa obra
digna daquela exposição. O talento jorra-lhe das mãos, dedica-se nas horas
desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a razão. Coloca música para
guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje que o talento é ocasião
para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas que lhe oferecemos.
Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa vontade com constância.
Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com todas as certezas,
despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos também. À viola
do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa escorreita e à poesia
que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que instigavam a fuga à
denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali, verticais, à espera
de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista em cima, mandou-me,
ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor. Rabiscar a parede como se
fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos rodeia. É aconselhar a percepção
intelectual. E deles, retirar o melhor.
22.3.17
Em diferido. #57
Bravo - Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele
gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos,
algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças
daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada.
Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me
agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha
vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido
beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e
a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da
altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda
hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as
vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais
amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca
como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem
de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem
qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel.
Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há
gajos do caraças.
22.2.17
Em diferido. #55
Compensação das coisas - Já se fez noite. Está frio. O sobretudo e
o cachecol quentes fazem as honras. O telemóvel não sossega. Ultimamos
pormenores. Nos pés levo New Balance,
numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos juntos, logo nos toma de
assalto a ideia de que começamos a ficar velhos. Podemos estar numa mesa de
restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num jeito meio snobe. A decoração
pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade exigida, o tom certo. Os
copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo como, noutra altura,
nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de longa data. Em
tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos noutras alturas.
Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa conversa que não
termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no carro de outro, a
lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar simpático ou numa discoteca
da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou menos tóxicos. E bebidas com
teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa e já não somos iguais.
Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se não soubéssemos. Um amigo
atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro já não aguenta fumar
presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro, esperto e atrevido
como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de volta, recebe um
valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe ajudava a cortejar.
Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por juventude. Ou, a
lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder
é motivo de conversa. Queremos saber das trocas. A noite já vai longa. Fica
tudo por sublinhar. Amanhã é outro dia. À noite, temos, de novo, a mesma
companhia. Até que um avião, um aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame
de novo. Novos ou menos jovens, somos gente feliz. Mais ainda, porque temos
amigos azougados, embora, donos de inteligência emocional e apostamos num bom
par de ténis.
20.2.17
Prosa para acrescentar algo ao que já foi dito.
Já
lá vão umas horas desde que se fez noite. Atrasos quotidianos, os compromissos
num atropelo, os encontros que não prevíamos, as confusões de um dia sem vagar.
As pessoas que deixam para amanhã mas querem para ontem. Já é noite, estou a
chegar. O caminho é escuro, longe da vista, perto da natureza viva. Guardo
ânsias para o reencontro. Iludo-me e parece que passaram anos, tão exagerado
quanto sentido. Foi ontem, numa metáfora que serve o passar dos dias. Um mês,
talvez. Ouvi, no trajecto, uma música que lhe ofereceria sem pestanejar.
Conduzir é libertador. Vejo-me próximo, o portão largo já está escancarado.
Sigo pela intuição. Voltar aqui é agarrar tantas memórias que não seria
possível largar num discurso só. Fomos felizes, entre os risos da idade e o
desespero da vontade. Os dias na piscina sob o sol ardente ou as noites de
banho de lua. Bebemos taças de bom vinho sem lhe dar importância, comemorávamos
a liberdade e a esperança. Na parede do quarto, fotografias ao acaso. Estava em
muitas. Felizes, sempre. Paro o carro, logo vejo a silhueta na minha direcção. Entra,
por fim, e o ambiente valoriza. Chega feliz, de sorriso rasgado, olhos bonitos e
de coração limpo. Trocámos um beijo com verdade, os olhos cruzam-se com demora,
as saudades em exibição. Gosto de ti, sei que lhe disse. Este é um prémio da
idade a contar. Facilito no momento de deixar fugir o quão gosto de alguém. Ainda
assim, só para os que vivamente importam. Gosto desta mulher profundamente
relevante há anos suficientes para não me enganar. No carro, não queremos senão
conversar. Viver é uma profunda chatice. E eu já tinha percebido. Ela lamenta a
efemeridade de tudo, o tempo a deixar-nos mais velhos e sem margem para
manobras excepcionais. Respirámos fundo. Chegámos ao destino. Rimo-nos sem
receio e não perdemos o olhar de vista. Vamos lá. Viver é tramado. Não nos
apetece. Rimo-nos outra vez. Um, dois, três. A idade corre, mas nós, embora não
mostremos sempre, somos os mesmos do primeiro dia em que partilhámos a carteira
da escola. Uma vida cheia. Não duvides.
6.2.17
Virente memorizar.
Rabiscar
a parede como se fosse uma tela. Permitir carburar as ideias, burilar sobre o
branco limpo, o que se lhe assoma no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a
para o efeito. Ora desenha com o traço fincado, ora risca com o desmérito que
promove. Ambas resultam numa obra digna daquela exposição. O talento jorra-lhe
das mãos, dedica-se nas horas desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a
razão. Coloca música para guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje
que o talento é ocasião para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas
que lhe oferecemos. Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa
vontade com constância. Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com
todas as certezas, despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos
também. À viola do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa
escorreita e à poesia que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que
instigavam a fuga à denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali,
verticais, à espera de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista
em cima, mandou-me, ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor.
Rabiscar a parede como se fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos
rodeia. É aconselhar a percepção intelectual. E deles, retirar o melhor.
7.7.16
Relação de intensidade.
O
calor traz gente. A nossa e a outra. Rumas a sul na expectativa repetida de
encontrares o mar no mesmo lugar, as ondas que vão e trazem, o sol no tempero
certo, os petiscos favoritos, os cheiros da época, a fruta vendida na berma, os
sotaques variados e ricos, os corpos com a devida cor, o pôr-do-sol na
cobertura, cujo nome chega-nos noutra língua. O humor condensa atrevimento,
alguma corrosão até, que aprecio. A bebida partilhada com o grupo certo. Os
amigos que regressam, as conversas que não perdoamos. Parte dos amigos de
sempre, outros que chegam por favor das relações. Os mesmos amigos das idas
para o Algarve diferente. Onde, afoitos, partíamos no desassossego da noite,
rumo à praia e não deixávamos à margem as boas e dinâmicas tertúlias. A casa
listada de amarelo e a outra de verde seco no cimo, o abismo sobre as ondas
revoltas. A aragem temperada, a areia húmida, as pranchas no mar. Um livro ou
outro. A piscina lotada. Paixões desmedidas. E rir sem parar. Inventávamos um
futuro, escolhíamos partes avulsas. Grande parte, na terça-feira passada, por
nós lembradas e relatadas com o devido entusiasmo. Ironicamente, numa qualquer
cobertura do verão algarvio, o outro, o mais comercial. Com uma piscina
discreta, porém, atractiva. De copo na mão, fervilharam centenas de relatos. E,
com maior ou menor prejuízos, colocámos as cartas na mesa. O futuro reservado é,
noutra escala, melhor do que havíamos imaginado. Ou, pelo menos, mais
diversificado. Coisas há, contudo, que não mudam. A praia mais sossegada, os
copos bem servidos, a visita ao melhor café da região e o jantar da praxe no
restaurante da nossa estória. E eu chego à praia, não poucas vezes, de paez e chapéu. O calor tem as devidas
oferendas. As nossas e as dos outros. E Portugal na grande final.
20.6.16
Vida ladeada de encontros.
Dei-lhe
os parabéns, um beijo e um sorriso. Talvez porque é agradável, simpática,
atrevida até na postura avessa e no discurso provocador. Também, na equação,
porque nos conhecemos desde os dez anos, se não me falha a memória. Fomos
amigos, partilhámos a mesma carteira nas horas dedicadas à matemática. Lançávamo-nos
para a bravura da disputa saudável no que aos números respeitava. Rimos do
professor um tanto calvo, outro tanto grisalho. Alto, naquela idade ainda mais
corpulento nos parecia, e dono do tiro certeiro. As balas, no caso, enviava-as
da boca, que não guardava sossego. Fico-me pelo apontamento, para não cair na
tentação de chegar ao demasiado gráfico. Fomos nos anos seguintes, embora na
mesma turma, na precisão da tenra idade, avançando noutros interesses. No fim
da adolescência, pela mão de amigos comuns, tornámos o contacto. Falámos, usurpámos
a esplanada que já era do nosso grupo bom e grande, rimos outra vez, bebemos
cerveja como se o mundo pensasse sucumbir. Não voltámos à estimulante luta de
números. Havia de perder eu, já reduzo a especulação. E, num desses harmoniosos
convívios contou-me que estava no curso de arquitectura. Isso e outros
pormenores, do curso e do pessoal que por lá andava. Entre um cigarro e outro e
mais outro, foi colocado prosa no ambiente. Usava decotes generosos, os lábios
coloridos, os olhos felinos e o cabelo perto do tom do fogo. Era, se quisermos,
uma excepção na imagem do grupo e o oposto da pequena com quem partilhei as
aulas da ciência do cálculo. E isso era para todos, sem falsas justificações,
indiferente. Guardámos, a dada altura, outra ausência. Voltámos a cruzar-nos,
já ela era uma arquitecta formada. Os mesmos decotes, os lábios igualmente
pintados, o olhar mais singelo e o cabelo mais sóbrio. Deu-me um beijo. Daí,
fomos sabendo um do outro pelas redes sociais. Eu mais, que ela aqui e ali ia
deixando cair uma selfie, e teve uma
relação fugaz com um amigo meu. No outro dia, em sentido inverso na mesma rua,
parámos. A propósito do aniversário, dei-lhe os parabéns. Agradeceu-me com um beijo
num lado do rosto e a mão no outro. Tivemos tempo para trocar alguns momentos,
olhou-me com calma e avançou que não perdi a magia. Mesmo noutra fase, mesmo
sem a outra rapariga. E que o intelecto aguçado ainda o trago no rosto
estampado. A verdade nela e a verdade dela sempre me interessaram. Por isso,
tantas horas dispensámos ao diálogo. Terminou dizendo que gostou de me ver, e o
meu nome foi o ponto final.
30.5.16
No gira-discos da tua casa.
Cruza
as pernas. Descruza as pernas. Volta a cruzá-las. Leva a mão ao cabelo
arranjado, todo puxado. Os olhos já são belos, ficam com a maquilhagem ainda
mais esbeltos. Os sapatos altos na outra mão. É admirável a confusão. O vestido
parece que voa e não tem descanso. Apetece-lhe da boca largar um palavrão.
Pensou no cigarro, mas já lá vai o tempo da iludida sensação. Aquieto-me, à
espera. Invento outro pensamento. Fotografo para passar o tempo. Os lábios
atraentes, no desenho da tentação. Fi-la ficar a preto e branco e liguei o
gira-discos. Tal como o aparelho, o disco do mais vintage. É maravilhoso guardar o retrato. Envia um beijo com a mão
e a postura é atrevida. Assim, neste frenesim, aconteceu neste dia e nos
restantes. Foi amor à primeira. Separação na data verdadeira. Ficámos amigos
para a vida inteira. E não me engano. Que o amor fora apertado e profundamente
sexualizado, mas a amizade é, no mínimo, um prazer danado. Talvez, também por
isto, não neguemos a admiração. E não desmentimos. Amar é partilhar. Mas não
será errado sugerir que amar é admirar. Pisca-me o olho desse jeito. E vamos
morrer com a amizade viçosa, a memória com genica e fruitiva prosa. E que nunca
nos falhe a música boa e o vinho de fina casta.
30.3.16
Ainda se dirigem escritos fechados.
Chegou
bonita, requintada, com sabor a curiosidade e adornada com a certeza de que o
conteúdo, em tudo, suplantava o embrulho. Ainda assim, a elegância, tal como me
lembro dela, está, em tudo, desenhada. Chegou esta manhã. Há instantes, numa
pausa, a minha irmã mais velha deu-ma para ler. Não nega o remetente, pensei. É
uma amiga da minha irmã de longa data, tanto que perdi a conta. Eu, na altura
um petiz, julgando-me cheio de prosa e piada naturais, conheci-a. E, sem razão,
entendemo-nos muito bem. A simpatia e maturidade fazem o feitio reluzir. Ela
fê-lo na medida. Lembro-me, numa das vezes, de ficarmos presos numa conversa
sem fim, numa qualquer discoteca lisboeta. De lá até hoje, fomo-nos cruzando
raras vezes. A minha irmã e ela mais, mas não tantas quantas as desejadas. A distância
rouba-nos demasiado, mesmo quando parece ridículo. Nasceu, algures nesta
ausência e tempo corrido, a troca de cartas entre ambas. Em todas, uma
referência a mim e um beijo enviado. Obviamente, peço que a minha irmã lhe faça
chegar as minhas intenções. Esboço, enquanto leio, um sorriso, porque, afinal,
ainda se escreve na língua materna e num português imaculado. Numa folha lisa e
com caneta. Embrulhada num sobrescrito. As memórias assaltam-nos, o presente é
contado e o futuro é imaginado. Agradeço sempre à minha irmã pela partilha. À
amiga também. Numa carta, chegam palavras repletas de simbolismo, que servem
aquilo que nos faz bem e desenham, no mesmo patamar, aquilo que nos incomoda.
Li felicidade na mudança e uma certa mágoa de um presente que lhe deu vida. Um
beijo e a inegável vontade de voltar a cruzar-me contigo, numa prosa e piada
igualmente naturais, com uma pitada de maturidade. E que me perdoes a afoiteza
de outrora e de hoje.
24.3.16
Reunião de gente boa.
Imagino Mozart a irromper, numa sinfonia completa. Entre vinhas vistosas e verdejantes. O soalho é terra de verdade, pisada pelos senhores sabedores e pelos analfabetos da situação. Corredores e mais corredores, tantos sem fim. Imagino galerias, que por ser lerdo, permito-me inventar e largar na mais profunda errata. As folhas têm toque de rainha abismada. E os cachos são límpidos e certos. O ambiente compõe-se, assim, ao jeito de uma sequela da sétima arte. Devolvemos a passada e é acontecimento de verdade. O horizonte é infinito e perdemos a herdade de vista. De costas para a quinta, imaginamos o norte, que os olhos já não alcançam a arquitectura esbranquiçada adornada com a pedra escura. Vamos ao jeito da vontade e da curiosidade. Conhecer e, se possível, aprender. Lá em cima, logo à chegada, um copo servido com o vinho que ganha fama de qualidade. O mote para aguçar a necessidade de saber mais. A convite de uma amiga, agora senhora erudita da vinicultura, lá fomos à descoberta. Lamento, sempre que o vinho partilha a atenção da refeição, não saber mais sobre os processos empregues na sua feitura, assim como, na evolução que o desenvolvimento da qualidade vem sofrendo. Foram, com certeza, umas horas de excelsa convivência e aprendizagem. A suficiente, espero, para não me perder numa próxima. A mesma amiga, cicerone de serviço, impecável na sua posição, foi-nos falando da actualidade. Desmente os rumores, não admite casamento. Largou tudo na cidade, o noivo, a apatia e a infelicidade. Pensar que esta jovem mulher fora, em tempos, vítima de uma relação absolutamente nefasta. Embora, recusasse o semblante lutuoso, foi, a dada altura, perceptível o mal que vinha causando. Física e, por demais, psicologicamente. Agora, brindámos ao sucesso, à vinha rainha e ao amor-próprio. De copos bem servidos, ao alto, rimos de muito. Neste instante, oiço Mozart e não me engano. A música de grau elevado favorece o guião. A ti, ao vinho bom e ao amor que é libertador. Cheers!
18.2.16
Compensação das coisas.
Já
se fez noite. Está frio. O sobretudo e o cachecol quentes fazem as honras. O
telemóvel não sossega. Ultimamos pormenores. Nos pés levo New Balance, numa tentativa de me lembrar que sou jovem. Estamos
juntos, logo nos toma de assalto a ideia de que começamos a ficar velhos.
Podemos estar numa mesa de restaurante. À nossa volta tudo arrumadinho, num
jeito meio snobe. A decoração pensada, os empregados bem vestidos. A cordialidade
exigida, o tom certo. Os copos altos, os pratos finos. A vista privilegiada. Tudo
como, noutra altura, nos aborrecia. No instante somos apenas quatro. Amigos de
longa data. Em tempos, fomos tantos. A vida leva-nos para longe. Junta-nos
noutras alturas. Podemos estar numa mesa de aficionados do chocolate, numa
conversa que não termina. Podemos, também, estar sentados no carro de um ou no
carro de outro, a lembrar e a rir de nós. E dos outros. Ainda, num bar
simpático ou numa discoteca da moda. Se possível, juntos entre fumos mais ou
menos tóxicos. E bebidas com teor. Sempre, a inevitável certeza de que o tempo passa
e já não somos iguais. Ficamos, a passos, mais velhos. Pesa, talvez. Como se
não soubéssemos. Um amigo atira que uma semana de folia lhe deixa marcas. Outro
já não aguenta fumar presentes como noutros tempos. O trabalho consome. Outro,
esperto e atrevido como um petiz, atira-se, desnudo, à empregada do hotel e, de
volta, recebe um valente grito. Já não é o tipo cujo diminutivo do nome lhe
ajudava a cortejar. Irónico não sermos, senão uns jovens tipos a reclamar por
juventude. Ou, a lembrar a força do que já experimentámos. O Tinder é motivo de conversa. Queremos
saber das trocas. A noite já vai longa. Fica tudo por sublinhar. Amanhã é outro
dia. À noite, temos, de novo, a mesma companhia. Até que um avião, um
aeroporto, um trabalho ou uma relação nos chame de novo. Novos ou menos jovens,
somos gente feliz. Mais ainda, porque temos amigos azougados, embora, donos de
inteligência emocional e apostamos num bom par de ténis.
14.12.15
A primeira letra.
Sentado
algures, oiço-te e vejo-te como se estivesses à minha frente. O tempo não
chega, aniquilo por completo o tempo, nunca a qualidade, para as relações que
vivem definidas pela distância. Procurares-me com a desculpa inusitada de que
queres relatar-me toda a tua experiência nas últimas férias no Dubai. É estranho.
A conversa demorou-se e, em pouco tempo, contaste-me o que achaste importante,
tudo menos as tuas férias. Depois de desligar, a memória que me falha vezes sem
conta, levou-me à nossa última estada fora de portas. Das nossas portas. Aconchego
os meus óculos graduados de ocasião e, longe, dou a falsa sensação de estar
presente. Chama-me, recorrendo à primeira letra do meu nome. Nesse instante,
nada. Não tinha espaço no pensamento, senão para o piano de cauda. A vontade
quase sôfrega de querer guardá-lo ali, perpetuá-lo nas nossas vidas. Imaginar
que é a maior descendência de umas mãos que, em tempo algum, negaram o talento
e a arte de se sentar, sentir e partir nesse trote de matizadas teclas.
Chama-me, outra vez, usando a primeira letra do meu nome. Então, respondi. E
menti. Nessa tarde, já o escuro ganhava, disse-lhe que acreditava nos romances.
Nos de encantar. Que acreditava nos beijos trocados sobre a areia molhada, com
cheiro a água salgada, sob o pôr-do-sol que tem tons alaranjados e corta a
respiração. Nessa tarde, longe de casa, partilhámos a varanda de outros,
passámos a mão pelo gato, companhia de soslaio. Tomámos algo e ela, com a cara
mais equivocada, confidenciou-me que lhe magoava a boca exagerada. Os lábios
grossos, carnudos rosados. Nessa tarde, depois de pousar o copo de vinha na
mesa baixa, fintei-lhe o olhar, roubei-lhe a confissão perfeita. Nesse hiato,
não menti. Garanti que não era defeito, era perfeito. A letra inicial do meu
nome fugiu-lhe da boca e daí vieram outras. Parcas, cheias. Um beijo muito bem
editado com os meus melhores cumprimentos. Para reservar voos que o meu nome é
este. Não acredito nos romances de encantar, talvez no primeiro beijo ao luar.
Gosto de ti assim, a partir de agora, o que se passa com o meu nome é o que se
passa com o meu coração. Uma letra para começar o que pode num grande amor
tornar-se. Foi o nosso momento. O piano de cauda em falta esteve na imaginação.
Inventei uma melodia qualquer. Guardei a verdade para ti. Fomos felizes assim.
Um dia a boca perdeu o sentido, a primeira letra o som ouvido. Guardámos uma
espécie de romance nas entrelinhas. Um livro de revisões e de recordações para
a vida. Rimos juntos. Avançámos a solo. No outro dia, quando me procuraste e lembravas
que o teu coração perdeu o objecto, não tive pena. Só respeito. Gostei de ti,
nunca menti. Volvidos anos, gosto de ti. Reinterpretados sentimentos. A boca
continua feliz, as dúvidas perdeste. Liga-me hoje. Sempre. Das relações, guardo
o melhor. Uma boca invejável, uma alma magistral. Um beijo, um copo de vinho e
a certeza de que o teu coração é forte, vai ganhar uma vida nova e estável. Um
príncipe sem título, crianças para a tua corte. Terminas como começaste, com a
letra que abre o meu nome. E amigos para sempre.
29.10.15
Dérbi (mais ou menos).
A
boa gente não se perde, tampouco se esquece. Os bons amigos partilham clubes
rivais, muito menos outras coisas. Discute-se sobre o Benfica, os seus e os
fracos resultados. Acredita-se com a fé de quem é adepto. Discutem-se medidas
que urgem. Não se maldiz, que cai mal. Mas pede-se coerência, mudanças no
terreno. Jogar-se nas quatro linhas com o poder e a confiança que se esquece
fora delas. Sugerem-se mudanças de posição, até mesmo de jogador. Lamenta-se a
actualidade, não se esquece o passado. Surgem gordas nos jornais, caras
lavadas, mãos sujas pelo que por elas vai passando. Lembrei-me, a propósito, do
antigo compincha de mesa de café, que lia o jornal todos os dias. Uma e outra
vez, se necessário. Que, bem me lembro, algumas letras e palavras lhe custavam
a entrar. Do Benfica, sempre o discurso mais sincero. A alma deste homem envolve-se
com a essência de adepto. Às vezes, de voz no tom certo, desdenhava as
actuações, mas não passava da necessidade de arremedar outras núpcias. Muito me
diverti com ele, nessas conversas avermelhadas sem fim. Nisto, fica-nos o amor
e a cabana. Havemos sempre de a eles voltar. Agora, em frente ao espelho. Ensaiei
o nó da gravata, mantive o colarinho subido. Cansei-me da ideia. Mas há sempre
quem mereça a pena justificada. Amigos porreiros, tipos convictos. Mesmo que
vista verde e branco e cante as suas razões. Nó impecável, fato escolhido a
dedo. Embora jogar. E que a sorte dite as regras de um futuro que se espera feliz.
Ide, ide.
14.10.15
Em diferido. #41
Vai
guiando os ensaios por onde quiser - Volto sempre lá. Ou voltava até ao dia em
que se mudaram. Que a cidade é bela e tem encantos sem fim, já todos sabemos.
Tem luz de casa real e prédios de decoração fina. Tem beicinho se não prometer
voltar. Sem ser preciso supor, tenho uma paixão sem fim. A cidade é fina e tem
lugares vários. Na mesma cidade, volto às visitas. Volto sempre. Agora, volto a
outro lugar, a mesma cidade. Antes, aqueles prédios enormes. Cá do asfalto,
antes do padrão português e do jardim trabalhado, olho para cima e parece que
nunca mais se endireita. É um indutor, tão sedutor, do pensamento. Lá em cima, numa
varanda larga, o cigarro de ocasião. A visão inversa, o mesmo sentimento, a
mesma sedução. Entre a conversa e a vertigem passageira, passa no asfalto uma
velha mulher. Se não me engano, vi-a todas as vezes que os visitei. Sempre a
passar naquela rua. De negro se tapava. Só lhe víamos o rosto. Tão cansado e
abatido. Um lenço negro a tapar-lhe os cabelos, uma saia negra pelo joelho. Um casaco
negro ou uma camisa no mesmo tom. Umas meias negras a esconder a pele. Curva,
parecia que nunca tirava os olhos do chão. Puxava, com as mãos que imagino
vencidas pelo tempo, um carrinho. Daqueles que servem para o auxílio das
compras. Era, sem falsas ideologias, a excepção daquele lugar. Chamou-me,
particularmente, a atenção. Todas as vezes. Nesse fim de tarde, a última vez em
que estive naquela casa, enquanto a velha senhora passava, perguntei-lhes sobre
ela. Não tinham muito para contar. Somente, que todos os dias arranjava um
canto para estender os livros e tentar vendê-los. Assim, o carrinho com duas
rodas era o armazém. Quão valioso o conteúdo, permiti-me pensar. Como na
literatura, a vida quotidiana é um ensejo permanente. Até à página final.
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16.7.15
Em diferido. #38
Tema
desenvolvido em verso. Prosa talvez - Em letras garrafais, o nome da sala onde
se pode ouvir música variada e guardada numa caixa que soa e ressoa pelo
espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas. Onde há fumo fictício e gente a
falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente e despidas. Pessoas
despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No cimo daquela porta
larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um emaranhado de letras,
que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que chama sempre um valente
concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos reunidos. Na mesma rua, no
lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem varandas curtas, tem janelas de
sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro, pé fora. Tem tectos desenhados.
Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a conversa antes de subir a
escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.
16.6.15
Estou à espera de um fado cantado.
As
ligações acontecem. Estamos todos ligados e os momentos sucedem-se. Levam
partes, trazem lembranças. Saímos para jantar, indecisos de primeira. Levamos a
vontade, perdemos a necessidade. Somos turistas de verdade. Aprecio os lugares sui generis, assim como, as pessoas.
Fora de qualquer padrão da rotina. E fico-me sempre por este lado. Faço,
inclusivamente, força para que a desarrumação física, intelectual ou outra, aconteça
e, claro, vença. Como naquele lugar, também ele desenhado ao seu jeito, com
fado a passar. Deixo-me fã e havemos de lá voltar. Logo me lembrei, por ser
impossível não enlaçar ideias, da avó de uma amiga. Mulher pequena, de corpo
macérrimo, olhar vincado e sorriso rasgado. Cabelo comprido, outrora negro como
a pérola, agora no tom copiado. Tem raça, a senhora cantadeira. Veste saia
comprida e camisa branca, não dispensa os saltos altos, brinca com os anéis nos
dedos eleitos. Os brincos generosos destacam-se junto ao pescoço esguio. Tem
raça, a dona. Pensei, isto mesmo, no dia em que a conheci. Foi-me apresentada
há uns anos, pela neta, e o discurso denunciava que estávamos perante uma
mulher com percurso e história. Não me enganei, que vim a ter o prazer de a
ouvir. Conversas que, sem mazelas, ficaram monólogos requintados. Dignos de
subir às tábuas. Deixei-me ficar, todas as vezes, a escutá-la. Como todos. E,
quando era pertinente, questionava-a. Respondeu-me sempre. Acredito, com a
sinceridade na voz. Numa dessas conversas demoradas, no ar livre cá de casa,
deixou escapar que canta. Cantava, ou cantou. Que perdeu a definição, tamanha a
dor de não fazer da voz uma profissão. Um marido com uma posição que não se
movia e um tempo que não era este. Canta, disse a neta. De outro jeito não
seria, pedi-lhe um fado. À capela, monstruoso desafio. Largou uma risada e
levou as mãos ao céu. Não, não, disse-me enquanto negava com a cabeça e sorria.
Adiámos o espectáculo de jardim. Nas vezes que se seguiram, voltou a adiar.
Será numa ocasião feliz e importante da neta. Vou esperando. Já lá vão uns meses
largos, desde a última vez que estivemos juntos. Está frágil, conta a neta.
Manda cumprimentos e nós devolvemos. Continuo à espera, obviamente. Que há
fados que têm tempo.
26.5.15
Vai guiando os ensaios por onde quiser.
Volto
sempre lá. Ou voltava até ao dia em que se mudaram. Que a cidade é bela e tem
encantos sem fim, já todos sabemos. Tem luz de casa real e prédios de decoração
fina. Tem beicinho se não prometer voltar. Sem ser preciso supor, tenho uma
paixão sem fim. A cidade é fina e tem lugares vários. Na mesma cidade, volto às
visitas. Volto sempre. Agora, volto a outro lugar, a mesma cidade. Antes, aqueles
prédios enormes. Cá do asfalto, antes do padrão português e do jardim
trabalhado, olho para cima e parece que nunca mais se endireita. É um indutor,
tão sedutor, do pensamento. Lá em cima, numa varanda larga, o cigarro de
ocasião. A visão inversa, o mesmo sentimento, a mesma sedução. Entre a conversa
e a vertigem passageira, passa no asfalto uma velha mulher. Se não me engano,
vi-a todas as vezes que os visitei. Sempre a passar naquela rua. De negro se
tapava. Só lhe víamos o rosto. Tão cansado e abatido. Um lenço negro a
tapar-lhe os cabelos, uma saia negra pelo joelho. Um casaco negro ou uma camisa
no mesmo tom. Umas meias negras a esconder a pele. Curva, parecia que nunca
tirava os olhos do chão. Puxava, com as mãos que imagino vencidas pelo tempo,
um carrinho. Daqueles que servem para o auxílio das compras. Era, sem falsas
ideologias, a excepção daquele lugar. Chamou-me, particularmente, a atenção.
Todas as vezes. Nesse fim de tarde, a última vez em que estive naquela casa, enquanto
a velha senhora passava, perguntei-lhes sobre ela. Não tinham muito para
contar. Somente, que todos os dias arranjava um canto para estender os livros e
tentar vendê-los. Assim, o carrinho com duas rodas era o armazém. Quão valioso
o conteúdo, permiti-me pensar. Como na literatura, a vida quotidiana é um
ensejo permanente. Até à página final.
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