Não
me canso de gabar a sala de pé direito alto e elegante, o soalho de madeira
pesado que não deixa a desejar. As portadas largas, brancas como a decoração.
Os vidros, no fim-de-semana de Novembro a findar, ganham pingas a desenhar. A rua
fica lá em baixo, como se fosse a terra a definir. E gosto de ler, mas escolho
o sossego. Não é o caso. Agora, servem-se cafés e infusões. Não é chá porque
vem em latas reinventadas. Biscoitos e scones da padaria que agora é costume. É
um desenrolar de conversas sem fim. Sartre é tema em cima da mesa. Opiniões que
não se medem na informação vazia que percorre o mundo de circunstância. Antes
dele, falámos de Carla Bruni, recordações do seu tema “Tu es ma came”. Logo alguém se lembrou da letra e a cantarolou.
Mais depressa correram ao vídeo online e a saudade voltou. Fazemos da
informação e da canção o que delas nos aprouver. Caso não resulte, problema
resolvido. Compras mais infusões cuja marca nacional os reinventa e oferece
novos sabores. Serves, por fim, de bandeja com os sonhos e os dissabores.
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24.11.14
27.10.14
Senta-te comigo e aprecia.
Gosto,
se possível, de acompanhar as lides profissionais, depois das pessoais, dos
meus amigos. Parte deles é arte em cada decisão. Sem necessidade de segurar
verdades e métodos absolutos. As redes sociais amancebadas com o plural e a
pluralidade do iPhone e do iPad desta vida. Da forma de viver tão actual,
instantânea e, por razão da última, instável. Sem desdém, pois acabei de ver
inspiração em estado físico. Através das redes sociais. Já devo ter falado
sobre isto. Algures, se não ultrapassei o consumo das ideias e não perdi a
última porção de energia e memória. Porque é relevante ver a intelectualidade
desenhada em grandes telas. Essas, as telas grandes, podem, sem prejuízo alheio
e patrimonial, ser um muro desgrenhado ou uma parede velha e gasta, onde não
sobra nada senão restos de uma tinta de massas, um branco que já não é. Rei da
tela, altruísta em sessões. E é quase perturbadora, essa dicotomia. Esta minha
amiga, por quem ultrapasso o cordial experimentar sentir coisas boas, renovou
uma parede. Nasceu, algures numa cidade que já ouvi apelidar de feminina -
Lisboa, curvas e postura de mulher que canta a canção da melancolia. Sussurra a
visão com pintas. É artista de rua, esta cidade – uma parede de gesto delicado.
De verdes e imponentes imitadores de um tecido natural. A natureza de folhas
vivas, onde nem o orvalho da neblina matinal fica esquecido. E, contrariando
alguns momentos de opinião em caixa, simpatizo com a facilidade de estar ao
lado de alguém. Mesmo que tenhas ido procurar outras luzes. Quando voltas, é
como se sempre tivesses visto a evolução. Porque te sobram o motivo e a
motivação.
20.10.14
O amor tem uma imagem em cada vivência.
Quando
era bem petiz, desenhar nos vidros pálidos da humidade era entretenha de
momentos mortos. Fazíamo-los vivaços e soberbos. Obrigávamos, se preciso, a
base de quem queria desenhar, a ficar tal e qual necessário. O inverno parecia
que entrava no jogo. Por isso, a sazonalidade trazia a lembrança. Não sei ao
certo, porque me lembro disto agora. Na verdade, antes de começar a escrever,
pensava na realidade que um amigo me contou. Está longe, algures nos meandros
de um país, embora, europeu, com oportunidades guardadas. Mas esse é o lugar, que
aqui é um pormenor de somenos. Ele contava-me que o amor era uma estratégia inútil.
Por mais que inventes e organizes as tuas vontades, misturar-se-á sempre o
descalabro do que guarda o teu corpo. O corpo pode tomar a condução da
entretenha, em detrimento, claro, da vontade de uma cabeça insegura e pouco capaz
de gerir, a partir da base, uma convicção. E continuou no desfio das questões
que lhe vêm roubando tempo. Não cedeu, por entender que assim devia ser. Havia,
contudo, um corpo a provocar. O seu. Porque as relações terminam. É o caso.
Agora, dizia-me ele, não se arrepende de ter castrado a aflição de ir mais
longe no ânimo que o corpo lhe oferecia de quando em vez. Questionar-se, por
seu turno, melindra-lhe a dor de ter gostado. Perguntou-me, por fim, a minha
opinião. Era grande o suficiente para não lha dar por escrito. Pequena,
porventura, capaz de se resumir a silêncio. Sinceramente, não importa o que lhe
disse. Mas uma coisa é certa, nos tempos e/ou momentos mortos, havemos sempre
de ter outras soluções. Ainda que, em algum momento, nos possam ter parecido
tão rudimentares.
13.10.14
Molhado e com um certo brilho.
Fala-se
de educação, dos tipos de educação. Os pais que conheço lêem até ao sufoco. No
final, voltam a questionar tudo e todos. O excesso consome as gentes. A míngua
rouba oportunidades. A infância alimenta-se do que lhe dão. A minha foi cheia e
feliz. Reproduzem-se, contudo, actos, factos e misturam-se ensinamentos. Por
demais quando a redoma é vigorosa. Sinceramente, por mais que esforce, não
consigo lembrar-me da última vez que andei à chuva. É pertinente. Questionável.
Até à semana passada. Involuntariamente tive de me fazer ao caminho, sob a
chuva copiosa. Juntamente com quem me acompanhava. Andar sob as pingas grossas
passa rápido e dá vontade de rir. Mesmo que chegues ao destino tão molhado que desejes,
somente, praguejar sem fim. Andar sob a chuva é daquelas coisas que cedo levam
para longe de nós. Depois experimentamos e percebemos o que está guardado.
Escrevo isto, devo assumir, para voltar a ler já de seguida, e em todas as vezes
que lhe sigam, quando tiver de atravessar a porta e esforçar-me por passar por
entre os pingos da chuva.
23.9.14
Deliberação na despedida do verão.
Os
jardins improvisados fazem as vontades de quem quer uma festa ao final do dia.
Os jardins de casas que guardam espaço para o convívio, são uma oportunidade de
convergir vontades e necessidades. Os anos que gastaram a arquitectura e a
fachada requintada, agora recuperadas, são um privilégio. Um convite que foge
do papel. Do envelope, não fugiu o jardim. Agora tem cor celeste ao fundo. E
soa do rádio que tem graça, uma voz que fala em paraíso. E amor. Definições dissonantes,
assim alguém as ouse separar. Na língua estrangeira, que sossega os temores
alheios. E acomodamo-nos por ali. Sentados, a conversa não sossega. De pé, os
cumprimentos e os relatos de quem viveu. O tempo passa, mas não apoquenta as
ligações. Mesmo que, irremediavelmente, alguém se perca na ausente mensagem na
rede. Sejam palavras, gostos ou fotografias marcadas. Lixam-se, sem darem por
isso. Para isso, servem os compinchas de sempre. Recusem ligação à corrente.
Logo a seguir, o verde nunca havia ligado tão bem com o azul. A festa
continuou. Agora, gritam do mesmo rádio, que amam os sonhos em maré de
tristeza. Numa tradução tão livre como a das restantes metáforas.
17.9.14
Apontamentos de outros tempos.
Lembro-me
de ler, ainda petiz, algures num livro de desfasada atenção para a tenra idade,
que o amor era pertença dos adultos, por serem precisas armas para o fortalecer
e, acima de tudo, entender. O autor havia de ser lido por um número sem fim de
fiéis a este sentimento. Afinal, é
conversa de quem se assume um perdido nesta arte. Dos outros também se ouve,
muda a postura, passa a inquiridor. Falar sobre o amor é sobrenatural. Todavia,
fala-se de amor em cada canto. Persistindo, contudo, que o amor seja um
desenrolar de audições mal conseguidas. Se partirmos do ponto primeiro. Pode,
por seu turno, ser a mais proveitosa e fiel audição. O descarrilamento vem
depois. Escrevo sobre isto depois de falar com um amigo. E de ouvir relatos de
uma amiga. Ele, feliz numa audição que muitos ditaram amaldiçoada. Ela, nos
escombros de uma relação que prometia o melhor dos desfechos. Falar de amor não
cansa, só pode ser essa a justificação. Porque não cansa discutir a humanidade,
os seus inevitáveis destinos e os sinais do que lhe é intrínseco. Aos dois, a
maior e melhor das sortes. Atenção, não escrevas tudo o que lês. Ou vês.
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15.9.14
Assento de espera.
Um
banco de jardim, numa noite destemida, pode ser a equação de um grupo.
Juntam-se pessoas, num jardim da cidade, com o propósito de esperar e trocar
prosa. Noite longa não tem preceito. Tem a alegria e a sinceridade no peito. Saiu-lhe
a sorte grande. Como que dando elasticidade à sorte. Ao lado, sugerem que a
sorte não se mede. Acontece. Ou surge, ou nunca vem. Ou constróis, ou alguém
foge com ela. Ou trabalhas como se o mundo respirasse no compasso em que te
desenvencilhas na corrida pela sorte, ou perde-la para sempre. Para um sempre
que tem elástico como a sorte. Ao lado, um indivíduo desmente. O sempre não tem
tamanho. Tem distância. Saiu-lhe a sorte grande de saber esperar. Sempre e pelo
sempre eterno.
28.8.14
Em diferido. #16
O
verde alface, quase um ano volvido - Do tilintar da campainha, surge a rigor o
homem que carrega o correio. De porta em porta. De rua em rua. De estação em
estação. Carrega-o envolto. Prenhe de notícias. Procura os números e moradas.
Os que ainda não reconhece. Entrega-o. É o fim. Do que lhe compete. Na caixa do
correio de casa, protegida da chuva que, ora carrega, ora alivia. Guarda uma
encomenda. O remetente é simpatia, amizade. Também é educação de primeira e
intelectualidade sem esforço. É o compromisso de não esquecer, mesmo que a
distância leve a melhor. Os notebook
são uma referência. São o esquecer fingir. São memórias riscadas. Assinaladas.
Assinadas. Embrulhado, estava um. Vizinho do livro que guarda apontamentos,
estava um envelope, verde alface. Dentro, palavras sinceras e causadas da
saudade. Termina com um cumprimento pejado de afecto. Sem peças do maquinismo.
Cativado. E grato.
4.8.14
De soslaio num Algarve de agitação sem fim.
Praia,
sol de quando em vez, esplanadas carregadas de gente, conversas e bebidas
frescas, uma típica aragem de fim de tarde num dia de céu mais buliçoso. Pelo
Algarve de pessoas sem fim. No Algarve que vive o ano inteiro, mas exprime
excelso movimento por esta altura. Verão quente, como dantes. Verão desregrado,
como agora. Chegados ao portão grande, aguardamos que a câmara de vigilância
nos anunciasse. Aguardamos no carro. Havia sossego, do que nos era possível
entender. Contudo, esperar-nos-ia uma festa. Por fim, abriu-se o portão.
Entramos. Fomos recebidos e convidaram-nos a entrar. Bem-vindos, desfrutem. Disse-nos
o dono da casa enquanto nos encaminhava para o jardim, um patamar acima da
piscina. As colunas estrategicamente colocadas pelo espaço, salpicavam o
ambiente. O resto, quando for propositado, saber-se-á. De qualquer modo, não
deixou de ser um agradável amuse bouche
para o aniversário que se seguiria. Algarve, mar de qualquer destino.
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24.7.14
No resto do mundo.
Aterrar
em Portugal tem outro sabor. Gabam-lhe, um sem número de vezes, a luz. E têm
razão. Outras vezes não esquecem a simpatia de quem os recebeu. A qualidade do
que é tão típico também merece elogio. Quando pisar terras lusas é regressar a
casa, dizem que não se explica. Tanto mais quando se vivem vidas fora deste
país. Quando se adoptam lugares e características, quando se permitem deixar adoptar
por gentes da terra e por definições de vida mais aprazíveis. Sabíamo-lo de
regresso, por uma semana apenas, mas sabíamo-lo por terras lusas, num regresso
de desejo e saudade. De cessar as saudades. De matá-las por força dos afectos e
vozes que o recebem. Sempre. A distância não é a maior. É longe da cultura, da
língua e das gentes. Da localidade e da hospitalidade que o formaram. É o
vestígio de um grau ou degrau que dá permissão para descobrir o mundo. O resto.
15.7.14
Em diferido. #13
A
ver a banda passar - As cidades grandes, de resto, como as pequenas, noutra
proporção, são um espelho da sensatez ou do desaire do seu povo. Aquele pedinte
apoderou-se da esplanada quase despida de gente. Debaixo daquele sol forte de
verão a antecipar datas, sem chapéu que lhe valesse. Nem por isso, despido de
roupas. O corpo que carrega pelas ruas, tantas vezes de mão estendida, é o seu hall de entrada, é a sua sala de estar,
a cozinha e o quarto. É a cadeira de cada divisão e a cama em que faz de conta
que dorme. É, também, a sua varanda e o seu jardim. Não deixa de ser o
roupeiro, a porta e as janelas. Por tudo isto, guarda em casa, na que é
possível chamar de sua casa, a roupa que lhe resta. Sob aquelas temperaturas e
a torreira do sol, vestia calças grossas, botas invernosas, casaco de ganga,
camisa de tecido felpudo, ainda um lenço caído. De mão dada com o preconceito e
a insensibilidade, fingiram convidá-lo a sair. Anuiu, cabisbaixo. Mas, como nem
toda a gente se limita a ver passar a banda, alguém que nos acompanhava,
perguntou-lhe se precisava de alguma coisa. Tenho bons amigos, felizmente. O
jovem pedinte disse que não. Ela insistiu. Fome. Só queria comida. Faltava-lhe
comida naquele corpo. Naquela casa. Longe da mediocridade, ofereceu-lhe comida
e bebida. O rapaz estava perplexo, no rosto questionava a amabilidade. Porquê,
havia de se perguntar lá dentro. Agradeceu sempre. Mais e mais. Seguimos
caminho. Ainda voltamos, para a nossa amiga lhe dar uma última coisa. Já não o
vimos. Fechou-se em casa. Na sua casa, e seguiu caminho.
7.7.14
Tema desenvolvido em verso. Prosa, talvez.
Em
letras garrafais, o nome da sala onde se pode ouvir música variada e guardada
numa caixa que soa e ressoa pelo espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas.
Onde há fumo fictício e gente a falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente
e despidas. Pessoas despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No
cimo daquela porta larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um
emaranhado de letras, que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que
chama sempre um valente concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos
reunidos. Na mesma rua, no lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem
varandas curtas, tem janelas de sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro,
pé fora. Tem tectos desenhados. Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a
conversa antes de subir a escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.
30.6.14
Escolhe uma cor.
Constantemente
não é óbvio, remédio que convém à torção de um músculo que já não ensaia. Na
terra batida encontramos tudo. As botas com desenhos distraídos da terra
fugidia, os botins de todas as estrelas, os ténis de corrida, os ténis com a
marca adornada no desenho da mais recente moda, os sapatos assimétricos, também
os clássicos e, imagine-se, os chinelos e os saltos. No pé de cada nome,
naquela terra batida, olhamos de tudo. Tanta gente junta, tanta diversidade
feliz. Calca-se a terra a cada passo adiante. Tanta gente reunida. Fazem-se
grupos de amizade. Amigos e conhecidos em roda. Risada, conversa e gargalhada.
Mas há sempre quem nos arrepie. A pele ganha outra textura, um toque de relevo
robusto da sensação desprevenida. E ficamos a vê-la. E ficamos a ouvi-la. Só me
interessa se tiver passagem desligada de repetidas imagens. Na terra batida
sustentam-se relações. Investem-se razões para conhecer quem és.
26.6.14
Alheios à pressão.
Na
norma acontecem, felizmente, excepções. Desconfio de coincidências. Algumas, para
não ser tentador generalizar. Factos há que nos parecem tão palpáveis e
irrevogáveis que, jamais, lhes colocamos no eixo das coincidências. Ironia, quando,
precisamente, no seguimento do primeiro jogo de Portugal neste mundial de
futebol, ou seja, frente à Alemanha, me chegaram fotografias de outros tempos.
Coincidências à margem, chegaram-me, justamente, da Alemanha. Minutos depois do
desditoso resultado. Em dia da derradeira oportunidade, lembro-me disto. Tenho,
por esse mundo, amigos espalhados. No caso, amizade de infância, de corpos
delgados e travessos nas mais ímpares e desalinhadas aventuras. As saborosas
descobertas de então. Gaiatos de linguagens aprendidas no minuto. O português e
o alemão misturados para forçar o discurso, comunicação. Funcionava para a
argumentação que íamos experimentando entre divertimento. Entendíamo-nos na
perfeição. A cada vinda a Portugal, estávamos juntos. Relação que já vinha de
trás, dos nossos ascendentes que, de forma tão natural, mantivemos. Devemos
ter, em momentos vários, tirado fotografias. Naquele dia, chegaram-me duas.
Talvez, em jeito de palmada nas costas, da desdita compreendida. Digo, porque
desconfio de coincidências. Gostei de recebê-las. Numa, de máscara a rigor, o
tormento de me vestir de outrem. Na outra, todos juntos na piscina lá de casa.
O critério tem desvios. Tenho alguma dificuldade em olhar as coincidências.
Mesmo quando não uso da generalização, desconfio. O que acabo de escrever
serve-se, em pontos concretos, da ironia. Gostei de recordar. Gosto de ter
amigos com memória. E, já agora, de me saber amigo de gente com compaixão
futebolística.
18.6.14
A ver a banda passar.
As
cidades grandes, de resto, como as pequenas, noutra proporção, são um espelho
da sensatez ou do desaire do seu povo. Aquele pedinte apoderou-se da esplanada quase
despida de gente. Debaixo daquele sol forte de verão a antecipar datas, sem
chapéu que lhe valesse. Nem por isso, despido de roupas. O corpo que carrega
pelas ruas, tantas vezes de mão estendida, é o seu hall de entrada, é a sua sala de estar, a cozinha e o quarto. É a
cadeira de cada divisão e a cama em que faz de conta que dorme. É, também, a
sua varanda e o seu jardim. Não deixa de ser o roupeiro, a porta e as janelas. Por
tudo isto, guarda em casa, na que é possível chamar de sua casa, a roupa que
lhe resta. Sob aquelas temperaturas e a torreira do sol, vestia calças grossas,
botas invernosas, casaco de ganga, camisa de tecido felpudo, ainda um lenço
caído. De mão dada com o preconceito e a insensibilidade, fingiram convidá-lo a
sair. Anuiu, cabisbaixo. Mas, como nem toda a gente se limita a ver passar a
banda, alguém que nos acompanhava, perguntou-lhe se precisava de alguma coisa.
Tenho bons amigos, felizmente. O jovem pedinte disse que não. Ela insistiu.
Fome. Só queria comida. Faltava-lhe comida naquele corpo. Naquela casa. Longe
da mediocridade, ofereceu-lhe comida e bebida. O rapaz estava perplexo, no
rosto questionava a amabilidade. Porquê, havia de se perguntar lá dentro.
Agradeceu sempre. Mais e mais. Seguimos caminho. Ainda voltamos, para a nossa
amiga lhe dar uma última coisa. Já não o vimos. Fechou-se em casa. Na sua casa,
e seguiu caminho.
28.5.14
O meu amigo C.
Ontem,
já o dia ia longe, o escuro avisava a distância, lembrei-me do meu amigo C. Nem
sei bem porquê, não encontro justificação, porque pensar em alguém não tem
razão, senão quando fora induzido. Porventura, porque não lhe ouço as estórias
há uns meses valentes. Mas rebentou-me nas lembranças, primeiro a sua imagem,
depois o seu movimento frenético, por fim, o seu nome e os discursos sem fim. O
meu amigo C. tem sete anos. Sete anos de uma desenvoltura de raciocínio
bastante pertinente. Conheço o pai, fui colega de escola dos tios, um sem
número de anos. Um lugar, a dada altura, convidou-nos à convivência. Umas vezes
seguida, outras tantas compassada. Não consigo, porque me falha a memória, perceber
como nos aproximámos. Talvez, pela mão da minha irmã mais velha, rainha entre
os miúdos. Desenvolveu-se uma narração feliz de amizade. É um conversador nato,
não guarda a opinião nem as questões que lhe assaltam a cada momento. Não tem a
maior simpatia pela dinâmica da escola, prefere o desporto escolar. Ainda
assim, arrisca os números. Distancia-se das letras. Aprendeu cedo a contar. O
raciocínio imediato é-lhe característico, não posso deixar de repetir. Os jogos
inventados conforme as suas valências, fá-los acontecer, se preciso, ao redor de
uma mesa. Pede a novos e velhos que entrem na brincadeira. É guarda-redes num
clube da zona. Relata-me cada jogo com entusiasmo. Não esquece os detalhes,
usando da expressão corporal, em precisando, para ilustrar a jogada. Também
falha, diz-me ele. Deixa entrar golos. Às vezes, perdem. Mas volta sempre,
treina ainda mais. Usa óculos. Tem dificuldade, como é apanágio da idade, em
manter-se sossegado. De quando em vez, pede-me o telemóvel para jogar. Quer
entrar numa corrida de pontos. É um fã maior do Benfica. Assiste aos jogos,
quantas vezes, no estádio. Onde grita e canta em voz esforçada cada cantiga de
homenagem. A última vez que nos cruzamos, vinha a fugir, tomando a rua, o pai
ao lado. Reparando que eu estava no lugar do costume, parou, entre a porta,
gritou o meu nome e perguntou se eu estava bom. Gritei-lhe, de volta, o nome.
Está tudo certo. É o meu amigo C., de sete anos. Porque, desde sempre, sei que
os amigos não têm idade.
27.5.14
Perdoem-me a excessiva referência à pão de forma, mas faz-me todo o sentido.
Quando
petiz, um tanto antes da adolescência e durante a mesma, ainda os tempos nos
pareciam eternos e, embora, fossemos rapaziada consciente, a nossa inexperiência
convidava-nos à perpetuação de uma ideia materializada de um sonho típico, onde
nada ousaria, sequer, beliscar as nossas vontades, ideologias e acções.
Contentávamos conversa com a certeza de que havíamos, mais adiante, de ter uma
pão de forma. Não importava a cor, a quilometragem. Chegava-nos o acontecimento
de ganhar a maioridade, de passar a tangente. De ter, de facto, os tão afamados
dezoito anos. Acontecer-nos-ia a fortuna de correr mundo. De conhecer pessoas,
espaços e arquitecturas, convicções religiosas, terra sem fim, línguas e
linguagens de outros. Sem provas, mas convictos, seria uma viagem sem data nem
fim. Onde, à vez, um de nós abriria caminho ao volante. Voltados estes anos,
que já passaram a perna aos dezoito, não tivemos uma pão de forma, nem viajamos
como desenhamos. Mas faz memória eterna. No domingo passado, falava com uma das
sonhadoras desta viagem, não falámos da pão de forma, mas repetimos a idade que
temos e da necessidade de ter juízo, como se fosse, uma vez mais, por metas.
Aos dezoito anos a pão de forma, agora o juízo. E respondi-lhe que há coisas
que não mudam. Seja qual for a idade que nos pesa. Nem tivemos a pão de forma
na idade que sonhamos, nem alteramos a faculdade do discernimento quando nos
dizem que tem que ser. Imagine-se, deixar de sonhar, apenas e só, porque nos
falhou aos dezoito anos.
26.5.14
Ensejo propositado.
Aquele
movimento frenético, tantas vezes, lhe sentimos a falta. A forma possuída como
a cidade grande, de tão impaciente, consegue, roçando a convulsão, gerir o quão
rabugento que é o marchar daquele lugar. Quando não estou, por temporadas, em
Lisboa, falta-me esse ademane social. Nunca estou o tempo suficiente. Longe,
ganho-lhe saudades, da cidade e da impaciência que afasta o vagar. Por seu
turno, voltar às raízes de um espaço mediano, oferece-me o descanso da
serenidade beliscada meigamente pelo espancar do quotidiano. E, entre tudo
isto, julgando que nada tem que comparar, lembro-me das relações. Entre
pessoas. Do amor e do desamor. Da amizade e da desamizade. Do afecto e do
desafecto. Como que as sentando rivais. Afastando qualquer cotejo. Desde logo,
refuto qualquer maneirismo de psicologia enviesada com filosofia de mesa de
café. Mas, tal como, os lugares, as pessoa ganham estratégias de viver e
sobreviver. As relações, se quisermos, espelham factos do nosso reflexo nos outros.
Se me ofereces excitação ou se me desenhas experiências quentes mas serenas.
Somos aprendizes. De qualquer lado da barricada. Mesmo e, sobretudo, se
mudarmos de azo.
16.5.14
Um amigo sujeito à ventura.
Feliz
de quem tem ginástica intelectual para escolher, em conformidade, ser feliz. A
perfeição junta as palavras e as imagens. Às vezes, proporciona encontros entre
pessoas que se colam na personalidade e ganham vida daí em diante. Por força da
experiência que é extravasar. Mas, porque persiste, fazemo-lo, apenas, a seguir
ao efeito de ter realizado. Um dos meus mais próximos amigos contava, desde
tenra idade, que a sua vida seria como vinha idealizando. Não se justificaria a
ninguém, mas responderia, ao invés do comum, do uso das palavras, com um
sorriso gigante. Todos lhe apontam essa qualidade, nunca desiste e sempre
insiste em devolver um sorriso. Haveria de correr mundo, de desleixo no corpo e
de ganas na alma. Procrastinou por obrigação. Contudo, em cada encontro de
amigos, ou em conversas isoladas, voltava o discurso e a sede de viver como criou
na imaginação, de voar sem destino, de conhecer outras raízes, de brincar com a
novidade e de quando em vez esquecer o enfadonho e o espartilho de cada dia
aqui, num país e família castradores. Afiançávamos-lhe, então, rijeza e apoio
no compromisso. Foi carregando a ansiedade. Até que, chegado o encontro de
condição, largou tudo e foi embora. Avisou, somente, uns quantos. Onde me
incluo. À família prometeu que eram uns dias de férias. À antiga namorada
agradeceu o carinho e a entrega, a disponibilidade de tantos momentos. Deixou
quantos e quanto lhe fizeram passado. Entrou no avião, devolveu sorriso. Já lá
vão uns bons meses, mais do que um ano, ainda menos que dois. Sentimos-lhe a
falta. A família roça a tentativa de rogar-lhe pragas. Pela ingratidão,
justificam-se desse modo. Ele, pelos diferentes meios, vai fazendo chegar-nos a
sua experiência. As vivências que guardou, só para si, antes mesmo de saber, no
íntimo do seu interior. Relata-nos, de viva voz, as peripécias mais
convidativas, outras que superam o surreal. As fotografias com que nos vai
brindando falam por si. Entre paisagens sem classificação, de tão belas e
imponentes, e ele que as usa como décor. Mantém o sorriso rasgado. Ainda mais.
Um dos meus amigos mais chegados teve a ousadia de riscar. E arriscar. Num
período em que o país carrega problemas de várias frentes. Numa altura em que
tudo tira a esperança. Sujeitou-se ao risco. Hoje é francamente feliz e
realizado. Cumpriu um sonho de raiz. Voltará um dia, sem data. E, tem a
certeza, vem para mudar e cortar com tudo o que o impediu de sonhar.
9.5.14
Chama-se Margarida e recusa roubar a identidade ao tom, negando chamar-lhe de encarnado.
A
Margarida é a memória e as lembranças de infância. De uma infância feliz e fornecida
de tudo o que nos balizava a felicidade, daquela época em que por mais que a
cronologia nos falhe, não perdemos a identidade de outros tempos. Ela é a
descoberta da capacidade de gerir, ainda que não se aperceba, a educação
centrada e espartilhada de uma família típica daquela região, com a azougada
necessidade de se imiscuir com o restante. É tímida e intrometida em
simultâneo. Fala de jeito suave, mas ri com sede. Escolheu que as amizades não
têm nivelamento. Escolheu, ainda no tempo em que não se media, não ludibriar
factos. Senta-se com quem for. Conversa com quem lhe oferecer palavra. Temos,
precisamente, a mesma idade. Crescemos desde lá atrás. Desde a altura em que as
varandas do andar superior das nossas casas se olhavam de frente. Hoje em dia
pousa para as câmaras fotográficas. De pernas esguias e compridas, o décor a
rigor, a ventoinha sem parar, o cabelo de um tom castanho mel a esvoaçar. O
vestido da cor que não gosta, mesmo que lhe chame vermelho ao invés do
encarnado de outras lides. Os saltos altos de uma marca de influente atracção.
A pose intuitiva. Os flashes na frente. O rosto maquilhado e luminoso. Neste
instante é tão real como quando despe o vermelho, abandona os saltos altos, lhe
desligam a ventoinha e despede-se da objectiva. Porque, acredite-se ou não, há
sempre quem não recue no momento de fazer a diferença. Boa sorte!
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