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24.11.14

Algures num sumptuoso lar.

Não me canso de gabar a sala de pé direito alto e elegante, o soalho de madeira pesado que não deixa a desejar. As portadas largas, brancas como a decoração. Os vidros, no fim-de-semana de Novembro a findar, ganham pingas a desenhar. A rua fica lá em baixo, como se fosse a terra a definir. E gosto de ler, mas escolho o sossego. Não é o caso. Agora, servem-se cafés e infusões. Não é chá porque vem em latas reinventadas. Biscoitos e scones da padaria que agora é costume. É um desenrolar de conversas sem fim. Sartre é tema em cima da mesa. Opiniões que não se medem na informação vazia que percorre o mundo de circunstância. Antes dele, falámos de Carla Bruni, recordações do seu tema “Tu es ma came”. Logo alguém se lembrou da letra e a cantarolou. Mais depressa correram ao vídeo online e a saudade voltou. Fazemos da informação e da canção o que delas nos aprouver. Caso não resulte, problema resolvido. Compras mais infusões cuja marca nacional os reinventa e oferece novos sabores. Serves, por fim, de bandeja com os sonhos e os dissabores.

27.10.14

Senta-te comigo e aprecia.

Gosto, se possível, de acompanhar as lides profissionais, depois das pessoais, dos meus amigos. Parte deles é arte em cada decisão. Sem necessidade de segurar verdades e métodos absolutos. As redes sociais amancebadas com o plural e a pluralidade do iPhone e do iPad desta vida. Da forma de viver tão actual, instantânea e, por razão da última, instável. Sem desdém, pois acabei de ver inspiração em estado físico. Através das redes sociais. Já devo ter falado sobre isto. Algures, se não ultrapassei o consumo das ideias e não perdi a última porção de energia e memória. Porque é relevante ver a intelectualidade desenhada em grandes telas. Essas, as telas grandes, podem, sem prejuízo alheio e patrimonial, ser um muro desgrenhado ou uma parede velha e gasta, onde não sobra nada senão restos de uma tinta de massas, um branco que já não é. Rei da tela, altruísta em sessões. E é quase perturbadora, essa dicotomia. Esta minha amiga, por quem ultrapasso o cordial experimentar sentir coisas boas, renovou uma parede. Nasceu, algures numa cidade que já ouvi apelidar de feminina - Lisboa, curvas e postura de mulher que canta a canção da melancolia. Sussurra a visão com pintas. É artista de rua, esta cidade – uma parede de gesto delicado. De verdes e imponentes imitadores de um tecido natural. A natureza de folhas vivas, onde nem o orvalho da neblina matinal fica esquecido. E, contrariando alguns momentos de opinião em caixa, simpatizo com a facilidade de estar ao lado de alguém. Mesmo que tenhas ido procurar outras luzes. Quando voltas, é como se sempre tivesses visto a evolução. Porque te sobram o motivo e a motivação.

20.10.14

O amor tem uma imagem em cada vivência.

Quando era bem petiz, desenhar nos vidros pálidos da humidade era entretenha de momentos mortos. Fazíamo-los vivaços e soberbos. Obrigávamos, se preciso, a base de quem queria desenhar, a ficar tal e qual necessário. O inverno parecia que entrava no jogo. Por isso, a sazonalidade trazia a lembrança. Não sei ao certo, porque me lembro disto agora. Na verdade, antes de começar a escrever, pensava na realidade que um amigo me contou. Está longe, algures nos meandros de um país, embora, europeu, com oportunidades guardadas. Mas esse é o lugar, que aqui é um pormenor de somenos. Ele contava-me que o amor era uma estratégia inútil. Por mais que inventes e organizes as tuas vontades, misturar-se-á sempre o descalabro do que guarda o teu corpo. O corpo pode tomar a condução da entretenha, em detrimento, claro, da vontade de uma cabeça insegura e pouco capaz de gerir, a partir da base, uma convicção. E continuou no desfio das questões que lhe vêm roubando tempo. Não cedeu, por entender que assim devia ser. Havia, contudo, um corpo a provocar. O seu. Porque as relações terminam. É o caso. Agora, dizia-me ele, não se arrepende de ter castrado a aflição de ir mais longe no ânimo que o corpo lhe oferecia de quando em vez. Questionar-se, por seu turno, melindra-lhe a dor de ter gostado. Perguntou-me, por fim, a minha opinião. Era grande o suficiente para não lha dar por escrito. Pequena, porventura, capaz de se resumir a silêncio. Sinceramente, não importa o que lhe disse. Mas uma coisa é certa, nos tempos e/ou momentos mortos, havemos sempre de ter outras soluções. Ainda que, em algum momento, nos possam ter parecido tão rudimentares.

13.10.14

Molhado e com um certo brilho.

Fala-se de educação, dos tipos de educação. Os pais que conheço lêem até ao sufoco. No final, voltam a questionar tudo e todos. O excesso consome as gentes. A míngua rouba oportunidades. A infância alimenta-se do que lhe dão. A minha foi cheia e feliz. Reproduzem-se, contudo, actos, factos e misturam-se ensinamentos. Por demais quando a redoma é vigorosa. Sinceramente, por mais que esforce, não consigo lembrar-me da última vez que andei à chuva. É pertinente. Questionável. Até à semana passada. Involuntariamente tive de me fazer ao caminho, sob a chuva copiosa. Juntamente com quem me acompanhava. Andar sob as pingas grossas passa rápido e dá vontade de rir. Mesmo que chegues ao destino tão molhado que desejes, somente, praguejar sem fim. Andar sob a chuva é daquelas coisas que cedo levam para longe de nós. Depois experimentamos e percebemos o que está guardado. Escrevo isto, devo assumir, para voltar a ler já de seguida, e em todas as vezes que lhe sigam, quando tiver de atravessar a porta e esforçar-me por passar por entre os pingos da chuva.

23.9.14

Deliberação na despedida do verão.

Os jardins improvisados fazem as vontades de quem quer uma festa ao final do dia. Os jardins de casas que guardam espaço para o convívio, são uma oportunidade de convergir vontades e necessidades. Os anos que gastaram a arquitectura e a fachada requintada, agora recuperadas, são um privilégio. Um convite que foge do papel. Do envelope, não fugiu o jardim. Agora tem cor celeste ao fundo. E soa do rádio que tem graça, uma voz que fala em paraíso. E amor. Definições dissonantes, assim alguém as ouse separar. Na língua estrangeira, que sossega os temores alheios. E acomodamo-nos por ali. Sentados, a conversa não sossega. De pé, os cumprimentos e os relatos de quem viveu. O tempo passa, mas não apoquenta as ligações. Mesmo que, irremediavelmente, alguém se perca na ausente mensagem na rede. Sejam palavras, gostos ou fotografias marcadas. Lixam-se, sem darem por isso. Para isso, servem os compinchas de sempre. Recusem ligação à corrente. Logo a seguir, o verde nunca havia ligado tão bem com o azul. A festa continuou. Agora, gritam do mesmo rádio, que amam os sonhos em maré de tristeza. Numa tradução tão livre como a das restantes metáforas.

17.9.14

Apontamentos de outros tempos.

Lembro-me de ler, ainda petiz, algures num livro de desfasada atenção para a tenra idade, que o amor era pertença dos adultos, por serem precisas armas para o fortalecer e, acima de tudo, entender. O autor havia de ser lido por um número sem fim de fiéis a este sentimento.  Afinal, é conversa de quem se assume um perdido nesta arte. Dos outros também se ouve, muda a postura, passa a inquiridor. Falar sobre o amor é sobrenatural. Todavia, fala-se de amor em cada canto. Persistindo, contudo, que o amor seja um desenrolar de audições mal conseguidas. Se partirmos do ponto primeiro. Pode, por seu turno, ser a mais proveitosa e fiel audição. O descarrilamento vem depois. Escrevo sobre isto depois de falar com um amigo. E de ouvir relatos de uma amiga. Ele, feliz numa audição que muitos ditaram amaldiçoada. Ela, nos escombros de uma relação que prometia o melhor dos desfechos. Falar de amor não cansa, só pode ser essa a justificação. Porque não cansa discutir a humanidade, os seus inevitáveis destinos e os sinais do que lhe é intrínseco. Aos dois, a maior e melhor das sortes. Atenção, não escrevas tudo o que lês. Ou vês.

15.9.14

Assento de espera.

Um banco de jardim, numa noite destemida, pode ser a equação de um grupo. Juntam-se pessoas, num jardim da cidade, com o propósito de esperar e trocar prosa. Noite longa não tem preceito. Tem a alegria e a sinceridade no peito. Saiu-lhe a sorte grande. Como que dando elasticidade à sorte. Ao lado, sugerem que a sorte não se mede. Acontece. Ou surge, ou nunca vem. Ou constróis, ou alguém foge com ela. Ou trabalhas como se o mundo respirasse no compasso em que te desenvencilhas na corrida pela sorte, ou perde-la para sempre. Para um sempre que tem elástico como a sorte. Ao lado, um indivíduo desmente. O sempre não tem tamanho. Tem distância. Saiu-lhe a sorte grande de saber esperar. Sempre e pelo sempre eterno.

28.8.14

Em diferido. #16

O verde alface, quase um ano volvido - Do tilintar da campainha, surge a rigor o homem que carrega o correio. De porta em porta. De rua em rua. De estação em estação. Carrega-o envolto. Prenhe de notícias. Procura os números e moradas. Os que ainda não reconhece. Entrega-o. É o fim. Do que lhe compete. Na caixa do correio de casa, protegida da chuva que, ora carrega, ora alivia. Guarda uma encomenda. O remetente é simpatia, amizade. Também é educação de primeira e intelectualidade sem esforço. É o compromisso de não esquecer, mesmo que a distância leve a melhor. Os notebook são uma referência. São o esquecer fingir. São memórias riscadas. Assinaladas. Assinadas. Embrulhado, estava um. Vizinho do livro que guarda apontamentos, estava um envelope, verde alface. Dentro, palavras sinceras e causadas da saudade. Termina com um cumprimento pejado de afecto. Sem peças do maquinismo. Cativado. E grato.

4.8.14

De soslaio num Algarve de agitação sem fim.

Praia, sol de quando em vez, esplanadas carregadas de gente, conversas e bebidas frescas, uma típica aragem de fim de tarde num dia de céu mais buliçoso. Pelo Algarve de pessoas sem fim. No Algarve que vive o ano inteiro, mas exprime excelso movimento por esta altura. Verão quente, como dantes. Verão desregrado, como agora. Chegados ao portão grande, aguardamos que a câmara de vigilância nos anunciasse. Aguardamos no carro. Havia sossego, do que nos era possível entender. Contudo, esperar-nos-ia uma festa. Por fim, abriu-se o portão. Entramos. Fomos recebidos e convidaram-nos a entrar. Bem-vindos, desfrutem. Disse-nos o dono da casa enquanto nos encaminhava para o jardim, um patamar acima da piscina. As colunas estrategicamente colocadas pelo espaço, salpicavam o ambiente. O resto, quando for propositado, saber-se-á. De qualquer modo, não deixou de ser um agradável amuse bouche para o aniversário que se seguiria. Algarve, mar de qualquer destino.

24.7.14

No resto do mundo.

Aterrar em Portugal tem outro sabor. Gabam-lhe, um sem número de vezes, a luz. E têm razão. Outras vezes não esquecem a simpatia de quem os recebeu. A qualidade do que é tão típico também merece elogio. Quando pisar terras lusas é regressar a casa, dizem que não se explica. Tanto mais quando se vivem vidas fora deste país. Quando se adoptam lugares e características, quando se permitem deixar adoptar por gentes da terra e por definições de vida mais aprazíveis. Sabíamo-lo de regresso, por uma semana apenas, mas sabíamo-lo por terras lusas, num regresso de desejo e saudade. De cessar as saudades. De matá-las por força dos afectos e vozes que o recebem. Sempre. A distância não é a maior. É longe da cultura, da língua e das gentes. Da localidade e da hospitalidade que o formaram. É o vestígio de um grau ou degrau que dá permissão para descobrir o mundo. O resto.

15.7.14

Em diferido. #13

A ver a banda passar - As cidades grandes, de resto, como as pequenas, noutra proporção, são um espelho da sensatez ou do desaire do seu povo. Aquele pedinte apoderou-se da esplanada quase despida de gente. Debaixo daquele sol forte de verão a antecipar datas, sem chapéu que lhe valesse. Nem por isso, despido de roupas. O corpo que carrega pelas ruas, tantas vezes de mão estendida, é o seu hall de entrada, é a sua sala de estar, a cozinha e o quarto. É a cadeira de cada divisão e a cama em que faz de conta que dorme. É, também, a sua varanda e o seu jardim. Não deixa de ser o roupeiro, a porta e as janelas. Por tudo isto, guarda em casa, na que é possível chamar de sua casa, a roupa que lhe resta. Sob aquelas temperaturas e a torreira do sol, vestia calças grossas, botas invernosas, casaco de ganga, camisa de tecido felpudo, ainda um lenço caído. De mão dada com o preconceito e a insensibilidade, fingiram convidá-lo a sair. Anuiu, cabisbaixo. Mas, como nem toda a gente se limita a ver passar a banda, alguém que nos acompanhava, perguntou-lhe se precisava de alguma coisa. Tenho bons amigos, felizmente. O jovem pedinte disse que não. Ela insistiu. Fome. Só queria comida. Faltava-lhe comida naquele corpo. Naquela casa. Longe da mediocridade, ofereceu-lhe comida e bebida. O rapaz estava perplexo, no rosto questionava a amabilidade. Porquê, havia de se perguntar lá dentro. Agradeceu sempre. Mais e mais. Seguimos caminho. Ainda voltamos, para a nossa amiga lhe dar uma última coisa. Já não o vimos. Fechou-se em casa. Na sua casa, e seguiu caminho.

7.7.14

Tema desenvolvido em verso. Prosa, talvez.

Em letras garrafais, o nome da sala onde se pode ouvir música variada e guardada numa caixa que soa e ressoa pelo espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas. Onde há fumo fictício e gente a falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente e despidas. Pessoas despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No cimo daquela porta larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um emaranhado de letras, que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que chama sempre um valente concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos reunidos. Na mesma rua, no lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem varandas curtas, tem janelas de sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro, pé fora. Tem tectos desenhados. Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a conversa antes de subir a escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.

30.6.14

Escolhe uma cor.

Constantemente não é óbvio, remédio que convém à torção de um músculo que já não ensaia. Na terra batida encontramos tudo. As botas com desenhos distraídos da terra fugidia, os botins de todas as estrelas, os ténis de corrida, os ténis com a marca adornada no desenho da mais recente moda, os sapatos assimétricos, também os clássicos e, imagine-se, os chinelos e os saltos. No pé de cada nome, naquela terra batida, olhamos de tudo. Tanta gente junta, tanta diversidade feliz. Calca-se a terra a cada passo adiante. Tanta gente reunida. Fazem-se grupos de amizade. Amigos e conhecidos em roda. Risada, conversa e gargalhada. Mas há sempre quem nos arrepie. A pele ganha outra textura, um toque de relevo robusto da sensação desprevenida. E ficamos a vê-la. E ficamos a ouvi-la. Só me interessa se tiver passagem desligada de repetidas imagens. Na terra batida sustentam-se relações. Investem-se razões para conhecer quem és.

26.6.14

Alheios à pressão.

Na norma acontecem, felizmente, excepções. Desconfio de coincidências. Algumas, para não ser tentador generalizar. Factos há que nos parecem tão palpáveis e irrevogáveis que, jamais, lhes colocamos no eixo das coincidências. Ironia, quando, precisamente, no seguimento do primeiro jogo de Portugal neste mundial de futebol, ou seja, frente à Alemanha, me chegaram fotografias de outros tempos. Coincidências à margem, chegaram-me, justamente, da Alemanha. Minutos depois do desditoso resultado. Em dia da derradeira oportunidade, lembro-me disto. Tenho, por esse mundo, amigos espalhados. No caso, amizade de infância, de corpos delgados e travessos nas mais ímpares e desalinhadas aventuras. As saborosas descobertas de então. Gaiatos de linguagens aprendidas no minuto. O português e o alemão misturados para forçar o discurso, comunicação. Funcionava para a argumentação que íamos experimentando entre divertimento. Entendíamo-nos na perfeição. A cada vinda a Portugal, estávamos juntos. Relação que já vinha de trás, dos nossos ascendentes que, de forma tão natural, mantivemos. Devemos ter, em momentos vários, tirado fotografias. Naquele dia, chegaram-me duas. Talvez, em jeito de palmada nas costas, da desdita compreendida. Digo, porque desconfio de coincidências. Gostei de recebê-las. Numa, de máscara a rigor, o tormento de me vestir de outrem. Na outra, todos juntos na piscina lá de casa. O critério tem desvios. Tenho alguma dificuldade em olhar as coincidências. Mesmo quando não uso da generalização, desconfio. O que acabo de escrever serve-se, em pontos concretos, da ironia. Gostei de recordar. Gosto de ter amigos com memória. E, já agora, de me saber amigo de gente com compaixão futebolística.

18.6.14

A ver a banda passar.

As cidades grandes, de resto, como as pequenas, noutra proporção, são um espelho da sensatez ou do desaire do seu povo. Aquele pedinte apoderou-se da esplanada quase despida de gente. Debaixo daquele sol forte de verão a antecipar datas, sem chapéu que lhe valesse. Nem por isso, despido de roupas. O corpo que carrega pelas ruas, tantas vezes de mão estendida, é o seu hall de entrada, é a sua sala de estar, a cozinha e o quarto. É a cadeira de cada divisão e a cama em que faz de conta que dorme. É, também, a sua varanda e o seu jardim. Não deixa de ser o roupeiro, a porta e as janelas. Por tudo isto, guarda em casa, na que é possível chamar de sua casa, a roupa que lhe resta. Sob aquelas temperaturas e a torreira do sol, vestia calças grossas, botas invernosas, casaco de ganga, camisa de tecido felpudo, ainda um lenço caído. De mão dada com o preconceito e a insensibilidade, fingiram convidá-lo a sair. Anuiu, cabisbaixo. Mas, como nem toda a gente se limita a ver passar a banda, alguém que nos acompanhava, perguntou-lhe se precisava de alguma coisa. Tenho bons amigos, felizmente. O jovem pedinte disse que não. Ela insistiu. Fome. Só queria comida. Faltava-lhe comida naquele corpo. Naquela casa. Longe da mediocridade, ofereceu-lhe comida e bebida. O rapaz estava perplexo, no rosto questionava a amabilidade. Porquê, havia de se perguntar lá dentro. Agradeceu sempre. Mais e mais. Seguimos caminho. Ainda voltamos, para a nossa amiga lhe dar uma última coisa. Já não o vimos. Fechou-se em casa. Na sua casa, e seguiu caminho.

28.5.14

O meu amigo C.

Ontem, já o dia ia longe, o escuro avisava a distância, lembrei-me do meu amigo C. Nem sei bem porquê, não encontro justificação, porque pensar em alguém não tem razão, senão quando fora induzido. Porventura, porque não lhe ouço as estórias há uns meses valentes. Mas rebentou-me nas lembranças, primeiro a sua imagem, depois o seu movimento frenético, por fim, o seu nome e os discursos sem fim. O meu amigo C. tem sete anos. Sete anos de uma desenvoltura de raciocínio bastante pertinente. Conheço o pai, fui colega de escola dos tios, um sem número de anos. Um lugar, a dada altura, convidou-nos à convivência. Umas vezes seguida, outras tantas compassada. Não consigo, porque me falha a memória, perceber como nos aproximámos. Talvez, pela mão da minha irmã mais velha, rainha entre os miúdos. Desenvolveu-se uma narração feliz de amizade. É um conversador nato, não guarda a opinião nem as questões que lhe assaltam a cada momento. Não tem a maior simpatia pela dinâmica da escola, prefere o desporto escolar. Ainda assim, arrisca os números. Distancia-se das letras. Aprendeu cedo a contar. O raciocínio imediato é-lhe característico, não posso deixar de repetir. Os jogos inventados conforme as suas valências, fá-los acontecer, se preciso, ao redor de uma mesa. Pede a novos e velhos que entrem na brincadeira. É guarda-redes num clube da zona. Relata-me cada jogo com entusiasmo. Não esquece os detalhes, usando da expressão corporal, em precisando, para ilustrar a jogada. Também falha, diz-me ele. Deixa entrar golos. Às vezes, perdem. Mas volta sempre, treina ainda mais. Usa óculos. Tem dificuldade, como é apanágio da idade, em manter-se sossegado. De quando em vez, pede-me o telemóvel para jogar. Quer entrar numa corrida de pontos. É um fã maior do Benfica. Assiste aos jogos, quantas vezes, no estádio. Onde grita e canta em voz esforçada cada cantiga de homenagem. A última vez que nos cruzamos, vinha a fugir, tomando a rua, o pai ao lado. Reparando que eu estava no lugar do costume, parou, entre a porta, gritou o meu nome e perguntou se eu estava bom. Gritei-lhe, de volta, o nome. Está tudo certo. É o meu amigo C., de sete anos. Porque, desde sempre, sei que os amigos não têm idade.

27.5.14

Perdoem-me a excessiva referência à pão de forma, mas faz-me todo o sentido.

Quando petiz, um tanto antes da adolescência e durante a mesma, ainda os tempos nos pareciam eternos e, embora, fossemos rapaziada consciente, a nossa inexperiência convidava-nos à perpetuação de uma ideia materializada de um sonho típico, onde nada ousaria, sequer, beliscar as nossas vontades, ideologias e acções. Contentávamos conversa com a certeza de que havíamos, mais adiante, de ter uma pão de forma. Não importava a cor, a quilometragem. Chegava-nos o acontecimento de ganhar a maioridade, de passar a tangente. De ter, de facto, os tão afamados dezoito anos. Acontecer-nos-ia a fortuna de correr mundo. De conhecer pessoas, espaços e arquitecturas, convicções religiosas, terra sem fim, línguas e linguagens de outros. Sem provas, mas convictos, seria uma viagem sem data nem fim. Onde, à vez, um de nós abriria caminho ao volante. Voltados estes anos, que já passaram a perna aos dezoito, não tivemos uma pão de forma, nem viajamos como desenhamos. Mas faz memória eterna. No domingo passado, falava com uma das sonhadoras desta viagem, não falámos da pão de forma, mas repetimos a idade que temos e da necessidade de ter juízo, como se fosse, uma vez mais, por metas. Aos dezoito anos a pão de forma, agora o juízo. E respondi-lhe que há coisas que não mudam. Seja qual for a idade que nos pesa. Nem tivemos a pão de forma na idade que sonhamos, nem alteramos a faculdade do discernimento quando nos dizem que tem que ser. Imagine-se, deixar de sonhar, apenas e só, porque nos falhou aos dezoito anos.

26.5.14

Ensejo propositado.

Aquele movimento frenético, tantas vezes, lhe sentimos a falta. A forma possuída como a cidade grande, de tão impaciente, consegue, roçando a convulsão, gerir o quão rabugento que é o marchar daquele lugar. Quando não estou, por temporadas, em Lisboa, falta-me esse ademane social. Nunca estou o tempo suficiente. Longe, ganho-lhe saudades, da cidade e da impaciência que afasta o vagar. Por seu turno, voltar às raízes de um espaço mediano, oferece-me o descanso da serenidade beliscada meigamente pelo espancar do quotidiano. E, entre tudo isto, julgando que nada tem que comparar, lembro-me das relações. Entre pessoas. Do amor e do desamor. Da amizade e da desamizade. Do afecto e do desafecto. Como que as sentando rivais. Afastando qualquer cotejo. Desde logo, refuto qualquer maneirismo de psicologia enviesada com filosofia de mesa de café. Mas, tal como, os lugares, as pessoa ganham estratégias de viver e sobreviver. As relações, se quisermos, espelham factos do nosso reflexo nos outros. Se me ofereces excitação ou se me desenhas experiências quentes mas serenas. Somos aprendizes. De qualquer lado da barricada. Mesmo e, sobretudo, se mudarmos de azo.

16.5.14

Um amigo sujeito à ventura.

Feliz de quem tem ginástica intelectual para escolher, em conformidade, ser feliz. A perfeição junta as palavras e as imagens. Às vezes, proporciona encontros entre pessoas que se colam na personalidade e ganham vida daí em diante. Por força da experiência que é extravasar. Mas, porque persiste, fazemo-lo, apenas, a seguir ao efeito de ter realizado. Um dos meus mais próximos amigos contava, desde tenra idade, que a sua vida seria como vinha idealizando. Não se justificaria a ninguém, mas responderia, ao invés do comum, do uso das palavras, com um sorriso gigante. Todos lhe apontam essa qualidade, nunca desiste e sempre insiste em devolver um sorriso. Haveria de correr mundo, de desleixo no corpo e de ganas na alma. Procrastinou por obrigação. Contudo, em cada encontro de amigos, ou em conversas isoladas, voltava o discurso e a sede de viver como criou na imaginação, de voar sem destino, de conhecer outras raízes, de brincar com a novidade e de quando em vez esquecer o enfadonho e o espartilho de cada dia aqui, num país e família castradores. Afiançávamos-lhe, então, rijeza e apoio no compromisso. Foi carregando a ansiedade. Até que, chegado o encontro de condição, largou tudo e foi embora. Avisou, somente, uns quantos. Onde me incluo. À família prometeu que eram uns dias de férias. À antiga namorada agradeceu o carinho e a entrega, a disponibilidade de tantos momentos. Deixou quantos e quanto lhe fizeram passado. Entrou no avião, devolveu sorriso. Já lá vão uns bons meses, mais do que um ano, ainda menos que dois. Sentimos-lhe a falta. A família roça a tentativa de rogar-lhe pragas. Pela ingratidão, justificam-se desse modo. Ele, pelos diferentes meios, vai fazendo chegar-nos a sua experiência. As vivências que guardou, só para si, antes mesmo de saber, no íntimo do seu interior. Relata-nos, de viva voz, as peripécias mais convidativas, outras que superam o surreal. As fotografias com que nos vai brindando falam por si. Entre paisagens sem classificação, de tão belas e imponentes, e ele que as usa como décor. Mantém o sorriso rasgado. Ainda mais. Um dos meus amigos mais chegados teve a ousadia de riscar. E arriscar. Num período em que o país carrega problemas de várias frentes. Numa altura em que tudo tira a esperança. Sujeitou-se ao risco. Hoje é francamente feliz e realizado. Cumpriu um sonho de raiz. Voltará um dia, sem data. E, tem a certeza, vem para mudar e cortar com tudo o que o impediu de sonhar.

9.5.14

Chama-se Margarida e recusa roubar a identidade ao tom, negando chamar-lhe de encarnado.

A Margarida é a memória e as lembranças de infância. De uma infância feliz e fornecida de tudo o que nos balizava a felicidade, daquela época em que por mais que a cronologia nos falhe, não perdemos a identidade de outros tempos. Ela é a descoberta da capacidade de gerir, ainda que não se aperceba, a educação centrada e espartilhada de uma família típica daquela região, com a azougada necessidade de se imiscuir com o restante. É tímida e intrometida em simultâneo. Fala de jeito suave, mas ri com sede. Escolheu que as amizades não têm nivelamento. Escolheu, ainda no tempo em que não se media, não ludibriar factos. Senta-se com quem for. Conversa com quem lhe oferecer palavra. Temos, precisamente, a mesma idade. Crescemos desde lá atrás. Desde a altura em que as varandas do andar superior das nossas casas se olhavam de frente. Hoje em dia pousa para as câmaras fotográficas. De pernas esguias e compridas, o décor a rigor, a ventoinha sem parar, o cabelo de um tom castanho mel a esvoaçar. O vestido da cor que não gosta, mesmo que lhe chame vermelho ao invés do encarnado de outras lides. Os saltos altos de uma marca de influente atracção. A pose intuitiva. Os flashes na frente. O rosto maquilhado e luminoso. Neste instante é tão real como quando despe o vermelho, abandona os saltos altos, lhe desligam a ventoinha e despede-se da objectiva. Porque, acredite-se ou não, há sempre quem não recue no momento de fazer a diferença. Boa sorte!