Podia
contar-te uma história. Dizer-te que o sexo é sempre um compromisso e que
amanhã será a realização de todas as convicções e ilusões de hoje. Pedir-te que
acredites como se tivesse esse direito. Porque é o amor, sempre o amor. Ou a
necessidade física a ir contra a questão fundamental, a lealdade. Estava a
pensar nisto, depois de me cruzar com ele. Conheci-o através de uma amiga muito
próxima. Foi-me apresentado já como seu namorado, embora, tenha ouvido algumas
coisas sobre ele antes de o conhecer. Na boca dela, querida amiga, era um tipo
alto, bonito e inteligente. Era formado em medicina e era de boas famílias. Era
calado, mas tinha sempre a palavra certa. Imaginei uma capa de revista e
nessas, reza a história, há muito pouco conteúdo real por onde apalpar. Mas
acabámos por marcar um jantar de amigos. Não foi difícil identificá-lo, pois
entrou com ela e as informações anteriores pareciam estar correctas. Boa amiga
esta, verdade seja assinalada, sempre foi bastante pragmática. O homem de todas
as relações, aventa ela e eu não digo que não. Confirmou-se, então, a timidez.
Ainda assim, e sem darmos por isso, foi fazendo cada vez mais parte do grupo.
Até ao momento em que numa das vezes em que ele ia tocar para nós, serão
garantidamente longo, e ela chegou sozinha. Chegou ao fim, o espectáculo de
cordas e o namoro. Estive com ele depois disso um punhado de vezes. Soube fazer
as coisas e, ficou-se somente, pelo lamento do fim da relação. A boa amiga
tomou outro rumo, porque sexo é incompatível com a necessidade de sinceridade
que uma relação exige. Estamos num bom caminho, estamos a conseguir ser fieis a
nós. Com a verdade me enganas. Não obstante, podia contar-te uma história.
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25.5.15
21.5.15
Filosofia de madeira à janela.
A
bancada é de uma madeira praticamente imaculada. A janela na frente, ausente de
cortinas e cheia de vida do vidro aos quadradinhos para fora. O jardim é
bonito, tem verde com fartura, questões que têm resposta nos outros
apontamentos, coloridos. Do rosa tradicional ao laranja apelativo. Árvores e as
flores com estórias agarradas, umas outras tão imberbes, frágeis à vista, ainda
mais ao toque. Cá dentro, a bancada que inventa pureza tem sobre ela uma tábua,
também de madeira. Esta, tão gasta e marcada. Sem lhe conhecermos o passado,
sequer os últimos minutos, inventamos-lhe um propósito. Uma causa primeiro, por
fim o efeito. No recheio destes dois, ficou o processo. Agora os verdes
impecavelmente cortados combinam com o leito, a tábua. A faca é hábil, em
resposta às mãos que a comandam. Juntam-se outros tons, quentes e apelativos.
Outras texturas e cheiros. Ao lado, quatro copos de vinho. A garrafa meio vazia.
A seguir, a confissão. Vezes sem conta, uso e abuso deste ponto. Abro
totalmente a janela e fico a inventar. Crio motivos e razões. Justifico cada
pessoa que passa na rua junto ao portão. Já vi mulheres corujas, mães felizes,
esposas traídas e fêmeas maltratadas. Já vi homens falhados, professores sem
pensamentos, pais ausentes e machos felizes. Viver iludido é magia. Como uma
brincadeira de criança. Fazer de conta e rir disso. Descobrir as diferenças é
outro jogo. Só brinca quem quer. Depois dela terminar o desabafo, foi impossível
outra reacção. Fizemos silêncio.
20.5.15
Idiossincrasia do comum mortal.
O
terror acontece. Ameaças vender a alma, apenas e só, com a esperança de que
esse fogo, por ora quase extinto, regresse e com as chamas vivas te queime até
à alma. Porque é o pensamento que não te dá descanso. Dás crédito porque, teimas
com a maior força e insistência e acreditas com piedade que não sabes viver de
outra forma. Rasgas fotografias que tinham tomado lugar de honra e espaço de
qualidade na decoração, partes este ou aquele objecto. Violas tudo aquilo em
que acreditaste até aqui. Ela passa a mão pelo cabelo comprido. Sorri e leva o
copo à boca. O amor não tem outra coisa, senão data de validade. Um total de
horas, minutos, segundos. Viveste, cada uma delas, cada detalhe deles, à tua
maneira. Mesmo que neste instante, tudo se assemelhe, por demais, a um enredo característico
de telenovela. Geres a dor ao sabor do Instagram
onde a outra parte insiste em mostrar vida e coloca uma fotografia em que te
cortou. Era a memória de uma viagem boa. O amor quando chega ao fim tira
humanidade. Contudo, não rouba dignidade. Estava a ouvir-te relatar os últimos
momentos dessa relação, cara amiga, e só te pude parabenizar no momento em que
me dizes que bateste com a porta. Metáfora batida, mas convicção na medida
certa. Só fiquei feliz por ti nesse momento porque, como vieste a admitir, esse
não foi o método final da relação. Foi, bem sabemos, toda a relação. Baralha as
emoções, joga outra vez. Tal como o terror, o amor também acontece. Beijo. Cheers!
18.5.15
Em diferido. #34 (Um ano depois)
Passa
o tempo - O fim-de-semana foi de maior. Não li jornais, nem revistas. Ouvi
menos música no decorrer dos dias. Escrevi menos do que nos outros períodos.
Vi-me mais vezes, e mais demoradas, ao espelho. Escolhi a roupa noutros moldes.
É um género de rescaldo. Se é possível fazê-lo nos próximos meses. Foi um
fim-de-semana de entusiasmo e dedicação. A recuar aos dias atrasados,
estendendo o descanso, ansiado. A dinamização auferiu pontos extra. Nomes há,
que guardo sempre com saudade. Amizades que não têm definição. Gente que me
carrega, de sorte e sensações, o núcleo da amizade. Nomes que, ao falar deles,
quem me ouve já sente a verdade do que sinto. Já não fazem contas à infinita
amizade. Por isso mesmo. Sair para jantar. Descer a rua de sempre, a falar sem
reparar nos que passam. Sair para conversar e beber um café. Sair para estar e
tomar algo. Sair, também, para tomar o pequeno-almoço. Falar, sem tabus.
Contar, se surgir ocasião e necessidade. É um encontro de partilha. Um modo de
participar nas nossas vidas. E torna-se numa estrada sem limite. A conversa não
se esgota. Marcámos, apenas, uma hora. A de encontro. Daí para a frente, não
sabemos. À noite, a brasa de ver o Benfica terminar o que havíamos discutido
nos últimos tempos. Fez-se campeão. É um festival de raiz. Tudo isto. E isso
basta. Não é preciso mais.
6.5.15
Quando for grande.
Não
foi jornalista, embora, seja formado precisamente nessa área, por implicação do
destino. Na verdade, não tem carteira de jornalista, porque nunca exerceu nem
em tempo algum fez questão de exercer. Acho mesmo que ele acredita no destino e
na necessidade de se moldar. De desenhar a mente e o corpo em concordância. Não
sei como é que ele faz, mas fá-lo com maestria. Tem mostrado simpatia entre a
mente que nunca sossega e o corpo que nunca tem tempo para parar. Parece
estranho, mas começa a fazer algum sentido, assim que conhecemos alguém como
ele. Nunca o vi apaixonado pelo jornalismo, mas gastava de letras. Fomos para
ciências pela abrangência e, naquela altura, pela necessidade de cortar
caminho. Contudo, tínhamos tudo bem delineado. Algumas coisas aconteceram,
outras nem por isso. Suportando-me nas suas teses, foi o destino. Como deve ter
sido essa combinação de circunstâncias que não fogem ao fado nacional, que o levaram
a viver fora de Portugal. Mais um amigo que vê o nosso país como berço, mas tem
o mundo inteiro como casa e vida. Falamos este fim-de-semana, depois de quase
um ano sem trocarmos uma palavra. É um cliché, e aborrece-me vê-lo assim, mas é
a verdade. Amigos há que nunca deixam perder a proximidade e o à-vontade.
Conversamos como dantes. Esteve no oriente. Agora numa Europa com sabor, que no
sul tudo é fervor. Mas já tem bilhete para terras de sua majestade. Volta no
verão, na força do tempo e das esplanadas que deixam colocar a prosa em dia,
beber com qualidade e ver gente a passar. Obrigou-me a estar por cá nessa
altura. Um café, um jantar. Às vezes, quando falo com ele, ameaço acreditar no
destino. Vindo dele, tenho a certeza, vou ter um ou mais jantares algures no
verão.
5.5.15
Impulso de se (des)orientar.
O
meu sentido de orientação, não raras vezes, falha. Falha-me e deixa-me, claro,
desprovido de qualquer contra-argumentação. Não perco o norte, mas fico
ligeiramente limitado no que ao espaço diz respeito. Não é tão flagrante ou
limitador quanto possa parecer, mas agudiza a paciência. Faltou-me, se calhar, uma
educação direccionada para o volume desnorteado de actividades ao ar livre, de
bússola numa mão e mapa na outra. De calções curtos, botas nos pés, lenço ao
pescoço e tudo o que faz parte da farpela. Até as meias subidas. Mas nunca
quis. Aqui, nem posso justificar o desprendimento e a força com que me opus,
com o meu lado beto. Que, tanto quanto me lembro, muitos deles andavam por lá. Mas
um tipo tem outras prioridades e, vamos lá entender, nunca se perdeu. Como
naqueles dias quentes, algures numa primavera em fim de tempo ou num verão em
inicio de época. Quando teríamos uns quinze ou dezasseis anos. Em que pegar
numas mochilas, umas roupas e enfrentar uma infindável viagem de autocarro não
era senão aventura, camaradagem, partilha e festa por toda e nenhuma razão. Avançar,
perto da noite, mato afora, na direcção da praia. Passar a noite na mesma até
ao amanhecer. E, só nesse instante, perceber que, afinal, sempre perdi alguma
coisa. Os meus calções de ganga, da marca preferida da altura que fazia justiça
ao lado beto, haviam sido roubados. Por certo, haverá desgostos maiores. Não me
perdi.
4.5.15
Uma pequenina luz.
Sempre
que a vejo de coração nas mãos, ameaço tirar-lhe uma fotografia e guardá-la
para sempre. Podia desenhá-la, pintá-la ou escrever sobre as sensações e as
reacções. Mas a fotografia está sempre ali. Com a geração da tecnologia, o caminho
é fácil, reduz-se o pensamento e escasseiam as dúvidas. Escolhes sempre a chapa
do momento. Que o céu é azul, que o mar é salgado e que Zé canta o fado, já
todos sabemos. Que ela é intimidade e verdade num enredo singelo, é outra
viagem. Perguntaram-me e respondi como da última vez. Volto a estar de copo na
mão. Agora, sentados na avenida da nossa terra. Voltar às raízes também é
segurar o coração com outra convicção. Porventura, aqui, perdem-se os receios e
as questões de um futuro breve. Não se temem as mãos trémulas e o coração
desamparado. Porque isso não acontece sem rede, sem protecção. Alguém lançou
que tinha pena de quem não tem para onde regressar. Lamentamos a cidade que é
berço e vida. Mas volto sempre à cidade que não é minha por um qualquer
desentendimento astral. Falho na escolha do vocábulo, por não acreditar,
tamanha a dúvida. Seguiram-se outras perguntas e a todas respondi da mesma
forma. Os amigos riem juntos e são felizes. Os amigos prestam-se ao silêncio
sem peso e são felizes. Vivam na raiz ou ganhem sustento num lugar que os
adopta. Quando voltava para casa, no carro, tive a certeza de que, de coração
nas mãos ou de risada despreocupada, hei-de querer guardar esta intimidade para
sempre.
30.4.15
De Londres, com saudade.
Foi
assim que terminou a mensagem que me chegou ontem ao e-mail. Vem de lá uma
parte da saudade, que a vou tendo dispersa. Feita em pedaços, numa Europa
altiva, numa Europa romântica, num ou noutro continente. Nova Iorque tem
trejeitos e não guarda, hoje em dia, nenhuma fonte de saudade. Mas guardo-lhe
alguma curiosidade. De Londres, vem uma amizade antiga, num táxi bonito, de
saltos altos e maquilhagem irrepreensível. Enquanto, de maçã na mão, escreve
sobre a distância. Relata, sem sossegar, o que ganhou depois de se mudar.
Também perdeu e escreve sobre isso com a mesma dignidade. Misturada com a serenidade.
Embora, as palavras escritas possam enganar, porque perdem a identidade da voz
e do tom do interlocutor, vamo-nos lendo em sintonia. Há uns anos
emprestaram-me um livro. A capa era dura, tão forte e pisada pelo tempo. Não
consigo perceber se estava numa ou noutra fase. Mas não esqueci. Quem mo
emprestou fez bastante questão. Leva-o, toma-lhe as conversas quase
inexistentes e guarda o texto corrido e as descrições. As descrições, essas
sim. Moldavam, propositadamente, toda a história. Bem sei, adiei até não mais
conseguir, o dia em que trouxe o livro para casa. Leva-o, desta vez, leva-o.
Vais atentar a intelectualidade e questionar a espiritualidade. Lê com calma,
dedica-lhe tempo. Fiz como pedido. Lembro-me que no exacto momento em que
cheguei à última página, lhe devolvi uma mensagem. Citação breve, um pensamento
mais demorado. Que não é novidade, tenho tendência a ser longo na prosa. Quem
mo emprestou, a amiga brava que conversa de Londres, respondeu-me. Muitos
elogios e todos fundamentados pelo poder de argumentação. Conversamos imenso,
escrevemos ainda mais. Daqui, com saudade.
23.4.15
A causa do fundamento.
Saiu-lhe
um palavrão sem pensar. O modo de viver que decorre do nascimento até ao ponto
final é digno daquela palavra. Qualquer dia ensandeço, viro costas e vou-me
embora, compro uma quinta que me faça perder o horizonte. Deixo-me ficar lá,
hei-de gozar o triplo. Dizia ele e não deixa de ser verdade. As opções existem,
falta a coragem, a insensatez e o desapego aos nossos. Lembrei-me desta
conversa enquanto ouvia música. Um som dos anos oitenta, se não me engano, de
mil novecentos e oitenta e dois. Está sol lá fora, falam-se dos altos níveis
dos raios UV, antecipando cuidados. Nas ruas há gente a viver as temperaturas
mais secas. Há chinelos no pé, t-shirt no lombo, calções sem condizer. Vestidos
fluídos às cores. Flores e riscas por todo o lado. Chapéus com fitas à volta
que ganham nomes tão técnicos que nos fazem parecer descerebrados. Também
importa, mas não interessa nada. Assusta-me a banalidade com que se abordam
certos temas. A facilidade em tomar a vida do outro pelo nosso olhar. O nosso
prisma, as nossas vivências vão, inevitavelmente, talhar as nossas opiniões.
Ficam inquinadas e, para sermos justos, não traz benefícios. Como a exposição,
tempo sem conta, ao sol. Sem protecção e sem juízo. A última é uma
característica deste homem, do mesmo que ameaça mudar de vida. É mais velho que
eu, habituei-me a escutar-lhe as estórias e a sabedoria. Talvez, seja essa a
procura de todos os dias. Uma das maiores, se quisermos. Pior do que não saber
onde estamos, é não saber quem somos. Não acredita em Deus, mas sabe que quando
lhe chegar perto, será, por demais, bem recebido.
20.4.15
Podes fazer o que quiseres.
Voltei
a cruzar-me com a Joana. Pode, para já, não fazer sentido. Mas ela divertia-se
imenso e rodava com as emoções com a facilidade com que escondia tudo e inventava
como se vivesse faminta. Era menina de cores certas e queria, porque queria,
ser capa de revista. Mudava a cor do cabelo e desmentia as evidências, porque
queria à força, mostrar que era loira natural. Tão lógico como o afago de
algumas manias. Há uns tempos atrás, as casas de banho influenciavam a escolha
do espaço. Uma amiga limitava as saídas em grupo com os seus conhecimentos do
equipamento sanitário vizinho. Imagina um balcão, uma sala escura. Um bar que já
conheceu tantos donos quantos os dias que um mês conhece. Já foi ponto de
encontro, já foi lembrança de última hora. Quando já não restava outra
hipótese. Válida, pelo menos. No verão passado voltámos uma ou duas vezes, no
máximo. Uma alteração ou outra no espaço. Uma rapariga gira a servir ao balcão.
Outra sentada à conversa enquanto era servida. Uns quantos tipos de pé.
Sentamo-nos. Risada fácil, conversa com memórias. As bebidas sempre a girar.
Nisto, enquanto a líder da decoração (vulgo amiga limitadora de escolha) ia
confirmar se o roxo mantinha-se na parede, do balcão oiço um olá seguido do meu
nome. Afinal, a jovem sentada ao balcão era a Catarina. Cumprimentei-a e
trocámos algumas palavras. A servir no escuro, continuava a loira simpática. As
noites entre amigos não fazem sentido se não voarem. De regresso da casa de
banho, a amiga que encerra restrições, lamenta a troca do roxo pelo vermelho.
Diz, não combina com os espelhos. A culpa, continuou, só pode ser da aspirante
a actriz de novelas da meia-noite. A Joana era a miúda gira a servir no balcão.
Lamento sempre o meu pouco jeito para memorizar algumas coisas. Não me fez
confusão a Joana ter virado menina do bar. Gostei, isso sim, de vê-la ainda
mais gira e simpática. Noutros tempos, era um sufoco estar sempre à espera do
momento em que, ficcionando um desmaio, se jogava ao chão. Grande Joana, o
vermelho sempre te ficou bem.
16.4.15
Afeição e simpatia recíprocas.
A
minha mãe pede-me um beijo, com a sensibilidade desmedida, nada forçada. De
quem acusa alguma saudade e não esquece os momentos idos, em que beijar o filho
petiz, resumia-se, somente, a uma opção: fazê-lo sempre. Saudades de mãe. Contudo,
fá-lo ao jeito de quem pretende mostrá-la sem assumir. Adivinho-lhe alguns
pensamentos. Antecipo-lhe algumas palavras. Acontece, uma ou outra vez. Depois
da demora, avança que já não lhe chego com o mesmo tempo e a mesma
periodicidade. Uma espécie de filho em dívida permanente. Dei-lhe, por fim, o
beijo. Os beijos. Não sei como é que funciona, mas as mães têm uma condição
especial. Um caso tão particular de dedicação. Têm poderes sem fim, desconfio. As
mães têm amigas muito diferentes. A minha, pelo menos, fez assim. Tem amizades
díspares e antagónicas. Consegue sentar-se e tomar um chá em ameno e
sintonizado silêncio. Também sabe estar numa sala cheia e gargalhar sem qualquer
vergonha. Tem ainda a capacidade de conversar, tanto, sem fim. As amigas são um
complemento do estado. Do espírito que tem tons de diva saturada. Em cada um de
nós. Ontem, éramos para ir tomar café apenas os dois. Escrevo éramos
propositadamente. Pois, numa visita surpresa, surge uma amiga da minha mãe.
Acabou, claro, por nos acompanhar. Inevitavelmente, fiquei a ouvir-lhes as
memórias. Voltamos às questões de gerações diferentes. No nosso tempo, foi o
mote de grande parte da conversa. O tempo, afinal, acabou por voar. Esta amiga
da minha mãe, de cabelo armado e super dedicada à neta, cujo objectivo é
mantê-la nas aulas de música clássica, confessou, de mão a tapar a boca,
denunciando alguma vergonha, que adora kizomba e amava ver a neta a tocar e
cantar num baile de verão. A minha mãe soltou a gargalhada típica. Em havendo
talento e vontade, há que investir. Sempre achei os coretos um palco tão digno. Nada
nem ninguém é o que parece, até lhes tomarmos uma parte da verdade. O tempo faz
milagres. E tem armadura de comédia.
13.4.15
Tipo genuíno e uma convicção verídica.
O
fim-de-semana é o recurso dos ocupados. Mesmo que a labuta não cesse, fica
sempre um gosto mais requintado. Tens o tempo camuflado. Travestido de outra
coisa. Tomas o básico qualificado, como se estivesses a digerir e a aproveitar
o alambicado altamente classificado. Dás um, dois ou três beijos, conforme o
apetite, porque não interessa nada a flora etiquetada e a fauna desinvestida de
uma certa zona de extremos. As gentes boas à beira do mar, junto aos barcos. Os
senhores de boa índole que têm relógio bom no pulso e gravata desenhada ao
peito. Cruzas-te, física e telefonicamente, com uma série de gente que importa.
Recuei ao corredor descoberto do ensino secundário. Em que lavar os dentes e
fechar a torneira em cada intervalo da escova, era primordial. Para alguns. Uma
discussão que se fundia e confundia com a ambição de um mundo mais cuidado.
Tratar para ter retorno. Sempre assim. Cada um de nós opinava e tinha, mais do
que uma opinião formada, uma opinião válida. Pelo menos, uma visão com
validade. Mesmo que a acção ganhasse terreno. Sobre o conhecimento, portanto,
sobre a teoria e a razão. Fora desse ambiente, um amigo que não frequentava os
mesmos lugares. Mas batia-se, feroz e eloquente, contra todas as políticas
instrumentalizadas pelo defeito e gritava por um mundo cuidado e bem tratado.
Cheguei a gabar-lhe a vontade e a genica. Disse-lhe, também nessa altura, sem qualquer
espécie de troça, que faziam falta mais tipos como ele. E mantenho. Voltando
lá, ele tinha a certeza de que havia de correr mundo, ser feliz e, o mais
importante ser pai. Cumpriu quase tudo até ontem. É feliz, vive do mundo,
percorrendo-o com vagar. Mas ainda não é pai. Ainda é cedo e não conheceu a mãe
dos descendentes. Um dia, dizia-me, tem de voltar para ficar. Só tem uma
certeza, pai vai ser, porque só quer continuar a partilhar.
30.3.15
Voz que celebra heróis.
Nas últimas semanas tenho estado a trocar
mensagens com uma amiga. Mensagens escritas. Ora no mail, ora no telemóvel. Ou
numa ou outra rede social. Não estamos juntos fisicamente há tempo sem conta.
Demasiado. Contava-me das aventuras de uma cidade distante. Do David, eterno
beto de cabelo viciado. Zangou-se com o rapaz, premeditadamente, para
afugentá-lo. Excessiva parcimónia em inenarráveis actividades. Mau sexo também.
Enviou-me uns links. Adiei a visita. Já não sou capaz de contar os anos que
passaram desde o momento em que conheci a Joana. Chamemos-lhe pelo nome da
menina que come a papa, enquanto lhes cantarolam ao ouvido, de colher em riste.
Como quem fecha os olhos e permite-se imaginar. Devíamos ser assim, agentes da
imaginação impar e desassossegada. Porque a Joana não deixa de ser assim. E é,
sem grandes filosofias, uma miúda certa e feliz. Vai estando feliz. Canta, a
Joana canta. Às vezes, aqui me confesso, esqueço. Não me lembro que a Joana
pequenina, que conheci lá atrás, numa infância que parece distante, canta. Numa
infância quase ausente. Muito mais do que, de facto, é. Canta e fá-lo com
propriedade. Pois, vamos lá tentar entender, canta e fá-lo com talento. E,
finalmente, decidi abrir os links. Lá estava ela, bonita de olhos expressivos.
Os lábios atrevidos. A cantar em bares. A interpretar canções de outros. Em
jeito de rodapé, num dos e-mails com o link em anexo, perguntava a minha
opinião. Não sou o tipo mais avalizado para isso. Mas sei do que gosto. E tu,
Joana, cantas tanto. Dias depois, ela respondia. E recusava a minha resposta.
Agradecia, mas queria saber o que tinha para dizer sobre actuações ao vivo, em
bares variados, com canções de outros. O estigma existe, bem sei. Mas não
merece poste e bandeira. Joana, boa amiga, só se lixa quem quer. O preconceito
tem lugar para lá do dicionário, mas não vive para sempre. Cantas para caraças,
mesmo que a expressão seja típica da génese do calão. O resto é impertinências,
tal e qual, uma insónia. Canta onde te deixarem. Até que te valorizem a alma na
voz. Minha boa amiga, tens garganta. Humilha o povo sobranceiro e arrogante.
Joana, um beijo. E sê velhaca. Há quem goste.
4.3.15
Bravo.
Aquele
gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é
descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa
adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os
ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com
uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as
camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e
de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso.
Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das
conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que
já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na
minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não
me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que
com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um
gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa.
Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno
dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda
hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.
2.3.15
Sem favores à mistura, é um ponto de vista.
Estranho,
nunca me lembro de como é que as coisas aconteceram. Nem é tão relevante quanto
fazem parecer. Interessa aos envolvidos. Acho que faltou a luz e decidiram que
era melhor colocar um ponto final – não gosto desta expressão, prefiro outras,
como terminar a relação ou seguir caminho, mas apetece-me ser fora da caixa - do
que investir no conserto do que andava manco. Com um lustre daquele tamanho no
centro daquela sala avantajada, era a desculpa perfeita para o entretenimento e
não mais se falar no assunto. Continuavam alheios e felizes da porta para fora.
E da porta para dentro. Não discutiam e ocupavam-se da troca das muitas luzes
que pendem daquele candelabro. Caro, mas uma oferta de casamento. Só trocavam
sorrisos falsos e vontades disfarçadas. Viveram felizes num sempre que não foi
além dos três anos. Como se o tempo, por si só, formasse as pessoas. Tinham
luzinhas e fotografias por toda a casa. Só lhes faltava a piscina que ficou na
casa dos pais. Trocaram e trouxeram o carro de alta cilindrada e o Mini para o
dia-a-dia. Ou vivo enganado, ou isto não importa nada. Não tem relevância e não
revela nada. Vozes de burro não chegam ao céu. Expressão que não combina com a
leveza e luxúria de uma vida cheia de torneados bons. Como não interessa as
razões, apenas as reacções. Por isso, incomodam-me os dedos em riste, prontos
para usar da verdade absoluta e apontar os erros. Calma, bons rapazes! Cautela,
meninas de bem! Ele foi para um país onde a língua tem aroma. Ela ficou por um
Portugal que tem memória e grita a dor. Olhos que não vêem, coração que não
sente. Guardem as bárbaras verdades. E vivam as vossas vidas, com ou sem
novidades. Olhem para a vossa sala. Fechem as cortinas e deixem os outros
passar. Estranho. Agora mesmo, enquanto pensava e escrevia, fiquei com a sensação
– inócua, por certo – de que por me preocupar com factos reais, não sei contar
a história como ela é. Mas tinham o lustre. E as fotografias, as luzinhas e os
carros. O chão de madeira e as varandas largas. Tinham amor. Foram sinceros.
Guardaram o mais importante e seguiram separados. O resto é ironia da minha
parte. Amigos, não se apoquentem. Ter um lustre daquelas dimensões na vossa
sala era tão sui generis. Como vocês.
Fiéis à vossa razão.
19.2.15
A sociedade é tramada.
Não
nos vemos todos os dias, não falamos sempre. Vemo-nos às vezes, quando dá ou
quando decidimos que já passou muito tempo. Mas voltamos sempre iguais. Em
grande parte do que deixamos na última vez em que nos encontramos. E, novamente
frente-a-frente, anunciamos as boas-novas. As chatices também. Ele, depois de
algumas imperiais, falou sem parar - Se te perguntar, prometes responder e
guardar? Se me decidir, ganhando coragem, a perguntar a tua opinião, vais
fazê-lo sinceramente e guardar, apenas e só, para ti? - Talvez, não fossem exactamente
estas as palavras que ele usou, mas foi esta a conversa e lembro-me dela assim.
Ressalva garantida, sei que lhe respondi que sim. Que não é preciso pedir
silêncio. Que vou ouvir, pensar e responder como sempre faço. De forma viva e
verdadeira. Sapiente, se os ligamentos do bom amigo mo permitirem. Se não
estiver saturado. Mas fá-lo-ei, sim. Manda vir. – Perder-me da razão e
embeiçar-me por uma espécie de caça talentos, é fora do circuito? – Depende da
postura de quem caça e do que caça, pensei. – É a mais atestada e testada que
já conheci, continuou. – Não me ri, mas sorri. É, se calhar, a mais sincera que
já conheceste. A nossa conversa avançou e não merece mais pormenores aqui.
Garanti-lhe que só é um problema se nos enche o pensamento. Outra imperial.
Deixa-te disso. Segue em frente que o circuito, as suas definições e o próprio
conceito de sociedade já não são os mesmos. Perde a vergonha e esquece a
pressão. A forma de viver é a liberdade do outro. Esquece a quilometragem. E
sai pela primeira vez. No final, rimo-nos. Como sempre.
18.2.15
Matilde. #2
Não
gosto do Carnaval. Ou, se escolher melhor as palavras, não simpatizo com o
Carnaval. Nem com a folia e o reboliço pelas ruas fora. Mas respeito. Quiçá,
não me identifico com o espírito folião que se apregoa por estes dias. Prefiro
outras manifestações festivas. Sortudo, por esta altura, estou num canto de
Portugal, por onde os festejos se esqueceram de passar. Não foi propositado,
mas agradeço. Não é a consequência de uma qualquer cultura ou educação sobranceira
ou snobe. São gostos. E esses, tanto quanto me lembro, não merecem discussão.
Depois, recuando, foco-me numa imagem que não esqueço. Porventura, a prova de
que o Carnaval ultrapassa os três dias. Uma amiga, uma jovem bonita,
inteligente, servida de eloquência, interessante, alta, esguia mas de carnes no
sítio, apresentou-se, num rasgado propósito, com um novo look. Não importam os motivos. Estava impecável. De pé, sorria sem
controlo. As pernas, tinha-as juntas, assim como, os pés. Neles, calçava uns stiletto beges. Depois de todos os
elogios, não guardou resposta. Disse-nos, de verdade na voz “Este é o meu Carnaval. Desfrutem. Só me
mascaro de quando em vez”. Nunca mais me esqueci. Posto isto, acreditamos
não mais voltar a vê-la naqueles trajes. Nunca mais me esqueci. Até ao dia em
que, divertida, voltou a calçá-los. Não era Carnaval. Era a ocasião que faz o
folião.
Um
ano volvido, a Margarida, que tem nome de flor, sossego e beleza, é a folia no
desprendimento das vozes que lhe são, felizmente, alheias. De saltos altos e
num vestido que mostra as pernas torneadas ou nuns Converse All Star, é quem sempre soube que era. Uma vez esquecido,
para sempre um Carnaval de verdade. É, agora, o folião que faz a ocasião.
16.2.15
Casamento para tirar proveito.
Como
em tudo na vida, a verdade existe sempre, mas não deixa de vestir-se de uma
máscara, tantas vezes, bem mais ardilosa e rebuscada do que o mote, a verdade.
E não é diferente num bar de Portugal que imita os pubs antigos. Os verdadeiros, os britânicos. Com o comércio de
bebidas alcoólicas sem fim. Encontramo-nos lá. Fui com companhia. Estavam,
entre outros tantos, duas pessoas no balcão, que nos esperavam, como haviam
passado a indicação. Duas mulheres portuguesas, no espírito da comunidade
estrangeira que dinamizava o espaço. Que barafunda pegada. Uma confusão
desmedida. Menina liberal de escola interna, de faculdade livre e educação
apertada. Solteira por convicção na rua. Solteira por falta de oferta real, no
conforto da intimidade. Conta sem maldade. Com um copo na mão, depois outro. É
amor num dia, é carnaval no outro. Era a vida dois dias, o carnaval três. Má
sorte, lembrava ela enquanto se lamentava, pois estragaram-lhe o ano com a
união das datas. É mais fácil investir na ilusão. Soltou um foda-se e seguiu – Logo hoje que a minha mãe me lembrou que uma
mulher e jornalista nunca anda mal-amanhada e desprevenida. Caso-me com um
secador de cabelo e uma máscara para as pontas. - Vai presa por bigamia.
28.1.15
Mulher que tem cabelo avermelhado e conteúdo com elegante recheio.
Acordar
cedo é conhecer mais e melhor. Tomas uma bebida quente, aqueces as mãos. Olhas
à volta e, afinal, o cedo foi antes. Há gente a viver as ruas com luz nacional.
Rapariga de tranças curtas. De madeixas iguais. Rapariga de cabelo da cor das
chamas. Da brasa bamboleante. Não é essa, é outra. À antiga já lhe conhecemos
os jeitos, os trejeitos e o feitio desavindo. Agora, há outra ruiva. De cabelo
entrançado. Quase parece um fogo real, no meio da rua. No centro sob o sol de
inverno. Frio e agasalho, camisa de outro design.
Rapariga bonita, de vestimenta pomposa. Havia de gostar da loja de que me
falaram há uns tempos. Em Londres, nas feiras de rua, nos armazéns da cidade.
Achados bons, escolhas felizes. A ruiva rapariga tem uns óculos de sol vintage e, pasmo-me, lembram-me uns da
minha mãe. Desenho actual, lembrança de outro tempo, um qualquer em que as lentes
grandes e as armações empinadas fizeram moda. Qual diva celeste, de ruivos
fios. O casaco grosso pelos ombros, a denuncia de um sol que aconchega. Passam
pessoas à volta. Não chamam a atenção. Ela vem de passo firme, de corpo que
sabe mexer. Absorta, vai olhando à volta. Mergulhada, decerto, nos pensamentos
que fluem. Chegou, aproximou-se. Cumprimentamo-nos. Bom dia, ruiva rapariga.
Bom dia, apetecível rapaz, respondeu-me.
4.12.14
Individualidade consciente.
Prevalece
a privacidade, a felicidade de ter um antes e um agora. Fumas um cigarro, mesmo
que nunca tenhas adquirido o hábito. É voltar às festas de fim-de-semana que
terminavam tarde. Tão tarde, roubávamos horas e mais horas. Sem que ninguém,
senão os convidados se decidissem entrar daquele portão grande para dentro. A
piscina, a casa no centro, o longo jardim que, sem grande esforço, perdíamos de
vista. A sala de convívio lá no fundo. A música típica do tempo em que
inventávamos que fumávamos. Um cigarro e um sem número de grades de cervejas, em
igual número bebidas várias. Rapazes e raparigas que marcaram. Estórias de
leves amores e de escondidas paixões. Num lugar distante. Tal como o tempo que
é agora longínquo. Não tanto quanto isso, mas mais na medida em que nos
sentamos e contamos os anos. Não foi há tanto tempo assim. Ela não estava lá.
Hoje partilhamos factos aos pedaços. Eu não estava noutras ocasiões dela. É o
tempo certo. Para começar, ao invés, de recomeçar. Tantas coisas novas para
contar.
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