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25.5.15

Narração dos acontecimentos.

Podia contar-te uma história. Dizer-te que o sexo é sempre um compromisso e que amanhã será a realização de todas as convicções e ilusões de hoje. Pedir-te que acredites como se tivesse esse direito. Porque é o amor, sempre o amor. Ou a necessidade física a ir contra a questão fundamental, a lealdade. Estava a pensar nisto, depois de me cruzar com ele. Conheci-o através de uma amiga muito próxima. Foi-me apresentado já como seu namorado, embora, tenha ouvido algumas coisas sobre ele antes de o conhecer. Na boca dela, querida amiga, era um tipo alto, bonito e inteligente. Era formado em medicina e era de boas famílias. Era calado, mas tinha sempre a palavra certa. Imaginei uma capa de revista e nessas, reza a história, há muito pouco conteúdo real por onde apalpar. Mas acabámos por marcar um jantar de amigos. Não foi difícil identificá-lo, pois entrou com ela e as informações anteriores pareciam estar correctas. Boa amiga esta, verdade seja assinalada, sempre foi bastante pragmática. O homem de todas as relações, aventa ela e eu não digo que não. Confirmou-se, então, a timidez. Ainda assim, e sem darmos por isso, foi fazendo cada vez mais parte do grupo. Até ao momento em que numa das vezes em que ele ia tocar para nós, serão garantidamente longo, e ela chegou sozinha. Chegou ao fim, o espectáculo de cordas e o namoro. Estive com ele depois disso um punhado de vezes. Soube fazer as coisas e, ficou-se somente, pelo lamento do fim da relação. A boa amiga tomou outro rumo, porque sexo é incompatível com a necessidade de sinceridade que uma relação exige. Estamos num bom caminho, estamos a conseguir ser fieis a nós. Com a verdade me enganas. Não obstante, podia contar-te uma história.

21.5.15

Filosofia de madeira à janela.

A bancada é de uma madeira praticamente imaculada. A janela na frente, ausente de cortinas e cheia de vida do vidro aos quadradinhos para fora. O jardim é bonito, tem verde com fartura, questões que têm resposta nos outros apontamentos, coloridos. Do rosa tradicional ao laranja apelativo. Árvores e as flores com estórias agarradas, umas outras tão imberbes, frágeis à vista, ainda mais ao toque. Cá dentro, a bancada que inventa pureza tem sobre ela uma tábua, também de madeira. Esta, tão gasta e marcada. Sem lhe conhecermos o passado, sequer os últimos minutos, inventamos-lhe um propósito. Uma causa primeiro, por fim o efeito. No recheio destes dois, ficou o processo. Agora os verdes impecavelmente cortados combinam com o leito, a tábua. A faca é hábil, em resposta às mãos que a comandam. Juntam-se outros tons, quentes e apelativos. Outras texturas e cheiros. Ao lado, quatro copos de vinho. A garrafa meio vazia. A seguir, a confissão. Vezes sem conta, uso e abuso deste ponto. Abro totalmente a janela e fico a inventar. Crio motivos e razões. Justifico cada pessoa que passa na rua junto ao portão. Já vi mulheres corujas, mães felizes, esposas traídas e fêmeas maltratadas. Já vi homens falhados, professores sem pensamentos, pais ausentes e machos felizes. Viver iludido é magia. Como uma brincadeira de criança. Fazer de conta e rir disso. Descobrir as diferenças é outro jogo. Só brinca quem quer. Depois dela terminar o desabafo, foi impossível outra reacção. Fizemos silêncio.

20.5.15

Idiossincrasia do comum mortal.

O terror acontece. Ameaças vender a alma, apenas e só, com a esperança de que esse fogo, por ora quase extinto, regresse e com as chamas vivas te queime até à alma. Porque é o pensamento que não te dá descanso. Dás crédito porque, teimas com a maior força e insistência e acreditas com piedade que não sabes viver de outra forma. Rasgas fotografias que tinham tomado lugar de honra e espaço de qualidade na decoração, partes este ou aquele objecto. Violas tudo aquilo em que acreditaste até aqui. Ela passa a mão pelo cabelo comprido. Sorri e leva o copo à boca. O amor não tem outra coisa, senão data de validade. Um total de horas, minutos, segundos. Viveste, cada uma delas, cada detalhe deles, à tua maneira. Mesmo que neste instante, tudo se assemelhe, por demais, a um enredo característico de telenovela. Geres a dor ao sabor do Instagram onde a outra parte insiste em mostrar vida e coloca uma fotografia em que te cortou. Era a memória de uma viagem boa. O amor quando chega ao fim tira humanidade. Contudo, não rouba dignidade. Estava a ouvir-te relatar os últimos momentos dessa relação, cara amiga, e só te pude parabenizar no momento em que me dizes que bateste com a porta. Metáfora batida, mas convicção na medida certa. Só fiquei feliz por ti nesse momento porque, como vieste a admitir, esse não foi o método final da relação. Foi, bem sabemos, toda a relação. Baralha as emoções, joga outra vez. Tal como o terror, o amor também acontece. Beijo. Cheers!

18.5.15

Em diferido. #34 (Um ano depois)

Passa o tempo - O fim-de-semana foi de maior. Não li jornais, nem revistas. Ouvi menos música no decorrer dos dias. Escrevi menos do que nos outros períodos. Vi-me mais vezes, e mais demoradas, ao espelho. Escolhi a roupa noutros moldes. É um género de rescaldo. Se é possível fazê-lo nos próximos meses. Foi um fim-de-semana de entusiasmo e dedicação. A recuar aos dias atrasados, estendendo o descanso, ansiado. A dinamização auferiu pontos extra. Nomes há, que guardo sempre com saudade. Amizades que não têm definição. Gente que me carrega, de sorte e sensações, o núcleo da amizade. Nomes que, ao falar deles, quem me ouve já sente a verdade do que sinto. Já não fazem contas à infinita amizade. Por isso mesmo. Sair para jantar. Descer a rua de sempre, a falar sem reparar nos que passam. Sair para conversar e beber um café. Sair para estar e tomar algo. Sair, também, para tomar o pequeno-almoço. Falar, sem tabus. Contar, se surgir ocasião e necessidade. É um encontro de partilha. Um modo de participar nas nossas vidas. E torna-se numa estrada sem limite. A conversa não se esgota. Marcámos, apenas, uma hora. A de encontro. Daí para a frente, não sabemos. À noite, a brasa de ver o Benfica terminar o que havíamos discutido nos últimos tempos. Fez-se campeão. É um festival de raiz. Tudo isto. E isso basta. Não é preciso mais.

6.5.15

Quando for grande.

Não foi jornalista, embora, seja formado precisamente nessa área, por implicação do destino. Na verdade, não tem carteira de jornalista, porque nunca exerceu nem em tempo algum fez questão de exercer. Acho mesmo que ele acredita no destino e na necessidade de se moldar. De desenhar a mente e o corpo em concordância. Não sei como é que ele faz, mas fá-lo com maestria. Tem mostrado simpatia entre a mente que nunca sossega e o corpo que nunca tem tempo para parar. Parece estranho, mas começa a fazer algum sentido, assim que conhecemos alguém como ele. Nunca o vi apaixonado pelo jornalismo, mas gastava de letras. Fomos para ciências pela abrangência e, naquela altura, pela necessidade de cortar caminho. Contudo, tínhamos tudo bem delineado. Algumas coisas aconteceram, outras nem por isso. Suportando-me nas suas teses, foi o destino. Como deve ter sido essa combinação de circunstâncias que não fogem ao fado nacional, que o levaram a viver fora de Portugal. Mais um amigo que vê o nosso país como berço, mas tem o mundo inteiro como casa e vida. Falamos este fim-de-semana, depois de quase um ano sem trocarmos uma palavra. É um cliché, e aborrece-me vê-lo assim, mas é a verdade. Amigos há que nunca deixam perder a proximidade e o à-vontade. Conversamos como dantes. Esteve no oriente. Agora numa Europa com sabor, que no sul tudo é fervor. Mas já tem bilhete para terras de sua majestade. Volta no verão, na força do tempo e das esplanadas que deixam colocar a prosa em dia, beber com qualidade e ver gente a passar. Obrigou-me a estar por cá nessa altura. Um café, um jantar. Às vezes, quando falo com ele, ameaço acreditar no destino. Vindo dele, tenho a certeza, vou ter um ou mais jantares algures no verão.

5.5.15

Impulso de se (des)orientar.

O meu sentido de orientação, não raras vezes, falha. Falha-me e deixa-me, claro, desprovido de qualquer contra-argumentação. Não perco o norte, mas fico ligeiramente limitado no que ao espaço diz respeito. Não é tão flagrante ou limitador quanto possa parecer, mas agudiza a paciência. Faltou-me, se calhar, uma educação direccionada para o volume desnorteado de actividades ao ar livre, de bússola numa mão e mapa na outra. De calções curtos, botas nos pés, lenço ao pescoço e tudo o que faz parte da farpela. Até as meias subidas. Mas nunca quis. Aqui, nem posso justificar o desprendimento e a força com que me opus, com o meu lado beto. Que, tanto quanto me lembro, muitos deles andavam por lá. Mas um tipo tem outras prioridades e, vamos lá entender, nunca se perdeu. Como naqueles dias quentes, algures numa primavera em fim de tempo ou num verão em inicio de época. Quando teríamos uns quinze ou dezasseis anos. Em que pegar numas mochilas, umas roupas e enfrentar uma infindável viagem de autocarro não era senão aventura, camaradagem, partilha e festa por toda e nenhuma razão. Avançar, perto da noite, mato afora, na direcção da praia. Passar a noite na mesma até ao amanhecer. E, só nesse instante, perceber que, afinal, sempre perdi alguma coisa. Os meus calções de ganga, da marca preferida da altura que fazia justiça ao lado beto, haviam sido roubados. Por certo, haverá desgostos maiores. Não me perdi.

4.5.15

Uma pequenina luz.

Sempre que a vejo de coração nas mãos, ameaço tirar-lhe uma fotografia e guardá-la para sempre. Podia desenhá-la, pintá-la ou escrever sobre as sensações e as reacções. Mas a fotografia está sempre ali. Com a geração da tecnologia, o caminho é fácil, reduz-se o pensamento e escasseiam as dúvidas. Escolhes sempre a chapa do momento. Que o céu é azul, que o mar é salgado e que Zé canta o fado, já todos sabemos. Que ela é intimidade e verdade num enredo singelo, é outra viagem. Perguntaram-me e respondi como da última vez. Volto a estar de copo na mão. Agora, sentados na avenida da nossa terra. Voltar às raízes também é segurar o coração com outra convicção. Porventura, aqui, perdem-se os receios e as questões de um futuro breve. Não se temem as mãos trémulas e o coração desamparado. Porque isso não acontece sem rede, sem protecção. Alguém lançou que tinha pena de quem não tem para onde regressar. Lamentamos a cidade que é berço e vida. Mas volto sempre à cidade que não é minha por um qualquer desentendimento astral. Falho na escolha do vocábulo, por não acreditar, tamanha a dúvida. Seguiram-se outras perguntas e a todas respondi da mesma forma. Os amigos riem juntos e são felizes. Os amigos prestam-se ao silêncio sem peso e são felizes. Vivam na raiz ou ganhem sustento num lugar que os adopta. Quando voltava para casa, no carro, tive a certeza de que, de coração nas mãos ou de risada despreocupada, hei-de querer guardar esta intimidade para sempre.

30.4.15

De Londres, com saudade.

Foi assim que terminou a mensagem que me chegou ontem ao e-mail. Vem de lá uma parte da saudade, que a vou tendo dispersa. Feita em pedaços, numa Europa altiva, numa Europa romântica, num ou noutro continente. Nova Iorque tem trejeitos e não guarda, hoje em dia, nenhuma fonte de saudade. Mas guardo-lhe alguma curiosidade. De Londres, vem uma amizade antiga, num táxi bonito, de saltos altos e maquilhagem irrepreensível. Enquanto, de maçã na mão, escreve sobre a distância. Relata, sem sossegar, o que ganhou depois de se mudar. Também perdeu e escreve sobre isso com a mesma dignidade. Misturada com a serenidade. Embora, as palavras escritas possam enganar, porque perdem a identidade da voz e do tom do interlocutor, vamo-nos lendo em sintonia. Há uns anos emprestaram-me um livro. A capa era dura, tão forte e pisada pelo tempo. Não consigo perceber se estava numa ou noutra fase. Mas não esqueci. Quem mo emprestou fez bastante questão. Leva-o, toma-lhe as conversas quase inexistentes e guarda o texto corrido e as descrições. As descrições, essas sim. Moldavam, propositadamente, toda a história. Bem sei, adiei até não mais conseguir, o dia em que trouxe o livro para casa. Leva-o, desta vez, leva-o. Vais atentar a intelectualidade e questionar a espiritualidade. Lê com calma, dedica-lhe tempo. Fiz como pedido. Lembro-me que no exacto momento em que cheguei à última página, lhe devolvi uma mensagem. Citação breve, um pensamento mais demorado. Que não é novidade, tenho tendência a ser longo na prosa. Quem mo emprestou, a amiga brava que conversa de Londres, respondeu-me. Muitos elogios e todos fundamentados pelo poder de argumentação. Conversamos imenso, escrevemos ainda mais. Daqui, com saudade.

23.4.15

A causa do fundamento.

Saiu-lhe um palavrão sem pensar. O modo de viver que decorre do nascimento até ao ponto final é digno daquela palavra. Qualquer dia ensandeço, viro costas e vou-me embora, compro uma quinta que me faça perder o horizonte. Deixo-me ficar lá, hei-de gozar o triplo. Dizia ele e não deixa de ser verdade. As opções existem, falta a coragem, a insensatez e o desapego aos nossos. Lembrei-me desta conversa enquanto ouvia música. Um som dos anos oitenta, se não me engano, de mil novecentos e oitenta e dois. Está sol lá fora, falam-se dos altos níveis dos raios UV, antecipando cuidados. Nas ruas há gente a viver as temperaturas mais secas. Há chinelos no pé, t-shirt no lombo, calções sem condizer. Vestidos fluídos às cores. Flores e riscas por todo o lado. Chapéus com fitas à volta que ganham nomes tão técnicos que nos fazem parecer descerebrados. Também importa, mas não interessa nada. Assusta-me a banalidade com que se abordam certos temas. A facilidade em tomar a vida do outro pelo nosso olhar. O nosso prisma, as nossas vivências vão, inevitavelmente, talhar as nossas opiniões. Ficam inquinadas e, para sermos justos, não traz benefícios. Como a exposição, tempo sem conta, ao sol. Sem protecção e sem juízo. A última é uma característica deste homem, do mesmo que ameaça mudar de vida. É mais velho que eu, habituei-me a escutar-lhe as estórias e a sabedoria. Talvez, seja essa a procura de todos os dias. Uma das maiores, se quisermos. Pior do que não saber onde estamos, é não saber quem somos. Não acredita em Deus, mas sabe que quando lhe chegar perto, será, por demais, bem recebido.

20.4.15

Podes fazer o que quiseres.

Voltei a cruzar-me com a Joana. Pode, para já, não fazer sentido. Mas ela divertia-se imenso e rodava com as emoções com a facilidade com que escondia tudo e inventava como se vivesse faminta. Era menina de cores certas e queria, porque queria, ser capa de revista. Mudava a cor do cabelo e desmentia as evidências, porque queria à força, mostrar que era loira natural. Tão lógico como o afago de algumas manias. Há uns tempos atrás, as casas de banho influenciavam a escolha do espaço. Uma amiga limitava as saídas em grupo com os seus conhecimentos do equipamento sanitário vizinho. Imagina um balcão, uma sala escura. Um bar que já conheceu tantos donos quantos os dias que um mês conhece. Já foi ponto de encontro, já foi lembrança de última hora. Quando já não restava outra hipótese. Válida, pelo menos. No verão passado voltámos uma ou duas vezes, no máximo. Uma alteração ou outra no espaço. Uma rapariga gira a servir ao balcão. Outra sentada à conversa enquanto era servida. Uns quantos tipos de pé. Sentamo-nos. Risada fácil, conversa com memórias. As bebidas sempre a girar. Nisto, enquanto a líder da decoração (vulgo amiga limitadora de escolha) ia confirmar se o roxo mantinha-se na parede, do balcão oiço um olá seguido do meu nome. Afinal, a jovem sentada ao balcão era a Catarina. Cumprimentei-a e trocámos algumas palavras. A servir no escuro, continuava a loira simpática. As noites entre amigos não fazem sentido se não voarem. De regresso da casa de banho, a amiga que encerra restrições, lamenta a troca do roxo pelo vermelho. Diz, não combina com os espelhos. A culpa, continuou, só pode ser da aspirante a actriz de novelas da meia-noite. A Joana era a miúda gira a servir no balcão. Lamento sempre o meu pouco jeito para memorizar algumas coisas. Não me fez confusão a Joana ter virado menina do bar. Gostei, isso sim, de vê-la ainda mais gira e simpática. Noutros tempos, era um sufoco estar sempre à espera do momento em que, ficcionando um desmaio, se jogava ao chão. Grande Joana, o vermelho sempre te ficou bem.

16.4.15

Afeição e simpatia recíprocas.

A minha mãe pede-me um beijo, com a sensibilidade desmedida, nada forçada. De quem acusa alguma saudade e não esquece os momentos idos, em que beijar o filho petiz, resumia-se, somente, a uma opção: fazê-lo sempre. Saudades de mãe. Contudo, fá-lo ao jeito de quem pretende mostrá-la sem assumir. Adivinho-lhe alguns pensamentos. Antecipo-lhe algumas palavras. Acontece, uma ou outra vez. Depois da demora, avança que já não lhe chego com o mesmo tempo e a mesma periodicidade. Uma espécie de filho em dívida permanente. Dei-lhe, por fim, o beijo. Os beijos. Não sei como é que funciona, mas as mães têm uma condição especial. Um caso tão particular de dedicação. Têm poderes sem fim, desconfio. As mães têm amigas muito diferentes. A minha, pelo menos, fez assim. Tem amizades díspares e antagónicas. Consegue sentar-se e tomar um chá em ameno e sintonizado silêncio. Também sabe estar numa sala cheia e gargalhar sem qualquer vergonha. Tem ainda a capacidade de conversar, tanto, sem fim. As amigas são um complemento do estado. Do espírito que tem tons de diva saturada. Em cada um de nós. Ontem, éramos para ir tomar café apenas os dois. Escrevo éramos propositadamente. Pois, numa visita surpresa, surge uma amiga da minha mãe. Acabou, claro, por nos acompanhar. Inevitavelmente, fiquei a ouvir-lhes as memórias. Voltamos às questões de gerações diferentes. No nosso tempo, foi o mote de grande parte da conversa. O tempo, afinal, acabou por voar. Esta amiga da minha mãe, de cabelo armado e super dedicada à neta, cujo objectivo é mantê-la nas aulas de música clássica, confessou, de mão a tapar a boca, denunciando alguma vergonha, que adora kizomba e amava ver a neta a tocar e cantar num baile de verão. A minha mãe soltou a gargalhada típica. Em havendo talento e vontade, há que investir. Sempre achei os coretos um palco tão digno. Nada nem ninguém é o que parece, até lhes tomarmos uma parte da verdade. O tempo faz milagres. E tem armadura de comédia.

13.4.15

Tipo genuíno e uma convicção verídica.

O fim-de-semana é o recurso dos ocupados. Mesmo que a labuta não cesse, fica sempre um gosto mais requintado. Tens o tempo camuflado. Travestido de outra coisa. Tomas o básico qualificado, como se estivesses a digerir e a aproveitar o alambicado altamente classificado. Dás um, dois ou três beijos, conforme o apetite, porque não interessa nada a flora etiquetada e a fauna desinvestida de uma certa zona de extremos. As gentes boas à beira do mar, junto aos barcos. Os senhores de boa índole que têm relógio bom no pulso e gravata desenhada ao peito. Cruzas-te, física e telefonicamente, com uma série de gente que importa. Recuei ao corredor descoberto do ensino secundário. Em que lavar os dentes e fechar a torneira em cada intervalo da escova, era primordial. Para alguns. Uma discussão que se fundia e confundia com a ambição de um mundo mais cuidado. Tratar para ter retorno. Sempre assim. Cada um de nós opinava e tinha, mais do que uma opinião formada, uma opinião válida. Pelo menos, uma visão com validade. Mesmo que a acção ganhasse terreno. Sobre o conhecimento, portanto, sobre a teoria e a razão. Fora desse ambiente, um amigo que não frequentava os mesmos lugares. Mas batia-se, feroz e eloquente, contra todas as políticas instrumentalizadas pelo defeito e gritava por um mundo cuidado e bem tratado. Cheguei a gabar-lhe a vontade e a genica. Disse-lhe, também nessa altura, sem qualquer espécie de troça, que faziam falta mais tipos como ele. E mantenho. Voltando lá, ele tinha a certeza de que havia de correr mundo, ser feliz e, o mais importante ser pai. Cumpriu quase tudo até ontem. É feliz, vive do mundo, percorrendo-o com vagar. Mas ainda não é pai. Ainda é cedo e não conheceu a mãe dos descendentes. Um dia, dizia-me, tem de voltar para ficar. Só tem uma certeza, pai vai ser, porque só quer continuar a partilhar.

30.3.15

Voz que celebra heróis.

Nas últimas semanas tenho estado a trocar mensagens com uma amiga. Mensagens escritas. Ora no mail, ora no telemóvel. Ou numa ou outra rede social. Não estamos juntos fisicamente há tempo sem conta. Demasiado. Contava-me das aventuras de uma cidade distante. Do David, eterno beto de cabelo viciado. Zangou-se com o rapaz, premeditadamente, para afugentá-lo. Excessiva parcimónia em inenarráveis actividades. Mau sexo também. Enviou-me uns links. Adiei a visita. Já não sou capaz de contar os anos que passaram desde o momento em que conheci a Joana. Chamemos-lhe pelo nome da menina que come a papa, enquanto lhes cantarolam ao ouvido, de colher em riste. Como quem fecha os olhos e permite-se imaginar. Devíamos ser assim, agentes da imaginação impar e desassossegada. Porque a Joana não deixa de ser assim. E é, sem grandes filosofias, uma miúda certa e feliz. Vai estando feliz. Canta, a Joana canta. Às vezes, aqui me confesso, esqueço. Não me lembro que a Joana pequenina, que conheci lá atrás, numa infância que parece distante, canta. Numa infância quase ausente. Muito mais do que, de facto, é. Canta e fá-lo com propriedade. Pois, vamos lá tentar entender, canta e fá-lo com talento. E, finalmente, decidi abrir os links. Lá estava ela, bonita de olhos expressivos. Os lábios atrevidos. A cantar em bares. A interpretar canções de outros. Em jeito de rodapé, num dos e-mails com o link em anexo, perguntava a minha opinião. Não sou o tipo mais avalizado para isso. Mas sei do que gosto. E tu, Joana, cantas tanto. Dias depois, ela respondia. E recusava a minha resposta. Agradecia, mas queria saber o que tinha para dizer sobre actuações ao vivo, em bares variados, com canções de outros. O estigma existe, bem sei. Mas não merece poste e bandeira. Joana, boa amiga, só se lixa quem quer. O preconceito tem lugar para lá do dicionário, mas não vive para sempre. Cantas para caraças, mesmo que a expressão seja típica da génese do calão. O resto é impertinências, tal e qual, uma insónia. Canta onde te deixarem. Até que te valorizem a alma na voz. Minha boa amiga, tens garganta. Humilha o povo sobranceiro e arrogante. Joana, um beijo. E sê velhaca. Há quem goste.

4.3.15

Bravo.

Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.

2.3.15

Sem favores à mistura, é um ponto de vista.

Estranho, nunca me lembro de como é que as coisas aconteceram. Nem é tão relevante quanto fazem parecer. Interessa aos envolvidos. Acho que faltou a luz e decidiram que era melhor colocar um ponto final – não gosto desta expressão, prefiro outras, como terminar a relação ou seguir caminho, mas apetece-me ser fora da caixa - do que investir no conserto do que andava manco. Com um lustre daquele tamanho no centro daquela sala avantajada, era a desculpa perfeita para o entretenimento e não mais se falar no assunto. Continuavam alheios e felizes da porta para fora. E da porta para dentro. Não discutiam e ocupavam-se da troca das muitas luzes que pendem daquele candelabro. Caro, mas uma oferta de casamento. Só trocavam sorrisos falsos e vontades disfarçadas. Viveram felizes num sempre que não foi além dos três anos. Como se o tempo, por si só, formasse as pessoas. Tinham luzinhas e fotografias por toda a casa. Só lhes faltava a piscina que ficou na casa dos pais. Trocaram e trouxeram o carro de alta cilindrada e o Mini para o dia-a-dia. Ou vivo enganado, ou isto não importa nada. Não tem relevância e não revela nada. Vozes de burro não chegam ao céu. Expressão que não combina com a leveza e luxúria de uma vida cheia de torneados bons. Como não interessa as razões, apenas as reacções. Por isso, incomodam-me os dedos em riste, prontos para usar da verdade absoluta e apontar os erros. Calma, bons rapazes! Cautela, meninas de bem! Ele foi para um país onde a língua tem aroma. Ela ficou por um Portugal que tem memória e grita a dor. Olhos que não vêem, coração que não sente. Guardem as bárbaras verdades. E vivam as vossas vidas, com ou sem novidades. Olhem para a vossa sala. Fechem as cortinas e deixem os outros passar. Estranho. Agora mesmo, enquanto pensava e escrevia, fiquei com a sensação – inócua, por certo – de que por me preocupar com factos reais, não sei contar a história como ela é. Mas tinham o lustre. E as fotografias, as luzinhas e os carros. O chão de madeira e as varandas largas. Tinham amor. Foram sinceros. Guardaram o mais importante e seguiram separados. O resto é ironia da minha parte. Amigos, não se apoquentem. Ter um lustre daquelas dimensões na vossa sala era tão sui generis. Como vocês. Fiéis à vossa razão.

19.2.15

A sociedade é tramada.

Não nos vemos todos os dias, não falamos sempre. Vemo-nos às vezes, quando dá ou quando decidimos que já passou muito tempo. Mas voltamos sempre iguais. Em grande parte do que deixamos na última vez em que nos encontramos. E, novamente frente-a-frente, anunciamos as boas-novas. As chatices também. Ele, depois de algumas imperiais, falou sem parar - Se te perguntar, prometes responder e guardar? Se me decidir, ganhando coragem, a perguntar a tua opinião, vais fazê-lo sinceramente e guardar, apenas e só, para ti? - Talvez, não fossem exactamente estas as palavras que ele usou, mas foi esta a conversa e lembro-me dela assim. Ressalva garantida, sei que lhe respondi que sim. Que não é preciso pedir silêncio. Que vou ouvir, pensar e responder como sempre faço. De forma viva e verdadeira. Sapiente, se os ligamentos do bom amigo mo permitirem. Se não estiver saturado. Mas fá-lo-ei, sim. Manda vir. – Perder-me da razão e embeiçar-me por uma espécie de caça talentos, é fora do circuito? – Depende da postura de quem caça e do que caça, pensei. – É a mais atestada e testada que já conheci, continuou. – Não me ri, mas sorri. É, se calhar, a mais sincera que já conheceste. A nossa conversa avançou e não merece mais pormenores aqui. Garanti-lhe que só é um problema se nos enche o pensamento. Outra imperial. Deixa-te disso. Segue em frente que o circuito, as suas definições e o próprio conceito de sociedade já não são os mesmos. Perde a vergonha e esquece a pressão. A forma de viver é a liberdade do outro. Esquece a quilometragem. E sai pela primeira vez. No final, rimo-nos. Como sempre.

18.2.15

Matilde. #2

Não gosto do Carnaval. Ou, se escolher melhor as palavras, não simpatizo com o Carnaval. Nem com a folia e o reboliço pelas ruas fora. Mas respeito. Quiçá, não me identifico com o espírito folião que se apregoa por estes dias. Prefiro outras manifestações festivas. Sortudo, por esta altura, estou num canto de Portugal, por onde os festejos se esqueceram de passar. Não foi propositado, mas agradeço. Não é a consequência de uma qualquer cultura ou educação sobranceira ou snobe. São gostos. E esses, tanto quanto me lembro, não merecem discussão. Depois, recuando, foco-me numa imagem que não esqueço. Porventura, a prova de que o Carnaval ultrapassa os três dias. Uma amiga, uma jovem bonita, inteligente, servida de eloquência, interessante, alta, esguia mas de carnes no sítio, apresentou-se, num rasgado propósito, com um novo look. Não importam os motivos. Estava impecável. De pé, sorria sem controlo. As pernas, tinha-as juntas, assim como, os pés. Neles, calçava uns stiletto beges. Depois de todos os elogios, não guardou resposta. Disse-nos, de verdade na voz “Este é o meu Carnaval. Desfrutem. Só me mascaro de quando em vez”. Nunca mais me esqueci. Posto isto, acreditamos não mais voltar a vê-la naqueles trajes. Nunca mais me esqueci. Até ao dia em que, divertida, voltou a calçá-los. Não era Carnaval. Era a ocasião que faz o folião.
 
Um ano volvido, a Margarida, que tem nome de flor, sossego e beleza, é a folia no desprendimento das vozes que lhe são, felizmente, alheias. De saltos altos e num vestido que mostra as pernas torneadas ou nuns Converse All Star, é quem sempre soube que era. Uma vez esquecido, para sempre um Carnaval de verdade. É, agora, o folião que faz a ocasião.

16.2.15

Casamento para tirar proveito.

Como em tudo na vida, a verdade existe sempre, mas não deixa de vestir-se de uma máscara, tantas vezes, bem mais ardilosa e rebuscada do que o mote, a verdade. E não é diferente num bar de Portugal que imita os pubs antigos. Os verdadeiros, os britânicos. Com o comércio de bebidas alcoólicas sem fim. Encontramo-nos lá. Fui com companhia. Estavam, entre outros tantos, duas pessoas no balcão, que nos esperavam, como haviam passado a indicação. Duas mulheres portuguesas, no espírito da comunidade estrangeira que dinamizava o espaço. Que barafunda pegada. Uma confusão desmedida. Menina liberal de escola interna, de faculdade livre e educação apertada. Solteira por convicção na rua. Solteira por falta de oferta real, no conforto da intimidade. Conta sem maldade. Com um copo na mão, depois outro. É amor num dia, é carnaval no outro. Era a vida dois dias, o carnaval três. Má sorte, lembrava ela enquanto se lamentava, pois estragaram-lhe o ano com a união das datas. É mais fácil investir na ilusão. Soltou um foda-se e seguiu – Logo hoje que a minha mãe me lembrou que uma mulher e jornalista nunca anda mal-amanhada e desprevenida. Caso-me com um secador de cabelo e uma máscara para as pontas. - Vai presa por bigamia.

28.1.15

Mulher que tem cabelo avermelhado e conteúdo com elegante recheio.

Acordar cedo é conhecer mais e melhor. Tomas uma bebida quente, aqueces as mãos. Olhas à volta e, afinal, o cedo foi antes. Há gente a viver as ruas com luz nacional. Rapariga de tranças curtas. De madeixas iguais. Rapariga de cabelo da cor das chamas. Da brasa bamboleante. Não é essa, é outra. À antiga já lhe conhecemos os jeitos, os trejeitos e o feitio desavindo. Agora, há outra ruiva. De cabelo entrançado. Quase parece um fogo real, no meio da rua. No centro sob o sol de inverno. Frio e agasalho, camisa de outro design. Rapariga bonita, de vestimenta pomposa. Havia de gostar da loja de que me falaram há uns tempos. Em Londres, nas feiras de rua, nos armazéns da cidade. Achados bons, escolhas felizes. A ruiva rapariga tem uns óculos de sol vintage e, pasmo-me, lembram-me uns da minha mãe. Desenho actual, lembrança de outro tempo, um qualquer em que as lentes grandes e as armações empinadas fizeram moda. Qual diva celeste, de ruivos fios. O casaco grosso pelos ombros, a denuncia de um sol que aconchega. Passam pessoas à volta. Não chamam a atenção. Ela vem de passo firme, de corpo que sabe mexer. Absorta, vai olhando à volta. Mergulhada, decerto, nos pensamentos que fluem. Chegou, aproximou-se. Cumprimentamo-nos. Bom dia, ruiva rapariga. Bom dia, apetecível rapaz, respondeu-me.

4.12.14

Individualidade consciente.

Prevalece a privacidade, a felicidade de ter um antes e um agora. Fumas um cigarro, mesmo que nunca tenhas adquirido o hábito. É voltar às festas de fim-de-semana que terminavam tarde. Tão tarde, roubávamos horas e mais horas. Sem que ninguém, senão os convidados se decidissem entrar daquele portão grande para dentro. A piscina, a casa no centro, o longo jardim que, sem grande esforço, perdíamos de vista. A sala de convívio lá no fundo. A música típica do tempo em que inventávamos que fumávamos. Um cigarro e um sem número de grades de cervejas, em igual número bebidas várias. Rapazes e raparigas que marcaram. Estórias de leves amores e de escondidas paixões. Num lugar distante. Tal como o tempo que é agora longínquo. Não tanto quanto isso, mas mais na medida em que nos sentamos e contamos os anos. Não foi há tanto tempo assim. Ela não estava lá. Hoje partilhamos factos aos pedaços. Eu não estava noutras ocasiões dela. É o tempo certo. Para começar, ao invés, de recomeçar. Tantas coisas novas para contar.