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9.6.20

Coquetel e torpor dos sentidos.

Perdi a conta às conversas online agendadas no último trimestre. Imperativo da época, sob pena de atentarmos, desde logo, à sanidade e, no mesmo terreno, à amizade. Nada que, nos tempos globais, não seja prática. Como, de resto, já vinha sendo. Afinal, amigos a usar dessa escala é, por demais, habitual. Agora, a distância impondo-se de somenos. E, consumidos pela saudade, ideamos os mais urdidos eventos. Gente com disposição de espírito e extravagância quanto baste. Não fracas vezes, acompanhados por uma taça de vinho, ou garrafa, conforme o arrebatamento. Estoutro amiúde sugestão de um dos convivas, letrado em enologia. Confesso tolerada frustração por, até aqui, não me mostrar disponível para me fazer melhor conhecedor. Enfim, questões tamanhas se apresentam, como uma aventada por um amigo. Assume ele, e não desminto, é feito de humores, mas acima de tudo, de humor. E, com uma arma tremenda entre mãos fê-la sempre prioridade. Na roda de amigos, mas e com outro vigor no investimento que sempre emprestou ao amor. E, esta arquitectura mais ou menos trôpega valeu-lhe, a todos os momentos, a sorte grande. E tudo bem. Mas, não esquece ele, o confinamento traçou-lhe um quadro bastante atípico. Perdeu a graça, avança. Já não partilham risadas dilatadas como dantes, nem experimentam uma dose menor, porém confortável e saborosa. Os silêncios – massa tão valorosa entre duas pessoas que se gostam – ganharam peso e presença residente. A relação que há pouco começara padeceu dessa circunstância. Afastando o corpo e, pior, o interesse. Longe que estou de travar-me entendido nessas matérias, antecipo um diagnóstico que em nada reside no humor, antes na fragilidade do que ambos viviam. As relações são um património, os próprios e os adquiridos. E não confio num aspecto concreto e irrefutável, para atestar o ponto final. Aceito a necessidade de comprovar um erro, para ilibar a seguir. Somos gente e alicerçamos em solecismo. Não é novo o desmoronar, mas é com estupefacção que o olhamos e sentimos. A ilusão, coisa legitima, de que quando partilhamos com o outro, somos uma massa comum, indissociável. O amor, quem o não tem. E quem o não perdeu. Força, caríssimo. A labuta apenas começou.

25.5.17

Afecto ardente numa 'Vespa'.

Vem uma Vespa disparada, de azul petróleo pintada. Nela segue o rapaz e a sua amada. Ele traz um capacete de couro escuro, com os olhos protegidos por uns RayBan clássicos. Ela traz um capacete menor, de couro claro, com os olhos resguardados por uns Dior. Nos pés, trazem calçados uns ténis capazes e com raça. Ela enverga um vestido com leveza, desenhado com flores e isso só lhe traz beleza. Ele veste uma camisola às riscas, num azulão e branco que convive em harmonia. Faz lembrar os marinheiros e a sua embarcação. Uns calções cuja cor pisca o olho ao tom escuro das riscas. A chegar, para a malta avisar, ele deixa fugir umas apitadelas. Levantam as mãos, ele e ela, com a maior sintonia, e acenam ao pessoal. Os convivas devolvem ainda com maior entusiasmo. Ouvem-se assobios, pequenos e médios gritos. Vozes finas e mais encorpadas. Mãos com vida, braços levados ao céu. Aplausos. Ela desce da Vespa azul petróleo, tira o capacete menor de couro claro, ajeita o vestido florido e comprido, compõe a mala que traz no colo. Mexe a cabeça, rodando o cabelo, como a melhor das divas faz no cinema. Desmancha-se numa gargalhada e fica quase envergonhada. Ele segue-lhe os passos. Deixa a lambreta, tira o capacete de couro escuro e passa a mão no cabelo para lhe restituir o jeito. Segura-o com firmeza, sacode os calções escuros como se estivessem tomados pelo pó. Cede o lugar dos óculos, agora coloca-os presos na gola redonda. Levanta a mão e cumprimenta todos. Lado a lado, ela e ele enlaçam as mãos. A direita dele casa com a esquerda dela. Regressam os assobios, os pequenos e médios gritos. As vozes finas e as mais encorpadas. O arrebatamento repete-se. Mãos com vida, braços levados às alturas. Aplausos. Abraços demorados. Beijos de cumplicidade. Imaginam-se dias longos de felicidade. Quisemos guardar numa imagem a comunhão e o amor. Saltem, se quiserem. Acabámos de experimentar o amor.

24.5.17

Moralmente salutar.

As desventuras dos outros, quando terrivelmente pesadas, não têm graça. Só as leves e com airosos acontecimentos associados. Pode parecer o fim do mundo, mas é momentâneo. Nos dias seguintes já ninguém recorda. Senão o protagonista. E esse, uns passos à frente, também já esqueceu. Ou guardou num lugar onde é fácil arrumar. Voltar lá e lembrar. Rir com alguém traz um prazer desmedido. Não importa o motivo. Principalmente com gente inteligente. Esses apuram os sentidos. Podes ser tu a personagem principal, pode ser o outro. Resume-se a minudências que não carecem de discussão. Como há dias, num jantar de amigos, em que alguém perguntava por uma antiga conviva. Só as memórias, de tão felizes, nos fizeram rir e guardar a certeza de que temos de nos juntar todos novamente. Hoje cruzamo-nos, eu e essa amiga, nas redes sociais. Vamos sabendo da evolução das vidas de cada um conforme partilhado. A distância física é tramada. Mas era uma amiga daquelas que faz a festa. Onde e com quem for. A diversão era garantida. Desde o primeiro minuto até ao último segundo. Como naquela noite, já lá vão uns anos largos, numa saída de amigos, em que o parque das nações foi pequeno para tamanha e efusiva excitação. O jantar bem regado. Na discoteca, o pé leve e dotado para a dança. Do que me lembro, pois sei que fiquei à conversa com uma jovem senhora que, embora no mesmo grupo, conheci naquela noite – Bastante interessante e cheia de prosa fluida e com garbo. Mais velha do que eu, profissional activa e apaixonada por viagens e, também por isso, dona de uma pinta sem classificação - Nessa noite, antes da discoteca passámos pelo Casino Lisboa e a minha amiga animada deixou-se prender na porta giratória. Feriu-se, mas felizmente sem gravidade. Mas não deixou de desfrutar. Na discoteca, nas escadas de acesso ao WC, fomos dar com ela feita em lágrimas, com um dos sapatos na mão. No fundo, estávamos todos à espera. Gozar a vida parece fácil mas, não poucas vezes, somos traídos. Apesar das advertências, ela insistiu em sair para jantar connosco. Foi o primeiro contacto com o ex-namorado, também nosso amigo, e com actual namorada da altura. Engolir em seco não é para todos. Mesmo para os festivaleiros de serviço. Depois disso já me ri com ela, sobre isto e outros assuntos. Hoje é uma mulher realizada. Casada, mãe e profissional. Agora dança a roda da vida com um tipo genuinamente bom, que a ama e cuida. É a prova de que o quotidiano se veste de fim do mundo vezes demais, mas que não é a garantia de nada. Ontem caímos, hoje somos mais felizes. De preferência, entre risos e gargalhadas pejados de ganas. Rir contigo é melhor do que rir sem ti. Pode ser sobre mim, pode ser sobre ti.

16.5.17

Trabalho preliminar para (a)testar o amor.

Conheço quem se debruce, não poucas vezes, sobre as questões do amor. Uma espécie de laboratório caseiro. Mas eficaz, garante-me. Um prédio, uma rua, uma empresa ou um espaço dançante, tornam-se, à sua mercê, numa bolha, cujo objectivo máximo é o estudo do amor. Parece irreal, mas é pura verdade. Conheço-a o suficiente para me fazer crente. As suas palavras são um irrepetível esboço de uma putativa tese. Refuto vezes sem conta, mas é na partilha que nos deixamos ficar. Entretemo-nos horas nesse desafio opinativo e assertivo. Gosto dela, da sua sinceridade, da coerência e, inevitavelmente, da forma despojada como aborda este e outros temas. Baseia-se, afirma, nas suas experiências. Depois, galga terreno com o que a sua vista alcança. Com a percepção que lhe chega. Com os relatos que ouve. A profissão, parece-me, ajuda. É uma mulher atenta, inteligente, astuta, cúmplice e uma excelente oradora. Recorreu a todas e a nenhuma no momento em que decidiu que havia de conhecer o vizinho do primeiro andar. Rapaz garboso, sem horários, com um bom carro e que aos fins-de-semana dava valentes festas. Acabou por confidenciar que a primeira vontade foi envolver-se numa tórrida e furtiva relação, mas que a segunda era bem mais imperativa: Acabar com as festas do primeiro andar. Tanto quanto me lembro, a primeira vingou com facilidade. A segunda fez-se demorada. Cá estamos nós os dois e mais uns quantos amigos, num sítio que gostamos de repetir, entre copos e conversas boas. Ela lembra que é uma incansável estudante das vicissitudes do amor. E que, por isso mesmo, é uma mulher incansavelmente insatisfeita. Quando isso mudar, chega ao fim o seu maior passatempo. Gozar a vida como se de um romance de fim de tarde se tratasse. Garanto que gostava de ver o amor com os moldes das novelas que a minha avó guarda lá em casa. Ou como os variadíssimos volumes de romances que a minha mãe foi acumulando. Gostava. Mas é mentira. Não me coube em sorte a crença de que o amor se reproduz em cada esquina. Ou num qualquer primeiro andar da vida.

8.5.17

A minha mãe tem claros olhos.

Consigo rir-me vezes sem conta com e pela minha mãe. Por isso, é sempre uma excelente companhia. Com o seu jeito quase desmanchado, um tanto contrastante com a educação e a época que guardou. Tanto mais, quando comparada com a dureza da sua mãe, minha avó. É de riso e trato fáceis e isso, parece-me, ajuda. Acredito, é uma boa bengala para a condução dos dias e das expectativas. Talvez por isso tenha a palavra sempre à espreita, sem esperar, tão sôfrega a vontade de palrear. Sem escolher o parceiro do diálogo ou desmentir a importância de cada um. Capaz de aturdir com os pensamentos mais desconcertantes, contudo, inócuos. O seu telemóvel tem uma vida autónoma. Faz a sua própria gestão. Não pergunta por nada. Some-se o som, toca largos segundos e não emerge da mala sem fundo. A carteira menor, idem. Corre o mundo – felizmente reduzido às quatro paredes de casa - sem que dê por isso. Tem a letra mais bonita que já vi. Gostava de ler uma novela verdadeira saída das suas mãos. Um deleite, consigo imaginar. Deixa fugir todas as vezes que é amanhã que faz dieta. E sei, é a sua forma de largar no vazio dos dias o peso da consciência. Da minha mãe não herdei os olhos esverdeados. Perderam-se as vastas oportunidades que os olhos claros trazem à vida de cada um, como bem sabemos. Assim, na retaguarda, consigo adivinhá-los. Todos e em cada molde. Cabe a brincadeira nestas verdades. A minha mãe não me deixou os bonitos olhos de herança. Teceu outros e mais apurados aconchegos. Ensinamentos e conselhos. Sou, ora bem, para além de uma ovelha com ares de ronhosa, um desditoso filho. Saí da forma e fiz-me gente sob a persistente e incessante mão cuidadora. Volta sempre a passar a mão pelo meu rosto, com a barba por aparar, e a beijar-me sem aviso. Sem antes, claro, lembrar que já não trocamos beijos como antigamente. É a queixa que não perde validade. É isso e os abraços demorados. Lá fora, entre o jardim do pai, as flores que avó teima em cuidar e o eterno banco. Ao sol, com cheiro a primavera e o sabor de todo o ano. Com uns olhos vivos e bonitos numa moldura especial.

11.4.17

Combate corpo a corpo.

Chamar-lhe pelo nome próprio ou pelo último, muda tudo. Um amigo de longa data, desde os primórdios das descobertas de cada um, faz-se, ainda hoje, amigo próximo. Apura-se a amizade nas pausas do desassossego dos dias. Corre-nos algures uma massa que é similar. Toleramos o avesso do excedente. Partilhamos noites bem regadas, tardes bem passadas. Manhãs escassas, mas bem aproveitadas. Levamos neste trajecto as nossas vidas cruzadas. Ele, que o trato sempre pelo último nome é um tipo inteligente. Mas carece de menos emoção na hora de experimentar o sexo, de viver o sexo. Sequer chego à paixão, amor ou paixoneta. Tampouco às relações com duração superior a oito horas. É o tipo que, há alguns anos, decidiu inscrever-se num ginásio para, segundo o próprio, chegar-se à linha da frente do acontecimento físico-emocional. Numa frágil certeza de que o cupido andaria mais próximo por aqueles lados. Com ele, fui eu e outros tantos. Era a necessidade de expressar no corpo as entrelinhas do intelecto. Soa estranho, assumo, mas é risada desde lá. Escusado será dizer que dali não saíram senão corpos mais ajeitados e a psique mais aliviada. Hoje continua o mesmo. Visita frequente do ginásio. Bambo nas certezas das relações. Não investe porque julga o fim antes de tudo começar. Não oferece tempo porque teme o depois antes de viver o agora. Procura ficar nas noites rápidas, ao invés dos dias demorados. É um amigo de quem gosto bastante. A inteligência vive numa luta constante com os sentimentos. Embrulhados como num intolerante às águas revoltas. Já lho disse e ele ri-se. Conversamos sobre tanto que, às vezes, este parece um pormenor irrelevante. Mas não é. Assistir à dor que este modo de viver lhe infringe é a prova. Espero que a M.C., amor de perdição dos últimos tempos, consiga navegar neste turbilhão. Embora nessa viagem, meu bom amigo. Fico a assistir e à espera do brinde.

6.3.17

Compleição com carácter de asserção.

Sob a cacimba, o mar um tanto revolto lá em baixo. O passadiço enorme, transeuntes estrangeiros e esporádicos. Uns caminham para lá, outros vêm para cá. Trajados a rigor, alguns testam as temperaturas. Trazem as máquinas para memorizar, um cajado para apoiar. A terra esculpida sem obras do alheio, na ribanceira desenhado o trajecto. O verde tem viço, típico da natureza que ainda consegue fugir das maleitas. Fora, assim chegados, este o cenário que cruzámos. Demos, então, descanso ao carro. Algumas casas nas costas, poucas. Juntos, é a primeira vez que visitámos o lugar. Noutros tempos, fiz-me audaz e desci, o máximo possível, num caminho inventado. Fomos dois, ambos insanos, característica da idade desmedida. No topo, gritavam os nossos nomes e devolvíamos sorrisos largos. Fomos felizes, no fundo. Literalmente. Agora, regressado e com a melhor das companhias. Deixo-me encantar, só a observar. Não acredito em cenários perfeitos, tampouco em ocasiões obrigatórias. Dispenso o romancear das pausas. Dou preferência ao corpo a reagir. À mente a carburar. Rir, assim como, conversar e o silêncio respeitar, deve ser a maior das bênçãos. Partilhar a intimidade dessas necessidades, é ganhar conforto. Ao invés de certezas, que falecem sempre. Olhar nos olhos é ver para lá do horizonte. Encostados ao carro, depois do passeio, as primeiras pingas da manhã. A razão grita para que fujamos, o instinto pede que fiquemos. Já lá vai tempo suficiente para perder, mas a imagem mantém-se intacta. Ficámos até fugir. Só não largámos as risadas comuns, a prosa demorada e o silêncio estimado.

2.3.17

Entusiasmo matutino.

O dia começou cedo, taciturno. A noite foi breve, quase inexistente. O olhar cai sobre as horas definidas e parece mentira. Quase que me aventuro num praguejar insonoro. Numa jura de não voltar a acontecer. Deixo para depois e num salto sigo o caminho. Numa mensagem, os bons dias e o desejo de uma brincadeira feliz. Tão enérgico quanto a genica matinal possibilita, despachei o que não havia de ficar pendente. Uma manhã cheia, produtiva. Não ganho outro valor que não a satisfação pessoal e dos que me acompanham. Merece sempre a entrega. Já de regresso, a minha irmã mais nova fala-me, entusiasmada, do e-mail que recebeu. Boas notícias. A eloquência invade-a nestes instantes. Sugere quase um atropelo. Avança na linguagem rápida, capaz de dizer o mesmo noutro compasso. Gosto de a ver viva, a sonhar com o amanhã. A desenhar outro dia. Gosto de, com ela, partilhar horas sem fim. Às vezes dedica-me palavras bonitas e cumpro-me nelas. Deixo-a respirar e devolvo-lhe as expectativas. Assim, com todas as ganas. Alicerçar para realizar mais tarde é indispensável. O trajecto carece desses regressos e retrocessos. Do avançar cauteloso, do voltar desgostoso. Da partida e da chegada. Toma esta verdade jeitos de cliché, mas não tenho como fugir. Bem utilizados, ficam-nos no ouvido, qual adágio popular. Não esboço qualquer bocejo. Olho para as horas e não tarda, volto à vida pendular.

14.2.17

Narração histórica.

As letras garrafais de um jornal renomado a lembrar a necessidade de conjugar o amor e o sexo. Esqueceram outros condimentos e deixaram erros ortográficos bem latentes. Ler um romance. Ler sobre o romance alheio. Parece brincadeira de criança, lembrar que ler é jogar com as palavras e as ocasiões. Aludir às memórias mais recônditas e ao presente desnutrido. Como se do outro lado tudo funcionasse sobre um caminho de felicidade eterna. Ainda se escrevem romances e, quer-me parecer, continuam a ter saída. Mesmo que o resumo seja a tragédia. Encontrar noutros, mesmo que fictícios, o amor ou o desamor que já nos acompanha ou que nos deixou, é facilitar a concretização que a necessidade de sentir aguça. Imaginar o outro é menos pedante do que viver o eu. Tiro um café, deixo ficar. Sem mácula, à espera que arrefeça. Dispenso o açúcar, prefiro temperar com a demora. Ligam-me de uma empresa, com voz exagerada, a dar-me os bons dias, a pedir que lhes dispense minutos e responda a um questionário breve. À minha frente, alguém sorri e pisca-me o olho. Pedi que fosse célere, perdi na aposta. De volta, devolvi o sorriso. À minha frente, já de jornal entre as mãos, dizem-me que o amor finge ser tão frágil de abordar que o preferem ao sexo. Desenganem-se as almas iludidas. O amor pesa e não é para menos. Apostam nele por sugerir dispensar tantas armas. Perde o sexo, que não entra na corrida. Tenho dificuldades em aceitar as generalizações, as opiniões superficiais. Há que oferecer tempo ao tempo. Não sei quem ganha, mas fica sempre o sexo como o perdedor precoce. Por fim, entre a prosa matinal susceptível de dissensão, tomo o café temperado.

1.2.17

Cálidos acontecimentos.

Deixei cair o meu telemóvel nas escadas de casa. Fez o percurso esperado, degrau a degrau, até ao soalho final. Deixou mazelas físicas, graves. Das irreparáveis e capazes de contusão feroz num qualquer coração dotado de sensibilidade. Não foi o caso, que sou avesso à partilha de sentimentos avulsos, a antítese de um basbaque a todo o tempo. Brinco, mas não desminto. Isto, dias antes de ser confrontado com o relato magoado de uma traição. Não a frio, que já me havia relatado a separação, bem como, a fragilidade e o olhar mais caído, que denunciaram. Estou longe de ser o que aponta o dedo, o que reclama pela verdade alheia. Cumpro-me nas minhas convicções, acções e reacções, fugindo à badalada e profundamente desleal necessidade de lembrar que não estiveste bem. Longe de defender ou promover a traição, seja em que termos e condições, afasto-me dessa tentação do facilitismo, da corrosão ainda mais vincada do outro. Prefiro opinar em última instância, apenas e só, se solicitado. Nessas alturas, recuso a mentira, mas escolho a prosa alinhavada com as palavras que aparentam ser as mais confortáveis. O olhar baixo, vindo de alguém tão próximo, a dor de magoar o outro, não me deixam indiferente. Também por conhecer o outro lado e, sem cerimónias, lhe atribuir uma genuína forma de estar, uma entrega e um sorriso que desmontam putativas dúvidas. Se me perguntares, agora e só agora, dir-te-ia que não me revejo na atitude e que, relembro, neste instante e só neste, não mimetizaria. Porque quero sempre encontrar a solução ideal. Mas não me iludo, essa não existe. Quiçá, no momento seguinte, me veja trôpego e ceda à minha verdade. Nessa alegoria às relações perfeitas, desmancham-se objectos e objectivos a cada passo. A metáfora não magoa, mas a palavra balança nessa recta que amedronta o desfecho. O subjectivo é desvalorizado e as marcas da queda são relevadas. Se te segue a culpa, não deixes que o espírito perca. Nessa definição das relações, a perfeição arde antes mesmo de existir. Um passo atrás para garantires dois adiante.

5.9.16

Em tempo de calor.

A noite foi longa, quente como o verão de memória latente. Ouvi música contente, disposta e digna do ambiente. Encostei-me na cadeira da época, profunda obra de design, ouvi estórias e lembrei-me das ausências. Rodeado por alguns dos meus, uns recém-chegados à verdade da amizade. Tomei bebidas frescas, recusei a cigarrilha oferecida e não perdi a bonita vista. O calor acontece e favorece. A noite fez-se extensa, talhada como só o verão é capaz. Não fugi, antes pelo contrário, dos relatos entusiasmados. Nessa frenética prosa, eles foram os medalhados. Conhecem a distância como o sustento diário da relação. Ela é divertida, de sorriso rasgado e gesticula com bastante facilidade. Ele embarca na animação, tem jeito de intelectual, é sóbrio e fala com a razão. Lado a lado resultam num simpático quadro. Este ainda é um período de relações, como já havia pensado. Início, fim e recomeço. Paulatinamente, a convivência surge. Ameaçam ficar nesta moldura para sempre. Entre viagens felizes e quilómetros incontáveis. Não canto uma canção italiana, não porque não soe melhor, mas para não desdenhar o amor. Mas remeto-me ao silêncio quando o tema é o tempo e o sentimento. Logo este, à tua espera na primeira esquina ou na manhã seguinte.

22.8.16

Poesia dita e um pacote de leite.

Prendeu-o, há coisa de uma ou duas semanas, uma voz doce, simpática, harmoniosa e cúmplice. Guardou-a assim, pelo menos. Não fosse o ontem, e avançava uma mão cheia de dúvidas. Assim, conhecendo este tipo, que é meu amigo faz muito tempo e a sua longa vocação para paixões, paixonetas e ambas misturadas com o acaso, dou-lhe crédito. E juntou à voz sedutora, a poesia e um jardim. Parece literatura, sequer lembrei o episódio do supermercado biológico. Parece literatura, mas é tentação em tempos do agora, sob um calor típico e um verão que oferece tempo. Imagino-o, pois foi assim que me fez chegar o acontecimento, sentado na relva de um jardim composto, envolvido por gente, garantidamente bem mais interessada do que ele em ouvir o que haveria de se seguir. Atento o suficiente, ia trocando mensagens. Fora, algures entre a mensagem recebida e a resposta sôfrega, que há-de ter-se feito magia. - Sugeria umas teclas ou umas cordas para acompanhar - Vem de lá, do que me permito pensar ser um palco sem ornatos nem enfeites, apenas uma base a suportar uma jovem mulher hirta recitando, a voz. Aqui, já o telemóvel havia perdido terreno. Focou-se na silhueta, na voz e, não esmorecendo, nas palavras. No íntimo, ia cogitando donde é que se lembrava daquele tom doce. Parece que a jovem partilhou algumas composições poéticas. Umas da sua autoria, outras de autores nacionais e internacionais altamente conhecidos. Tão breve, quanto possível, uma vez que se lhe seguiam outros. Antes da tarde de poesia chegar ao fim, eis que se lhe assoma na memória, a jovem e um pacote de leite. Impulsivo, dirigiu-se à jovem senhora, cumprimentou-a, deu-lhe os sentidos parabéns e apresentou-se. Qualquer coisa como, “G, o tipo do leite”. Ela deve ter devolvido um sorriso e, garante ele, lembrou-se. Sem vergonha, quis mais do que a árdua tarefa de a encontrar no Facebook. Pediu-lhe um contacto. Queria aprender sobre estrofes, versos e culinária biológica. Safou-se e, segundo actualizações recentes, deu frutos. O destino é um paraíso entre profanos. Se não voltam, são uns meninos. Há verões assim. Cujo amor brota no meio de poesia e leite de arroz.

27.6.16

Em diferido. #50

Início  de citação - Ouve-se o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor. Gosto do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e meio. Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á brincar com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é o tipo que já calçou VANS, como se o mundo fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem desmérito, ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como noutras, alguns pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda, há largos meses, a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados atraentes. Uma defensora acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de cabeça das antigas. Até ao momento em que percebeu grande parte do que falámos nessa noite e que, inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque, primeiro acontece, depois porque exige partilha. O argumento de direita que está do outro lado é, por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum, sequer se imaginou que uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão bem. O amor acontece, pelo menos, até ao fim da citação.

2.6.16

Numa espécie de corrida a favor da psique.

Faz tempo, numa saída madrugadora, junto ao rio, numa tentativa desleal de fazer o corpo mexer, fomos conversando. Na companhia de dois, fomos, literalmente, à vontade do vento. Para lá, para lá onde quer que isso seja, até que chegássemos ao ponto certo. Com o corpo fatigado e a mente em liberdade. Não se conheciam, foram por mim apresentados naquele instante. Ele pensa no que já fez, no que alcançou e no que vive. Maldiz da chefe, que o incomoda pelo menor. Antes disso, ele sonhou que chegaria a qualquer estado, próximo do que vem experimentando. É verdade e comprovado. Vai voltar a estudar, fazer uma especialização. Não quer amor, senão uma ou outra relação. Das suas estórias pseudo-amorosas, - a definição com as devidas aspas, - conheço de um todo. Das juras de infidelidade à prova que o sexo por si, não aguenta uniões. Parece desorganizado, mas fica pela aparência. Quem o conhece já lhe entende as linhas e os espaços desnudos. Ela, um pouco mais velha do que nós, mostra maturidade no discurso, até na postura. Mas, ao contrário dele, não se esgota no que aparenta. Cai, aqui e ali, num discurso pesado, de quem vem ganhando pavor aos acontecimentos. Independente, atrevida e recta atitude do corpo. Sonhou, pelo menos desde que a conheço, com o príncipe encantado. E aprecio-lhe a ingenuidade. É tão sincero, que não merece perder a oportunidade. Envolveu-se, tanto quanto vem contando, com tipos mais velhos, em boas posições profissionais, cujas relações não vingaram. Até chegar ao que se apresentou como o tão esperado homem encantando. Juras de paixão intermináveis, trocas de alianças, apresentações à família e amigos. Viveu, começo a acreditar, uma excepção. Teve o que sempre pediu. Contudo, não foi eterno. Primeiro a desavença que ninguém sabe, depois a morte que ninguém conheceu. Não invejo ter razão e contra mim falo, mas os príncipes não saem da imaginação para a vida real, materializando-se no que a outra pessoa procura. No máximo, ficam-se pelo encantamento de aceitar partilhar o quotidiano, o corpo e a mente. Enquanto for verdadeiro, mesmo que redefina o sentido de sempre. O até aqui pode, muito bem, ser um autêntico e saboroso trecho da nossa história. Sem prejuízo para a fantasia do para sempre.

24.3.16

Reunião de gente boa.

Imagino Mozart a irromper, numa sinfonia completa. Entre vinhas vistosas e verdejantes. O soalho é terra de verdade, pisada pelos senhores sabedores e pelos analfabetos da situação. Corredores e mais corredores, tantos sem fim. Imagino galerias, que por ser lerdo, permito-me inventar e largar na mais profunda errata. As folhas têm toque de rainha abismada. E os cachos são límpidos e certos. O ambiente compõe-se, assim, ao jeito de uma sequela da sétima arte. Devolvemos a passada e é acontecimento de verdade. O horizonte é infinito e perdemos a herdade de vista. De costas para a quinta, imaginamos o norte, que os olhos já não alcançam a arquitectura esbranquiçada adornada com a pedra escura. Vamos ao jeito da vontade e da curiosidade. Conhecer e, se possível, aprender. Lá em cima, logo à chegada, um copo servido com o vinho que ganha fama de qualidade. O mote para aguçar a necessidade de saber mais. A convite de uma amiga, agora senhora erudita da vinicultura, lá fomos à descoberta. Lamento, sempre que o vinho partilha a atenção da refeição, não saber mais sobre os processos empregues na sua feitura, assim como, na evolução que o desenvolvimento da qualidade vem sofrendo. Foram, com certeza, umas horas de excelsa convivência e aprendizagem. A suficiente, espero, para não me perder numa próxima. A mesma amiga, cicerone de serviço, impecável na sua posição, foi-nos falando da actualidade. Desmente os rumores, não admite casamento. Largou tudo na cidade, o noivo, a apatia e a infelicidade. Pensar que esta jovem mulher fora, em tempos, vítima de uma relação absolutamente nefasta. Embora, recusasse o semblante lutuoso, foi, a dada altura, perceptível o mal que vinha causando. Física e, por demais, psicologicamente. Agora, brindámos ao sucesso, à vinha rainha e ao amor-próprio. De copos bem servidos, ao alto, rimos de muito. Neste instante, oiço Mozart e não me engano. A música de grau elevado favorece o guião. A ti, ao vinho bom e ao amor que é libertador. Cheers!

23.2.16

Locutório à mercê.

Aquele aloquete atiçou-me a memória. A parede branca, imaculada. A porta de madeira, num castanho vestido de chocolate, meio gasta, de ranhuras descobertas. Numa espécie de armário. De apoio ao jardim. Noutros tempos, um jardim tão cheio. Hoje, inteiro e cuidado, perdeu alguma da variedade. Onde tudo era felicidade e candura. Onde, nesta altura, é simplicidade. Tudo muda, já me lembrou a minha avó. E não mentiu. Que dela, tratando da saúde às plantas do jardim ou bebericando um chá e saboreando levemente um bolo fino, as palavras saem com a mesma dimensão. Sem que recorra a artefactos para dilatar o discurso. Tudo muda, então. Como a C., agora uma mulher prevenida, mas disponível. Uma amiga de longo curso. O G., patrono de uma filosofia de franqueza, de ideias liberais. Até ontem. Amizade mais recente, sem que isso belisque a importância. O que não surpreende é o facto de, há uns anos, o afamado dito sentencioso ter surtido efeito. Inevitavelmente, os opostos atraíram-se. E o balanço foi, sem desprimor, fazendo sentido. A C. e o G. apaixonaram-se e viveram, enquanto possível, um amor às direitas. Ela, um tanto altiva, quase arrogante. Que, no fundo, resumia a fragilidade da autoestima. Ele, desprovido de afectação, dono de uma simpatia e proximidade naturais. Foram cedendo em pontos fundamentais. Outros, mais artificiais. Como numa metáfora, a distribuição parecia fazer-se ao ritmo certo. Até à desarrumação final. Nesta rotina de casal, inverteram-se os papéis. Os opostos mantêm-se. Mas mudaram de lugar. A C. já não aguenta as conversas chatas. O G. aprecia um serão a ouvir relatos sobre viagens de barco, a dimensão das velas e o sentido do vento. A eles, assumidamente, incomoda. Inclusivamente, exerce influência no trato entre ambos. A nós, amigos e espectadores, pouco importa como conduzem, mas preocupa-nos o trajecto. As pessoas alteram minudências, aguçam pormenores, aprimoram o feitio, limam interesses. Sufocam-se e deixam-se sufocar. Em nome de algo, de alguém. Deixam-se enlear num fio tão emaranhado que perdem o foco. A essência do que vieram construindo. Preferem esconder, a ter de avançar a solo. Preferem forçar o aloquete que já não existe, a cometer a tentação. Não devemos, em tempo algum, perder de vista a realidade. Neste jardim, ontem e hoje, não há quem cuide dos males, senão os próprios. Ao contrário do jardim da minha avó. Os anos passam, e a afeição e a adoração são as mesmas. Bons amigos, esqueçam o resto e aproveitem a bonita janela de sacada que têm mesmo à vossa frente. Não há inspiração melhor do que o sol nacional e a conversa entre o casal.

7.12.15

Ladeira acima.

Ligo-te depois, avisou-me a mensagem que fiz esquecida. Travava, no instante, uma luta verdadeira. Querer e fazer. Ladeira acima, a calçada insinua-se húmida, os ténis laranja forte, azul concentrado. New Balance, um pouco da tua atenção. Ladeira acima, o pensamento consome. Quão hipster me parece esta ideia. Havia de ganhar coragem, voltar atrás e, de novo, entrar. Chamam-me atrevido, se avançar. Ladeira abaixo, invertendo o meu sentido, vem uma camisa carregada de beijos, uma mala de um amarelo gritante, uma saia mexida e uns sapatos de menino, não fosse a moda um entendedor que basta. Um cabelo longo de madeixas bronzeadas. Um peito hirto, um decote reservado. Sorri com convicção e os óculos escuros obrigam a adivinhar-lhe toda a expressão. Menina bonita, de passo acertado e flores na mão. Trouxe de um amor preso no coração ou leva para o destino dono da paixão. Ladeira abaixo, não resisto e levo, na sua direcção, o olhar. Lá vai ela, dando os bons dias. Aqui e ali. Acenam-lhe e devolvem a simpatia matinal. Por pela hipster montra passar, da minha vontade tornei-me a lembrar. Quão confuso é pensar, insistir e  não actuar. Ladeira acima, lá vou as ideias a juntar. Jogo assim, para desta ideia me livrar. Olha que a rima no momento do acaso, soa mal mas ajuda a avançar. Bom dia, oiço junto ao ouvido. Bom amigo, que oportuno encontro. Conversa passada, pergunta-me por ela. Diz-me, sem pausa para responder, que já não há casamento. Arranjou um trinta e um. Vai ao sabor do vento. Optou por um bigode e sexo constante. É relativamente incerto, mas não lhe falta humanidade. Certamente, dono de outra liberdade. O tempo voa, até mais ver, bom rapaz. Ladeira íngreme e sem fim. É o ponto de partida. Chegado ao carro, um anúncio de cartomante sapiente. Ri sozinho, livrei-me da publicidade. Já decidi, não levo flores, não defino o bigode. Deixo ficar a barba de dias, os ténis juvenis, a carteira no bolso e o carro no jardim. Leva-me para onde quiseres, fala-me ao ouvido e não leves a mal. Quão hispter pode ser a montra de alguém. Ter a certeza, viver sem receio, sem pensar no eventual desdém. Liga-me quando quiseres. Se a paixão ainda respirar, levo-te um coração a palpitar. Um ramo de flores, a promessa de voltar.

26.11.15

Em diferido. #42

Encher de letras o entusiasmo - Parcimónia silvestre, num travo doce. Amarga surpresa, travessura agreste. Tem nome com cheiro, se quiser pensar. Tem o tom de voz equilibrado, se quiser ouvir. Tem o toque certo na pele, se quiser sentir. Tem aromas sem fim. Tem olhar atento. Joga com as metáforas, compara com a simplicidade da insanidade. Rima e, em tempo algum, havemos de ter outra certeza. Destrói o conceito, insiste na reacção. Fala com a boca, mas quem pensa é o coração. Tem fuga nas entrelinhas, mas escreve fortaleza com os olhos. Fala fluentemente, opina com densidade. Eloquente diária, o pensamento da idade. Não tem definição, não sei se é amor ou paixão. Tinha eu, num passado tão presente, a certeza de que rimar com frequência ou particularizar feitios era sinal de paixão de arromba ou de flagrante demência. Questiono-me sobre a intimidade da desfocada definição. Olho para ela e escrevo sem pensar. Ambiciono uma qualquer dança nesta troca. Em tempos, rir-me-ia da banalidade e franqueza das palavras. Havia de poupa-las, para não estragar. Não brinques com a entrega alheia. Homem bom recebe o dobro. Havia de segreda-las para não gastar. Olho para ela e escrevo sem as ideias ordenar. Escreve, jovem rapaz. Olha para ela e guarda a paz. Não é fácil amar ou apaixonar sem a razão sofrer e melindrar.

16.11.15

Entre nós.

Entre cá e lá. Permite-me a saudade e os sentimentos revoltados que use a palavra que continuas a imaginar colada a mim, pensar sintonizado com a picuinhice que lembra a alma vazia, desenhar a vontade de ter certezas. Em cada palmo, sentimentos colhidos, factos salpicados e novas perspectivas. Suspende-se a respiração, adivinhas a loucura reinventada. Nos dedos, tintas felizes. E desenhando, fica na pele a certeza. Na ausência forçada, um tanto instante saborosa. Entre a distância, a despesa física e obrigada. Entre o pé aqui e o braço ali. Entre as imperfeições de estar longe. Embrenhados nessas horas que desassossegam a psique. Que mordem as carnes, que dão forma à fome do desejo. Entre cá e lá. Entre nós. Nessa gigantesca ginástica, nesse áspero incómodo. Entre cá e lá, neste mundo de disparates, desenhar-te-ia o mundo na pele. Corpo, tela de arte elevada a qualidade. Neste percurso, percorrido entre o espaço, por saber-te verdade, aprender-te na lealdade. Restar-nos-á, nunca a fraquinha memória perdida em nenhures, mas sempre a pele despida, o mundo nas mãos. Entre cá e lá, está tudo bem. Voltas de lá, como sempre, a lembrar-nos a pressa, nesse caminho certinho e seguro. A comunicação, a presidente da união.

29.10.15

Dérbi (mais ou menos).

A boa gente não se perde, tampouco se esquece. Os bons amigos partilham clubes rivais, muito menos outras coisas. Discute-se sobre o Benfica, os seus e os fracos resultados. Acredita-se com a fé de quem é adepto. Discutem-se medidas que urgem. Não se maldiz, que cai mal. Mas pede-se coerência, mudanças no terreno. Jogar-se nas quatro linhas com o poder e a confiança que se esquece fora delas. Sugerem-se mudanças de posição, até mesmo de jogador. Lamenta-se a actualidade, não se esquece o passado. Surgem gordas nos jornais, caras lavadas, mãos sujas pelo que por elas vai passando. Lembrei-me, a propósito, do antigo compincha de mesa de café, que lia o jornal todos os dias. Uma e outra vez, se necessário. Que, bem me lembro, algumas letras e palavras lhe custavam a entrar. Do Benfica, sempre o discurso mais sincero. A alma deste homem envolve-se com a essência de adepto. Às vezes, de voz no tom certo, desdenhava as actuações, mas não passava da necessidade de arremedar outras núpcias. Muito me diverti com ele, nessas conversas avermelhadas sem fim. Nisto, fica-nos o amor e a cabana. Havemos sempre de a eles voltar. Agora, em frente ao espelho. Ensaiei o nó da gravata, mantive o colarinho subido. Cansei-me da ideia. Mas há sempre quem mereça a pena justificada. Amigos porreiros, tipos convictos. Mesmo que vista verde e branco e cante as suas razões. Nó impecável, fato escolhido a dedo. Embora jogar. E que a sorte dite as regras de um futuro que se espera feliz. Ide, ide.