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10.11.14

Lixam-nos os filmes e as bengalas.

Deram, algures na história, um papel malfadado ao amor. Por força, avanço eu, do desamor que lhe segue. Ainda que nunca se lhe conheça a definição. Do amor que foge ao ritmo da dormência e do desamor que rebola no sentido de um frenético quintal de urtigas. Ou as múltiplas acções. Tão trôpegas e disfuncionais. Se pararmos para pensar, o amor pesa. Felizes, os que amam sem razão. Vivem a emoção e o humor da relação. Não é uma escolha, é a coerência da necessidade de gostar e viver. Falar do amor é custoso. Tira a alma e deixa nódoas. O desamor lembra-nos que a outra pessoa, sem dar por isso, faz falta. Como me contava um amigo meu, que tem a mania de andar pela manhã. Na melancolia da madrugada. Partilha esse prazer com outro. Ouvir música ao vivo. Foi esse o defeito. Terminou uma relação de longos meses há menos de um. Qual palmadinha nas costas, vingou-lhe o discurso da infinita boa disposição e a métrica de quem não se melindrou. Mas, e contra mim falo, macho ferido define estratégias, mas nunca se guarda preparado para a queda da bengala. Ele terminou, em desabafo, assumindo que lhe doía a ausência dela. Também nas noites em que, juntos e dinâmicos, sentiam a música. E ainda partilhavam mais do que o corpo. Respeito, é o que se pede. Homem que não grita, não é, inevitavelmente, o mau da fita.

20.10.14

O amor tem uma imagem em cada vivência.

Quando era bem petiz, desenhar nos vidros pálidos da humidade era entretenha de momentos mortos. Fazíamo-los vivaços e soberbos. Obrigávamos, se preciso, a base de quem queria desenhar, a ficar tal e qual necessário. O inverno parecia que entrava no jogo. Por isso, a sazonalidade trazia a lembrança. Não sei ao certo, porque me lembro disto agora. Na verdade, antes de começar a escrever, pensava na realidade que um amigo me contou. Está longe, algures nos meandros de um país, embora, europeu, com oportunidades guardadas. Mas esse é o lugar, que aqui é um pormenor de somenos. Ele contava-me que o amor era uma estratégia inútil. Por mais que inventes e organizes as tuas vontades, misturar-se-á sempre o descalabro do que guarda o teu corpo. O corpo pode tomar a condução da entretenha, em detrimento, claro, da vontade de uma cabeça insegura e pouco capaz de gerir, a partir da base, uma convicção. E continuou no desfio das questões que lhe vêm roubando tempo. Não cedeu, por entender que assim devia ser. Havia, contudo, um corpo a provocar. O seu. Porque as relações terminam. É o caso. Agora, dizia-me ele, não se arrepende de ter castrado a aflição de ir mais longe no ânimo que o corpo lhe oferecia de quando em vez. Questionar-se, por seu turno, melindra-lhe a dor de ter gostado. Perguntou-me, por fim, a minha opinião. Era grande o suficiente para não lha dar por escrito. Pequena, porventura, capaz de se resumir a silêncio. Sinceramente, não importa o que lhe disse. Mas uma coisa é certa, nos tempos e/ou momentos mortos, havemos sempre de ter outras soluções. Ainda que, em algum momento, nos possam ter parecido tão rudimentares.

1.10.14

Em diferido. #19

Canta-me um modinha - Destemido, português e de língua afiada, detentor de estórias sem fim. Na voz que não descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e é tão buliçoso. É uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo. Repito-me e é certo, tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso de ouvir outros tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela impossibilidade de ter vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade. Ceder à tentação de ganhar tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência só discute com a quietação, é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um casal septuagenário, de cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e salteado, humor apurado e sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois sabem o que passa na televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse aparelho que, um pouco de vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura, agora recuando, é a única que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a quietação. E continuam a contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de então, tão limpidamente lembrados como a refeição do dia anterior. Perguntei-lhes das canções. Ele, afoito, cantava com calor no peito. Ela, tímida, foi cantarolando de mão dada com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas carnes. Numa pausa, voltaram à conversa. E responderam-me, primeiro que não tinham sequer um rádio, depois, que fora entre a feira da aldeia onde, tão aprumados, iam conviver. Era lá que, entre namoricos, ouviam as músicas da época. Ela, levando a mão à testa, perguntou-se como nunca se havia esquecido de tanta letra junta. Ele, lançou um novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de então, teve uma grafonola. Ela perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe. Ele voltou às cantigas e ela de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de festival. E remato lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por receios tão característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais cheio de torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.

29.9.14

Derramar luz.

A discrição é um facto que se recusa a deixar partir. É a velocidade de um feitio que ganha contornos de mãos que jogam com a vergonha de expor mais do que merece importância. A vergonha, palavra que desvenda sensações e incoerências que dão voltas num monociclo que pensa como gente e obriga a condução de acrobata gingão. Mas ultrapassa a vergonha. É um feitio que está inscrito algures. E atrai esse contexto em que não é defeito, senão feitio. O equilíbrio de um físico que se sustenta nuns saltos altos ou nuns rasos que nada roubam, na elegância de um corpo que não procura revelação, antes convicção. É igual ao que sente. As palavras nunca chegam ao fim, nem deseja fechar os olhos. Gosta de ter tempo e viver numa conversa que tem um sem fim de segundos. O afecto que partilha, sem obrigação, assenta-lhe na essência que impõe em cada relação. Efectiva ou de situação. A discrição, conheço-a de outros tempos. Agora, é infinita a vontade de que a partilha com a proprietária desta discrição e conversa que me prende a atenção, jamais chegue ao fim. Escrevi, acredita, sem receio de me esquecer. Escrevi, podes acreditar, para voltar sempre. E acrescentar.

17.9.14

Apontamentos de outros tempos.

Lembro-me de ler, ainda petiz, algures num livro de desfasada atenção para a tenra idade, que o amor era pertença dos adultos, por serem precisas armas para o fortalecer e, acima de tudo, entender. O autor havia de ser lido por um número sem fim de fiéis a este sentimento.  Afinal, é conversa de quem se assume um perdido nesta arte. Dos outros também se ouve, muda a postura, passa a inquiridor. Falar sobre o amor é sobrenatural. Todavia, fala-se de amor em cada canto. Persistindo, contudo, que o amor seja um desenrolar de audições mal conseguidas. Se partirmos do ponto primeiro. Pode, por seu turno, ser a mais proveitosa e fiel audição. O descarrilamento vem depois. Escrevo sobre isto depois de falar com um amigo. E de ouvir relatos de uma amiga. Ele, feliz numa audição que muitos ditaram amaldiçoada. Ela, nos escombros de uma relação que prometia o melhor dos desfechos. Falar de amor não cansa, só pode ser essa a justificação. Porque não cansa discutir a humanidade, os seus inevitáveis destinos e os sinais do que lhe é intrínseco. Aos dois, a maior e melhor das sortes. Atenção, não escrevas tudo o que lês. Ou vês.

1.9.14

A (des)medida do (des)amor.

Uma sem noção de vezes, não importa o mote, senão quando a matéria que dele nasce não oferece petisco. Outras, por tanto se encerrar no todo, guardamos o principio, por temer uma negligente e inóspita composição. O ideal era desmaiar de amor. Guardar, sempre, a ressalva. Recuperar, se possível e necessário, na vontade seguinte. Esquecer os contos de outras ideologias, das que jogam com o prisma das emoções e sensações. Sossegar os romances pesados num canto. Deixar para depois o quadro que conta histórias de amor. De desamor. O amor tem sempre um lado tão mais apetecível. Para quem conta, relata. Para quem lê, escuta e, por fim, pensa. A tragédia atrai. A felicidade de outros repele. Ler desenfreadamente, desde cedo, é ter a convicção de que o amor e todos os seus predicados, move interesses. Acções, por certo. Ensina-se que o amor mata. Mas não lembram soluções, sequer opções. Ler o amor é pensar no lugar de quem está de fora, à margem dessa medida. Viver o amor é regredir, voltar ao lugar de aprendiz.

30.7.14

Canta-me uma modinha.

Destemido, português e de língua afiada, detentor de estórias sem fim. Na voz que não descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e é tão buliçoso. É uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo. Repito-me e é certo, tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso de ouvir outros tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela impossibilidade de ter vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade. Ceder à tentação de ganhar tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência só discute com a quietação, é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um casal septuagenário, de cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e salteado, humor apurado e sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois sabem o que passa na televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse aparelho que, um pouco de vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura, agora recuando, é a única que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a quietação. E continuam a contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de então, tão limpidamente lembrados como a refeição do dia anterior. Perguntei-lhes das canções. Ele, afoito, cantava com calor no peito. Ela, tímida, foi cantarolando de mão dada com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas carnes. Numa pausa, voltaram à conversa. E responderam-me, primeiro que não tinham sequer um rádio, depois, que fora entre a feira da aldeia onde, tão aprumados, iam conviver. Era lá que, entre namoricos, ouviam as músicas da época. Ela, levando a mão à testa, perguntou-se como nunca se havia esquecido de tanta letra junta. Ele, lançou um novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de então, teve uma grafonola. Ela perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe. Ele voltou às cantigas e ela de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de festival. E remato lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por receios tão característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais cheio de torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.

29.7.14

Em diferido. #14

Foram rosas, senhor - Saltou do carro. Há um vento fresco, uma contabilidade dos dias e das temperaturas tão irregulares que obriga a fingir que terminamos, desalmadamente, mais um ano. Vem de caracóis ao vento, escuros e tão definidos que sossegam o todo. Um casaco de mangas arregaçadas. Saltos altos, como sempre. É regra. Os óculos escuros escondem a direcção do olhar, mas o rosto esboça o sorriso de sempre. Já a vislumbrávamos, pela vidraça corrida, antes de entrar. Chegou, pousou a mala e levantou os óculos de sol. Falou à sala e cumprimentou quem a esperava. Dois beijos. Nem se lembra, tampouco, da moda do beijo singular. Sentou-se e depois de pedir, de gargalhada fácil, contou que havia recebido um ramo de rosas. Já tinha a jarra em repouso, à espera de lhas receber. De agora em diante, meus amigos, nunca menos que rosas. Anuímos. E gabamos o gesto do homem apaixonado.

23.7.14

Do nascimento em diante.

A infância e a adolescência são, vezes sem conta, alvo das mais desgrenhadas palavras e definições rasteiras. A inocência, a inexperiência e o imprevisto. Depois, as acções azougadas, os amores e desamores desavindos, as relações familiares tão beliscadas, as amizades que vão e, se voltarem, voltaram. A seguir, bem, tudo muda, é o que nos oferecem como verdade. Reconheço sinceridade em muito desse raciocínio. Mas as excepções nunca ficam a perder. E, no passado fim-de-semana, num local público, onde devíamos optar por alguma parcimónia no discurso, uma jovem mulher, certamente com, pelo menos, trinta anos, exprimia-se com a força e fluidez do pensamento. A prosa comprova, se não colocarmos tantos entraves, que somos eternos em tanto das experiências que escolhemos ou que, de jeito inevitável, vivemos. A jovem mulher questionava-se, pelo que deu a entender, a uma amiga de longa data, da relação “tão de liceu”, como a própria definia. Não vou relatar o que se seguiu daí em diante, porque não é relevante e, sinceramente, não guardei. Mas ficou-me a certeza de que, crescer, soprar mais uma vela e evoluir pessoal e profissionalmente, nunca será a certeza de que maturamos. Ressalvo todas as excepções. Siga o passo.

22.7.14

Nomes fictícios. #2

A Carolina descobriu que o Diogo só gostou dela porque a viu dançar sozinha, descomprometidamente sozinha. Era fácil vê-la dançar por ali. Era difícil adivinhar-lhe o passo seguinte. Quando ela puxava os cabelos, a cabeça e os ombros para trás, ele mexia-se e, se quisermos, podíamos sentir-lhe a vontade de saltar do lugar e segurá-la pela cintura magra. Aguentou-se. Na verdade, sugerimos-lhe que a deixasse sossegar. Ela não deixou a dança quase toda a noite. Ele, exausto e exasperado, lançou-se à pista. Até à semana passada. Até a Carolina descobrir que o Diogo só ficou interessado porque ela dançava leve e segura, tão sozinha. Sei os pormenores da dança, porque estava lá. Sei que já não dançam juntos, porque estava lá. Sei que parece menor, mas os pormenores fazem a diferença, ouvi dizer. As interpretações enviesadas acontecem. Boa sorte, Diogo. Boas danças, Carolina.

17.7.14

Míngua de opções.

Sob um calor que pesa, numa esplanada de pessoas a conviver. Aquele top de cor atraente e envolvente como uma chama bamboleante, naquele corpo que tem na pele a cor do bronze, chama a atenção. Ambos, o top, logo de seguida, o corpo. Entre nós, não há fumadores. A tempo inteiro, por ora. Pede-lhe um cigarro, apenas porque quer saber os seus hábitos e ouvir a sua voz sem que, por qualquer instante, ceda à fraqueza de lhe perguntar o que lhe interessa. Mudam as regras, neste jogo de fogo e água. Deste jogo do apanha e foge. Do chega e segue. Aumenta o som e a desenvoltura com que tantos de nós, deliberadamente, expõem a sua íntimidade. Na forma descompensada como muitos de nós se entrega sem que lhes perguntem. No jeito fácil e frágil em que se tornou a exposição do que nos deve ser mais intrínseco e profundo. Neste vício de criar relações. Um espécie de paródia mal sucessida, que envergonha a obra que está a ser imitada. Esqueçemo-nos do tempo de falar. Esqueçemo-nos da palavra. Inventam-se e compõem-se subterfúgios para chegar mais perto e mais depressa. Mudam-se os tempos, mudam-se as verdades. E esquecemo-nos das reais raridades. Fugiu-nos a discrição, chegou-nos a copiosa exposição.

30.6.14

Escolhe uma cor.

Constantemente não é óbvio, remédio que convém à torção de um músculo que já não ensaia. Na terra batida encontramos tudo. As botas com desenhos distraídos da terra fugidia, os botins de todas as estrelas, os ténis de corrida, os ténis com a marca adornada no desenho da mais recente moda, os sapatos assimétricos, também os clássicos e, imagine-se, os chinelos e os saltos. No pé de cada nome, naquela terra batida, olhamos de tudo. Tanta gente junta, tanta diversidade feliz. Calca-se a terra a cada passo adiante. Tanta gente reunida. Fazem-se grupos de amizade. Amigos e conhecidos em roda. Risada, conversa e gargalhada. Mas há sempre quem nos arrepie. A pele ganha outra textura, um toque de relevo robusto da sensação desprevenida. E ficamos a vê-la. E ficamos a ouvi-la. Só me interessa se tiver passagem desligada de repetidas imagens. Na terra batida sustentam-se relações. Investem-se razões para conhecer quem és.

16.6.14

Relação, para que te quero?

Encontrei a Maria, no jeito da ocasião. Vinha sorridente e leve, de sol a bater, de óculos escuros na mão, como se deles não se lembrasse, por isso, de olhos piscos, a esconderem-se e a defenderem-se da luz que lhe roubava a visão. Vinha depois daquele arco, antes do outro. E o sorriso vinha no rosto. Cruzamo-nos e, inevitavelmente, cumprimentamo-nos. É boa disposição. Dois beijos, abraço e conversa de situação. Não falámos sobre o Tiago. Estranha-se, depois é corriqueiro. Antes desta separação, não me lembro de os ver sozinhos. Um sem o outro. Era uma combinação, se quisermos, improvável, mas fazia um todo convincente. Divertimo-nos, sempre, bastante. Tanto que, antes do anúncio e da argumentação, havíamos repetido um excelente momento. Agora, iam separar-se. No dia anterior, enquanto planeavam mudar os estores da casa nova, depois da restante remodelação, perceberam que não mais fazia sentido. Pode parecer cruel. Mas é sustento. Inventar para procrastinar, rouba identidade. Sustente-se enquanto é tempo, sob pena de serem, a curto prazo, dois arrumados bonecos no maple da sala lá de casa, tão bem decorada ou no carro dos sonhos de muitos, no regresso de um fim-de-semana prolongado. A crueldade de um acto causa dor. Dor que passa. Ao contrário da inércia que abate qualquer títere.

26.5.14

Ensejo propositado.

Aquele movimento frenético, tantas vezes, lhe sentimos a falta. A forma possuída como a cidade grande, de tão impaciente, consegue, roçando a convulsão, gerir o quão rabugento que é o marchar daquele lugar. Quando não estou, por temporadas, em Lisboa, falta-me esse ademane social. Nunca estou o tempo suficiente. Longe, ganho-lhe saudades, da cidade e da impaciência que afasta o vagar. Por seu turno, voltar às raízes de um espaço mediano, oferece-me o descanso da serenidade beliscada meigamente pelo espancar do quotidiano. E, entre tudo isto, julgando que nada tem que comparar, lembro-me das relações. Entre pessoas. Do amor e do desamor. Da amizade e da desamizade. Do afecto e do desafecto. Como que as sentando rivais. Afastando qualquer cotejo. Desde logo, refuto qualquer maneirismo de psicologia enviesada com filosofia de mesa de café. Mas, tal como, os lugares, as pessoa ganham estratégias de viver e sobreviver. As relações, se quisermos, espelham factos do nosso reflexo nos outros. Se me ofereces excitação ou se me desenhas experiências quentes mas serenas. Somos aprendizes. De qualquer lado da barricada. Mesmo e, sobretudo, se mudarmos de azo.

22.5.14

Foram rosas, senhor.

Saltou do carro. Há um vento fresco, uma contabilidade dos dias e das temperaturas tão irregulares que obriga a fingir que terminamos, desalmadamente, mais um ano. Vem de caracóis ao vento, escuros e tão definidos que sossegam o todo. Um casaco de mangas arregaçadas. Saltos altos, como sempre. É regra. Os óculos escuros escondem a direcção do olhar, mas o rosto esboça o sorriso de sempre. Já a vislumbrávamos, pela vidraça corrida, antes de entrar. Chegou, pousou a mala e levantou os óculos de sol. Falou à sala e cumprimentou quem a esperava. Dois beijos. Nem se lembra, tampouco, da moda do beijo singular. Sentou-se e depois de pedir, de gargalhada fácil, contou que havia recebido um ramo de rosas. Já tinha a jarra em repouso, à espera de lhas receber. De agora em diante, meus amigos, nunca menos que rosas. Anuímos. E gabamos o gesto do homem apaixonado.

7.5.14

Homem escolhe procurar até encontrar.

Não tem perto da minha idade, porque conta com mais de dez anos que eu, isto sem me perder a fazer as contas de forma conveniente. É um desviado da intelectualidade, embora, viva embrenhado nela. É uma contradição como quase tudo o que lhe conheço. É um amigo que, aos poucos, deixou de ser um mero conhecido. Aproxima-nos um punhado de coisas. Afastar-nos-á outras tantas. Conhecemo-nos por entendimento da circunstância. E dos amigos em comum. É divertido nas expressões e situações mais desengonçadas e sisudo nos momentos mais informais. Outra contradição, lá está. Não é o preferido em muitos dos locais onde se move. Porque não se apresenta, escolhe chegar e não pensa no resto. Não oferece a preocupação de bandeja. Faz de conta que muito do que é não impressiona os outros e repete, se preciso for, que não lhe causa aflição. Teme outros males. Nunca viveu um casamento longo. Nunca, em nenhum dos quatro casamentos. Aflige-lhe outras maleitas. A inesgotável vontade de arriscar no próximo amor. É, nas conversas em que fuma um cigarro e mais outro, um defensor do amor. Não lhe conhece as regras, as soluções. Mas entra na luta. Aqui, não se limita a existir. Avança sem justificar o impulso do corpo e da mente. Defende o casamento. Só é capaz de viver o peso da paixão e a leveza do amor num casamento. Desafiado, responde que só amou o número de vezes em que se casou. Do resto, como em tudo, não se preocupou. Tampouco, senão uma ou outra lembrança lhe restou. Volta o desafio e responde que só pode com o peso do sossego e desassossego exterior. Lá dentro, onde guarda o que é, não suporta o tormento de não viver. Seja porque sim, seja pela infindável necessidade de estimular. De viver até encontrar.

6.5.14

Em diferido. #8

Bastam-lhe sessenta segundos. Soa Jeff Buckley. A vidraça quadriculada, cortada pelo alumínio, está semicerrada. O dia a recomeçar contagem, vai e vem, já lá vão as zero horas contadas ao soarem. A varanda ao relento, forte aragem e luar pesado, corando a rua vazia, pingada de um cinzento que lembra uma película a preto e branco. Peca ou deprava, reforçando o contentor afogado, lá ao fundo. Nuvens de fumo, aos pulos tremidos, a fugir do cigarro meio, segurado entre os dedos finos da atrevidamente desajustada, desalinhada e atraente mulher. Ela repete-se nesta rotina. Debaixo da cacimba. Em trajes menores. Desnudada. Em lingerie. Porque já lhe agonia o sexo. Diz da boca para fora. Porque lhe levaram a companhia maior. A mulher fuma para matar o que a corrói. Para consumir os pulmões. Para secar as entranhas. Levaram-lhe a companhia. A companheira. Desde que as viram embarcar num trocar sentido de um beijo no vão da escada do agastado prédio. Do lugar que escolheram para refúgio. Para amar. Em segredo. Guardadas. Até ao momento final. Amar diferente mata, quando não há liberdade. À espera, esta mulher fuma. Passa, assim, o tempo morto. Morta está. Até à salvação. Até ao regresso ou ao reencontro. Ligou, desligou. Intermitente, o candeeiro de rua, ao lado, realçando as sombras. Focando a diferença. Ostentando a fragilidade. Um fazer de conta, golpeando a agonia. Um dia que volta e revolta, como o que está antes. Acabou. De costas, chorou.

2.5.14

A classe de ser quem é.

Domingo próximo é dia da mãe. Até lá, por razões várias, faltar-me-á espaço para parar e pousar por aqui. Por estes dias, porque o sol e a moda assim o ditam, os óculos de sol da minha mãe, de matriz vintage, são uma das suas imagens de marca. São elegantes, tolerantes, mas atrevidos, ao jeito de uma qualquer diva de cinema e pejados de identidade. Assemelham-se à sua gargalhada fácil. À forma despretensiosa de viver o que lhe apetece e como lhe serve de interesse. Contudo, é infinitamente dotada dos seus predicados. Sabe gerir e gesticular opiniões. Perde-se quando a emoção toma de amarras a razão. Não tem vocação para males maiores ou menores, contudo, vive-los sem entender. Mas dispõe-se naturalmente para ajudar o outro. Não precisa que lhe justifiquem, ajuda somente. Vocação é a palavra maior quando falamos da sua posição de mãe. Fá-lo por e com amor, requinte, convicção e vocação, não tenho qualquer espécie de dúvidas. Hipotecou um tanto da sua experiência e oportunidades, por amor a uma família que havia de chegar. Vive um casamento por amor. Uma família, desde sempre, tradicional. É atrevidamente doce e impulsiva no seu linguajar. A gargalhada é conhecida e reconhecida pelos que lhe querem bem. É, porventura, um ou mais passos à frente, no que à educação que recebeu à época diz respeito. Não rasgou a tradição, mas rompeu com estigmas do itinerário feminino. É feliz em tanto. Parte desse tanto, são os três filhos. Esta manhã, ainda cedo, convidou-me para a acompanhar numa ida às compras. Numa loja fora dos centros comerciais, próxima da avenida, que frequenta com alguma regularidade. Pediu-me opinião como se fosse fundamental. Anui, mas não me canso de lhe repetir que prefiro, sempre, vê-la ao seu gosto. Sorriu-me, como de costume. Acabou por comprar a peça que recebeu o nosso consenso. Terminamos, de óculos de sol pousados, os dela junto aos meus, a tomar o pequeno-almoço, como noutras sextas-feiras. Felizes como sempre. A conversa nunca esgotamos. A minha mãe é sempre mais do que parece. Sempre! Vou, no domingo, de viva voz desejar-lhe o melhor dos dias e que se mantenha daí em diante. Um beijo, mãe. Até já!

22.4.14

Um apontamento.

É, apenas, um apontamento literal do que acabei de ver. Daqueles pormenores e momentos que guardaria, descritos, por tempo indeterminado, num dos meus cadernos, de capa vigorosa, negra ou azul forte, de elástico a forçar o segredo. Sobre a calçada portuguesa, está um casal a fotografar-se mutuamente. Em poses várias. Em emoções diferentes. Em expressões atraentes e atractivas. Imitam um género de dança. Coordenada à mercê da vontade que os acompanha e sugere que se procurem. Ali mesmo, no centro da cidade. A calçada portuguesa aos pés. O rio, se imaginarmos, ao fundo. Um monumento, que é uma cidade, num espectáculo que, sem convite, merece apontamento. Há quem viva para lá dos murmúrios e lamentos. Se, por um acaso, os guardasse para lá da memória e dos rabiscos elaborados, através da minha máquina fotográfica, guardá-los-ia a cores. Esquecia o preto e o branco, por ora. Guardava-os, num apontamento, tão colorido. E continuaram, depois de eu dar costas, sobre a calçada, a mímica de se fotografarem. Não sei se é amor, mas disfarça tão bem.

18.3.14

Composição de um moço primário.

É um linguarejar que não tem pretensões. É uma brasa que serve de assinatura e que marca distintivamente. São emoções. Ela é elegante, tímida e sossegada. Ela é divertida, tagarela e de sorriso fácil. Ela é cúmplice. Ela é assertiva. Ela é dedicação. Ela é inteligência e perspicácia. Ela é inocência no entendimento. Ela é distância ficcionada. Ela preocupa-se, também, com o resto do mundo, mesmo que esse mundo e esse resto nada lhe mereçam. Ela não quer saber se os seus actos e opiniões fazem bem ou mal ao destino. Ela tem medos vários. Ela não se importa com as dúvidas. Ela quer sempre conhecer mais. Ela não é capaz de mudar as escolhas. Ela quer saber de novidades e adquiri-las. Ela não se perde à primeira. Ela fica na história. Ela faz a história. E ele, quer continuar a enumerar, enquanto vive. E, se não for pedir muito, ele quer comer algodão doce com ela. Se preciso, na feira da aldeia. Ou no quarto de hotel de muitas estrelas do outro dia. Continua.