Deram,
algures na história, um papel malfadado ao amor. Por força, avanço eu, do
desamor que lhe segue. Ainda que nunca se lhe conheça a definição. Do amor que
foge ao ritmo da dormência e do desamor que rebola no sentido de um frenético
quintal de urtigas. Ou as múltiplas acções. Tão trôpegas e disfuncionais. Se
pararmos para pensar, o amor pesa. Felizes, os que amam sem razão. Vivem a
emoção e o humor da relação. Não é uma escolha, é a coerência da necessidade de
gostar e viver. Falar do amor é custoso. Tira a alma e deixa nódoas. O desamor
lembra-nos que a outra pessoa, sem dar por isso, faz falta. Como me contava um
amigo meu, que tem a mania de andar pela manhã. Na melancolia da madrugada.
Partilha esse prazer com outro. Ouvir música ao vivo. Foi esse o defeito.
Terminou uma relação de longos meses há menos de um. Qual palmadinha nas
costas, vingou-lhe o discurso da infinita boa disposição e a métrica de quem
não se melindrou. Mas, e contra mim falo, macho ferido define estratégias, mas
nunca se guarda preparado para a queda da bengala. Ele terminou, em desabafo,
assumindo que lhe doía a ausência dela. Também nas noites em que, juntos e
dinâmicos, sentiam a música. E ainda partilhavam mais do que o corpo. Respeito,
é o que se pede. Homem que não grita, não é, inevitavelmente, o mau da fita.
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10.11.14
20.10.14
O amor tem uma imagem em cada vivência.
Quando
era bem petiz, desenhar nos vidros pálidos da humidade era entretenha de
momentos mortos. Fazíamo-los vivaços e soberbos. Obrigávamos, se preciso, a
base de quem queria desenhar, a ficar tal e qual necessário. O inverno parecia
que entrava no jogo. Por isso, a sazonalidade trazia a lembrança. Não sei ao
certo, porque me lembro disto agora. Na verdade, antes de começar a escrever,
pensava na realidade que um amigo me contou. Está longe, algures nos meandros
de um país, embora, europeu, com oportunidades guardadas. Mas esse é o lugar, que
aqui é um pormenor de somenos. Ele contava-me que o amor era uma estratégia inútil.
Por mais que inventes e organizes as tuas vontades, misturar-se-á sempre o
descalabro do que guarda o teu corpo. O corpo pode tomar a condução da
entretenha, em detrimento, claro, da vontade de uma cabeça insegura e pouco capaz
de gerir, a partir da base, uma convicção. E continuou no desfio das questões
que lhe vêm roubando tempo. Não cedeu, por entender que assim devia ser. Havia,
contudo, um corpo a provocar. O seu. Porque as relações terminam. É o caso.
Agora, dizia-me ele, não se arrepende de ter castrado a aflição de ir mais
longe no ânimo que o corpo lhe oferecia de quando em vez. Questionar-se, por
seu turno, melindra-lhe a dor de ter gostado. Perguntou-me, por fim, a minha
opinião. Era grande o suficiente para não lha dar por escrito. Pequena,
porventura, capaz de se resumir a silêncio. Sinceramente, não importa o que lhe
disse. Mas uma coisa é certa, nos tempos e/ou momentos mortos, havemos sempre
de ter outras soluções. Ainda que, em algum momento, nos possam ter parecido
tão rudimentares.
1.10.14
Em diferido. #19
Canta-me
um modinha - Destemido, português e de língua afiada, detentor de estórias sem
fim. Na voz que não descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e
é tão buliçoso. É uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo.
Repito-me e é certo, tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso
de ouvir outros tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela
impossibilidade de ter vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade.
Ceder à tentação de ganhar tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência
só discute com a quietação, é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um
casal septuagenário, de cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e
salteado, humor apurado e sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois
sabem o que passa na televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse
aparelho que, um pouco de vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura,
agora recuando, é a única que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a
quietação. E continuam a contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de
então, tão limpidamente lembrados como a refeição do dia anterior.
Perguntei-lhes das canções. Ele, afoito, cantava com calor no peito. Ela,
tímida, foi cantarolando de mão dada com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas
carnes. Numa pausa, voltaram à conversa. E responderam-me, primeiro que não
tinham sequer um rádio, depois, que fora entre a feira da aldeia onde, tão
aprumados, iam conviver. Era lá que, entre namoricos, ouviam as músicas da
época. Ela, levando a mão à testa, perguntou-se como nunca se havia esquecido
de tanta letra junta. Ele, lançou um novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de
então, teve uma grafonola. Ela perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe.
Ele voltou às cantigas e ela de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de
festival. E remato lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por
receios tão característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais
cheio de torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.
29.9.14
Derramar luz.
A
discrição é um facto que se recusa a deixar partir. É a velocidade de um feitio
que ganha contornos de mãos que jogam com a vergonha de expor mais do que
merece importância. A vergonha, palavra que desvenda sensações e incoerências
que dão voltas num monociclo que pensa como gente e obriga a condução de
acrobata gingão. Mas ultrapassa a vergonha. É um feitio que está inscrito
algures. E atrai esse contexto em que não é defeito, senão feitio. O equilíbrio
de um físico que se sustenta nuns saltos altos ou nuns rasos que nada roubam,
na elegância de um corpo que não procura revelação, antes convicção. É igual ao
que sente. As palavras nunca chegam ao fim, nem deseja fechar os olhos. Gosta
de ter tempo e viver numa conversa que tem um sem fim de segundos. O afecto que
partilha, sem obrigação, assenta-lhe na essência que impõe em cada relação.
Efectiva ou de situação. A discrição, conheço-a de outros tempos. Agora, é
infinita a vontade de que a partilha com a proprietária desta discrição e conversa
que me prende a atenção, jamais chegue ao fim. Escrevi, acredita, sem receio de
me esquecer. Escrevi, podes acreditar, para voltar sempre. E acrescentar.
17.9.14
Apontamentos de outros tempos.
Lembro-me
de ler, ainda petiz, algures num livro de desfasada atenção para a tenra idade,
que o amor era pertença dos adultos, por serem precisas armas para o fortalecer
e, acima de tudo, entender. O autor havia de ser lido por um número sem fim de
fiéis a este sentimento. Afinal, é
conversa de quem se assume um perdido nesta arte. Dos outros também se ouve,
muda a postura, passa a inquiridor. Falar sobre o amor é sobrenatural. Todavia,
fala-se de amor em cada canto. Persistindo, contudo, que o amor seja um
desenrolar de audições mal conseguidas. Se partirmos do ponto primeiro. Pode,
por seu turno, ser a mais proveitosa e fiel audição. O descarrilamento vem
depois. Escrevo sobre isto depois de falar com um amigo. E de ouvir relatos de
uma amiga. Ele, feliz numa audição que muitos ditaram amaldiçoada. Ela, nos
escombros de uma relação que prometia o melhor dos desfechos. Falar de amor não
cansa, só pode ser essa a justificação. Porque não cansa discutir a humanidade,
os seus inevitáveis destinos e os sinais do que lhe é intrínseco. Aos dois, a
maior e melhor das sortes. Atenção, não escrevas tudo o que lês. Ou vês.
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1.9.14
A (des)medida do (des)amor.
Uma
sem noção de vezes, não importa o mote, senão quando a matéria que dele nasce
não oferece petisco. Outras, por tanto se encerrar no todo, guardamos o
principio, por temer uma negligente e inóspita composição. O ideal era desmaiar
de amor. Guardar, sempre, a ressalva. Recuperar, se possível e necessário, na
vontade seguinte. Esquecer os contos de outras ideologias, das que jogam com o
prisma das emoções e sensações. Sossegar os romances pesados num canto. Deixar
para depois o quadro que conta histórias de amor. De desamor. O amor tem sempre
um lado tão mais apetecível. Para quem conta, relata. Para quem lê, escuta e,
por fim, pensa. A tragédia atrai. A felicidade de outros repele. Ler
desenfreadamente, desde cedo, é ter a convicção de que o amor e todos os seus
predicados, move interesses. Acções, por certo. Ensina-se que o amor mata. Mas
não lembram soluções, sequer opções. Ler o amor é pensar no lugar de quem está
de fora, à margem dessa medida. Viver o amor é regredir, voltar ao lugar de aprendiz.
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romances
30.7.14
Canta-me uma modinha.
Destemido,
português e de língua afiada, detentor de estórias sem fim. Na voz que não
descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e é tão buliçoso. É
uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo. Repito-me e é certo,
tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso de ouvir outros
tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela impossibilidade de ter
vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade. Ceder à tentação de ganhar
tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência só discute com a quietação,
é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um casal septuagenário, de
cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e salteado, humor apurado e
sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois sabem o que passa na
televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse aparelho que, um pouco de
vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura, agora recuando, é a única
que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a quietação. E continuam a
contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de então, tão limpidamente
lembrados como a refeição do dia anterior. Perguntei-lhes das canções. Ele,
afoito, cantava com calor no peito. Ela, tímida, foi cantarolando de mão dada
com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas carnes. Numa pausa, voltaram à
conversa. E responderam-me, primeiro que não tinham sequer um rádio, depois,
que fora entre a feira da aldeia onde, tão aprumados, iam conviver. Era lá que,
entre namoricos, ouviam as músicas da época. Ela, levando a mão à testa,
perguntou-se como nunca se havia esquecido de tanta letra junta. Ele, lançou um
novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de então, teve uma grafonola. Ela
perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe. Ele voltou às cantigas e ela
de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de festival. E remato
lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por receios tão
característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais cheio de
torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.
29.7.14
Em diferido. #14
Foram
rosas, senhor - Saltou do carro. Há um vento fresco, uma contabilidade dos dias
e das temperaturas tão irregulares que obriga a fingir que terminamos,
desalmadamente, mais um ano. Vem de caracóis ao vento, escuros e tão definidos
que sossegam o todo. Um casaco de mangas arregaçadas. Saltos altos, como
sempre. É regra. Os óculos escuros escondem a direcção do olhar, mas o rosto
esboça o sorriso de sempre. Já a vislumbrávamos, pela vidraça corrida, antes de
entrar. Chegou, pousou a mala e levantou os óculos de sol. Falou à sala e
cumprimentou quem a esperava. Dois beijos. Nem se lembra, tampouco, da moda do
beijo singular. Sentou-se e depois de pedir, de gargalhada fácil, contou que
havia recebido um ramo de rosas. Já tinha a jarra em repouso, à espera de lhas
receber. De agora em diante, meus amigos, nunca menos que rosas. Anuímos. E
gabamos o gesto do homem apaixonado.
23.7.14
Do nascimento em diante.
A
infância e a adolescência são, vezes sem conta, alvo das mais desgrenhadas
palavras e definições rasteiras. A inocência, a inexperiência e o imprevisto.
Depois, as acções azougadas, os amores e desamores desavindos, as relações familiares
tão beliscadas, as amizades que vão e, se voltarem, voltaram. A seguir, bem, tudo
muda, é o que nos oferecem como verdade. Reconheço sinceridade em muito desse raciocínio.
Mas as excepções nunca ficam a perder. E, no passado fim-de-semana, num local
público, onde devíamos optar por alguma parcimónia no discurso, uma jovem
mulher, certamente com, pelo menos, trinta anos, exprimia-se com a força e
fluidez do pensamento. A prosa comprova, se não colocarmos tantos entraves, que
somos eternos em tanto das experiências que escolhemos ou que, de jeito inevitável,
vivemos. A jovem mulher questionava-se, pelo que deu a entender, a uma amiga de
longa data, da relação “tão de liceu”, como a própria definia. Não vou relatar
o que se seguiu daí em diante, porque não é relevante e, sinceramente, não
guardei. Mas ficou-me a certeza de que, crescer, soprar mais uma vela e evoluir
pessoal e profissionalmente, nunca será a certeza de que maturamos. Ressalvo
todas as excepções. Siga o passo.
22.7.14
Nomes fictícios. #2
A
Carolina descobriu que o Diogo só gostou dela porque a viu dançar sozinha,
descomprometidamente sozinha. Era fácil vê-la dançar por ali. Era difícil adivinhar-lhe
o passo seguinte. Quando ela puxava os cabelos, a cabeça e os ombros para trás,
ele mexia-se e, se quisermos, podíamos sentir-lhe a vontade de saltar do lugar
e segurá-la pela cintura magra. Aguentou-se. Na verdade, sugerimos-lhe que a
deixasse sossegar. Ela não deixou a dança quase toda a noite. Ele, exausto e
exasperado, lançou-se à pista. Até à semana passada. Até a Carolina descobrir
que o Diogo só ficou interessado porque ela dançava leve e segura, tão sozinha.
Sei os pormenores da dança, porque estava lá. Sei que já não dançam juntos,
porque estava lá. Sei que parece menor, mas os pormenores fazem a diferença,
ouvi dizer. As interpretações enviesadas acontecem. Boa sorte, Diogo. Boas
danças, Carolina.
17.7.14
Míngua de opções.
Sob
um calor que pesa, numa esplanada de pessoas a conviver. Aquele top de cor
atraente e envolvente como uma chama bamboleante, naquele corpo que tem na pele
a cor do bronze, chama a atenção. Ambos, o top, logo de seguida, o corpo. Entre
nós, não há fumadores. A tempo inteiro, por ora. Pede-lhe um cigarro, apenas
porque quer saber os seus hábitos e ouvir a sua voz sem que, por qualquer
instante, ceda à fraqueza de lhe perguntar o que lhe interessa. Mudam as
regras, neste jogo de fogo e água. Deste jogo do apanha e foge. Do chega e segue.
Aumenta o som e a desenvoltura com que tantos de nós, deliberadamente, expõem a
sua íntimidade. Na forma descompensada como muitos de nós se entrega sem que
lhes perguntem. No jeito fácil e frágil em que se tornou a exposição do que nos
deve ser mais intrínseco e profundo. Neste vício de criar relações. Um espécie
de paródia mal sucessida, que envergonha a obra que está a ser imitada.
Esqueçemo-nos do tempo de falar. Esqueçemo-nos da palavra. Inventam-se e
compõem-se subterfúgios para chegar mais perto e mais depressa. Mudam-se os
tempos, mudam-se as verdades. E esquecemo-nos das reais raridades. Fugiu-nos a
discrição, chegou-nos a copiosa exposição.
30.6.14
Escolhe uma cor.
Constantemente
não é óbvio, remédio que convém à torção de um músculo que já não ensaia. Na
terra batida encontramos tudo. As botas com desenhos distraídos da terra
fugidia, os botins de todas as estrelas, os ténis de corrida, os ténis com a
marca adornada no desenho da mais recente moda, os sapatos assimétricos, também
os clássicos e, imagine-se, os chinelos e os saltos. No pé de cada nome,
naquela terra batida, olhamos de tudo. Tanta gente junta, tanta diversidade
feliz. Calca-se a terra a cada passo adiante. Tanta gente reunida. Fazem-se
grupos de amizade. Amigos e conhecidos em roda. Risada, conversa e gargalhada.
Mas há sempre quem nos arrepie. A pele ganha outra textura, um toque de relevo
robusto da sensação desprevenida. E ficamos a vê-la. E ficamos a ouvi-la. Só me
interessa se tiver passagem desligada de repetidas imagens. Na terra batida
sustentam-se relações. Investem-se razões para conhecer quem és.
16.6.14
Relação, para que te quero?
Encontrei
a Maria, no jeito da ocasião. Vinha sorridente e leve, de sol a bater, de
óculos escuros na mão, como se deles não se lembrasse, por isso, de olhos piscos,
a esconderem-se e a defenderem-se da luz que lhe roubava a visão. Vinha depois
daquele arco, antes do outro. E o sorriso vinha no rosto. Cruzamo-nos e,
inevitavelmente, cumprimentamo-nos. É boa disposição. Dois beijos, abraço e
conversa de situação. Não falámos sobre o Tiago. Estranha-se, depois é
corriqueiro. Antes desta separação, não me lembro de os ver sozinhos. Um sem o
outro. Era uma combinação, se quisermos, improvável, mas fazia um todo convincente.
Divertimo-nos, sempre, bastante. Tanto que, antes do anúncio e da argumentação,
havíamos repetido um excelente momento. Agora, iam separar-se. No dia anterior,
enquanto planeavam mudar os estores da casa nova, depois da restante
remodelação, perceberam que não mais fazia sentido. Pode parecer cruel. Mas é
sustento. Inventar para procrastinar, rouba identidade. Sustente-se enquanto é
tempo, sob pena de serem, a curto prazo, dois arrumados bonecos no maple da
sala lá de casa, tão bem decorada ou no carro dos sonhos de muitos, no regresso
de um fim-de-semana prolongado. A crueldade de um acto causa dor. Dor que
passa. Ao contrário da inércia que abate qualquer títere.
26.5.14
Ensejo propositado.
Aquele
movimento frenético, tantas vezes, lhe sentimos a falta. A forma possuída como
a cidade grande, de tão impaciente, consegue, roçando a convulsão, gerir o quão
rabugento que é o marchar daquele lugar. Quando não estou, por temporadas, em
Lisboa, falta-me esse ademane social. Nunca estou o tempo suficiente. Longe,
ganho-lhe saudades, da cidade e da impaciência que afasta o vagar. Por seu
turno, voltar às raízes de um espaço mediano, oferece-me o descanso da
serenidade beliscada meigamente pelo espancar do quotidiano. E, entre tudo
isto, julgando que nada tem que comparar, lembro-me das relações. Entre
pessoas. Do amor e do desamor. Da amizade e da desamizade. Do afecto e do
desafecto. Como que as sentando rivais. Afastando qualquer cotejo. Desde logo,
refuto qualquer maneirismo de psicologia enviesada com filosofia de mesa de
café. Mas, tal como, os lugares, as pessoa ganham estratégias de viver e
sobreviver. As relações, se quisermos, espelham factos do nosso reflexo nos outros.
Se me ofereces excitação ou se me desenhas experiências quentes mas serenas.
Somos aprendizes. De qualquer lado da barricada. Mesmo e, sobretudo, se
mudarmos de azo.
22.5.14
Foram rosas, senhor.
Saltou
do carro. Há um vento fresco, uma contabilidade dos dias e das temperaturas tão
irregulares que obriga a fingir que terminamos, desalmadamente, mais um ano. Vem
de caracóis ao vento, escuros e tão definidos que sossegam o todo. Um casaco de
mangas arregaçadas. Saltos altos, como sempre. É regra. Os óculos escuros
escondem a direcção do olhar, mas o rosto esboça o sorriso de sempre. Já a
vislumbrávamos, pela vidraça corrida, antes de entrar. Chegou, pousou a mala e
levantou os óculos de sol. Falou à sala e cumprimentou quem a esperava. Dois
beijos. Nem se lembra, tampouco, da moda do beijo singular. Sentou-se e depois
de pedir, de gargalhada fácil, contou que havia recebido um ramo de rosas. Já
tinha a jarra em repouso, à espera de lhas receber. De agora em diante, meus
amigos, nunca menos que rosas. Anuímos. E gabamos o gesto do homem apaixonado.
7.5.14
Homem escolhe procurar até encontrar.
Não
tem perto da minha idade, porque conta com mais de dez anos que eu, isto sem me
perder a fazer as contas de forma conveniente. É um desviado da
intelectualidade, embora, viva embrenhado nela. É uma contradição como quase
tudo o que lhe conheço. É um amigo que, aos poucos, deixou de ser um mero
conhecido. Aproxima-nos um punhado de coisas. Afastar-nos-á outras tantas.
Conhecemo-nos por entendimento da circunstância. E dos amigos em comum. É
divertido nas expressões e situações mais desengonçadas e sisudo nos momentos
mais informais. Outra contradição, lá está. Não é o preferido em muitos dos
locais onde se move. Porque não se apresenta, escolhe chegar e não pensa no resto.
Não oferece a preocupação de bandeja. Faz de conta que muito do que é não
impressiona os outros e repete, se preciso for, que não lhe causa aflição. Teme
outros males. Nunca viveu um casamento longo. Nunca, em nenhum dos quatro
casamentos. Aflige-lhe outras maleitas. A inesgotável vontade de arriscar no
próximo amor. É, nas conversas em que fuma um cigarro e mais outro, um defensor
do amor. Não lhe conhece as regras, as soluções. Mas entra na luta. Aqui, não
se limita a existir. Avança sem justificar o impulso do corpo e da mente.
Defende o casamento. Só é capaz de viver o peso da paixão e a leveza do amor
num casamento. Desafiado, responde que só amou o número de vezes em que se
casou. Do resto, como em tudo, não se preocupou. Tampouco, senão uma ou outra
lembrança lhe restou. Volta o desafio e responde que só pode com o peso do
sossego e desassossego exterior. Lá dentro, onde guarda o que é, não suporta o
tormento de não viver. Seja porque sim, seja pela infindável necessidade de
estimular. De viver até encontrar.
6.5.14
Em diferido. #8
Bastam-lhe
sessenta segundos. Soa Jeff Buckley. A vidraça quadriculada, cortada pelo
alumínio, está semicerrada. O dia a recomeçar contagem, vai e vem, já lá vão as
zero horas contadas ao soarem. A varanda ao relento, forte aragem e luar
pesado, corando a rua vazia, pingada de um cinzento que lembra uma película a
preto e branco. Peca ou deprava, reforçando o contentor afogado, lá ao fundo.
Nuvens de fumo, aos pulos tremidos, a fugir do cigarro meio, segurado entre os
dedos finos da atrevidamente desajustada, desalinhada e atraente mulher. Ela
repete-se nesta rotina. Debaixo da cacimba. Em trajes menores. Desnudada. Em lingerie. Porque já lhe agonia o sexo.
Diz da boca para fora. Porque lhe levaram a companhia maior. A mulher fuma para
matar o que a corrói. Para consumir os pulmões. Para secar as entranhas.
Levaram-lhe a companhia. A companheira. Desde que as viram embarcar num trocar sentido
de um beijo no vão da escada do agastado prédio. Do lugar que escolheram para
refúgio. Para amar. Em segredo. Guardadas. Até ao momento final. Amar diferente
mata, quando não há liberdade. À espera, esta mulher fuma. Passa, assim, o
tempo morto. Morta está. Até à salvação. Até ao regresso ou ao reencontro.
Ligou, desligou. Intermitente, o candeeiro de rua, ao lado, realçando as
sombras. Focando a diferença. Ostentando a fragilidade. Um fazer de conta, golpeando
a agonia. Um dia que volta e revolta, como o que está antes. Acabou. De costas,
chorou.
2.5.14
A classe de ser quem é.
Domingo
próximo é dia da mãe. Até lá, por razões várias, faltar-me-á espaço para parar
e pousar por aqui. Por estes dias, porque o sol e a moda assim o ditam, os
óculos de sol da minha mãe, de matriz vintage,
são uma das suas imagens de marca. São elegantes, tolerantes, mas atrevidos, ao
jeito de uma qualquer diva de cinema e pejados de identidade. Assemelham-se à
sua gargalhada fácil. À forma despretensiosa de viver o que lhe apetece e como
lhe serve de interesse. Contudo, é infinitamente dotada dos seus predicados.
Sabe gerir e gesticular opiniões. Perde-se quando a emoção toma de amarras a
razão. Não tem vocação para males maiores ou menores, contudo, vive-los sem
entender. Mas dispõe-se naturalmente para ajudar o outro. Não precisa que lhe
justifiquem, ajuda somente. Vocação é a palavra maior quando falamos da sua
posição de mãe. Fá-lo por e com amor, requinte, convicção e vocação, não tenho qualquer
espécie de dúvidas. Hipotecou um tanto da sua experiência e oportunidades, por
amor a uma família que havia de chegar. Vive um casamento por amor. Uma
família, desde sempre, tradicional. É atrevidamente doce e impulsiva no seu
linguajar. A gargalhada é conhecida e reconhecida pelos que lhe querem bem. É,
porventura, um ou mais passos à frente, no que à educação que recebeu à época diz
respeito. Não rasgou a tradição, mas rompeu com estigmas do itinerário
feminino. É feliz em tanto. Parte desse tanto, são os três filhos. Esta manhã,
ainda cedo, convidou-me para a acompanhar numa ida às compras. Numa loja fora
dos centros comerciais, próxima da avenida, que frequenta com alguma
regularidade. Pediu-me opinião como se fosse fundamental. Anui, mas não me
canso de lhe repetir que prefiro, sempre, vê-la ao seu gosto. Sorriu-me, como de
costume. Acabou por comprar a peça que recebeu o nosso consenso. Terminamos, de
óculos de sol pousados, os dela junto aos meus, a tomar o pequeno-almoço, como
noutras sextas-feiras. Felizes como sempre. A conversa nunca esgotamos. A minha
mãe é sempre mais do que parece. Sempre! Vou, no domingo, de viva voz
desejar-lhe o melhor dos dias e que se mantenha daí em diante. Um beijo, mãe.
Até já!
22.4.14
Um apontamento.
É,
apenas, um apontamento literal do que acabei de ver. Daqueles pormenores e
momentos que guardaria, descritos, por tempo indeterminado, num dos meus
cadernos, de capa vigorosa, negra ou azul forte, de elástico a forçar o segredo.
Sobre a calçada portuguesa, está um casal a fotografar-se mutuamente. Em poses
várias. Em emoções diferentes. Em expressões atraentes e atractivas. Imitam um
género de dança. Coordenada à mercê da vontade que os acompanha e sugere que se
procurem. Ali mesmo, no centro da cidade. A calçada portuguesa aos pés. O rio,
se imaginarmos, ao fundo. Um monumento, que é uma cidade, num espectáculo que,
sem convite, merece apontamento. Há quem viva para lá dos murmúrios e lamentos.
Se, por um acaso, os guardasse para lá da memória e dos rabiscos elaborados,
através da minha máquina fotográfica, guardá-los-ia a cores. Esquecia o preto e
o branco, por ora. Guardava-os, num apontamento, tão colorido. E continuaram,
depois de eu dar costas, sobre a calçada, a mímica de se fotografarem. Não sei
se é amor, mas disfarça tão bem.
18.3.14
Composição de um moço primário.
É
um linguarejar que não tem pretensões. É uma brasa que serve de assinatura e
que marca distintivamente. São emoções. Ela é elegante, tímida e sossegada. Ela
é divertida, tagarela e de sorriso fácil. Ela é cúmplice. Ela é assertiva. Ela
é dedicação. Ela é inteligência e perspicácia. Ela é inocência no entendimento.
Ela é distância ficcionada. Ela preocupa-se, também, com o resto do mundo,
mesmo que esse mundo e esse resto nada lhe mereçam. Ela não quer saber se os
seus actos e opiniões fazem bem ou mal ao destino. Ela tem medos vários. Ela
não se importa com as dúvidas. Ela quer sempre conhecer mais. Ela não é capaz
de mudar as escolhas. Ela quer saber de novidades e adquiri-las. Ela não se
perde à primeira. Ela fica na história. Ela faz a história. E ele, quer
continuar a enumerar, enquanto vive. E, se não for pedir muito, ele quer comer
algodão doce com ela. Se preciso, na feira da aldeia. Ou no quarto de hotel de
muitas estrelas do outro dia. Continua.
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