Guardo,
algures entre o soalho e o rodapé, pinturas que esperam por um lugar. Qualquer
um. O relógio guarda horas obscenas. Deixei-me ficar pela noite, ao invés, de
esquecer. De fazer por adormecer. Faz-nos assim o tempo com tempo, o ritmo
diferente. A rotina que foge, os hábitos da gente. O relógio não deu sossego,
mas a obscenidade ficou. A minha irmã mais nova gaba-me a blusa que trago. Um
sincero elogio logo cedo. No fim do ano, convidam-se os balanços para a mesa.
Como se a transição fosse imediata, como se mudar fosse simples, brando.
Sugerem-se novos ritmos, outras acções, perspectivas obliquamente diferentes.
Na rua, as pessoas carregam, sem alma, sacos. Tantos sacos. Algumas vezes, fui
um deles. A minha irmã mais nova procura a compra pretendida. Ri-se, e
encontra. Outras vezes, sou um dos outros. Dos que se cansam do consumo, dos
que viram a cara à aventesma e, sem espírito, passeiam na mesma. Nunca fui de
guardar promessas, de escrever novas regras. Prefiro a organização das coisas,
as ideias no lugar certo. Talvez, não desminto, me falte o talento para a
previsão. Fica-me a vontade de pensar, fazer e, só depois, ver. Não sei se me
repito, mas guardo, ali mesmo, sobre o soalho confortável e o rodapé
trabalhado, uma série de pinturas bonitas. De tanto passarem de lá para cá, ali
têm vivido. Precisam de um lugar. Vem aí o novo ano, não sei onde as colocar.
Nisto, ainda me lembro da definição da astronomia. Caso perca a vontade, tenho
outro ano, o mesmo tempo, para as pinturas pendurar. Ou guardar. E, assim, os
meus sossegar.
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29.12.15
5.1.15
Prioridades biológicas de ano novo.
Diz
a sabida canção e não deixa mentir, toca o telefone a toda a hora. Era uma
procura que vem de fora. Na rua a direito, para a frente é o caminho. Fogem as
chuvas sem parar. Fica o frio que não perdoa. Intervalo para a conversa de
situação. Encontros do novo ano. Dizem as línguas afiadas de gosto pela palavra
que não sossega, que a comunhão entre os corpos vive da atracção, por demais,
efectiva e sincera. Há gostos, assim como, amores que vêm por bem. Bravos
trajectos e arranjinhos que duram um cento. Contou-me um conhecido que vive de
vazios afectos. Muitos e diversificados. Ora procura por satisfação do ego mole,
ora não escolhe, aproveita a surpresa. Contou-me esse conhecido que não tem
idade para se dedicar. Porventura, aconchegar com tempo ou casar. Não sabe
contrariar, somente descobrir e aproveitar. Escolhe, avançou, o carro para a
conquista. Chegou o ponto, vai trocar. De companhia que, por ora, azedou. De
carro que, neste horário, é sala de estar e dele cansou. Tu sabes bem, disse-me
ele, uma mulher escolhe, somente, conforme a oferta. Não sei, retorqui. Não sei
mesmo. Desavindo devo andar com essa madeixa do género feminino. Feliz, a
mente. Voltou a verdade da cantiga, toca o telefone a toda a hora. Toca, toca.
Aproveitei, a conversa terminei. Segui caminho, na mesma rua a direito. Depois
da chamada, decidi parar. Novo ano, velhos hábitos. Sentei-me e escrevi. A ver,
da esplanada fria, gente a passar.
30.12.14
Rapsódia do ano velho.
Perguntaram-me
se sonho alto. Se tenho um patamar. Imitei um pensamento esquecido. Fiz uma
rapsódia de ideias. Não esgotei o tempo. De impulso, respondi que depende da
acústica da sala. Depende dos decibéis que se soltam. Cabal hipotético, o
estojo dos sonhos. Depende, sempre, do ambiente. Se castra por inteiro, se
excita o âmago. Se tens posição, se não repetes a batida. Sonhar, assim, sem
pontuação, porque a dispensa. Sem posto de honra para a guilhotina. Sem ponto
final. Não julga a elasticidade. Sonha. Cuida a insistência. Devaneia. Até à
salvação. No retrato do novo ano, está alguém a ler o jornal do dia, as
notícias baralham os nomes, mas não mudam para melhor. As crónicas azougadas,
mas a desculpa perfeita para encarar o que não dizem. Falar por falar, não
esconde o olhar. Das lembranças, confirma que com o dia nasce o sol. As massas
correm aos saldos. Aconchegando o pescoço, estão os cachecóis. No calçado,
assalta a questão de sempre, a dúvida fica pelos sapatos luzidios, os ténis de
marca ou os botins de pele. Numa roda-viva, a ambição e as perspectivas. Além Tejo,
um pedido de casamento. Ao lado, pousa o cigarro que se gasta, fumegando. Ao
ouvido, os amigos à conversa, enquanto a mão esconde a maçã. A ponte procura
ligar pessoas. A música que agrada está desinteressada da segurança da lista de
lugares. Os transportes públicos entram, desavisados, pela cidade. As pingas da
chuva escorrem vidros abaixo. Os pequenos e grandes furtos são amigos da
miséria. Os aviões perdem-se de vista. O futuro procura uma saída. As verdades,
que são meias, servem desculpas. É, por isso, uma metamorfose invertida. Se as
há. Mundo, num ciclo. O tempo voa. Vem aí um novo ano e com ele, espero, outros
caminhos. Porque saquear o que fica, sem oportunidade de voar, é cobardia. Ano
novo, assim seja. Um ano feliz e com aconchego, é o desejo.
2.1.14
Metamorfose mundana.
No
retrato do novo ano, está alguém a ler o jornal do dia, as notícias baralham os
nomes, mas não mudam para melhor. As crónicas azougadas, mas a desculpa
perfeita para encarar o que não dizem. Falar por falar, não esconde o olhar.
Das lembranças, confirma que com o dia nasce o sol. As massas correm aos
saldos. Aconchegando o pescoço, estão os cachecóis. No calçado, assalta a questão
de sempre, a dúvida fica pelos sapatos luzidios, os ténis de marca ou os botins
de pele. Numa roda-viva, a ambição e as perspectivas. Além Tejo, um pedido de
casamento. Ao lado, pousa o cigarro que se gasta, fumegando. Ao ouvido, os
amigos à conversa, enquanto a mão esconde a maçã. A ponte procura ligar
pessoas. A música que agrada está desinteressada da segurança da lista de
lugares. Os transportes públicos entram, desavisados, pela cidade. As pingas da
chuva escorrem vidros abaixo. Os pequenos e grandes furtos são amigos da
miséria. Os aviões perdem-se de vista. O futuro procura uma saída. As verdades,
que são meias, servem desculpas. É, por isso, uma metamorfose invertida. Se as
há. Mundo, num ciclo.
30.12.13
Novo ano.
Quando
subi aquelas escadas de madeira forte, contudo, velha e gasta pela vontade do
tempo, não podia, jamais, imaginar o desfecho. Em razão da verdade, procurei
distanciar-me, tanto quanto possível. Escolhi assim. Entrei, por fim.
Esperavam-me. O soalho, imitando as escadas, gastou-se. Agora, também range a
cada passada. Dirigiram-me e convidaram-me a sentar. Fechou-se a porta. Deu-se,
finalmente, início à conversa. Que, devo dizer, correu sem esforço, tomou o
rumo certo. Lançaram-me palavras que, para mim, foram formando sentido. O tempo
voou. Deve voar, de facto. Quem sabe, tem asas e corta o vento. Bebe da chuva,
aquece-se no sol. Expressão gasta esta, a de que ofertamos asas ao tempo.
Queremo-lo endeusado, por nele não termos mãos. Assim é com o que nos foge da
acalmia, do punho firme, do controlo. O tempo gasta-se, assim se passa com a
madeira. Um, leva-se alto e livre, para sempre fiel, o outro fica para a
penitência do mau trato diário, persistente. Vertiginosa esta ideia. Não se
fazem vidas iguais. Podem, por defeito, repetir-se sistemas. Mas nunca a
miudeza de fazer igual. O tempo voa. Terminou a conversa. Agradecimentos
jogados, levantamo-nos. A porta abriu, voltei a fazer sofrer o soalho, desci as
escadas que anunciavam a minha passagem. Na rua, ainda estava sol. Segui pelo
passeio, segui pela calçada portuguesa. O tempo voa. Vem aí um novo ano e com
ele, espero, novos caminhos. Porque saquear o que fica, sem oportunidade de
voar, é cobardia. Ano novo, assim seja.
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