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29.12.15

Assaltos de fim de ano.

Guardo, algures entre o soalho e o rodapé, pinturas que esperam por um lugar. Qualquer um. O relógio guarda horas obscenas. Deixei-me ficar pela noite, ao invés, de esquecer. De fazer por adormecer. Faz-nos assim o tempo com tempo, o ritmo diferente. A rotina que foge, os hábitos da gente. O relógio não deu sossego, mas a obscenidade ficou. A minha irmã mais nova gaba-me a blusa que trago. Um sincero elogio logo cedo. No fim do ano, convidam-se os balanços para a mesa. Como se a transição fosse imediata, como se mudar fosse simples, brando. Sugerem-se novos ritmos, outras acções, perspectivas obliquamente diferentes. Na rua, as pessoas carregam, sem alma, sacos. Tantos sacos. Algumas vezes, fui um deles. A minha irmã mais nova procura a compra pretendida. Ri-se, e encontra. Outras vezes, sou um dos outros. Dos que se cansam do consumo, dos que viram a cara à aventesma e, sem espírito, passeiam na mesma. Nunca fui de guardar promessas, de escrever novas regras. Prefiro a organização das coisas, as ideias no lugar certo. Talvez, não desminto, me falte o talento para a previsão. Fica-me a vontade de pensar, fazer e, só depois, ver. Não sei se me repito, mas guardo, ali mesmo, sobre o soalho confortável e o rodapé trabalhado, uma série de pinturas bonitas. De tanto passarem de lá para cá, ali têm vivido. Precisam de um lugar. Vem aí o novo ano, não sei onde as colocar. Nisto, ainda me lembro da definição da astronomia. Caso perca a vontade, tenho outro ano, o mesmo tempo, para as pinturas pendurar. Ou guardar. E, assim, os meus sossegar.

5.1.15

Prioridades biológicas de ano novo.

Diz a sabida canção e não deixa mentir, toca o telefone a toda a hora. Era uma procura que vem de fora. Na rua a direito, para a frente é o caminho. Fogem as chuvas sem parar. Fica o frio que não perdoa. Intervalo para a conversa de situação. Encontros do novo ano. Dizem as línguas afiadas de gosto pela palavra que não sossega, que a comunhão entre os corpos vive da atracção, por demais, efectiva e sincera. Há gostos, assim como, amores que vêm por bem. Bravos trajectos e arranjinhos que duram um cento. Contou-me um conhecido que vive de vazios afectos. Muitos e diversificados. Ora procura por satisfação do ego mole, ora não escolhe, aproveita a surpresa. Contou-me esse conhecido que não tem idade para se dedicar. Porventura, aconchegar com tempo ou casar. Não sabe contrariar, somente descobrir e aproveitar. Escolhe, avançou, o carro para a conquista. Chegou o ponto, vai trocar. De companhia que, por ora, azedou. De carro que, neste horário, é sala de estar e dele cansou. Tu sabes bem, disse-me ele, uma mulher escolhe, somente, conforme a oferta. Não sei, retorqui. Não sei mesmo. Desavindo devo andar com essa madeixa do género feminino. Feliz, a mente. Voltou a verdade da cantiga, toca o telefone a toda a hora. Toca, toca. Aproveitei, a conversa terminei. Segui caminho, na mesma rua a direito. Depois da chamada, decidi parar. Novo ano, velhos hábitos. Sentei-me e escrevi. A ver, da esplanada fria, gente a passar.

30.12.14

Rapsódia do ano velho.

Perguntaram-me se sonho alto. Se tenho um patamar. Imitei um pensamento esquecido. Fiz uma rapsódia de ideias. Não esgotei o tempo. De impulso, respondi que depende da acústica da sala. Depende dos decibéis que se soltam. Cabal hipotético, o estojo dos sonhos. Depende, sempre, do ambiente. Se castra por inteiro, se excita o âmago. Se tens posição, se não repetes a batida. Sonhar, assim, sem pontuação, porque a dispensa. Sem posto de honra para a guilhotina. Sem ponto final. Não julga a elasticidade. Sonha. Cuida a insistência. Devaneia. Até à salvação. No retrato do novo ano, está alguém a ler o jornal do dia, as notícias baralham os nomes, mas não mudam para melhor. As crónicas azougadas, mas a desculpa perfeita para encarar o que não dizem. Falar por falar, não esconde o olhar. Das lembranças, confirma que com o dia nasce o sol. As massas correm aos saldos. Aconchegando o pescoço, estão os cachecóis. No calçado, assalta a questão de sempre, a dúvida fica pelos sapatos luzidios, os ténis de marca ou os botins de pele. Numa roda-viva, a ambição e as perspectivas. Além Tejo, um pedido de casamento. Ao lado, pousa o cigarro que se gasta, fumegando. Ao ouvido, os amigos à conversa, enquanto a mão esconde a maçã. A ponte procura ligar pessoas. A música que agrada está desinteressada da segurança da lista de lugares. Os transportes públicos entram, desavisados, pela cidade. As pingas da chuva escorrem vidros abaixo. Os pequenos e grandes furtos são amigos da miséria. Os aviões perdem-se de vista. O futuro procura uma saída. As verdades, que são meias, servem desculpas. É, por isso, uma metamorfose invertida. Se as há. Mundo, num ciclo. O tempo voa. Vem aí um novo ano e com ele, espero, outros caminhos. Porque saquear o que fica, sem oportunidade de voar, é cobardia. Ano novo, assim seja. Um ano feliz e com aconchego, é o desejo.

2.1.14

Metamorfose mundana.

No retrato do novo ano, está alguém a ler o jornal do dia, as notícias baralham os nomes, mas não mudam para melhor. As crónicas azougadas, mas a desculpa perfeita para encarar o que não dizem. Falar por falar, não esconde o olhar. Das lembranças, confirma que com o dia nasce o sol. As massas correm aos saldos. Aconchegando o pescoço, estão os cachecóis. No calçado, assalta a questão de sempre, a dúvida fica pelos sapatos luzidios, os ténis de marca ou os botins de pele. Numa roda-viva, a ambição e as perspectivas. Além Tejo, um pedido de casamento. Ao lado, pousa o cigarro que se gasta, fumegando. Ao ouvido, os amigos à conversa, enquanto a mão esconde a maçã. A ponte procura ligar pessoas. A música que agrada está desinteressada da segurança da lista de lugares. Os transportes públicos entram, desavisados, pela cidade. As pingas da chuva escorrem vidros abaixo. Os pequenos e grandes furtos são amigos da miséria. Os aviões perdem-se de vista. O futuro procura uma saída. As verdades, que são meias, servem desculpas. É, por isso, uma metamorfose invertida. Se as há. Mundo, num ciclo.

30.12.13

Novo ano.

Quando subi aquelas escadas de madeira forte, contudo, velha e gasta pela vontade do tempo, não podia, jamais, imaginar o desfecho. Em razão da verdade, procurei distanciar-me, tanto quanto possível. Escolhi assim. Entrei, por fim. Esperavam-me. O soalho, imitando as escadas, gastou-se. Agora, também range a cada passada. Dirigiram-me e convidaram-me a sentar. Fechou-se a porta. Deu-se, finalmente, início à conversa. Que, devo dizer, correu sem esforço, tomou o rumo certo. Lançaram-me palavras que, para mim, foram formando sentido. O tempo voou. Deve voar, de facto. Quem sabe, tem asas e corta o vento. Bebe da chuva, aquece-se no sol. Expressão gasta esta, a de que ofertamos asas ao tempo. Queremo-lo endeusado, por nele não termos mãos. Assim é com o que nos foge da acalmia, do punho firme, do controlo. O tempo gasta-se, assim se passa com a madeira. Um, leva-se alto e livre, para sempre fiel, o outro fica para a penitência do mau trato diário, persistente. Vertiginosa esta ideia. Não se fazem vidas iguais. Podem, por defeito, repetir-se sistemas. Mas nunca a miudeza de fazer igual. O tempo voa. Terminou a conversa. Agradecimentos jogados, levantamo-nos. A porta abriu, voltei a fazer sofrer o soalho, desci as escadas que anunciavam a minha passagem. Na rua, ainda estava sol. Segui pelo passeio, segui pela calçada portuguesa. O tempo voa. Vem aí um novo ano e com ele, espero, novos caminhos. Porque saquear o que fica, sem oportunidade de voar, é cobardia. Ano novo, assim seja.