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18.5.17

Em diferido. #59

Virente memorizar - Rabiscar a parede como se fosse uma tela. Permitir carburar as ideias, burilar sobre o branco limpo, o que se lhe assoma no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a para o efeito. Ora desenha com o traço fincado, ora risca com o desmérito que promove. Ambas resultam numa obra digna daquela exposição. O talento jorra-lhe das mãos, dedica-se nas horas desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a razão. Coloca música para guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje que o talento é ocasião para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas que lhe oferecemos. Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa vontade com constância. Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com todas as certezas, despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos também. À viola do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa escorreita e à poesia que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que instigavam a fuga à denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali, verticais, à espera de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista em cima, mandou-me, ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor. Rabiscar a parede como se fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos rodeia. É aconselhar a percepção intelectual. E deles, retirar o melhor.

11.5.17

Viandantes apaixonados pela arte.

O trânsito está caótico. Mais à frente um carro todo simpático, pintado de um amarelo sereno, “decidiu” invadir uma propriedade privada. Muro ao chão. Murro no coração. Imagino a tensão. Vejo uma senhora em aflição. Gente a assistir. Ansiosos e com a eloquência nas mãos. Os meios de socorro já lá estão. O trânsito está caótico. Quase parado. Brinco com os dedos no volante. Faço retratos mentais do que tenho para fazer. Começo a acreditar que vou chegar fora de horas. E não vou perdoar. Não consigo funcionar de outra maneira. O relógio no pulso de sempre, o direito, alerta para os minutos a escassear. O carro também não deixa passar. Toca o telemóvel e hesito. Acabo por atender. Falam do banco, mais assuntos pendentes e questionário de qualidade. Volta o rádio a tocar. Raramente mudo a estação que escuto. Servem-me jazz. E nunca digo que não. É uma paixão antiga. Antes mesmo de ter conhecido a M. Bem, muito antes. A M. entrou na minha vida já a adolescência corria a bom ritmo. Ela era morena, de olhos claros. Tinha um cabelo bonito, longo. Era, na altura, uma artista de jazz em potência. Confirma-se hoje, artista de excelência. Tinha um jeito doce, meigo e bastante reservado. Nitidamente tímida. E não perdia nada, só lhe acrescentava charme. Andava, sempre que possível, com o instrumento. Ou eram as aulas ou os ensaios. Ou os tempos vazios ou a vontade simples. Com ela tomei conhecimento de mais aspectos deste género musical. E outras tantas partilhas que só nos fizeram crescer. Enquanto gente em formação interior, cívica e artisticamente. Era francamente bom. Acabámos por seguir caminhos diferentes. Nada beliscados, mas com fraca força para dar continuidade a uma relação de convivência próxima. Até porque ela foi viver para outro país. E os trejeitos da vida não têm de ter sempre uma justificação. Ou a justificação que pretendemos. A M. continua sóbria e apaixonada pela arte. O eterno caminho da salvação. Acredito e lembro sempre que posso. Por maior que pareça o caos, se amares a arte, tens o destino beneficamente traçado.

20.4.17

Em diferido. #58

Tipicamente recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis calçados.

21.2.17

Estro que me enche o peito.

Ainda petiz gostava de desenhar. Imaginar e no papel acontecer. Ainda petiz rabiscava com a convicção da imaturidade, à espera de ocupar o tempo. Deixava, quando não me esquecia, espaço para os traços. Algures, numa divisão que agrega os excedentes, devem estar cadernos cheios. Pequenos dons e garatujas também. Lá atrás, numa atitude meio blasé, ocupei-me a deixar entrever no quadro escuro. A vaga ideia de que fora um momento feliz. Inventei criar a giz sobre a ardósia, um cavalo gigante, nele um homem montado. Não descurei os pormenores, desde a bota adequada ao chapéu de aba larga. Ao peito trazia um cantil. As rédeas na medida. Tão petiz, numa sala de aula em pausa. E longe de saber que a certeza da bitola varia. Que a felicidade é instável e a liberdade muda conforte o entendimento do conceito. Distante de ter em mãos o que, naquela idade, não era potável. Felizmente. Retirei prazer das aulas de educação visual que, mais adiante, fui tendo. As notas elevadas eram o retorno de que não ambicionava. A galope deixou-se ir a série ininterrupta de instantes. Larguei a necessidade de guardar no papel, em linhas convictas, as mais inusitadas ideias e os mais banais pensamentos. Se não me falha a recordação, teve este homem destemido em giz pintado, honras de continuação. A professora gabou-mo e deixou-o ficar. Juntaram-se, à volta, os colegas. Rimos por tudo. No fundo, por nada. Inevitavelmente tomei outro rumo. Ou outros. Não segui o trilho das artes, mas não sou senão um fascinado pelas mesmas. Ironicamente tenho hoje grandes amigos que são artistas. Dos valentes. Dos que têm talento, sangue e nervo naquilo que criam. Talvez não por acaso, estou rodeado por felizes autores. E tive relações que foram amor em estado puro com mulheres dotadas. Por estes dias, uma franca amiga repetiu a proeza, voltou a expor em Lisboa. A cidade que a adoptou e deu oportunidades. Ainda petiz não sabia, mas sou um privilegiado. Mesmo que desenhar seja um passatempo que deixei pendente. À espera que volte uma inspiração decente.

6.2.17

Virente memorizar.

Rabiscar a parede como se fosse uma tela. Permitir carburar as ideias, burilar sobre o branco limpo, o que se lhe assoma no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a para o efeito. Ora desenha com o traço fincado, ora risca com o desmérito que promove. Ambas resultam numa obra digna daquela exposição. O talento jorra-lhe das mãos, dedica-se nas horas desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a razão. Coloca música para guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje que o talento é ocasião para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas que lhe oferecemos. Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa vontade com constância. Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com todas as certezas, despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos também. À viola do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa escorreita e à poesia que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que instigavam a fuga à denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali, verticais, à espera de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista em cima, mandou-me, ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor. Rabiscar a parede como se fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos rodeia. É aconselhar a percepção intelectual. E deles, retirar o melhor.

25.7.16

Bons amigos (bons).

Caravaggio, cuja origem do nome, embora escusa de relatos maiores, é um empolgante regresso às origens. Já lá vão uns anos bons desde que mo apresentaram. Escrevo como penso. Foi um amigo bom, daqueles meio sacanas e atrevidos, que guardam no intelecto e no geral, bem mais do que o azougar nas horas vagas. Do que acautelar os instintos na sede da pele. Que, não vamos retirar o crédito devido, também é importante. Não será, em tempo algum, de somenos relevância. Mas voltemos ao artista, ao outro. A Caravaggio e à sua obra. No passado, quando eu era bastante jovem, miúdo até, contou-me o seu percurso, influência e irreverência natural. Esse amigo, em abono da verdade, amigo do meu pai, depois por convivência, amigo da minha mãe e, por inevitabilidade do destino, meu bom amigo. Eu, um petiz interessado, ele um homem sabedor, conhecedor do mundo e das voltas que dava. Levava Portugal num bolso, como fazia por repetir e voltava com o mundo no peito. Arranjei-lhe, na imaginação, um peito que não tinha fim. A altura e robustez do tipo ajudavam. Paulatinamente, fora revelando-me mais pormenores, outras obras. Ganhei, se não for exagero, um certo fascínio. Pelo homem e pelo artista, pelas obras igualmente. A enumeração serve a ambos. Ainda converso sem fim com este homem grande. Hoje de cabelo grisalho e dono das mais convincentes histórias. Cruza as pernas e esse pode ser o mote. Fora solteiro até tarde, casou por amor e ganhou. Só acrescentou. Hoje de corpo ainda vivaço, não pega num cigarro e dá corda aos ténis. Traz um livro na mala e esse pode ser o mote. Hoje ainda enche o bolso da nacionalidade que não esquece. Enche o peito de folgo, faz-se ao mundo e volta cheio. Esse pode ser o mote. Tal como Caravaggio fora lá atrás.

13.10.15

Homem muito sabedor.

Ao fundo, no canto da sala, um velho homem toca piano. Brinca com as negras, com as claras. Veste ganga da cabeça aos pés. Tem barba acinzentada, o tom do cabelo. Calça umas botas grossas e castanhas. O pulso direito guarda umas pulseiras. O som é sossegado mas em nada displicente. Tem dom na carne e no espírito. Os espelhos à sua volta compõem o cenário, como se fosse um ensaio constante. Ao redor, outros aparelhos, ninguém lhes chega perto. O soalho de madeira, uma carpete digna. Fisicamente, o espectáculo não perde um soluço. As mãos, ainda as vejo a percorrer cada tecla. A exigente passada do talento. Um encontro do dito com o feito, um encontro de vontades, o velho homem sabedor e o piano de cauda ansioso. Um resumo erudito de elegantes partilhas. Chega o silêncio para, logo depois, entrar impetuosamente uma nova melodia. O som é, nesta fase, robusto, igualmente expressivo. Do tecto, nasce um grande candeeiro com braços sem fim. A luz perfeita. Quem assiste, aproxima-se, e opta, intuitivamente, por sobrestar a respiração. Os pequenos espectadores sentaram-se junto ao homem velho e ao piano e olhavam, olhavam com encanto. Outra vez o silêncio e a coragem ofereceu-lhes, ao talentoso homem e ao afinado piano, um aplauso demorado. O artista levanta os braços, acena com as duas mãos, e desta forma agradece. Gostei de vos sentir, ao invés de ouvir, rematou. Apreciar arte e os autores é, muitas vezes, dar-lhes o fundo que merecem. Em tempo algum, é o espaço. Sempre os preceitos de quem sabe.

1.9.15

Em diferido. #39

Sublevação das gentes - Na sala por onde passei tantas vezes e que me lembro de olhar para ele, passar os olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo bem ou, escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que sempre esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e sem armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca beliscam. Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao pormenor. Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É uma aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da liberdade condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores desprovidos de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer valorização de um regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a barbárie de um nome. Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução. Acusam-me, alguns desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou depois da revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me frases feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas décadas depois, tudo mudou.

23.6.15

O lado certo.

Tenho vários amigos artistas. Já pensei nisto, já falei sobre isto. Fazem coisas, muitas e bem feitas. Afirmo-o com a ressalva do estereótipo que dá as mãos à arte. Eu gosto do muito que venho vendo. São todos muito diferentes. Mas encontro-lhes semelhanças na estrutura. Mulheres e homens de ideias sociais muito próximas, fazedores de arte mais distantes. Respiram criatividade, falam com originalidade e sustentam-se no compasso da criação. Não é forçado, é uma acção natural, uma reacção visceral. Louvo-lhes o dom, uma e outra vez. Chegou e deixou cair sobre a mesa uma revista. Disse-me, logo a seguir, que era a revista de que me havia falado. Trouxe-ma para que, entre os muitos artigos de interesse, me deixe levar por um conjunto de fotografias que são o espelho do mundo. Um mundo honestamente desonesto. Um retrato de outro continente. Já lá esteve e, garante-me, é impressionante. A qualidade das fotografias é indiscutível, mas não se esgota na técnica apurada, na luz certa, na objectiva concreta. Morre em cada uma, a esperança. Porque não é ver, é ver e não restar um miserável pingo de dúvida de que o julgamento se faz aos solavancos e não tem beira. Ironizando, porque nos falta discurso, já dizia uma velha amiga, quando ainda éramos uns putos entre aulas e conversas de corredor, que lamentava não se chamar Esperança. Todas as vezes, alguém lhe perguntava porquê. Ela justificava, imaculadamente: Porque a Esperança é sempre a última a morrer. É tão verdade, que me rio enquanto escrevo. Tal como nesses idos anos. Havia sempre uma gargalhada como ponto final. Agora, depois de folhear esta revista um punhado de vezes, faz sentido. Que aos protagonistas desta realidade nunca lhes falte a esperança. Mesmo que morram antes dela. É o outro lado. O lado da consciencialização.

27.5.15

Peça de duas rodas à janela.

Não me perguntem onde tenho a cabeça. Que tenho-a em muitos lugares. E, para não mentir, teria de recorrer a citações de um livro de um dos grandes, dos autores nacionais que escreveram com pedaços de coisas quebradas. E dividia, sem defeito, a autoria. “Livro do Desassossego”. Não me lembro da última vez em que peguei numa bicicleta. Literalmente. Admiro-as e quero aquela. Idealizei-a primeiro, depois fui encontrando bocados dessa ideia numa ou noutra com que me fui cruzando. O todo está perfeitamente construído na faculdade do meu pensamento. Vejo-as em revistas bonitas, em quadros de arte maior, em cartazes que me fazem parar e em fotografias que me fazem sossegar. Perco-me, se não for um exagero da definição, em lugares online que mostram a mesma bicicleta em lugares diferentes, correndo o mundo. Outras, em que o mesmo sítio vê passarem as mais diversas e desconexas. Um certo dia, algures na adolescência acabada de começar, num passeio a três, eu e mais dois amigos, num terreno tão maninho, caí sem definição. Uma descida mal calculada. O resto já se sabe. Mas não foi nesse tempo que desisti. Hoje repito instantes. Paro, se achar apropriado, para fotografar uma bicicleta. E espero, sem pressa, pelo dia em que ela vai chegar. A sala da minha casa pode ser o horizonte. E, sem prejuízo, deixá-la lá ficar.

12.5.15

Mulher que se foi libertando das pressões burguesas.

A vida é bela, rapaz. Volto a lembrar-me de um dos filmes que mais gostei, pelas tantas razões que hei-de sempre lembrar. Que, por ora, nada importam. Passei, entre outras coisas, o gosto pelo filme à minha irmã mais nova. Lembram-se as gerações de que viver em harmonia nem sempre é fácil. Arrumam-se os livros de história, esquecem-se as tradições regionais, afastam-se os mais velhos, destroem-se as praias porque ganharam títulos, compilam-se em discos externos as fotografias, consome-se até à exaustão a música comercial. Nunca mais voltámos a eles. A facilidade e a rapidez comandam ao nível da ambição. A vida é bela. É nome de filme, volto a lembrar e é uma espécie de sonho, uma utopia que tem jeito de petiz travesso. Como aquela sala, outrora cheia de gente ansiosa pela orquestra imaculada, bem comandada e pela voz que viria depois. Os camarotes, reis da vista privilegiada. Agora, vazia e com uma acústica excepcional, esta sala é espaço de conversa. Logo à noite, apresentar-se-ão películas datadas. Neste instante, a sala está despida de gente ansiosa e do burburinho que especula sobre o que está a estrear. Agora, senta-se e somos todos ouvidos. Estes quase noventa anos são a prova viva, guardada e pronta para passar para uma prosa valente e inquietante, um Portugal de outros. O dela, por certo. Estes quase noventa anos lamentam a sala vazia, nunca de público, mas de obras, de óperas, da arte que merece ter tábuas para pisar. Tem um humor particular, sorri com o rosto todo, mostra legitimidade e coerência no discurso e, ainda mais, nos lamentos. Os brincos grandes fazem a moldura. As mãos marcadas brincam com o fio que pende sobre o peito. Não pede mais oportunidades, porque já não interessa. Aproveitou todas as que lhe fizeram parar e suspirar. Hoje, pede a dignidade e a classe que a permita, nunca quando lhe apetecer, mas sempre que surgir um cartaz à porta, para sair de casa, bem vestida, disponível para passar um bom bocado. E, no final, aplaudir. Se preciso, de pé. Palmas.

29.4.15

Imaginar qualquer coisa de novo.

Mostraram-me um esboço de um trabalho criativo, para que eu opinasse. O que quer que eu diga, vale o que vale. Não vou para além da minha sensibilidade e da forma como reajo perante aquilo que me apresentam. Vejo e espero uma reacção. Ou gosto e digo, ou não gosto e digo. Certamente, em sendo a segundo opção, procuro escolher com outra maturidade a justificação. Se quisermos, é uma simplicidade inquinada, mas mais polida. Sem qualquer desprimor para o autor. Que a subjectividade não se ausenta. Sempre válida. Neste projecto em concreto, ainda mal o tinha visto e logo me lembrei dos azulejos e da sua importância na génese nacional. Conheço quem guarde azulejos em casa. Fá-lo por convicção. Não os apanha algures, aproveita todos os que lhe chamam a atenção. Prende-se a eles, e guarda-os para si. Não os traz da rua, escolhe-os ainda na parede. Uma casa antiga, tanto quanto julgo saber, uma casa com muitos anos, de família. Daquelas grandes, que um dia inteiro não chega para contar o que e quem por lá passou. Salões antigos, janelas grandes, um jardim que tem condições para suportar uma casa daquelas. Alguns andares, alcatifas por todo o lado. Lareiras em materiais nobres. As paredes cobertas e gastas. Quadros, mesas fortes, bancos de pele e candeeiros requintados em cada divisão. Vão dar inicio às obras. Manteve, felizmente, alguns painéis. Outros, inevitavelmente, teve de pedir para retirar. Vai nascer dali, tenho a certeza, uma vida nova. Porque a pessoa que guarda os azulejos em casa, é a mesma que os defende, conhece e lhes oferece alimentação e modo de viver. Volto à criatividade num esboço. É forte e tem um lado simples, dignificando a intuição. Guia-nos para uma certa verdade singela. Para mim, é não desistir. Que, sinceramente, simpatizei com a evolução. Do meu lado é fácil. Gostei.

28.4.15

Em diferido. #33

Tipicamente recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis calçados.

12.3.15

Tipicamente recalcitrante.

As revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis calçados.

23.2.15

Em diferido. #28

Exclusivas emoções - A passadeira vermelha importa, com certeza. É o entremeio, do que mais vezes vem. Noutra asa golpada pela extensão do que vem de um ano voltado para a sétima arte. A cada ano, é um voltar-lhe aos braços. Mudam, quando mudam, os nomes e os cabeça de cartaz. Faz parte. É, ao pisar o vermelho, que se toma nota das mais turbinadas palavras e figurinos. É o que, para alguns, no dia seguinte, se sobrepõe aos vencedores temidos e aos vencidos perdidos em pensamentos. Um mundo tão próximo do outro. Às tantas, sei que me cansa a ideia de ficar, uma vez mais, a ver a prolongada e, por vezes, desajustada noite dos Óscares. Mas ao contrário, vou insistindo. A cerimónia guarda menos surpresas. Já não aposto. Não tenho dedo para a coisa. Premiar a objectiva é tramado. Escolher o melhor entre tantos, também. Na arte. Que é logo a senhora do que ultrapassa o físico. A dona que se suporta no espírito. Claro que faz sentido a passadeira vermelha. Ali vivem-se corpos. Mais ou menos vestidos. Cores e tecidos trabalhados. Quer queiramos, quer não, será sempre assim. Discute-se a arte. Seja no palco, de título no punho, seja na passadeira, de ansiedade e expectativa no peito. É o que prevalece. As emoções.

22.1.15

Não é no sentido figurado.

Sugestões de semana a meio. Diz o povo, corta o tempo e passa rápido. Jantar numa quarta-feira, é comer os dias. Romper com a ansiedade de um fim que ainda parece demorar. Sabedoria de um popular que finge ser menor. Seja num inverno rigoroso, seja num verão de tanto calor. No frio, procuram-se as cores para contrariar. No lusco-fusco da rua vazia. Dão o braço e caminham confiantes. Conta a menina ao menino, veste a saia até ao joelho. Disfarça e parece um vestido. Cidade antiga, não é Lisboa. É como a saia, do joelho para baixo, fosse este país um corpo. Rua antiga, como a cidade despida. É noite carregada. Conta o menino à menina, gosta do preto e branco. As tonalidades vincadas. Tão marcadas que não esquecem as rugas. A expressão. Como no quadro que está naquele salão. Ou nas pessoas que parecem o dobro, por se repetirem em cada espelho corrido. Lá ao fundo, centrado. As janelas fazem parelha. Recebem no espaço composto. Sugerem a mesa que ganha com o talento que está na parede. Sentados, ficam marionetas autênticas. Aqueles braços que adivinham estar a gesticular, enquanto comandam um fio que ninguém vê. Sem que te esforces muito, fazes uma fotografia que conta a mesma história. Assume o papel e posiciona-te como se fosses refém do comando. Fazemos de conta que ninguém vê. Agora! Disparou. Está feito. Por uma vez, fingindo um boneco que se mexe à mercê de um cordel por alguém gerido. Não é, por certo, no sentido figurado. Rimo-nos sem fim. Ocupam-se os dias com muito mais do que responder. É diferente quando assumimos as rédeas. Mesmo que, por um fio invisível, adestrados.

26.11.14

Em diferido. #23

Dar e possuir vida - Presta atenção ao que te digo. Esse vaivém em que ficas quando visitas o que alguém expõe, não acrescenta nada de novo à tua interpretação das telas. Complica-te, desde logo, as ideias, depois as sensações e os sentimentos que possas, porventura, adquirir enquanto desfocas o olhar e a atenção, quando pretendes o inverso. É bem mais difícil conheceres a raiz e a matriz deste autor. Nem te apercebes dos tons, das texturas, no fundo, dos materiais, da obra. Puxa uma cadeira, encosta-a à parede ou coloca-a no centro da sala. E, então sossegado, permite-te admirar. Não há cadeiras? Claro que não. O espaço é, propositadamente, clean e destaca a obra. Não há cadeiras? Bem sabemos que não. Distancia-te do vaivém em que ficas quando visitas a manifestação da produção intelectual de alguém. E aproveita. Puxa da imaginação. E, se preciso for, senta-te na cadeira composta pela criação, no chão. Em frente, o tal objecto artístico. Aproveita o privilégio de habilitar o conhecimento.

27.10.14

Senta-te comigo e aprecia.

Gosto, se possível, de acompanhar as lides profissionais, depois das pessoais, dos meus amigos. Parte deles é arte em cada decisão. Sem necessidade de segurar verdades e métodos absolutos. As redes sociais amancebadas com o plural e a pluralidade do iPhone e do iPad desta vida. Da forma de viver tão actual, instantânea e, por razão da última, instável. Sem desdém, pois acabei de ver inspiração em estado físico. Através das redes sociais. Já devo ter falado sobre isto. Algures, se não ultrapassei o consumo das ideias e não perdi a última porção de energia e memória. Porque é relevante ver a intelectualidade desenhada em grandes telas. Essas, as telas grandes, podem, sem prejuízo alheio e patrimonial, ser um muro desgrenhado ou uma parede velha e gasta, onde não sobra nada senão restos de uma tinta de massas, um branco que já não é. Rei da tela, altruísta em sessões. E é quase perturbadora, essa dicotomia. Esta minha amiga, por quem ultrapasso o cordial experimentar sentir coisas boas, renovou uma parede. Nasceu, algures numa cidade que já ouvi apelidar de feminina - Lisboa, curvas e postura de mulher que canta a canção da melancolia. Sussurra a visão com pintas. É artista de rua, esta cidade – uma parede de gesto delicado. De verdes e imponentes imitadores de um tecido natural. A natureza de folhas vivas, onde nem o orvalho da neblina matinal fica esquecido. E, contrariando alguns momentos de opinião em caixa, simpatizo com a facilidade de estar ao lado de alguém. Mesmo que tenhas ido procurar outras luzes. Quando voltas, é como se sempre tivesses visto a evolução. Porque te sobram o motivo e a motivação.

30.9.14

Sublevação das gentes.

É na sala por onde passei tantas vezes, que me lembro de olhar para ele, passar os olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo bem ou, escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que sempre esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e sem armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca beliscam. Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao pormenor. Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É uma aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da liberdade condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores desprovidos de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer valorização de um regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a barbárie de um nome. Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução. Acusam-me, alguns desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou depois da revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me frases feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas décadas depois, tudo mudou.

22.9.14

Gosto delicado de deixar nu.

Recebi na minha caixa de e-mail um anúncio. Nele, um conjunto de imagens, que lado a lado com outras, estão numa exposição. Lembrava-me, o mesmo amigo, no mesmo e-mail, que as fotografias, de um fotografo recente, aconteciam numa cidade, que não sendo capital, é movimento de cultura. Não falo, portanto, de Portugal. Fatalmente, o nosso país prefere esconder a necessidade de viver e conhecer. Não conhecia o recente fotografo, nem de nome. Fui procurar saber. Afinal, o artista apelidado de recente, conta com um vasto número de exposições e imagens premiadas. Desta feita, volto a ter a certeza de que as legendas cansam. Valorizam-se ou perdem-se sem grandes questões. As imagens, voltou a escrever-me o mesmo amigo, eram o espelho de cada corpo nelas representado. Tive de concordar. E, nisto, lembrei-me de uma mulher que conheci há muitos anos atrás. Uma professora de português que desenhava. Era desgovernada e sem feitio para o espartilho de uma educação com cintos. Não será necessário escrever que não tinha particular popularidade entre os da mesma classe. Mas insisto. Soube mais tarde, desenhava corpos. Nus e, preferencialmente, corpos nus de mulheres. No desatino do destino, conheci-lhe algumas obras, anos mais tarde. E percebi. O gosto pelo desenho. A primazia pelo nu. A simpatia pelo nu feminino. Ainda, o afastamento que ela cultivava de uma certa vaidade colectiva que tomava o ambiente por onde, inevitavelmente, tinha de se movimentar. E nas legendas, que dotada de palavra, simplificava o todo. É ver para acreditar.