Virente memorizar - Rabiscar a parede como se fosse uma tela.
Permitir carburar as ideias, burilar sobre o branco limpo, o que se lhe assoma
no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a para o efeito. Ora desenha com o
traço fincado, ora risca com o desmérito que promove. Ambas resultam numa obra
digna daquela exposição. O talento jorra-lhe das mãos, dedica-se nas horas
desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a razão. Coloca música para
guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje que o talento é ocasião
para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas que lhe oferecemos.
Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa vontade com constância.
Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com todas as certezas,
despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos também. À viola
do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa escorreita e à poesia
que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que instigavam a fuga à
denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali, verticais, à espera
de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista em cima, mandou-me,
ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor. Rabiscar a parede como se
fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos rodeia. É aconselhar a percepção
intelectual. E deles, retirar o melhor.
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18.5.17
11.5.17
Viandantes apaixonados pela arte.
O
trânsito está caótico. Mais à frente um carro todo simpático, pintado de um
amarelo sereno, “decidiu” invadir uma propriedade privada. Muro ao chão. Murro
no coração. Imagino a tensão. Vejo uma senhora em aflição. Gente a assistir.
Ansiosos e com a eloquência nas mãos. Os meios de socorro já lá estão. O trânsito
está caótico. Quase parado. Brinco com os dedos no volante. Faço retratos
mentais do que tenho para fazer. Começo a acreditar que vou chegar fora de
horas. E não vou perdoar. Não consigo funcionar de outra maneira. O relógio no
pulso de sempre, o direito, alerta para os minutos a escassear. O carro também
não deixa passar. Toca o telemóvel e hesito. Acabo por atender. Falam do banco,
mais assuntos pendentes e questionário de qualidade. Volta o rádio a tocar. Raramente
mudo a estação que escuto. Servem-me jazz. E nunca digo que não. É uma paixão
antiga. Antes mesmo de ter conhecido a M. Bem, muito antes. A M. entrou na
minha vida já a adolescência corria a bom ritmo. Ela era morena, de olhos
claros. Tinha um cabelo bonito, longo. Era, na altura, uma artista de jazz em
potência. Confirma-se hoje, artista de excelência. Tinha um jeito doce, meigo e
bastante reservado. Nitidamente tímida. E não perdia nada, só lhe acrescentava
charme. Andava, sempre que possível, com o instrumento. Ou eram as aulas ou os
ensaios. Ou os tempos vazios ou a vontade simples. Com ela tomei conhecimento
de mais aspectos deste género musical. E outras tantas partilhas que só nos
fizeram crescer. Enquanto gente em formação interior, cívica e artisticamente. Era
francamente bom. Acabámos por seguir caminhos diferentes. Nada beliscados, mas
com fraca força para dar continuidade a uma relação de convivência próxima. Até
porque ela foi viver para outro país. E os trejeitos da vida não têm de ter
sempre uma justificação. Ou a justificação que pretendemos. A M. continua
sóbria e apaixonada pela arte. O eterno caminho da salvação. Acredito e lembro
sempre que posso. Por maior que pareça o caos, se amares a arte, tens o destino
beneficamente traçado.
20.4.17
Em diferido. #58
Tipicamente
recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por
casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma
certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando
me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma
matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a
primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes,
surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por
uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da
certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava
com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se
falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca
de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de
neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível,
do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo
fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é
fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de
fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com
uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as
mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns
bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha
dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de
tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a
paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis
calçados.
21.2.17
Estro que me enche o peito.
Ainda
petiz gostava de desenhar. Imaginar e no papel acontecer. Ainda petiz rabiscava
com a convicção da imaturidade, à espera de ocupar o tempo. Deixava, quando não
me esquecia, espaço para os traços. Algures, numa divisão que agrega os
excedentes, devem estar cadernos cheios. Pequenos dons e garatujas também. Lá
atrás, numa atitude meio blasé, ocupei-me a deixar entrever no quadro escuro. A
vaga ideia de que fora um momento feliz. Inventei criar a giz sobre a ardósia,
um cavalo gigante, nele um homem montado. Não descurei os pormenores, desde a
bota adequada ao chapéu de aba larga. Ao peito trazia um cantil. As rédeas na
medida. Tão petiz, numa sala de aula em pausa. E longe de saber que a certeza
da bitola varia. Que a felicidade é instável e a liberdade muda conforte o
entendimento do conceito. Distante de ter em mãos o que, naquela idade, não era
potável. Felizmente. Retirei prazer das aulas de educação visual que, mais
adiante, fui tendo. As notas elevadas eram o retorno de que não ambicionava. A
galope deixou-se ir a série ininterrupta de instantes. Larguei a necessidade de
guardar no papel, em linhas convictas, as mais inusitadas ideias e os mais
banais pensamentos. Se não me falha a recordação, teve este homem destemido em
giz pintado, honras de continuação. A professora gabou-mo e deixou-o ficar.
Juntaram-se, à volta, os colegas. Rimos por tudo. No fundo, por nada.
Inevitavelmente tomei outro rumo. Ou outros. Não segui o trilho das artes, mas
não sou senão um fascinado pelas mesmas. Ironicamente tenho hoje grandes amigos
que são artistas. Dos valentes. Dos que têm talento, sangue e nervo naquilo que
criam. Talvez não por acaso, estou rodeado por felizes autores. E tive relações
que foram amor em estado puro com mulheres dotadas. Por estes dias, uma franca
amiga repetiu a proeza, voltou a expor em Lisboa. A cidade que a adoptou e deu
oportunidades. Ainda petiz não sabia, mas sou um privilegiado. Mesmo que desenhar
seja um passatempo que deixei pendente. À espera que volte uma inspiração
decente.
6.2.17
Virente memorizar.
Rabiscar
a parede como se fosse uma tela. Permitir carburar as ideias, burilar sobre o
branco limpo, o que se lhe assoma no intelecto. Desde que me lembro, guarda-a
para o efeito. Ora desenha com o traço fincado, ora risca com o desmérito que
promove. Ambas resultam numa obra digna daquela exposição. O talento jorra-lhe
das mãos, dedica-se nas horas desocupadas e São Francisco, não tão longe, é a
razão. Coloca música para guardar o ambiente, boa música no caso. Não é de hoje
que o talento é ocasião para a reunião, que já não esqueço as horas ininterruptas
que lhe oferecemos. Logo jovens adultos, numa inconstante procura e numa
vontade com constância. Espargimos sobre a época todas as nossas capacidades. Com
todas as certezas, despendemos largas horas às tertúlias fecundas e às sem ornatos
também. À viola do mestre e ao olho atrevido para a fotografia. À prosa
escorreita e à poesia que roborizava e deslustrava. Às cartas e aos jogos que
instigavam a fuga à denúncia do olhar. Um armazém de pendulares memórias. Ali,
verticais, à espera de quem passa. Porque há algum tempo que não coloco a vista
em cima, mandou-me, ontem ao final da tarde, imagens de mais um pormenor.
Rabiscar a parede como se fosse uma tela é aumentar o préstimo do que nos
rodeia. É aconselhar a percepção intelectual. E deles, retirar o melhor.
25.7.16
Bons amigos (bons).
Caravaggio,
cuja origem do nome, embora escusa de relatos maiores, é um empolgante regresso
às origens. Já lá vão uns anos bons desde que mo apresentaram. Escrevo como
penso. Foi um amigo bom, daqueles meio sacanas e atrevidos, que guardam no
intelecto e no geral, bem mais do que o azougar nas horas vagas. Do que
acautelar os instintos na sede da pele. Que, não vamos retirar o crédito
devido, também é importante. Não será, em tempo algum, de somenos relevância.
Mas voltemos ao artista, ao outro. A Caravaggio e à sua obra. No passado,
quando eu era bastante jovem, miúdo até, contou-me o seu percurso, influência e
irreverência natural. Esse amigo, em abono da verdade, amigo do meu pai, depois
por convivência, amigo da minha mãe e, por inevitabilidade do destino, meu bom
amigo. Eu, um petiz interessado, ele um homem sabedor, conhecedor do mundo e
das voltas que dava. Levava Portugal num bolso, como fazia por repetir e voltava
com o mundo no peito. Arranjei-lhe, na imaginação, um peito que não tinha fim.
A altura e robustez do tipo ajudavam. Paulatinamente, fora revelando-me mais
pormenores, outras obras. Ganhei, se não for exagero, um certo fascínio. Pelo
homem e pelo artista, pelas obras igualmente. A enumeração serve a ambos. Ainda
converso sem fim com este homem grande. Hoje de cabelo grisalho e dono das mais
convincentes histórias. Cruza as pernas e esse pode ser o mote. Fora solteiro
até tarde, casou por amor e ganhou. Só acrescentou. Hoje de corpo ainda vivaço,
não pega num cigarro e dá corda aos ténis. Traz um livro na mala e esse pode
ser o mote. Hoje ainda enche o bolso da nacionalidade que não esquece. Enche o
peito de folgo, faz-se ao mundo e volta cheio. Esse pode ser o mote. Tal como
Caravaggio fora lá atrás.
13.10.15
Homem muito sabedor.
Ao
fundo, no canto da sala, um velho homem toca piano. Brinca com as negras, com as
claras. Veste ganga da cabeça aos pés. Tem barba acinzentada, o tom do cabelo.
Calça umas botas grossas e castanhas. O pulso direito guarda umas pulseiras. O
som é sossegado mas em nada displicente. Tem dom na carne e no espírito. Os
espelhos à sua volta compõem o cenário, como se fosse um ensaio constante. Ao
redor, outros aparelhos, ninguém lhes chega perto. O soalho de madeira, uma
carpete digna. Fisicamente, o espectáculo não perde um soluço. As mãos, ainda
as vejo a percorrer cada tecla. A exigente passada do talento. Um encontro do
dito com o feito, um encontro de vontades, o velho homem sabedor e o piano de
cauda ansioso. Um resumo erudito de elegantes partilhas. Chega o silêncio para,
logo depois, entrar impetuosamente uma nova melodia. O som é, nesta fase,
robusto, igualmente expressivo. Do tecto, nasce um grande candeeiro com braços
sem fim. A luz perfeita. Quem assiste, aproxima-se, e opta, intuitivamente, por
sobrestar a respiração. Os pequenos espectadores sentaram-se junto ao homem
velho e ao piano e olhavam, olhavam com encanto. Outra vez o silêncio e a
coragem ofereceu-lhes, ao talentoso homem e ao afinado piano, um aplauso
demorado. O artista levanta os braços, acena com as duas mãos, e desta forma
agradece. Gostei de vos sentir, ao invés de ouvir, rematou. Apreciar arte e os
autores é, muitas vezes, dar-lhes o fundo que merecem. Em tempo algum, é o
espaço. Sempre os preceitos de quem sabe.
1.9.15
Em diferido. #39
Sublevação
das gentes - Na sala por onde passei tantas vezes e que me lembro de olhar para
ele, passar os olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo
bem ou, escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que
sempre esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e
sem armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca
beliscam. Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao
pormenor. Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É
uma aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da
liberdade condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores
desprovidos de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer
valorização de um regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a
barbárie de um nome. Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução.
Acusam-me, alguns desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou
depois da revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me
frases feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas
décadas depois, tudo mudou.
23.6.15
O lado certo.
Tenho
vários amigos artistas. Já pensei nisto, já falei sobre isto. Fazem coisas,
muitas e bem feitas. Afirmo-o com a ressalva do estereótipo que dá as mãos à
arte. Eu gosto do muito que venho vendo. São todos muito diferentes. Mas
encontro-lhes semelhanças na estrutura. Mulheres e homens de ideias sociais
muito próximas, fazedores de arte mais distantes. Respiram criatividade, falam
com originalidade e sustentam-se no compasso da criação. Não é forçado, é uma
acção natural, uma reacção visceral. Louvo-lhes o dom, uma e outra vez. Chegou
e deixou cair sobre a mesa uma revista. Disse-me, logo a seguir, que era a
revista de que me havia falado. Trouxe-ma para que, entre os muitos artigos de
interesse, me deixe levar por um conjunto de fotografias que são o espelho do
mundo. Um mundo honestamente desonesto. Um retrato de outro continente. Já lá
esteve e, garante-me, é impressionante. A qualidade das fotografias é
indiscutível, mas não se esgota na técnica apurada, na luz certa, na objectiva
concreta. Morre em cada uma, a esperança. Porque não é ver, é ver e não restar
um miserável pingo de dúvida de que o julgamento se faz aos solavancos e não
tem beira. Ironizando, porque nos falta discurso, já dizia uma velha amiga,
quando ainda éramos uns putos entre aulas e conversas de corredor, que
lamentava não se chamar Esperança. Todas as vezes, alguém lhe perguntava
porquê. Ela justificava, imaculadamente: Porque a Esperança é sempre a última a
morrer. É tão verdade, que me rio enquanto escrevo. Tal como nesses idos anos.
Havia sempre uma gargalhada como ponto final. Agora, depois de folhear esta
revista um punhado de vezes, faz sentido. Que aos protagonistas desta realidade
nunca lhes falte a esperança. Mesmo que morram antes dela. É o outro lado. O
lado da consciencialização.
27.5.15
Peça de duas rodas à janela.
Não
me perguntem onde tenho a cabeça. Que tenho-a em muitos lugares. E, para não
mentir, teria de recorrer a citações de um livro de um dos grandes, dos autores
nacionais que escreveram com pedaços de coisas quebradas. E dividia, sem defeito,
a autoria. “Livro do Desassossego”. Não me lembro da última vez em que peguei
numa bicicleta. Literalmente. Admiro-as e quero aquela. Idealizei-a primeiro,
depois fui encontrando bocados dessa ideia numa ou noutra com que me fui
cruzando. O todo está perfeitamente construído na faculdade do meu pensamento. Vejo-as
em revistas bonitas, em quadros de arte maior, em cartazes que me fazem parar e
em fotografias que me fazem sossegar. Perco-me, se não for um exagero da
definição, em lugares online que
mostram a mesma bicicleta em lugares diferentes, correndo o mundo. Outras, em
que o mesmo sítio vê passarem as mais diversas e desconexas. Um certo dia, algures
na adolescência acabada de começar, num passeio a três, eu e mais dois amigos,
num terreno tão maninho, caí sem definição. Uma descida mal calculada. O resto
já se sabe. Mas não foi nesse tempo que desisti. Hoje repito instantes. Paro,
se achar apropriado, para fotografar uma bicicleta. E espero, sem pressa, pelo
dia em que ela vai chegar. A sala da minha casa pode ser o horizonte. E, sem
prejuízo, deixá-la lá ficar.
12.5.15
Mulher que se foi libertando das pressões burguesas.
A
vida é bela, rapaz. Volto a lembrar-me de um dos filmes que mais gostei, pelas
tantas razões que hei-de sempre lembrar. Que, por ora, nada importam. Passei,
entre outras coisas, o gosto pelo filme à minha irmã mais nova. Lembram-se as
gerações de que viver em harmonia nem sempre é fácil. Arrumam-se os livros de
história, esquecem-se as tradições regionais, afastam-se os mais velhos, destroem-se
as praias porque ganharam títulos, compilam-se em discos externos as
fotografias, consome-se até à exaustão a música comercial. Nunca mais voltámos
a eles. A facilidade e a rapidez comandam ao nível da ambição. A vida é bela. É
nome de filme, volto a lembrar e é uma espécie de sonho, uma utopia que tem
jeito de petiz travesso. Como aquela sala, outrora cheia de gente ansiosa pela
orquestra imaculada, bem comandada e pela voz que viria depois. Os camarotes,
reis da vista privilegiada. Agora, vazia e com uma acústica excepcional, esta
sala é espaço de conversa. Logo à noite, apresentar-se-ão películas datadas.
Neste instante, a sala está despida de gente ansiosa e do burburinho que
especula sobre o que está a estrear. Agora, senta-se e somos todos ouvidos.
Estes quase noventa anos são a prova viva, guardada e pronta para passar para
uma prosa valente e inquietante, um Portugal de outros. O dela, por certo.
Estes quase noventa anos lamentam a sala vazia, nunca de público, mas de obras,
de óperas, da arte que merece ter tábuas para pisar. Tem um humor particular,
sorri com o rosto todo, mostra legitimidade e coerência no discurso e, ainda
mais, nos lamentos. Os brincos grandes fazem a moldura. As mãos marcadas
brincam com o fio que pende sobre o peito. Não pede mais oportunidades, porque
já não interessa. Aproveitou todas as que lhe fizeram parar e suspirar. Hoje,
pede a dignidade e a classe que a permita, nunca quando lhe apetecer, mas
sempre que surgir um cartaz à porta, para sair de casa, bem vestida, disponível
para passar um bom bocado. E, no final, aplaudir. Se preciso, de pé. Palmas.
29.4.15
Imaginar qualquer coisa de novo.
Mostraram-me
um esboço de um trabalho criativo, para que eu opinasse. O que quer que eu
diga, vale o que vale. Não vou para além da minha sensibilidade e da forma como
reajo perante aquilo que me apresentam. Vejo e espero uma reacção. Ou gosto e
digo, ou não gosto e digo. Certamente, em sendo a segundo opção, procuro escolher
com outra maturidade a justificação. Se quisermos, é uma simplicidade inquinada,
mas mais polida. Sem qualquer desprimor para o autor. Que a subjectividade não
se ausenta. Sempre válida. Neste projecto em concreto, ainda mal o tinha visto
e logo me lembrei dos azulejos e da sua importância na génese nacional. Conheço
quem guarde azulejos em casa. Fá-lo por convicção. Não os apanha algures,
aproveita todos os que lhe chamam a atenção. Prende-se a eles, e guarda-os para
si. Não os traz da rua, escolhe-os ainda na parede. Uma casa antiga, tanto
quanto julgo saber, uma casa com muitos anos, de família. Daquelas grandes, que
um dia inteiro não chega para contar o que e quem por lá passou. Salões antigos,
janelas grandes, um jardim que tem condições para suportar uma casa daquelas.
Alguns andares, alcatifas por todo o lado. Lareiras em materiais nobres. As
paredes cobertas e gastas. Quadros, mesas fortes, bancos de pele e candeeiros
requintados em cada divisão. Vão dar inicio às obras. Manteve, felizmente,
alguns painéis. Outros, inevitavelmente, teve de pedir para retirar. Vai nascer
dali, tenho a certeza, uma vida nova. Porque a pessoa que guarda os azulejos em
casa, é a mesma que os defende, conhece e lhes oferece alimentação e modo de
viver. Volto à criatividade num esboço. É forte e tem um lado simples, dignificando
a intuição. Guia-nos para uma certa verdade singela. Para mim, é não desistir.
Que, sinceramente, simpatizei com a evolução. Do meu lado é fácil. Gostei.
28.4.15
Em diferido. #33
Tipicamente
recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há
em mim um certo distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me
obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há
em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou
porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de
ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi
esse o caso, estava a passar os olhos por uma revista de fotografia das boas.
No entretanto, perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida.
Induzido, claro, por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma
fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com
quem olha. Distinta será quando promove a troca de sensações, ainda que,
fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no
pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que
diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória,
do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se
apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa
engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É
lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada
altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois
os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade
distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a
arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra.
Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis calçados.
12.3.15
Tipicamente recalcitrante.
As
revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há em mim um certo
distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a
ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há em que mudo o rumo e
revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou porque me apetece tornar
a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me,
não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a
passar os olhos por uma revista de fotografia das boas. No entretanto,
perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro,
por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte
ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com quem olha. Distinta
será quando promove a troca de sensações, ainda que, fugindo totalmente a
qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no pensamento e depressa me
lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que diz respeito aos ténis.
Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória, do meu pai. Um homem
adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se apresentar, defende
ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa engomada, gravata de
um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É lamentável, termina.
Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada altura, num empate
técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois os ténis. De
preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade distintiva e
personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a arte em destaque,
sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas
acabo de escrever com uns ténis calçados.
23.2.15
Em diferido. #28
Exclusivas
emoções - A passadeira vermelha importa, com certeza. É o entremeio, do que
mais vezes vem. Noutra asa golpada pela extensão do que vem de um ano voltado
para a sétima arte. A cada ano, é um voltar-lhe aos braços. Mudam, quando
mudam, os nomes e os cabeça de cartaz. Faz parte. É, ao pisar o vermelho, que
se toma nota das mais turbinadas palavras e figurinos. É o que, para alguns, no
dia seguinte, se sobrepõe aos vencedores temidos e aos vencidos perdidos em
pensamentos. Um mundo tão próximo do outro. Às tantas, sei que me cansa a ideia
de ficar, uma vez mais, a ver a prolongada e, por vezes, desajustada noite dos
Óscares. Mas ao contrário, vou insistindo. A cerimónia guarda menos surpresas.
Já não aposto. Não tenho dedo para a coisa. Premiar a objectiva é tramado. Escolher
o melhor entre tantos, também. Na arte. Que é logo a senhora do que ultrapassa
o físico. A dona que se suporta no espírito. Claro que faz sentido a passadeira
vermelha. Ali vivem-se corpos. Mais ou menos vestidos. Cores e tecidos
trabalhados. Quer queiramos, quer não, será sempre assim. Discute-se a arte.
Seja no palco, de título no punho, seja na passadeira, de ansiedade e
expectativa no peito. É o que prevalece. As emoções.
22.1.15
Não é no sentido figurado.
Sugestões
de semana a meio. Diz o povo, corta o tempo e passa rápido. Jantar numa
quarta-feira, é comer os dias. Romper com a ansiedade de um fim que ainda
parece demorar. Sabedoria de um popular que finge ser menor. Seja num inverno
rigoroso, seja num verão de tanto calor. No frio, procuram-se as cores para
contrariar. No lusco-fusco da rua vazia. Dão o braço e caminham confiantes. Conta
a menina ao menino, veste a saia até ao joelho. Disfarça e parece um vestido.
Cidade antiga, não é Lisboa. É como a saia, do joelho para baixo, fosse este
país um corpo. Rua antiga, como a cidade despida. É noite carregada. Conta o
menino à menina, gosta do preto e branco. As tonalidades vincadas. Tão marcadas
que não esquecem as rugas. A expressão. Como no quadro que está naquele salão. Ou
nas pessoas que parecem o dobro, por se repetirem em cada espelho corrido. Lá
ao fundo, centrado. As janelas fazem parelha. Recebem no espaço composto.
Sugerem a mesa que ganha com o talento que está na parede. Sentados, ficam
marionetas autênticas. Aqueles braços que adivinham estar a gesticular,
enquanto comandam um fio que ninguém vê. Sem que te esforces muito, fazes uma
fotografia que conta a mesma história. Assume o papel e posiciona-te como se
fosses refém do comando. Fazemos de conta que ninguém vê. Agora! Disparou. Está
feito. Por uma vez, fingindo um boneco que se mexe à mercê de um cordel por
alguém gerido. Não é, por certo, no sentido figurado. Rimo-nos sem fim.
Ocupam-se os dias com muito mais do que responder. É diferente quando assumimos
as rédeas. Mesmo que, por um fio invisível, adestrados.
26.11.14
Em diferido. #23
Dar
e possuir vida - Presta atenção ao que te digo. Esse vaivém em que ficas quando
visitas o que alguém expõe, não acrescenta nada de novo à tua interpretação das
telas. Complica-te, desde logo, as ideias, depois as sensações e os sentimentos
que possas, porventura, adquirir enquanto desfocas o olhar e a atenção, quando
pretendes o inverso. É bem mais difícil conheceres a raiz e a matriz deste
autor. Nem te apercebes dos tons, das texturas, no fundo, dos materiais, da
obra. Puxa uma cadeira, encosta-a à parede ou coloca-a no centro da sala. E,
então sossegado, permite-te admirar. Não há cadeiras? Claro que não. O espaço
é, propositadamente, clean e destaca
a obra. Não há cadeiras? Bem sabemos que não. Distancia-te do vaivém em que
ficas quando visitas a manifestação da produção intelectual de alguém. E
aproveita. Puxa da imaginação. E, se preciso for, senta-te na cadeira composta
pela criação, no chão. Em frente, o tal objecto artístico. Aproveita o
privilégio de habilitar o conhecimento.
27.10.14
Senta-te comigo e aprecia.
Gosto,
se possível, de acompanhar as lides profissionais, depois das pessoais, dos
meus amigos. Parte deles é arte em cada decisão. Sem necessidade de segurar
verdades e métodos absolutos. As redes sociais amancebadas com o plural e a
pluralidade do iPhone e do iPad desta vida. Da forma de viver tão actual,
instantânea e, por razão da última, instável. Sem desdém, pois acabei de ver
inspiração em estado físico. Através das redes sociais. Já devo ter falado
sobre isto. Algures, se não ultrapassei o consumo das ideias e não perdi a
última porção de energia e memória. Porque é relevante ver a intelectualidade
desenhada em grandes telas. Essas, as telas grandes, podem, sem prejuízo alheio
e patrimonial, ser um muro desgrenhado ou uma parede velha e gasta, onde não
sobra nada senão restos de uma tinta de massas, um branco que já não é. Rei da
tela, altruísta em sessões. E é quase perturbadora, essa dicotomia. Esta minha
amiga, por quem ultrapasso o cordial experimentar sentir coisas boas, renovou
uma parede. Nasceu, algures numa cidade que já ouvi apelidar de feminina -
Lisboa, curvas e postura de mulher que canta a canção da melancolia. Sussurra a
visão com pintas. É artista de rua, esta cidade – uma parede de gesto delicado.
De verdes e imponentes imitadores de um tecido natural. A natureza de folhas
vivas, onde nem o orvalho da neblina matinal fica esquecido. E, contrariando
alguns momentos de opinião em caixa, simpatizo com a facilidade de estar ao
lado de alguém. Mesmo que tenhas ido procurar outras luzes. Quando voltas, é
como se sempre tivesses visto a evolução. Porque te sobram o motivo e a
motivação.
30.9.14
Sublevação das gentes.
É na
sala por onde passei tantas vezes, que me lembro de olhar para ele, passar os
olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo bem ou,
escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que sempre
esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e sem
armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca beliscam.
Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao pormenor.
Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É uma
aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da liberdade
condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores desprovidos
de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer valorização de um
regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a barbárie de um nome.
Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução. Acusam-me, alguns
desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou depois da
revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me frases
feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas décadas
depois, tudo mudou.
22.9.14
Gosto delicado de deixar nu.
Recebi
na minha caixa de e-mail um anúncio. Nele, um conjunto de imagens, que lado a
lado com outras, estão numa exposição. Lembrava-me, o mesmo amigo, no mesmo
e-mail, que as fotografias, de um fotografo recente, aconteciam numa cidade,
que não sendo capital, é movimento de cultura. Não falo, portanto, de Portugal.
Fatalmente, o nosso país prefere esconder a necessidade de viver e conhecer. Não
conhecia o recente fotografo, nem de nome. Fui procurar saber. Afinal, o
artista apelidado de recente, conta com um vasto número de exposições e imagens
premiadas. Desta feita, volto a ter a certeza de que as legendas cansam.
Valorizam-se ou perdem-se sem grandes questões. As imagens, voltou a
escrever-me o mesmo amigo, eram o espelho de cada corpo nelas representado.
Tive de concordar. E, nisto, lembrei-me de uma mulher que conheci há muitos
anos atrás. Uma professora de português que desenhava. Era desgovernada e sem
feitio para o espartilho de uma educação com cintos. Não será necessário
escrever que não tinha particular popularidade entre os da mesma classe. Mas
insisto. Soube mais tarde, desenhava corpos. Nus e, preferencialmente, corpos
nus de mulheres. No desatino do destino, conheci-lhe algumas obras, anos mais
tarde. E percebi. O gosto pelo desenho. A primazia pelo nu. A simpatia pelo nu feminino.
Ainda, o afastamento que ela cultivava de uma certa vaidade colectiva que
tomava o ambiente por onde, inevitavelmente, tinha de se movimentar. E nas
legendas, que dotada de palavra, simplificava o todo. É ver para acreditar.
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