Ainda
petiz gostava de desenhar. Imaginar e no papel acontecer. Ainda petiz rabiscava
com a convicção da imaturidade, à espera de ocupar o tempo. Deixava, quando não
me esquecia, espaço para os traços. Algures, numa divisão que agrega os
excedentes, devem estar cadernos cheios. Pequenos dons e garatujas também. Lá
atrás, numa atitude meio blasé, ocupei-me a deixar entrever no quadro escuro. A
vaga ideia de que fora um momento feliz. Inventei criar a giz sobre a ardósia,
um cavalo gigante, nele um homem montado. Não descurei os pormenores, desde a
bota adequada ao chapéu de aba larga. Ao peito trazia um cantil. As rédeas na
medida. Tão petiz, numa sala de aula em pausa. E longe de saber que a certeza
da bitola varia. Que a felicidade é instável e a liberdade muda conforte o
entendimento do conceito. Distante de ter em mãos o que, naquela idade, não era
potável. Felizmente. Retirei prazer das aulas de educação visual que, mais
adiante, fui tendo. As notas elevadas eram o retorno de que não ambicionava. A
galope deixou-se ir a série ininterrupta de instantes. Larguei a necessidade de
guardar no papel, em linhas convictas, as mais inusitadas ideias e os mais
banais pensamentos. Se não me falha a recordação, teve este homem destemido em
giz pintado, honras de continuação. A professora gabou-mo e deixou-o ficar.
Juntaram-se, à volta, os colegas. Rimos por tudo. No fundo, por nada.
Inevitavelmente tomei outro rumo. Ou outros. Não segui o trilho das artes, mas
não sou senão um fascinado pelas mesmas. Ironicamente tenho hoje grandes amigos
que são artistas. Dos valentes. Dos que têm talento, sangue e nervo naquilo que
criam. Talvez não por acaso, estou rodeado por felizes autores. E tive relações
que foram amor em estado puro com mulheres dotadas. Por estes dias, uma franca
amiga repetiu a proeza, voltou a expor em Lisboa. A cidade que a adoptou e deu
oportunidades. Ainda petiz não sabia, mas sou um privilegiado. Mesmo que desenhar
seja um passatempo que deixei pendente. À espera que volte uma inspiração
decente.
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21.2.17
29.4.15
Imaginar qualquer coisa de novo.
Mostraram-me
um esboço de um trabalho criativo, para que eu opinasse. O que quer que eu
diga, vale o que vale. Não vou para além da minha sensibilidade e da forma como
reajo perante aquilo que me apresentam. Vejo e espero uma reacção. Ou gosto e
digo, ou não gosto e digo. Certamente, em sendo a segundo opção, procuro escolher
com outra maturidade a justificação. Se quisermos, é uma simplicidade inquinada,
mas mais polida. Sem qualquer desprimor para o autor. Que a subjectividade não
se ausenta. Sempre válida. Neste projecto em concreto, ainda mal o tinha visto
e logo me lembrei dos azulejos e da sua importância na génese nacional. Conheço
quem guarde azulejos em casa. Fá-lo por convicção. Não os apanha algures,
aproveita todos os que lhe chamam a atenção. Prende-se a eles, e guarda-os para
si. Não os traz da rua, escolhe-os ainda na parede. Uma casa antiga, tanto
quanto julgo saber, uma casa com muitos anos, de família. Daquelas grandes, que
um dia inteiro não chega para contar o que e quem por lá passou. Salões antigos,
janelas grandes, um jardim que tem condições para suportar uma casa daquelas.
Alguns andares, alcatifas por todo o lado. Lareiras em materiais nobres. As
paredes cobertas e gastas. Quadros, mesas fortes, bancos de pele e candeeiros
requintados em cada divisão. Vão dar inicio às obras. Manteve, felizmente,
alguns painéis. Outros, inevitavelmente, teve de pedir para retirar. Vai nascer
dali, tenho a certeza, uma vida nova. Porque a pessoa que guarda os azulejos em
casa, é a mesma que os defende, conhece e lhes oferece alimentação e modo de
viver. Volto à criatividade num esboço. É forte e tem um lado simples, dignificando
a intuição. Guia-nos para uma certa verdade singela. Para mim, é não desistir.
Que, sinceramente, simpatizei com a evolução. Do meu lado é fácil. Gostei.
22.9.14
Gosto delicado de deixar nu.
Recebi
na minha caixa de e-mail um anúncio. Nele, um conjunto de imagens, que lado a
lado com outras, estão numa exposição. Lembrava-me, o mesmo amigo, no mesmo
e-mail, que as fotografias, de um fotografo recente, aconteciam numa cidade,
que não sendo capital, é movimento de cultura. Não falo, portanto, de Portugal.
Fatalmente, o nosso país prefere esconder a necessidade de viver e conhecer. Não
conhecia o recente fotografo, nem de nome. Fui procurar saber. Afinal, o
artista apelidado de recente, conta com um vasto número de exposições e imagens
premiadas. Desta feita, volto a ter a certeza de que as legendas cansam.
Valorizam-se ou perdem-se sem grandes questões. As imagens, voltou a
escrever-me o mesmo amigo, eram o espelho de cada corpo nelas representado.
Tive de concordar. E, nisto, lembrei-me de uma mulher que conheci há muitos
anos atrás. Uma professora de português que desenhava. Era desgovernada e sem
feitio para o espartilho de uma educação com cintos. Não será necessário
escrever que não tinha particular popularidade entre os da mesma classe. Mas
insisto. Soube mais tarde, desenhava corpos. Nus e, preferencialmente, corpos
nus de mulheres. No desatino do destino, conheci-lhe algumas obras, anos mais
tarde. E percebi. O gosto pelo desenho. A primazia pelo nu. A simpatia pelo nu feminino.
Ainda, o afastamento que ela cultivava de uma certa vaidade colectiva que
tomava o ambiente por onde, inevitavelmente, tinha de se movimentar. E nas
legendas, que dotada de palavra, simplificava o todo. É ver para acreditar.
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