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29.4.15

Imaginar qualquer coisa de novo.

Mostraram-me um esboço de um trabalho criativo, para que eu opinasse. O que quer que eu diga, vale o que vale. Não vou para além da minha sensibilidade e da forma como reajo perante aquilo que me apresentam. Vejo e espero uma reacção. Ou gosto e digo, ou não gosto e digo. Certamente, em sendo a segundo opção, procuro escolher com outra maturidade a justificação. Se quisermos, é uma simplicidade inquinada, mas mais polida. Sem qualquer desprimor para o autor. Que a subjectividade não se ausenta. Sempre válida. Neste projecto em concreto, ainda mal o tinha visto e logo me lembrei dos azulejos e da sua importância na génese nacional. Conheço quem guarde azulejos em casa. Fá-lo por convicção. Não os apanha algures, aproveita todos os que lhe chamam a atenção. Prende-se a eles, e guarda-os para si. Não os traz da rua, escolhe-os ainda na parede. Uma casa antiga, tanto quanto julgo saber, uma casa com muitos anos, de família. Daquelas grandes, que um dia inteiro não chega para contar o que e quem por lá passou. Salões antigos, janelas grandes, um jardim que tem condições para suportar uma casa daquelas. Alguns andares, alcatifas por todo o lado. Lareiras em materiais nobres. As paredes cobertas e gastas. Quadros, mesas fortes, bancos de pele e candeeiros requintados em cada divisão. Vão dar inicio às obras. Manteve, felizmente, alguns painéis. Outros, inevitavelmente, teve de pedir para retirar. Vai nascer dali, tenho a certeza, uma vida nova. Porque a pessoa que guarda os azulejos em casa, é a mesma que os defende, conhece e lhes oferece alimentação e modo de viver. Volto à criatividade num esboço. É forte e tem um lado simples, dignificando a intuição. Guia-nos para uma certa verdade singela. Para mim, é não desistir. Que, sinceramente, simpatizei com a evolução. Do meu lado é fácil. Gostei.

20.5.14

Veste azulejos como quem dorme sem descansar.

Conheci-a num dia solarengo, antes do verão quente, depois das chuvas intensas. Num dia que, num outro tempo, oferecer-nos-ia temperaturas amenas. O meio-termo foge-nos pelos dias, desata num galope de quem não tem espaço na agenda, de quem não guarda lugar para esperar, como a água escorre pela pele abaixo ou a areia investe numa corrida sem fim, por entre os dedos. Não consigo precisar o tempo que passou de lá para cá. Não há muito. Sem pensar, um ano que não parou. Porque o raro tem posição e prerrogativa para recusar parar. Mas, num jardim amplo e que nos engole só de olhar. À primeira vista, perdemo-nos logo, se não focarmos. Foi onde a encontrei. Havíamos marcado de surpresa. De ar pesado, algo másculo, estava de pé. Aquele corpo enérgico tinha um vestido a compor. Segurava, numa mão, partes de azulejos. A sua inspiração de cada dia. As mãos, apercebi-me no entretanto, estavam marcadas do trabalho. Sentamo-nos num baloiço. E, também aqui, o vagar pareceu tudo menos demora. Falou, nos primeiros relatos, a medo. Num tom baixo, num recurso a palavras repetidas. Sintoma de quem guarda nervos. Depois, bem depois agarrou o discurso e as memórias de tal forma, que conduziu sem esforço. Uniu-os, como só quem vive, se permite fazer. Agradeço, sempre, quem partilha vida comigo. Também à árvore que, durante toda a conversa, nos segurou tão bem. Os azulejos são a sua mala de mão. Não me esqueço.