Alguém
que chegue de bicicleta vai, por certo, atrair a minha atenção. Seja onde for.
No outro dia não foi excepção. Não é outra atracção senão o objecto.
Porventura, uma ou outra me vá passando à revelia. Não aquela, que há atrasado
passeou e parou num jardim da cidade. Perto dos malmequeres viçosos.
Entretenha, aqui e ali, de crianças que jogam à sorte. Procurando, num desfile
de pétalas pelo ar, chegar à adoração de bem-querer. Parou, com ligeireza, a
bicicleta branca. Bonita, de elegante porte, de pedais finos e rodas a
condizer. Trazia, antes do guiador, um cesto claro, abrindo caminho. A condutora,
uma jovem mulher, de cabelo loiro e lábios rosados. Os olhos expressivos, o
nariz bem desenhado. Uma franja que, em tudo, coadunava-se com o seu ar de
liberdade. Uma camisa de gola subida um tanto escondida pelo sobretudo. Não
saiu da bicicleta, saltou. Encostou-a e no banco ao lado sentou-se. Pegou num
caderno de notas e sossegou. Da mala, uma caixa, de lá tirou pedaços de cenoura
e à boca levou. Daqui em diante, deixei de acompanhar. Não sei quem é, não sei
como acabou. Quem partilhava comigo a pausa, avançou que é uma jovem
veterinária com jeitos e trejeitos que lembram outros tempos. Ilude-nos a visão
quando não temos na mão o guião. Pouco, mesmo nada, me importa se é verdade ou,
antes, uma perfeita ilusão. Atraiu-me a bicicleta com ar romântico, só depois a
mulher que a trazia e preferiu escrever à mão, num caderno bonito, petiscando
fracções de cenoura. Ao invés de chegar num carro da moda, com os saltos que
morrem na calçada e de tomar notas no iPad
que, sem fonte de energia, morre a qualquer instante. Gosto de bicicletas. Não
menos, até mais, vou acreditando, gosto de pessoas. E de vê-las passar.
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4.4.16
27.5.15
Peça de duas rodas à janela.
Não
me perguntem onde tenho a cabeça. Que tenho-a em muitos lugares. E, para não
mentir, teria de recorrer a citações de um livro de um dos grandes, dos autores
nacionais que escreveram com pedaços de coisas quebradas. E dividia, sem defeito,
a autoria. “Livro do Desassossego”. Não me lembro da última vez em que peguei
numa bicicleta. Literalmente. Admiro-as e quero aquela. Idealizei-a primeiro,
depois fui encontrando bocados dessa ideia numa ou noutra com que me fui
cruzando. O todo está perfeitamente construído na faculdade do meu pensamento. Vejo-as
em revistas bonitas, em quadros de arte maior, em cartazes que me fazem parar e
em fotografias que me fazem sossegar. Perco-me, se não for um exagero da
definição, em lugares online que
mostram a mesma bicicleta em lugares diferentes, correndo o mundo. Outras, em
que o mesmo sítio vê passarem as mais diversas e desconexas. Um certo dia, algures
na adolescência acabada de começar, num passeio a três, eu e mais dois amigos,
num terreno tão maninho, caí sem definição. Uma descida mal calculada. O resto
já se sabe. Mas não foi nesse tempo que desisti. Hoje repito instantes. Paro,
se achar apropriado, para fotografar uma bicicleta. E espero, sem pressa, pelo
dia em que ela vai chegar. A sala da minha casa pode ser o horizonte. E, sem
prejuízo, deixá-la lá ficar.
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