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10.2.16

Em diferido. #44

Um café e um romance, por favor - Estás a pensar em quê? Perguntou-me o homem de idade, cabelo grisalho e desportista nato. Não dispensa caminhadas longas e uma certa dedicação à vida saudável. Eu não me lembro da última vez que entrei no ginásio. Talvez passe o tempo de forma desencontrada com a força e o vagar com que uma mão passa pelo cabelo. Não há afagos para o corpo, rasga num mergulho inventado e faz-te homem em cada sentido. Crueldade tamanha. Nada dói, ninguém esquece. Tudo dói, ninguém perdoa. Toma o café, antes que arrefeça. Prefiro assim mesmo, disse-lhe. Também não coloco açúcar, sou incapaz, continuei. Perdes o doce e amargo ímpeto da palavra numa chávena branca, útil, mas básica, atiçou-me. Ri-me e olhei-lhe nos olhos. Para, se possível, tentar perceber a mensagem. Imitei, no lado esquerdo, um olhar que questiona. Ando a ler, voltei-me para a literatura, adiantou. Uma leitura que fala de amor, desabafou. Enquanto eu pensava que, por ignorância, tenho lido substancialmente menos, aplaudi-lhe a decisão. Conte-me, então, o que aprendeu, entretanto, pedi-lhe. Pouco ou nada, fico-me pelas mentiras que vêm lá e gabo-me por ter mentido pouco, disse-me. Isso ou soube fazê-lo, respondi-lhe. Gargalhou. E, agora sim, tomei o café. Ainda vou vê-lo a imitar um romance.

21.4.15

Um café e um romance, por favor.

Estás a pensar em quê? Perguntou-me o homem de idade, cabelo grisalho e desportista nato. Não dispensa caminhadas longas e uma certa dedicação à vida saudável. Eu não me lembro da última vez que entrei no ginásio. Talvez passe o tempo de forma desencontrada com a força e o vagar com que uma mão passa pelo cabelo. Não há afagos para o corpo, rasga num mergulho inventado e faz-te homem em cada sentido. Crueldade tamanha. Nada dói, ninguém esquece. Tudo dói, ninguém perdoa. Toma o café, antes que arrefeça. Prefiro assim mesmo, disse-lhe. Também não coloco açúcar, sou incapaz, continuei. Perdes o doce e amargo ímpeto da palavra numa chávena branca, útil mas básica, atiçou-me. Ri-me e olhei-lhe nos olhos. Para, se possível, tentar perceber a mensagem. Imitei, no lado esquerdo, um olhar que questiona. Ando a ler, voltei-me para a literatura, adiantou. Uma leitura que fala de amor, desabafou. Enquanto eu pensava que, por ignorância, tenho lido substancialmente menos, aplaudi-lhe a decisão. Conte-me, então, o que aprendeu, entretanto, pedi-lhe. Pouco ou nada, fico-me pelas mentiras que vêm lá e gabo-me por ter mentido pouco, disse-me. Isso ou soube fazê-lo, respondi-lhe. Gargalhou. E, agora sim, tomei o café. Ainda vou vê-lo a imitar um romance.

13.3.14

Café da manhã.

A janela fica sempre a descoberto. Não cerra as portadas, porque lhe roubam mais sol do que o pretendido. Não usa cortinas porque desmaiam a luz. O despertador, contava-me, toca sempre no momento mais inoportuno. No instante contado em que o melhor da metamorfose acontece. Em que, estendido na cama de todos os dias, avesso na postura, o corpo cede tempo. Eleva-se-lhe, disse-me tal e qual assim, eleva-se-lhe o espírito e entra numa zona possessa, rítmica, desconstruída, sexuada, pujante e descontraída. Sem artimanhas banais. É possível. Acontecem-lhe, com frequência, os sonhos que lhe excitam a mente e o corpo. E nem precisa de sexo ficcionado no cardápio. Reduzir excitação e prazer ao sexo teórico, não compensa. É travestir. E, tudo volvido e vivido, são horas de levantar. Guardou a memória. Mas não esquece. Não consegue esquecer que, até no sonho, ficou pela metade. Entendes, perguntava-me enquanto o açúcar fugia-lhe das mãos, antes de envolver e casar com o café. Vou-me embora.

27.2.14

Em diferido. #5

É rotina, quando se proporciona. Um diplomado de recordações. As capas dos jornais acontecem como um painel desbragado na cara de alguém, não arrisco uma abusada e detalhada gargalhada. Tenho-lhes gosto e respeito. A alguns. Na banca, em papel. No computador ou tablet, no digital. A nova era, chamam-lhes. A procura de uma qualquer desculpa para não se repetir. Ou repetirem. Disfarçados os minutos, perdido na leitura matutina de não muitas capas e notícias seguras de interesse. Desci a rua, voltei à direita, em direcção ao lugar de sempre. Coisas há, que não mudam. Rotinas de quem designa um poucochinho de nada. Já no interior, conhecem-me o pedido, acenam-me afirmativamente com a cabeça, respondo-lhes igual. Sento-me. O companheiro de rotina está na mesa ao lado. Cumprimentei-o. E voltou-me a saudação. Já havia terminado, depois de usar o telemóvel para obrigações frívolas, quando o meu cúmplice de café me pergunta se quero ler as boas novas ou as velhas maranhas. Questão que me põe amiúde. Agradeço-lhe e torno a responder-lhe que não, que já golpeei a brasa das novidades que abraçaram as publicações diárias. E, de jeito esquecido a tomar-lhe o rosto e as palavras, diz-me “É verdade”. Para trás, porque não me importo. Gosto de sair e ver estas pessoas, ouvi-las, conversar. Termina, pedindo-me a opinião sobre as gordas dos desportivos. E, em minutos, agitamos o vai e vem do futebol. Benfica, sempre o Benfica. Hoje há mais, logo à noite. Confirmou-me o horário. Quando não é em sinal aberto, prefere ouvir no rádio. Assim, não lhe teimam a ansiedade. Obrigado. Vai lá, rapaz. Volta para os braços do que te espera.

5.2.14

Um diplomado de recordações.

As capas dos jornais acontecem como um painel desbragado na cara de alguém, não arrisco uma abusada e detalhada gargalhada. Tenho-lhes gosto e respeito. A alguns. Na banca, em papel. No computador ou tablet, no digital. A nova era, chamam-lhes. A procura de uma qualquer desculpa para não se repetir. Ou repetirem. Disfarçados os minutos, perdido na leitura matutina de não muitas capas e notícias seguras de interesse. Desci a rua, voltei à direita, em direcção ao lugar de sempre. Coisas há, que não mudam. Rotinas de quem designa um poucochinho de nada. Já no interior, conhecem-me o pedido, acenam-me afirmativamente com a cabeça, respondo-lhes igual. Sento-me. O companheiro de rotina está na mesa ao lado. Cumprimentei-o. E voltou-me a saudação. Já havia terminado, depois de usar o telemóvel para obrigações frívolas, quando o meu cúmplice de café me pergunta se quero ler as boas novas ou as velhas maranhas. Questão que me põe amiúde. Agradeço-lhe e torno a responder-lhe que não, que já golpeei a brasa das novidades que abraçaram as publicações diárias. E, de jeito esquecido a tomar-lhe o rosto e as palavras, diz-me “É verdade”. Para trás, porque não me importo. Gosto de sair e ver estas pessoas, ouvi-las, conversar. Termina, pedindo-me a opinião sobre as gordas dos desportivos. E, em minutos, agitamos o vai e vem do futebol. Benfica, sempre o Benfica. Obrigado. Vai lá, rapaz. Volta para os braços do que te espera.

9.1.14

Um café e um abatanado, por favor.

Noutro lugar, voltamos a pedir, não o de sempre. Alguma surpresa. Foi o mote para uma conversa há muito desejada. Sem pensar, aconteceu. Desenrolamos e partimos numa narração sem fim. Eu falei. Ela falou. Eu contei-lhe e situei-a. Ela informou-me e corroborou. Somos aquilo. Somos o que contamos. Somos, fidedignamente o que partilhamos. Não fomos o que viemos vivendo. A distância dos últimos tempos que, por esta altura, dissipou-se, foi a razão para tudo isto. Noutro ambiente, noutra mesa de café. Ao canto, junto aos azulejos. Com verdade, falamos. Com vontade, olhamo-nos. Naqueles minutos, que desconheço, não sentimos ninguém. Por fim, reparamos. Havíamos pedido um café. E um abatanado.

19.12.13

Interrupção momentânea.

Insisto em fazer café. Talvez não seja insistir. Acomodo-me, fazendo café. A secretária, ausente de profissão. No computador, as letras como pássaros. No iPod, a minha playlist, com força de predilecta. Os óculos graduados, aquietados, por esta altura, na secretária. A miopia, ocasião prevista, assente e duradoura. O telemóvel roubando espaço à mesa onde escrevo. O bloco, onde subtraio lugar às folhas um tanto amarelas, quase pálidas, com a minha letra desenhada. Ao fundo, as fotografias em circunstância de monumento comemorativo. Em mim, o desdém do fracasso de não me importar com o mal de me levar, cedendo à vontade de tropeçar, pela importância das restantes divisões. Na última parte, o café é o encanto da intermitência.

20.9.13

Novamente, a mesa do café.

A porta de entrada é grande, vidrada. Tão ampla que permite o acesso, sem medo, da brisa. As cores garridas nas paredes, o tecto sóbrio. A luz invade o espaço e sentimo-nos lá fora. No canto, duas mesas, dão lugar a uma. O grupo é grande, como sempre. O mesmo de sempre. Algumas excepções. Vagas excepções. Pouco importa. Importa-nos pouco, quando estamos em sintonia. Quando temos conversa curiosa. Perdidos, contava-me que desenha. Que desenhou. Agora não. Esqueceu-se de como se faz. Ri-me com gosto. Não se esquece, pensei. Narrou-me, repleta de contentamento, as suas obras. Obras menores, caseiras. Não aceitei a avaliação das mesmas. Jurei querer vê-las. Quem sabe, um dia. Enquanto a conversa acontecia, lembrava-me, tal e qual, que não se esquece como se faz. Mas esquece-se de fazer. É esse o meu caso. Há muito, muito tempo que não desenho. E como gosto! Gosto e esqueço-me, há vários anos, de o fazer.