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5.9.16

Em tempo de calor.

A noite foi longa, quente como o verão de memória latente. Ouvi música contente, disposta e digna do ambiente. Encostei-me na cadeira da época, profunda obra de design, ouvi estórias e lembrei-me das ausências. Rodeado por alguns dos meus, uns recém-chegados à verdade da amizade. Tomei bebidas frescas, recusei a cigarrilha oferecida e não perdi a bonita vista. O calor acontece e favorece. A noite fez-se extensa, talhada como só o verão é capaz. Não fugi, antes pelo contrário, dos relatos entusiasmados. Nessa frenética prosa, eles foram os medalhados. Conhecem a distância como o sustento diário da relação. Ela é divertida, de sorriso rasgado e gesticula com bastante facilidade. Ele embarca na animação, tem jeito de intelectual, é sóbrio e fala com a razão. Lado a lado resultam num simpático quadro. Este ainda é um período de relações, como já havia pensado. Início, fim e recomeço. Paulatinamente, a convivência surge. Ameaçam ficar nesta moldura para sempre. Entre viagens felizes e quilómetros incontáveis. Não canto uma canção italiana, não porque não soe melhor, mas para não desdenhar o amor. Mas remeto-me ao silêncio quando o tema é o tempo e o sentimento. Logo este, à tua espera na primeira esquina ou na manhã seguinte.

7.7.16

Relação de intensidade.

O calor traz gente. A nossa e a outra. Rumas a sul na expectativa repetida de encontrares o mar no mesmo lugar, as ondas que vão e trazem, o sol no tempero certo, os petiscos favoritos, os cheiros da época, a fruta vendida na berma, os sotaques variados e ricos, os corpos com a devida cor, o pôr-do-sol na cobertura, cujo nome chega-nos noutra língua. O humor condensa atrevimento, alguma corrosão até, que aprecio. A bebida partilhada com o grupo certo. Os amigos que regressam, as conversas que não perdoamos. Parte dos amigos de sempre, outros que chegam por favor das relações. Os mesmos amigos das idas para o Algarve diferente. Onde, afoitos, partíamos no desassossego da noite, rumo à praia e não deixávamos à margem as boas e dinâmicas tertúlias. A casa listada de amarelo e a outra de verde seco no cimo, o abismo sobre as ondas revoltas. A aragem temperada, a areia húmida, as pranchas no mar. Um livro ou outro. A piscina lotada. Paixões desmedidas. E rir sem parar. Inventávamos um futuro, escolhíamos partes avulsas. Grande parte, na terça-feira passada, por nós lembradas e relatadas com o devido entusiasmo. Ironicamente, numa qualquer cobertura do verão algarvio, o outro, o mais comercial. Com uma piscina discreta, porém, atractiva. De copo na mão, fervilharam centenas de relatos. E, com maior ou menor prejuízos, colocámos as cartas na mesa. O futuro reservado é, noutra escala, melhor do que havíamos imaginado. Ou, pelo menos, mais diversificado. Coisas há, contudo, que não mudam. A praia mais sossegada, os copos bem servidos, a visita ao melhor café da região e o jantar da praxe no restaurante da nossa estória. E eu chego à praia, não poucas vezes, de paez e chapéu. O calor tem as devidas oferendas. As nossas e as dos outros. E Portugal na grande final.

2.9.14

Época de cores quentes.

Volta as costas para a janela, entreaberta e de cortina a vibrar. Nasce uma silhueta sentada numa secretária de madeira. A divina postura e o divertido balanço de cores com que joga o sol. De um papel de medidas certas, cor forte. Verão num quadrado. Sol na luz e granulado da folha. Desenha um cisne com a coerência, sensatez e simplicidade de quem não pensa. Faz. Como se a candura de não ligar acções e pensamentos fosse um dado adquirido. A sala ganha tons e sombras. Este bocado de papel é um recorte de alguém. O verão é, senão outras definições, um pedaço. De alguém. De quem e a quem importa.

18.8.14

Ensaio sobre a noção de lugar.

Começo, por vez, por guardar a merecida ressalva. Não gosto de generalizações e, em tempos, disse-lhe, tão petiz – não importa mesmo a quem – em resposta àquela voz arrepiada, que são perigosas. As generalizações, tão vizinhas da vulgarização. Porventura, tê-lo-ei ouvido ou lido num dos sem número livros que guardámos lá em casa. Há desassossego por cada canto. Há pressa de quem não espera em cada divisão, em cada estrada e em cada localidade. Há sol a brincar, ninguém quer desperdiçar. A elegância foge dos pés. O requinte perde-se na formulação conseguida naquele minuto, no exacto e impertinente segundo em que a voz ganha fervor, desajuste que não combina com a simplicidade de viver o descanso. A tendência de olhar para o calçado de alguém num rasgado primeiro momento é um impulso como outro. Por esta altura, talvez se faça como resposta uma valente e impetuosa alegoria. Levantam-se falsos testemunhos. Por tudo, por nada. Mesmo que se comece por baixo. Sem a aflição de chegar ao topo. Mesmo que não passe de uma fingida jornada.

4.2.14

Memórias quentes. Senhoras e senhores.

Não ficamos presos à velha discussão, jamais. Somos adultos e gente de espírito livre. Razoável, pensamos sempre. Não nos centramos nas evidências. Avançamos para lá disso. Engraçado, o tema surge à mesa, à esquina, no entretanto, algumas vezes. O calor, real impulsionador das tertúlias. Das conversas até tarde, até altas horas. As mulheres, os homens. Os defeitos, as virtudes. As capacidades, as incapacidades. O talento, o desalento. O pensamento, a ausência dele. A forma, o conteúdo. Tudo. Falamos de tudo, sempre. Senhoras e senhores. Senhoras ou senhores. Todos. A todos serve os adjectivos e proposições. Não generalizamos. Definimos ainda menos. Ficamo-nos pelas evidências. Por hoje, por fim. Contrariando, ficamo-nos pelo irrevogável. Senhoras e senhores. Ambos.