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21.12.15

Canção de supermercado.

O natal, há pouco, vestia as paredes frias. A rua vai dando aos transeuntes o que o comum cidadão procura. Uma apropriada bola de neve. As caras dos espectadores acompanham a magia numa ficção pintalgada. As bocas brincam como fantoches comandados. É engraçado pensar. As fotografias da rotina acontecem em cada esquina. É engraçado não reparar. Damos, de novo, prioridade aos passos. Vamos lá, há mais para contar. Quanto mais acentuada é a falta de sentido, mas atraente. Quanto mais ausente é a monotonia e o comportamento amorfo, melhor e vencedor. Entre a secção dos enlatados e a barreira das massas, antes de vislumbrar a banca dos frescos e de piscar o olho aos brinquedos, há uma menina cantadeira. Tem tom de rouxinol, timbre de fada madrinha. Inventa a letra, canta como se estivesse na luz de um palco rei. Inventa o público eufórico, esgotado mas firme. Se ficarmos ali, com atenção, ouvem-se os aplausos. Os gritos fortes, em uníssono. A menina canta, soa a qualquer coisa. Ficar e escutar não é opção, é a força da razão. A boca tem vida, as cordas vocais não têm receio. Imagino-as num bailado sem fim. Numa corrida sem precedente. Que espectáculo graúdo. Voz de supermercado, canção de menina sem pecado. Na mão um pai natal luminoso é o perfeito microfone mimoso. Pelo meio do palavreado seguido, percebe-se a alusão à época. A festa da gente, a razão da família. Entre o atum acondicionado e a esparguete em exposição, canta a menina de voz doce. A canção de supermercado. O natal vive em qualquer um, vive em qualquer lado.

1.10.14

Em diferido. #19

Canta-me um modinha - Destemido, português e de língua afiada, detentor de estórias sem fim. Na voz que não descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e é tão buliçoso. É uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo. Repito-me e é certo, tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso de ouvir outros tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela impossibilidade de ter vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade. Ceder à tentação de ganhar tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência só discute com a quietação, é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um casal septuagenário, de cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e salteado, humor apurado e sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois sabem o que passa na televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse aparelho que, um pouco de vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura, agora recuando, é a única que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a quietação. E continuam a contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de então, tão limpidamente lembrados como a refeição do dia anterior. Perguntei-lhes das canções. Ele, afoito, cantava com calor no peito. Ela, tímida, foi cantarolando de mão dada com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas carnes. Numa pausa, voltaram à conversa. E responderam-me, primeiro que não tinham sequer um rádio, depois, que fora entre a feira da aldeia onde, tão aprumados, iam conviver. Era lá que, entre namoricos, ouviam as músicas da época. Ela, levando a mão à testa, perguntou-se como nunca se havia esquecido de tanta letra junta. Ele, lançou um novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de então, teve uma grafonola. Ela perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe. Ele voltou às cantigas e ela de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de festival. E remato lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por receios tão característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais cheio de torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.

30.7.14

Canta-me uma modinha.

Destemido, português e de língua afiada, detentor de estórias sem fim. Na voz que não descola da língua mãe, soa um discurso que nunca termina e é tão buliçoso. É uma ocupação que preenche a distracção de perder o tempo. Repito-me e é certo, tão leal à minha verdade. Nunca, em tempo algum, me canso de ouvir outros tempos. A minha curiosidade, rasgada e atiçada pela impossibilidade de ter vivido, pede-me atenção. E dou-lha, de boa vontade. Ceder à tentação de ganhar tempo, num ainda sossegado lugar, onde a paciência só discute com a quietação, é um privilégio. Tal como, partilhar a mesa com um casal septuagenário, de cantigas na voz, letras na cabeça, sabidas de cor e salteado, humor apurado e sensibilidade de quem conhece a sua terra. Depois sabem o que passa na televisão, mas não conhecem, fazem a ressalva. Esse aparelho que, um pouco de vezes, lhes tira a capacidade de tolerar. Porventura, agora recuando, é a única que se atreve a entrar na luta entre a paciência e a quietação. E continuam a contar e a dizer de memórias. Os nomes das gentes de então, tão limpidamente lembrados como a refeição do dia anterior. Perguntei-lhes das canções. Ele, afoito, cantava com calor no peito. Ela, tímida, foi cantarolando de mão dada com a vergonha. Corpo pequeno, genica nas carnes. Numa pausa, voltaram à conversa. E responderam-me, primeiro que não tinham sequer um rádio, depois, que fora entre a feira da aldeia onde, tão aprumados, iam conviver. Era lá que, entre namoricos, ouviam as músicas da época. Ela, levando a mão à testa, perguntou-se como nunca se havia esquecido de tanta letra junta. Ele, lançou um novo trecho. Mais tarde, uma vizinha de então, teve uma grafonola. Ela perguntou-me se sabia o que era. Sim, sorri-lhe. Ele voltou às cantigas e ela de mão leve, pediu-lhe que parasse. Já chegava de festival. E remato lembrando-me que, o único rádio que teve naquele tempo, por receios tão característicos daquela época, devolveu. Casal cantadeiro mais cheio de torneados encantos. E riram-se, felizes por partilhar.