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27.2.17

Rotundo festim na secretária.

No meu reflexo noto que preferia que os meus óculos graduados fossem mais arredondados. Penso nisso antes de os pousar sobre a secretária. O computador portátil expõe o cumprimento entre o negro das palavras juntas e o branco da página. Os meus óculos pouco importam, bem como, a sua forma ou feitio. Só perco para eles no momento em que a miopia acena e as lentes de contacto ficam esquecidas. E lastimo, só posso fazê-lo. O velho hábito de ouvir uma e só uma música vezes sem conta, em modo de repetição, até à exaustão, está presente. O perfume que invade o espaço é genuinamente simpático. A luz que irrompe pela sacada lembra que estamos na corrida. A primavera não demora. O telemóvel ao lado, entre uma moldura flausina e outra de madeira rica. O ecrã negro da televisão macérrima é honra na parede. Uns quadros aqui e acolá. Soam, num rompante, vários toques. SMS, redes sociais e grupos de conversação. Todos num alvoroço. Um género de excitação. Um frenético viver tão parecido à época. Carnaval sem fim. Estes, com o ano inteiro de duração. Alheio propositado que sou à rapsódia do carnaval, chegam, nada furtivas, tentativas de testar a minha complacência. Fotografias da folia vivida. Este tipo, garanto, jamais lhe poderíamos adivinhar nestas lides. Imagens que merecem destaque na galeria dos donos da pândega, seguramente. Rio-me e não é forçado. Este tipo é a coerência anual esventrada por estes dias. Amanhã há mais, legenda ele. Sugiro-lhe sorte grande e outros agaiatados desejos. Volto a colocar os meus óculos graduados. É impossível escamotear, preferia que fossem mais redondos.

18.2.15

Matilde. #2

Não gosto do Carnaval. Ou, se escolher melhor as palavras, não simpatizo com o Carnaval. Nem com a folia e o reboliço pelas ruas fora. Mas respeito. Quiçá, não me identifico com o espírito folião que se apregoa por estes dias. Prefiro outras manifestações festivas. Sortudo, por esta altura, estou num canto de Portugal, por onde os festejos se esqueceram de passar. Não foi propositado, mas agradeço. Não é a consequência de uma qualquer cultura ou educação sobranceira ou snobe. São gostos. E esses, tanto quanto me lembro, não merecem discussão. Depois, recuando, foco-me numa imagem que não esqueço. Porventura, a prova de que o Carnaval ultrapassa os três dias. Uma amiga, uma jovem bonita, inteligente, servida de eloquência, interessante, alta, esguia mas de carnes no sítio, apresentou-se, num rasgado propósito, com um novo look. Não importam os motivos. Estava impecável. De pé, sorria sem controlo. As pernas, tinha-as juntas, assim como, os pés. Neles, calçava uns stiletto beges. Depois de todos os elogios, não guardou resposta. Disse-nos, de verdade na voz “Este é o meu Carnaval. Desfrutem. Só me mascaro de quando em vez”. Nunca mais me esqueci. Posto isto, acreditamos não mais voltar a vê-la naqueles trajes. Nunca mais me esqueci. Até ao dia em que, divertida, voltou a calçá-los. Não era Carnaval. Era a ocasião que faz o folião.
 
Um ano volvido, a Margarida, que tem nome de flor, sossego e beleza, é a folia no desprendimento das vozes que lhe são, felizmente, alheias. De saltos altos e num vestido que mostra as pernas torneadas ou nuns Converse All Star, é quem sempre soube que era. Uma vez esquecido, para sempre um Carnaval de verdade. É, agora, o folião que faz a ocasião.

4.3.14

Matilde.

Não gosto do Carnaval. Ou, se escolher melhor as palavras, não simpatizo com o Carnaval. Nem com a folia e o reboliço pelas ruas fora. Mas respeito. Quiçá, não me identifico com o espírito folião que se apregoa por estes dias. Prefiro outras manifestações festivas. Sortudo, por esta altura, estou num canto de Portugal, por onde os festejos se esqueceram de passar. Não foi propositado, mas agradeço. Não é a consequência de uma qualquer cultura ou educação sobranceira ou sonbe. São gostos. E esses, tanto quanto me lembro, não merecem discussão. Depois, recuando, foco-me numa imagem que não esqueço. Porventura, a prova de que o Carnaval ultrapassa os três dias. Uma amiga, uma jovem bonita, inteligente, servida de eloquência, interessante, alta, esguia mas de carnes no sítio, apresentou-se, num rasgado propósito, com um novo look. Não importam os motivos. Estava impecável. De pé, sorria sem controlo. As pernas, tinha-as juntas, assim como, os pés. Neles, calçava uns stiletto beges. Depois de todos os elogios, não guardou resposta. Disse-nos, de verdade na voz “Este é o meu Carnaval. Desfrutem. Só me mascaro de quando em vez”. Nunca mais me esqueci. Posto isto, acreditamos não mais voltar a vê-la naqueles trajes. Nunca mais me esqueci. Até ao dia em que, divertida, voltou a calçá-los. Não era Carnaval. Era a ocasião que faz o folião.