No meu reflexo noto que preferia que os meus óculos
graduados fossem mais arredondados. Penso nisso antes de os pousar sobre a
secretária. O computador portátil expõe o cumprimento entre o negro das
palavras juntas e o branco da página. Os meus óculos pouco importam, bem como,
a sua forma ou feitio. Só perco para eles no momento em que a miopia acena e as
lentes de contacto ficam esquecidas. E lastimo, só posso fazê-lo. O velho
hábito de ouvir uma e só uma música vezes sem conta, em modo de repetição, até
à exaustão, está presente. O perfume que invade o espaço é genuinamente
simpático. A luz que irrompe pela sacada lembra que estamos na corrida. A
primavera não demora. O telemóvel ao lado, entre uma moldura flausina e outra
de madeira rica. O ecrã negro da televisão macérrima é honra na parede. Uns
quadros aqui e acolá. Soam, num rompante, vários toques. SMS, redes sociais e
grupos de conversação. Todos num alvoroço. Um género de excitação. Um frenético
viver tão parecido à época. Carnaval sem fim. Estes, com o ano inteiro de duração.
Alheio propositado que sou à rapsódia do carnaval, chegam, nada furtivas,
tentativas de testar a minha complacência. Fotografias da folia vivida. Este
tipo, garanto, jamais lhe poderíamos adivinhar nestas lides. Imagens que
merecem destaque na galeria dos donos da pândega, seguramente. Rio-me e não é
forçado. Este tipo é a coerência anual esventrada por estes dias. Amanhã há
mais, legenda ele. Sugiro-lhe sorte grande e outros agaiatados desejos. Volto a
colocar os meus óculos graduados. É impossível escamotear, preferia que fossem
mais redondos.
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27.2.17
18.2.15
Matilde. #2
Não
gosto do Carnaval. Ou, se escolher melhor as palavras, não simpatizo com o
Carnaval. Nem com a folia e o reboliço pelas ruas fora. Mas respeito. Quiçá,
não me identifico com o espírito folião que se apregoa por estes dias. Prefiro
outras manifestações festivas. Sortudo, por esta altura, estou num canto de
Portugal, por onde os festejos se esqueceram de passar. Não foi propositado,
mas agradeço. Não é a consequência de uma qualquer cultura ou educação sobranceira
ou snobe. São gostos. E esses, tanto quanto me lembro, não merecem discussão.
Depois, recuando, foco-me numa imagem que não esqueço. Porventura, a prova de
que o Carnaval ultrapassa os três dias. Uma amiga, uma jovem bonita,
inteligente, servida de eloquência, interessante, alta, esguia mas de carnes no
sítio, apresentou-se, num rasgado propósito, com um novo look. Não importam os motivos. Estava impecável. De pé, sorria sem
controlo. As pernas, tinha-as juntas, assim como, os pés. Neles, calçava uns stiletto beges. Depois de todos os
elogios, não guardou resposta. Disse-nos, de verdade na voz “Este é o meu Carnaval. Desfrutem. Só me
mascaro de quando em vez”. Nunca mais me esqueci. Posto isto, acreditamos
não mais voltar a vê-la naqueles trajes. Nunca mais me esqueci. Até ao dia em
que, divertida, voltou a calçá-los. Não era Carnaval. Era a ocasião que faz o
folião.
Um
ano volvido, a Margarida, que tem nome de flor, sossego e beleza, é a folia no
desprendimento das vozes que lhe são, felizmente, alheias. De saltos altos e
num vestido que mostra as pernas torneadas ou nuns Converse All Star, é quem sempre soube que era. Uma vez esquecido,
para sempre um Carnaval de verdade. É, agora, o folião que faz a ocasião.
4.3.14
Matilde.
Não
gosto do Carnaval. Ou, se escolher melhor as palavras, não simpatizo com o
Carnaval. Nem com a folia e o reboliço pelas ruas fora. Mas respeito. Quiçá, não
me identifico com o espírito folião que se apregoa por estes dias. Prefiro
outras manifestações festivas. Sortudo, por esta altura, estou num canto de
Portugal, por onde os festejos se esqueceram de passar. Não foi propositado,
mas agradeço. Não é a consequência de uma qualquer cultura ou educação
sobranceira ou sonbe. São gostos. E esses, tanto quanto me lembro, não merecem
discussão. Depois, recuando, foco-me numa imagem que não esqueço. Porventura, a
prova de que o Carnaval ultrapassa os três dias. Uma amiga, uma jovem bonita, inteligente,
servida de eloquência, interessante, alta, esguia mas de carnes no sítio,
apresentou-se, num rasgado propósito, com um novo look. Não importam os motivos. Estava impecável. De pé, sorria sem
controlo. As pernas, tinha-as juntas, assim como, os pés. Neles, calçava uns stiletto beges. Depois de todos os
elogios, não guardou resposta. Disse-nos, de verdade na voz “Este é o meu Carnaval. Desfrutem. Só me
mascaro de quando em vez”. Nunca mais me esqueci. Posto isto, acreditamos
não mais voltar a vê-la naqueles trajes. Nunca mais me esqueci. Até ao dia em
que, divertida, voltou a calçá-los. Não era Carnaval. Era a ocasião que faz o
folião.
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