Sonho
com o dia em que a sala de leitura se transforma numa biblioteca digna. Forrada
a livros devidamente identificados. Guardar-se-á, num compartimento as revistas
que colecciono. Muitas de música. Outras tão genéricas. Mas sempre de proveitosas
matérias. Grandes capas e elogiosos recheios. Em alguma parte desta casa estão
revistas. Capas que vislumbrei e jamais lhes li o conteúdo. Outras que
espreitei, por me cruzar com elas sobre a banqueta e a mesa de apoio. A Elle, a Vogue ou a Vanity Fair
deixadas por entendidas da moda. Nesta casa, algures numa gaveta de recordações,
estão revistas de nicho. A moda é um exemplo, porque as abandonaram por cá. Não
sei, sinceramente, se algum dia a minha mãe lhes pousou a vista. Nesta casa,
onde a minha cadela é rainha, lê-se sem preconceitos. Entendem-se as comadres e
os compadres.
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25.11.14
24.11.14
Algures num sumptuoso lar.
Não
me canso de gabar a sala de pé direito alto e elegante, o soalho de madeira
pesado que não deixa a desejar. As portadas largas, brancas como a decoração.
Os vidros, no fim-de-semana de Novembro a findar, ganham pingas a desenhar. A rua
fica lá em baixo, como se fosse a terra a definir. E gosto de ler, mas escolho
o sossego. Não é o caso. Agora, servem-se cafés e infusões. Não é chá porque
vem em latas reinventadas. Biscoitos e scones da padaria que agora é costume. É
um desenrolar de conversas sem fim. Sartre é tema em cima da mesa. Opiniões que
não se medem na informação vazia que percorre o mundo de circunstância. Antes
dele, falámos de Carla Bruni, recordações do seu tema “Tu es ma came”. Logo alguém se lembrou da letra e a cantarolou.
Mais depressa correram ao vídeo online e a saudade voltou. Fazemos da
informação e da canção o que delas nos aprouver. Caso não resulte, problema
resolvido. Compras mais infusões cuja marca nacional os reinventa e oferece
novos sabores. Serves, por fim, de bandeja com os sonhos e os dissabores.
24.7.14
No resto do mundo.
Aterrar
em Portugal tem outro sabor. Gabam-lhe, um sem número de vezes, a luz. E têm
razão. Outras vezes não esquecem a simpatia de quem os recebeu. A qualidade do
que é tão típico também merece elogio. Quando pisar terras lusas é regressar a
casa, dizem que não se explica. Tanto mais quando se vivem vidas fora deste
país. Quando se adoptam lugares e características, quando se permitem deixar adoptar
por gentes da terra e por definições de vida mais aprazíveis. Sabíamo-lo de
regresso, por uma semana apenas, mas sabíamo-lo por terras lusas, num regresso
de desejo e saudade. De cessar as saudades. De matá-las por força dos afectos e
vozes que o recebem. Sempre. A distância não é a maior. É longe da cultura, da
língua e das gentes. Da localidade e da hospitalidade que o formaram. É o
vestígio de um grau ou degrau que dá permissão para descobrir o mundo. O resto.
8.5.14
Uma casa portuguesa.
Lembro-me
do espelho desenhado em tons dourados, nos contornos trabalhados da data, na
parede de entrada, centímetros acima da mesa de apoio. A parede, escondida pelo
aparatoso espelho, era coberta por papel de parede inocente. De cores sóbrias,
de riscos simples. Liso, talvez. Logo depois da porta grande, aquele espelho
era a estrela. Era a festa de muitos que por ali passavam. Não me lembro se, na
não menos majestosa mesa de apoio, havia mais do que uma base de prata, uma
jarra com flores frescas e um candeeiro vindo de fora. Uma vez por outra, um
livro. A memória falta-me sempre. Menos, quando é festejo. Não simpatizo ou,
melhor contando, não me sinto confortável com o facto de ser o alvo da
comemoração. De tudo o que me diga respeito. Naquele espelho, vi pessoas
observarem-se. De tantas e distintas formas. A mulher que se prepara para sair
e não resiste retocar o cabelo arranjado instantes antes, de voltar a tocar no
batom, de segurar a jóia que prende a atenção para as orelhas. O homem que
chega ao fim do dia, pousa o que lhe pesa nos bolsos, respira enquanto se mira.
Nós, ainda petizes, tentando chegar-lhe. Pouco a pouco. Primeiro, apenas o
rendilhado dourado. Depois, surge-nos o reflexo do cima da cabeça. A seguir, os
olhos ganham vida nesse espelho. Até ao dia em que, sem sabermos, imitávamos selfies imaturas. A risada era pegada.
Naquela casa de sempre. O espelho sente saudades de ver passar. Tal como nós. De
ver chegar. Comemorar, seja o que for, não tem data marcada. Mesmo que espere
por nós sentada.
28.11.13
Curiosidade com verdade.
Janela
fora, surge um mundo, que da altura, foge ao olhar. De pés a suportar,
estende-se para lá do parapeito, forçando a segurança com as pequenas mãos. O
olhar, contrariando a estatura menor, abre-se excessivamente, em jeito de contradição.
Qual rotina, todos os dias, insistia conhecer. Não sabia o que viria de lá nem
o que assistiria para lá. Deste lado, sempre hirto e saltitando, espreitando
pela janela. Um dia, novidade, conseguiu descobrir. A janela aberta, agora à
sua altura, mostrou-lhe o que guardava para lá do que chamava quadrado. Para lá
do que perspectivava. Nesse instante, recusando e fugindo da imaginação,
conheci a paisagem das traseiras daquela casa. A casa de família. A praia,
misturando pessoas, mar e areia. O sol raiando sobre o jardim, reflectindo na
piscina iludida de azul deste lado dos muros. No fim de contas, era igual. Conhecia-o,
havia muito. Apenas, dali não via fracções do lugar. Via de uma forma
panorâmica. A curiosidade não é tacanha. Espicaça e dá frutos. Finalmente,
soube-o.
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