A
janela grande e escancarada deixa entrar, pelo meio das cortinas saracoteadas,
o sol da manhã, a varanda reflecte e temos várias cores a brincar nos móveis. Nas
costas uma estante digna. Lá fora, no jardim que está ao fundo, três velhas
senhoras. Conversam muito, riem também. Não esquecem as mãos e gesticulam como
quem ensina com o corpo. Vestem com cores garridas, têm óculos, seguram as
malas com fé e o calor lembrou-lhes o chapéu. Um de palha gasta e outro que foi
oferta de uma marca de refrigerantes. Conheço quem valorize pessoas e casas
pelas estantes e pelo conteúdo das mesmas. Assim chegados, procuram o espaço e,
desavisados, lêem as lombadas dos livros. Não entendo se é um passatempo ou uma
patologia sociocultural. Tenho os livros tão bem guardados. Uma verdade envolta
em ironia. Uns expostos, numa estante típica, alinhados e alinhavados conforme
autores e temas. Outros estão algures. Sei que andam entre cá e lá. Já
emprestei parte, já me emprestaram uns poucos. Prefiro comprar, prefiro que
sejam meus. Porque, para mim, um livro não se esgota na leitura, tampouco, numa
primeira leitura. Salva-se a lembrança e a vontade com o regresso ao acto de
ler. Repetido, mas com torneados vários. O voltar às capas, aos prefácios, ao
cheiro tão característico. Às notas que, porventura, me pareça pertinente
deixar. Procuro há vários dias, por uma obra antiga. Se não me falha a memória,
dádiva da minha irmã mais velha. Uma história arraçada de novela, um autor
nacional que deixou marca. Lembrei-me deste romance tão bem ficcionado,
precisamente, no instante em que me atrevi a comprar o meu primeiro chapéu. O
primeiro passo está dado. Falta-me agora, bem sei, a coragem e encontrar o
livro sumido. Orienta-se, assim, o meu instinto.
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25.6.15
11.2.15
Indivíduo pouco entendido.
Há
quem vista uma blusa de lã grossa, calce umas botas grossas e não se esqueça de
umas peúgas quentes. Quem coloque, ainda, um cachecol forte, um casaco
protector e elegante e, se for homem de coragem, termina com um bonito chapéu
de qualidade. Do jeito dos que se viam nas lojas antigas no centro da cidade.
Ainda as temos, míseras lembranças. Uma aqui, outra ali. Chapéus, uma paixão
por viver. Depois, porque parece que a chuva só molha os tolos, há quem vista
uma blusa de riscas para enganar o tempo e a água que não dá descanso. Riscas
azuis e brancas. Ou pretas e brancas. Já não me lembro. Tácticas de um jogo ingrato.
Que pouco importam. Ou nada. Não me queixo das técnicas alheias. Mas volto
sempre ao princípio. Um chapéu de bonito corte e tecido forte.
11.6.14
Amor e um chapéu.
Nunca
usei chapéu da porta para fora. Talvez, como se isso fervesse importância,
porque o desconforto é superior à vontade. É tão absurdo como verídico. Como se
jogasse com valores ou tivesse qualquer validade para lá de uma simples vontade.
Lembro-me de usar um ou outro boné, ainda, um ou outro gorro. Usava-os em
circunstâncias pontuais. Podiam ser os mais caros e ter as marcas da moda a
gritar por todos os poros do que servia para cobrir a cabeça, que não me
tomavam qualquer paixão. Viessem de que ponto do mundo viessem. Em serviço da
verdade, embora, as tivesse a todas, as marcas, a dado instante, deixaram de
ser um todo. Talvez ficassem pelo acessório. Pousei-os algures, aos bonés e
gorros, e deixei-os para destino incerto. Em tempo algum voltei a usá-los. Mas
o chapéu é diferente. Não sei se desenho ligação com o facto de, há uns anos,
ter herdado um. Do meu avô. Era, para mim e para o meu avô, uma peça
importante, por diferentes motivos, claro. Não me esqueço, mesmo quando a
memória fraqueja, de vê-lo num dos quartos da casa dos meus avós, em jeito de
exposição. Qual obra de arte. Era um apontamento de uma decoração cuidada. Um
quarto, como outros, a ser de visitas, mas raramente usado. Raras, também, eram
as vezes em que, ao visitá-los, não passava por ele. Pelo quarto e pelo chapéu.
Também este, nunca usei. As razões, aqui, conduzem outras avaliações. Guardo-o
com estimação. Mas outros, havia de usá-los. Gosto de chapéus, sem explicação,
mas nunca os ousei usar. Lembro-me disto, se tem relevante sentimento, porque
partilhei, este fim-de-semana, a esplanada com gente boa e genuína. Entre essa
gente, estava um homem com bem mais idade do que eu, com uma pinta sem igual.
Daquelas de capa de revista. Barba cerrada, mas cuidada. Óculos de sol vintage, como se diz. E, claro, um
brutal chapéu. Inevitavelmente, falei-lhe de chapéus. E gabei-lho. Depois de me
passar tantos relatos, ficou de me levar a uma chapelaria de outros tempos.
Quem lá entra, apaixona-se. Que eu aproveite enquanto dura.
13.2.14
Quando os tempos são de crise.
O
Outono chegou, por entre modestas folhas caindo, o calor a fazer sala, as mangas
curtas, os calções, as alças ou os casacos de fácil condução fazendo as honras.
Dissipem-se os pregoeiros que conjecturaram verão até ao espoco. Veio, no
entretanto, o Inverno. A chuva chegou, fez-se dama e real proprietária da
época. Agora, para os amantes de ruas cintilantes e compostas de gente desempoeirada,
resta-nos as fachadas desmoralizadas, no centro da cidade, vazando a chuva até
à última gota, as cabeças baixas, as galochas e os sobretudos a ganhar estatuto
de protecção. Nos escombros da crise meteorológica, ficamo-nos pelas imagens em
movimento, dissecadas pelo olho nu, mascará-las de sépia ou num preto e branco
tão português, pulando à vista o colorido e atrevido chapéu-de-chuva. Lilás, se
preciso for.
18.10.13
O chapéu.
Do
prometedor preto, para lá da faixa notavelmente colocada ao redor, nasce um
acessório. Minto, porque não penso o que escrevo. Não é secundário, nem é
complemento. Não é mais uma peça. É a peça. É o chapéu que guardo,
escrupulosamente, há muitos anos, desde a infância. Nunca o usei. Recuo-o.
Afinal, vai ser acessório um dia. No lugar onde me vou lembrar que, sem dizer
adeus, te perdemos. Zombeteiro, o chapéu é um acessório e, com equidade,
indutor da memória. Adeus.
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