Mostrar mensagens com a etiqueta chapéu. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta chapéu. Mostrar todas as mensagens

25.6.15

O meu primeiro chapéu e uma estante com instintos.

A janela grande e escancarada deixa entrar, pelo meio das cortinas saracoteadas, o sol da manhã, a varanda reflecte e temos várias cores a brincar nos móveis. Nas costas uma estante digna. Lá fora, no jardim que está ao fundo, três velhas senhoras. Conversam muito, riem também. Não esquecem as mãos e gesticulam como quem ensina com o corpo. Vestem com cores garridas, têm óculos, seguram as malas com fé e o calor lembrou-lhes o chapéu. Um de palha gasta e outro que foi oferta de uma marca de refrigerantes. Conheço quem valorize pessoas e casas pelas estantes e pelo conteúdo das mesmas. Assim chegados, procuram o espaço e, desavisados, lêem as lombadas dos livros. Não entendo se é um passatempo ou uma patologia sociocultural. Tenho os livros tão bem guardados. Uma verdade envolta em ironia. Uns expostos, numa estante típica, alinhados e alinhavados conforme autores e temas. Outros estão algures. Sei que andam entre cá e lá. Já emprestei parte, já me emprestaram uns poucos. Prefiro comprar, prefiro que sejam meus. Porque, para mim, um livro não se esgota na leitura, tampouco, numa primeira leitura. Salva-se a lembrança e a vontade com o regresso ao acto de ler. Repetido, mas com torneados vários. O voltar às capas, aos prefácios, ao cheiro tão característico. Às notas que, porventura, me pareça pertinente deixar. Procuro há vários dias, por uma obra antiga. Se não me falha a memória, dádiva da minha irmã mais velha. Uma história arraçada de novela, um autor nacional que deixou marca. Lembrei-me deste romance tão bem ficcionado, precisamente, no instante em que me atrevi a comprar o meu primeiro chapéu. O primeiro passo está dado. Falta-me agora, bem sei, a coragem e encontrar o livro sumido. Orienta-se, assim, o meu instinto.

11.2.15

Indivíduo pouco entendido.

Há quem vista uma blusa de lã grossa, calce umas botas grossas e não se esqueça de umas peúgas quentes. Quem coloque, ainda, um cachecol forte, um casaco protector e elegante e, se for homem de coragem, termina com um bonito chapéu de qualidade. Do jeito dos que se viam nas lojas antigas no centro da cidade. Ainda as temos, míseras lembranças. Uma aqui, outra ali. Chapéus, uma paixão por viver. Depois, porque parece que a chuva só molha os tolos, há quem vista uma blusa de riscas para enganar o tempo e a água que não dá descanso. Riscas azuis e brancas. Ou pretas e brancas. Já não me lembro. Tácticas de um jogo ingrato. Que pouco importam. Ou nada. Não me queixo das técnicas alheias. Mas volto sempre ao princípio. Um chapéu de bonito corte e tecido forte.

11.6.14

Amor e um chapéu.

Nunca usei chapéu da porta para fora. Talvez, como se isso fervesse importância, porque o desconforto é superior à vontade. É tão absurdo como verídico. Como se jogasse com valores ou tivesse qualquer validade para lá de uma simples vontade. Lembro-me de usar um ou outro boné, ainda, um ou outro gorro. Usava-os em circunstâncias pontuais. Podiam ser os mais caros e ter as marcas da moda a gritar por todos os poros do que servia para cobrir a cabeça, que não me tomavam qualquer paixão. Viessem de que ponto do mundo viessem. Em serviço da verdade, embora, as tivesse a todas, as marcas, a dado instante, deixaram de ser um todo. Talvez ficassem pelo acessório. Pousei-os algures, aos bonés e gorros, e deixei-os para destino incerto. Em tempo algum voltei a usá-los. Mas o chapéu é diferente. Não sei se desenho ligação com o facto de, há uns anos, ter herdado um. Do meu avô. Era, para mim e para o meu avô, uma peça importante, por diferentes motivos, claro. Não me esqueço, mesmo quando a memória fraqueja, de vê-lo num dos quartos da casa dos meus avós, em jeito de exposição. Qual obra de arte. Era um apontamento de uma decoração cuidada. Um quarto, como outros, a ser de visitas, mas raramente usado. Raras, também, eram as vezes em que, ao visitá-los, não passava por ele. Pelo quarto e pelo chapéu. Também este, nunca usei. As razões, aqui, conduzem outras avaliações. Guardo-o com estimação. Mas outros, havia de usá-los. Gosto de chapéus, sem explicação, mas nunca os ousei usar. Lembro-me disto, se tem relevante sentimento, porque partilhei, este fim-de-semana, a esplanada com gente boa e genuína. Entre essa gente, estava um homem com bem mais idade do que eu, com uma pinta sem igual. Daquelas de capa de revista. Barba cerrada, mas cuidada. Óculos de sol vintage, como se diz. E, claro, um brutal chapéu. Inevitavelmente, falei-lhe de chapéus. E gabei-lho. Depois de me passar tantos relatos, ficou de me levar a uma chapelaria de outros tempos. Quem lá entra, apaixona-se. Que eu aproveite enquanto dura.

13.2.14

Quando os tempos são de crise.

O Outono chegou, por entre modestas folhas caindo, o calor a fazer sala, as mangas curtas, os calções, as alças ou os casacos de fácil condução fazendo as honras. Dissipem-se os pregoeiros que conjecturaram verão até ao espoco. Veio, no entretanto, o Inverno. A chuva chegou, fez-se dama e real proprietária da época. Agora, para os amantes de ruas cintilantes e compostas de gente desempoeirada, resta-nos as fachadas desmoralizadas, no centro da cidade, vazando a chuva até à última gota, as cabeças baixas, as galochas e os sobretudos a ganhar estatuto de protecção. Nos escombros da crise meteorológica, ficamo-nos pelas imagens em movimento, dissecadas pelo olho nu, mascará-las de sépia ou num preto e branco tão português, pulando à vista o colorido e atrevido chapéu-de-chuva. Lilás, se preciso for.

18.10.13

O chapéu.

Do prometedor preto, para lá da faixa notavelmente colocada ao redor, nasce um acessório. Minto, porque não penso o que escrevo. Não é secundário, nem é complemento. Não é mais uma peça. É a peça. É o chapéu que guardo, escrupulosamente, há muitos anos, desde a infância. Nunca o usei. Recuo-o. Afinal, vai ser acessório um dia. No lugar onde me vou lembrar que, sem dizer adeus, te perdemos. Zombeteiro, o chapéu é um acessório e, com equidade, indutor da memória. Adeus.