Um estilo muito próprio - Já é Primavera, num Portugal tomado pela
gentileza de ser. Não sei como lhe chamar. Se largo, praceta ou uma rua
enviesada. Mas cumpre a função, seja qual for o nome que lhe dão. Nesta cidade
de gente nova a passear as roupas despidas, a meia-idade não tem trejeitos à
vista. Guarda-os no sossego da sala de estar do apartamento que ainda paga ou
no baile de esperança e expectativa, cujo propósito é juntar os divorciados e
os viúvos da zona. E dos arredores. Ou, se permitirmos, é tudo mentira. Fatal
utopia, a de antecipar a vida alheia. Sinto-me visita quando volto. Por certo,
porque nunca fui senão visitante com curiosidade e paixão. Por ser impossível,
não esqueço um lugar como este. Onde as tradições nacionais e regionais ainda
existem, mas vão falecendo. Tão moribundas como as ruas numa hora vazia. Lá,
onde vestir bem e sair para a rua, parece ter um duplo sentido.
Desassossegam-se as almas exânimes, tomando fulgor de última temporada. Depois
de levar o corpo pela cidade, volto à praça pequena ou rua sem entrada. Fica
lá, qual majestade, a padaria. Das antigas, onde o nome do fundador é história
relevante. No cimo de uma das portas principais, lá está o nome cravado. Entrei
e falavam de idade e do peso de não conseguir contrariar os declínios. Estava,
daí a conversa, uma senhora de noventa e quatro anos ao balcão. Um charme.
Quando existe, não morre. Jamais. A minha mãe lembrou a minha avó. Viva e tão
apta. À saída, a mesma senhora. Ajudamo-la. – Obrigada, meus queridos. A figura
tão torpe que uma velha consegue fazer. Obrigada e perdoem-me a desfeita. –
Sorrimos. Antecipou um pensamento. Felizmente, em tempo algum, poder-nos-ia
invadir a lembrança. Tenha um bom dia. Até qualquer outro.
Mostrar mensagens com a etiqueta cidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cidade. Mostrar todas as mensagens
31.3.16
16.7.15
Em diferido. #38
Tema
desenvolvido em verso. Prosa talvez - Em letras garrafais, o nome da sala onde
se pode ouvir música variada e guardada numa caixa que soa e ressoa pelo
espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas. Onde há fumo fictício e gente a
falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente e despidas. Pessoas
despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No cimo daquela porta
larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um emaranhado de letras,
que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que chama sempre um valente
concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos reunidos. Na mesma rua, no
lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem varandas curtas, tem janelas de
sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro, pé fora. Tem tectos desenhados.
Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a conversa antes de subir a
escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.
6.7.15
A Lisboa que me apaixona também é isto.
Lá
vai Lisboa vestida de qualquer coisa, porque nos falta os adjectivos. Peca o
termo, porque não veste senão a inteligência, a simpatia, a ternura e a eterna luz
de quem a habita. Neste bairro de nome fácil e conhecido, onde nos lembramos
das marchas populares e da sardinha no pão, assim nos vemos chegados ao seu
espaço. As conversas paralelas, desta janela para aquela. Aquele grito de
verdade, que alude ao pregão de quem, em outros tempos, batia à porta. A vizinha
bonacheirona que brinca com as travessuras que vivem na imaginação dos lençóis.
Os homens que se encontram para beber qualquer coisinha e falar do que já
passou. À esquina, juntam-se as comadres, ouvem-se risadas graves entre as
mentiras com dó e as falsas verdades. O fado que vai acompanhando. Não deixa de
estar, mesmo que avances rua acima, rua abaixo. As cordas sobre as cabeças, ora
cheias da roupa que alguém lavou, ora despidas do branco algodão. Os números
pares deste lado, os impares do outro. As plantas em vasos desavindos mas
impecavelmente cuidadas. Debaixo desses números, portas que escondem outras
pessoas e espaços de convívio. As mesas a espreitar, as toalhas típicas, as
paredes no tom, as garrafas no alto. Vende-se aqui. Apelam e não dizem mentira.
São os melhores, aqui na Tasquinha da velha senhora. Tem bata axadrezada, o
cabelo branco, óculos de avó simpática, jeitos de mãos trabalhadoras. Mesmo a
descoberto, ali ao ar livre, não é esquecido o santo, que não é padroeiro da
cidade mas é casamenteiro. Não se esgota aqui, o bairrismo encantado. Vive, sem
esquecer, o preconceito no outro lado. Aquele snobismo encartado. Como se uns
brincos grandes e pendentes fossem empecilho. Ou uma mala com nome influente.
Perguntam-me, sempre que falo assim de uma Lisboa que não sendo minha, me
apaixona todos os dias, como é que é possível gostar-se assim. Não sei, é a
resposta. Continuam as questões, apelando, agora, ao facto de, em momento
algum, eu ter vivido a experiência de viver num bairro típico desta cidade. Não
sei. Não tenho resposta. Não tenho outra, senão esta.
7.5.15
Ficar por aqui, olhar e voltar.
Aquela
rua é vertiginosa. Tem casas de um lado e outras tantas do lado oposto. Tem
carros parados num sentido. Muitos e variados, para todos os gostos e
carteiras. Não é larga, mas engana. Parece que tudo encaixa na perfeição. É uma
rua onde quase não se vêem pessoas. No cimo da mesma, em que as vertigens são
ameaçadas, a vista não tem explicação, sequer justificação. Sobrevivem as cores
garridas, o azul lá ao fundo. Antes de a conhecer, parecia-me impossível que
daquele lugar saíssem tantos tons e tão vivos. Estes são salpicados pelas
pingas brancas. Roupa a bailar, o sol a bater. Debaixo do braço uma revista
americana, emprestada por quem entende do assunto. Lá dentro, fotografias
bonitas, artigos de actualidade, sugestões do que chamam ser moda e o resto do
mundo que eu não entendo. Resume-se à básica questão, tão inocente, ou gosto ou
não gosto. Muito daquilo que vi, pareceu-me bem. Gosto da palavra singela. E a
moda também é isso. Numa estação afunilam-se as tendências e nesse caminho
estreito colocam-se as cores possíveis. Num dia é fogo, noutro é água. Quase no
final da rua, ainda a revista debaixo do braço, os mesmos carros ficaram para
trás, as roupas no estendal. Mais próximo do rio, contudo, perdeu-se a vista
maravilhosa. Toca o telemóvel e do outro lado dizem-me que já está, já
terminou. Suspiro. Vou ter de subir.
22.4.15
Orientação do instinto.
Pouso
o relógio na secretária. Ao lado, o telemóvel, o caderno onde escrevo notas,
textos ou, em estando numa de outros desafios, onde desenho. O último tem
orelhas grandes, focinho disforme e um olhar divertido. Um insano, tal qual o
aspirante a autor. Ao lado, palavras soltas sobre Lisboa. Quem lhes chegar
perto, achá-las-á desconexas. Pobres de assunto. Contidas na definição. Mas não
é verdade. Escrevia-as há tanto tempo, mas continuam a fazer sentido. Tenho uma
paixão sem fim por Lisboa. Não sou filho da terra por acaso. Um descaso feliz.
Estas palavras soltas vêm de um momento concreto. Lembro-me, sem tirar um
segundo, de descer a Avenida da Liberdade, num jeito quase imberbe. Passei por
tantas pessoas sem lhes ver a cara. Depois da entrada do cinema São Jorge,
levado pela saudade resumida num corpo electrizado, fui interceptado por uma
senhora de uma certa idade. Tinha um ar cuidado, uma mala num braço e um saco
de papel no outro. Perguntou-me onde ficava um número daquela avenida. Ajudei-a
e, antes de seguir caminho, agradeceu-me sem fim. Confidenciou que tinha
saudades da mãe, que se havia mudado para perto. Ouvir alguém daquela idade
relatar, sem vergonha, que tem tamanha saudade da ausência da mãe, é um
pretexto para um exercício do pensamento tão visceral e essencial. Continuei
caminho, desta vez mais calmo. Até encontrá-la. Estivemos num abraço apertado
tanto tempo que não tem conta. Olhou-me nos olhos e voltou a dize-lo: Estás
apetitoso. Voltámos, agora a subir a avenida. Passámos, novamente, pelo cinema São
Jorge e por tantas pessoas. Entrámos no hotel, ela ficou no bar. Quando voltei,
no meu caderno, não tinha respostas. Tinha um desenho tão bonito. Há quem se
sustente da arte. E viva como se canta no fado.
15.4.15
Em diferido. #32
A
aprendiza de coisa nenhuma - Não é mentira, ai não, não é. Conta-se um conto,
acrescenta-se um ponto. Voltas e voltas dadas ao redor da verdade escrita e da
língua portuguesa a sentir, de boca em boca. Como no tempo das Marias de nome,
hoje vale mais o acrescento do ponto, do que o próprio do conto. Fica triste, a
verdade escondida. Aldeias pequenas, gente grande. Ou o inverso, mas é timidez
no ardor de preferir não dizer. Ainda me lembro de se ouvir falar da Rita.
Daquele lugar distante. Maria Rita de nascença, que ao grito maior se lhe
despediu o primeiro nome. Rita ficaria daí em diante. A Rita, de novo nome, de
lá para cá, não se importa. Nem com o bem maior, nem com o mal menor. É-lhe
semelhante. Tem a mesma medida. Não quer saber. Quer a vida que lhe calhou,
logo depois do primeiro nome que não vingou. E subia as paredes grossas, os
muros que seguram como raízes. De saias leves, colocava os rapazes num chinelo.
Repetia a expressão de neta aprendiz. Ria alto e comia amoras silvestres.
Corria com pressa e sujava as vestes. O tempo mudou, a Rita não aguentou e
partiu. Perdeu os tiques e a conversa de quem, por vontade e educação, lhos
ensinou. Largou com a mesma pressa com que corria sobre a terra solta. E, certo
dia, voltou o nome primeiro. Maria Rita, a doutora que não desiste do combate.
É um caso concreto, desenho de um conto que não tem fim, nem perde
protagonistas. É uma correria de trocas. Triste, a verdade escondida. Cruzam-se
as medidas. Perdem-se as Marias. Quem conta um conto, por certo e, tantas vezes
sem pensar, acrescenta um ponto. Ou dois, ou três. Porventura, uns cinco como
conta numa mão.
23.3.15
Um estilo muito próprio.
Já
é Primavera, num Portugal tomado pela gentileza de ser. Não sei como lhe
chamar. Se largo, praceta ou uma rua enviesada. Mas cumpre a função, seja qual
for o nome que lhe dão. Nesta cidade de gente nova a passear as roupas
despidas, a meia-idade não tem trejeitos à vista. Guarda-os no sossego da sala
de estar do apartamento que ainda paga ou no baile de esperança e expectativa,
cujo propósito é juntar os divorciados e os viúvos da zona. E dos arredores.
Ou, se permitirmos, é tudo mentira. Fatal utopia, a de antecipar a vida alheia.
Sinto-me visita quando volto. Por certo, porque nunca fui senão visitante com
curiosidade e paixão. Por ser impossível, não esqueço um lugar como este. Onde
as tradições nacionais e regionais ainda existem, mas vão falecendo. Tão moribundas
como as ruas numa hora vazia. Lá, onde vestir bem e sair para a rua, parece ter
um duplo sentido. Desassossegam-se as almas exânimes, tomando fulgor de última
temporada. Depois de levar o corpo pela cidade, volto à praça pequena ou rua
sem entrada. Fica lá, qual majestade, a padaria. Das antigas, onde o nome do
fundador é história relevante. No cimo de uma das portas principais, lá está o
nome cravado. Entrei e falavam de idade e do peso de não conseguir contrariar
os declínios. Estava, daí a conversa, uma senhora de noventa e quatro anos ao
balcão. Um charme. Quando existe, não morre. Jamais. A minha mãe lembrou a
minha avó. Viva e tão apta. À saída, a mesma senhora. Ajudamo-la. – Obrigada,
meus queridos. A figura tão torpe que uma velha consegue fazer. Obrigada e
perdoem-me a desfeita. – Sorrimos. Antecipou um pensamento. Felizmente, em
tempo algum, poder-nos-ia invadir a lembrança. Tenha um bom dia. Até qualquer
outro.
5.3.15
Em diferido. #29
Vistoso
latejar - Querer saber do raspão que é a história de um país, o percurso de um
nome, a criatividade de um cartaz a preto e branco, tão bonito como se tivesse
roubado um filtro da rede social, e que permanece, tão misterioso como
sensacional. Tudo isto é querer saber de nós. Vale, por demais, a vida e os
dias, se nos valermos do amor alheio e das horas vazias. Fazer beicinho,
escutar fado, escolher azulejos e admirá-los em cada esquina, as alcofas que
são as sacolas da ida ao mercado. As hortas que crescem com tempo. Velozes os
testemunhos de quem abre a porta, escancarada, para contar vivências e
desmedidas convivências. Avisam-nos os velhos, avisam-se os novos. Supostos ensinamentos.
Adquirem, tão lentos, a informação. Cozem-se e assam-se as batatas-doces. Os
verdes vão ao lume leve. A cortiça heroína de voltas ao redor do mundo. O mar
que não tem defeito e oferece a água e o conduto. Agreste esquecimento
devoluto. Tudo isto é sinceridade. Tudo isto é conversa de quem passeia o corpo
pela cidade.
7.1.15
A aprendiz de coisa nenhuma.
Não
é mentira, ai não, não é. Conta-se um conto, acrescenta-se um ponto. Voltas e
voltas dadas ao redor da verdade escrita e da língua portuguesa a sentir, de
boca em boca. Como no tempo das Marias de nome, hoje vale mais o acrescento do
ponto, do que o próprio do conto. Fica triste, a verdade escondida. Aldeias
pequenas, gente grande. Ou o inverso, mas é timidez no ardor de preferir não
dizer. Ainda me lembro de se ouvir falar da Rita. Daquele lugar distante. Maria
Rita de nascença, que ao grito maior se lhe despediu o primeiro nome. Rita
ficaria daí em diante. A Rita, de novo nome, de lá para cá, não se importa. Nem
com o bem maior, nem com o mal menor. É-lhe semelhante. Tem a mesma medida. Não
quer saber. Quer a vida que lhe calhou, logo depois do primeiro nome que não
vingou. E subia as paredes grossas, os muros que seguram como raízes. De saias
leves, colocava os rapazes num chinelo. Repetia a expressão de neta aprendiz.
Ria alto e comia amoras silvestres. Corria com pressa e sujava as vestes. O
tempo mudou, a Rita não aguentou e partiu. Perdeu os tiques e a conversa de
quem, por vontade e educação, lhos ensinou. Largou com a mesma pressa com que
corria sobre a terra solta. E, certo dia, voltou o nome primeiro. Maria Rita, a
doutora que não desiste do combate. É um caso concreto, desenho de um conto que
não tem fim, nem perde protagonistas. É uma correria de trocas. Triste, a
verdade escondida. Cruzam-se as medidas. Perdem-se as Marias. Quem conta um
conto, por certo e, tantas vezes sem pensar, acrescenta um ponto. Ou dois, ou
três. Porventura, uns cinco como conta numa mão.
16.12.14
Votos de que algo aconteça.
Pinta
por cima de cada movimento de fim de dia, o carro e o menino que não sabia. Pinta
a fachada cortada com janelas várias. Pinta de imagens a fugir pela tela
melindrada. É a decoração de uma sala. É sala, a cidade mexida e vestida. Fogem
histórias em imagens contadas. Fogem por entre os defeitos de finos arcos e
quadriculadas janelas. É cenário vivo e sossegado. Como se não fosse possível.
Como se impossível fosse não imaginar. A paragem é a estratégia para parar. Um
lugar de honra para assistir a história a passar. Terreiro do Paço, praça de
excelência, de vídeo pintando com um novo e atractivo ar.
2.12.14
Vistoso latejar.
Querer
saber do raspão que é a história de um país, o percurso de um nome, a
criatividade de um cartaz a preto e branco, tão bonito como se tivesse roubado
um filtro da rede social, e que permanece, tão misterioso como sensacional.
Tudo isto é querer saber de nós. Vale, por demais, a vida e os dias, se nos
valermos do amor alheio e das horas vazias. Fazer beicinho, escutar fado,
escolher azulejos e admirá-los em cada esquina, as alcofas que são as sacolas da
ida ao mercado. As hortas que crescem com tempo. Velozes os testemunhos de quem
abre a porta, escancarada, para contar vivências e desmedidas convivências.
Avisam-nos os velhos, avisam-se os novos. Supostos ensinamentos. Adquirem a
informação tão lentos. Cozem-se e assam-se as batatas-doces. Os verdes vão ao
lume leve. A cortiça heroína de voltas ao redor do mundo. O mar que não tem
defeito e oferece a água e o conduto. Agreste esquecimento devoluto. Tudo isto
é sinceridade. Tudo isto é conversa de quem passeia o corpo pela cidade.
13.11.14
Na outra noite.
Cai
a noite sobre uma cidade que tem gasto as luzes com o cinza dos dias frios e
com a chuva em ritmo frenético. Os chapéus-de-chuva, tão coloridos ou desenxabidos
rua abaixo. As castanhas bailam nos assadores e largam fumo de presença. É
aviso em cada esquina. Uma, depois outra. As suficientes para chamar as
lembranças. Logo se faz noite e ela se engalana de pontos de luz cruzados. As
fachadas de cada prédio da baixa, ganham um amarelo que lhes bate no material
que os protege e, assim, reflecte. Responde ao descarrilar das vontades
concretas sem destino. É melancólico, esse amarelo tão ogre. Mas ao longe, é
desenho a ouro. Canta Carlos do Carmo o ponto luz em que acredita que a capital
se fica. E tem razão. Cai a noite sobre a bela e feminina Lisboa e as luzes em
cada janela e porta de loja dos prédios antigos fazem como se uma casa de
bonecas fossem. Nada disto é mentira e quem nos vê de fora, não esquece. Quando
falo com amigos estrangeiros, repetem a beleza e a tristeza. Portugal não larga
o fado mas em todo o tempo recebe a visita com agrado. Vai longa a noite. Mais
tarde volto a matar saudades.
27.10.14
Senta-te comigo e aprecia.
Gosto,
se possível, de acompanhar as lides profissionais, depois das pessoais, dos
meus amigos. Parte deles é arte em cada decisão. Sem necessidade de segurar
verdades e métodos absolutos. As redes sociais amancebadas com o plural e a
pluralidade do iPhone e do iPad desta vida. Da forma de viver tão actual,
instantânea e, por razão da última, instável. Sem desdém, pois acabei de ver
inspiração em estado físico. Através das redes sociais. Já devo ter falado
sobre isto. Algures, se não ultrapassei o consumo das ideias e não perdi a
última porção de energia e memória. Porque é relevante ver a intelectualidade
desenhada em grandes telas. Essas, as telas grandes, podem, sem prejuízo alheio
e patrimonial, ser um muro desgrenhado ou uma parede velha e gasta, onde não
sobra nada senão restos de uma tinta de massas, um branco que já não é. Rei da
tela, altruísta em sessões. E é quase perturbadora, essa dicotomia. Esta minha
amiga, por quem ultrapasso o cordial experimentar sentir coisas boas, renovou
uma parede. Nasceu, algures numa cidade que já ouvi apelidar de feminina -
Lisboa, curvas e postura de mulher que canta a canção da melancolia. Sussurra a
visão com pintas. É artista de rua, esta cidade – uma parede de gesto delicado.
De verdes e imponentes imitadores de um tecido natural. A natureza de folhas
vivas, onde nem o orvalho da neblina matinal fica esquecido. E, contrariando
alguns momentos de opinião em caixa, simpatizo com a facilidade de estar ao
lado de alguém. Mesmo que tenhas ido procurar outras luzes. Quando voltas, é
como se sempre tivesses visto a evolução. Porque te sobram o motivo e a
motivação.
17.10.14
Sala de espectáculos.
Se
me perguntam, logo de manhã, se gosto do amarelo, o raciocínio quase me trai.
Penso de menos. Arrisco um não. Contudo, não é a verdade. Salvo raras
excepções. Como naquele dia, antes de subir para o comboio, antes de umas
valentes horas de viagem, em que o sono nos deixa trôpegos, e chega quem se
alimenta, no que ao vestuário diz respeito, da cor de que vos falo. Era, tal e
qual, uma estatueta, das famosas que dão prestígio. As madeixas loiras de um
cabelo naturalmente claro confundiam-se com o casaco que roubava espaço e
atenção às calças. As calças, nada inocentes, caíam sobre os saltos altos
amarelos. Ao lado, sorriam felizes duas malas. Ambas, bem sabemos, amarelas.
Toldou-me, porventura, os pensamentos. Tanto que jamais me esqueci. Rouba-me as
lembranças. Como quando estou numa das mais bonitas e privilegiadas varandas da
cidade. E lá em baixo, a harmonia é, por demais, evidente. O amarelo dos eléctricos,
tão tradicionais, e dos transportes que carregam gente, que tocam de cor os
lábios da cidade. Se me perguntam, logo cedo, numa manhã como esta, se gosto de
amarelo, sem remédio para o raciocínio, responder-lhe-eis, claramente, que sim.
Aprecio o amarelo. E, ironicamente, a harmonia que proporciona ao todo.
16.9.14
Toda a esfera nacional.
O
tempo tem espaço, corpo e difere do dia para a noite. É uma maré cheia na Praia
da Rocha, um pôr-do-sol na Manta Rota, um vendaval da Costa Norte de um outro
Portugal, a fama da Meia Praia. O tempo é das pessoas. Mesmo que nos centremos
nos minutos que escapam. Seja das Amoreiras ao Chiado. De Alfama à Graça. O
Cais do Sodré é a roupa de quem no defeito do tempo, procura as escadinhas de
espuma de uma Lisboa que pode ser o leme. E é tão castiço. Da mesma que veste, liberta
e valente, de adornos vários e dourado. O pensamento vive profundamente ligado
ao tempo a passar. Como lembrar que somos do tempo em que o comércio era,
inevitavelmente, rua. Depois, o tempo lembra que viver é coordenar vontades.
Como o Bairro Alto desenhado de gente, de lotaria em cada passo. Voltas e mais
voltas. Sabes que sentir é ter tempo. Mesmo que supere uma imponente fachada da
mais falada estação.
Etiquetas:
algarve,
bairros,
cidade,
comércio,
lisboa,
meia praia,
país,
portugal,
questões,
rua,
tempo,
viver
4.9.14
Estado do espírito.
Numa
zona de tempos remexidos, pano de fundo de uma cidade que perdeu figuras, conta
a história. Lembramos desgoverno de gente, assim se fez a tentação de marcar.
Atirar. Hoje, tem outro convite. Por estes dias, volta a ser tela. De movimento
exposto nas paredes. De pessoas que regressam ao encontro de ver passar. As
idades não têm exclusividade. Os lugares não têm obrigação de coerência. Guardam,
se quisermos, a memória da ocorrência. As cabeças seguem as imagens. Começa o
espectáculo com data marcada. Dinamizam-se as noites. No entretanto, faz-se
silêncio. A rua é palco. Mesmo que a tela não seja a arquitectura datada. Ainda
que, mesmo por ela passando, não se lhe perceba a desenvoltura e dedicação. Se
possível, é voltar atrás e ver de novo.
Etiquetas:
arte,
cidade,
cultura,
espectáculo,
história,
lugares,
noites,
país,
pessoas,
portugal,
rua,
verão
15.7.14
Em diferido. #13
A
ver a banda passar - As cidades grandes, de resto, como as pequenas, noutra
proporção, são um espelho da sensatez ou do desaire do seu povo. Aquele pedinte
apoderou-se da esplanada quase despida de gente. Debaixo daquele sol forte de
verão a antecipar datas, sem chapéu que lhe valesse. Nem por isso, despido de
roupas. O corpo que carrega pelas ruas, tantas vezes de mão estendida, é o seu hall de entrada, é a sua sala de estar,
a cozinha e o quarto. É a cadeira de cada divisão e a cama em que faz de conta
que dorme. É, também, a sua varanda e o seu jardim. Não deixa de ser o
roupeiro, a porta e as janelas. Por tudo isto, guarda em casa, na que é
possível chamar de sua casa, a roupa que lhe resta. Sob aquelas temperaturas e
a torreira do sol, vestia calças grossas, botas invernosas, casaco de ganga,
camisa de tecido felpudo, ainda um lenço caído. De mão dada com o preconceito e
a insensibilidade, fingiram convidá-lo a sair. Anuiu, cabisbaixo. Mas, como nem
toda a gente se limita a ver passar a banda, alguém que nos acompanhava,
perguntou-lhe se precisava de alguma coisa. Tenho bons amigos, felizmente. O
jovem pedinte disse que não. Ela insistiu. Fome. Só queria comida. Faltava-lhe
comida naquele corpo. Naquela casa. Longe da mediocridade, ofereceu-lhe comida
e bebida. O rapaz estava perplexo, no rosto questionava a amabilidade. Porquê,
havia de se perguntar lá dentro. Agradeceu sempre. Mais e mais. Seguimos
caminho. Ainda voltamos, para a nossa amiga lhe dar uma última coisa. Já não o
vimos. Fechou-se em casa. Na sua casa, e seguiu caminho.
7.7.14
Tema desenvolvido em verso. Prosa, talvez.
Em
letras garrafais, o nome da sala onde se pode ouvir música variada e guardada
numa caixa que soa e ressoa pelo espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas.
Onde há fumo fictício e gente a falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente
e despidas. Pessoas despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No
cimo daquela porta larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um
emaranhado de letras, que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que
chama sempre um valente concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos
reunidos. Na mesma rua, no lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem
varandas curtas, tem janelas de sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro,
pé fora. Tem tectos desenhados. Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a
conversa antes de subir a escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.
18.6.14
A ver a banda passar.
As
cidades grandes, de resto, como as pequenas, noutra proporção, são um espelho
da sensatez ou do desaire do seu povo. Aquele pedinte apoderou-se da esplanada quase
despida de gente. Debaixo daquele sol forte de verão a antecipar datas, sem
chapéu que lhe valesse. Nem por isso, despido de roupas. O corpo que carrega
pelas ruas, tantas vezes de mão estendida, é o seu hall de entrada, é a sua sala de estar, a cozinha e o quarto. É a
cadeira de cada divisão e a cama em que faz de conta que dorme. É, também, a
sua varanda e o seu jardim. Não deixa de ser o roupeiro, a porta e as janelas. Por
tudo isto, guarda em casa, na que é possível chamar de sua casa, a roupa que
lhe resta. Sob aquelas temperaturas e a torreira do sol, vestia calças grossas,
botas invernosas, casaco de ganga, camisa de tecido felpudo, ainda um lenço
caído. De mão dada com o preconceito e a insensibilidade, fingiram convidá-lo a
sair. Anuiu, cabisbaixo. Mas, como nem toda a gente se limita a ver passar a
banda, alguém que nos acompanhava, perguntou-lhe se precisava de alguma coisa.
Tenho bons amigos, felizmente. O jovem pedinte disse que não. Ela insistiu.
Fome. Só queria comida. Faltava-lhe comida naquele corpo. Naquela casa. Longe
da mediocridade, ofereceu-lhe comida e bebida. O rapaz estava perplexo, no
rosto questionava a amabilidade. Porquê, havia de se perguntar lá dentro.
Agradeceu sempre. Mais e mais. Seguimos caminho. Ainda voltamos, para a nossa
amiga lhe dar uma última coisa. Já não o vimos. Fechou-se em casa. Na sua casa,
e seguiu caminho.
26.5.14
Ensejo propositado.
Aquele
movimento frenético, tantas vezes, lhe sentimos a falta. A forma possuída como
a cidade grande, de tão impaciente, consegue, roçando a convulsão, gerir o quão
rabugento que é o marchar daquele lugar. Quando não estou, por temporadas, em
Lisboa, falta-me esse ademane social. Nunca estou o tempo suficiente. Longe,
ganho-lhe saudades, da cidade e da impaciência que afasta o vagar. Por seu
turno, voltar às raízes de um espaço mediano, oferece-me o descanso da
serenidade beliscada meigamente pelo espancar do quotidiano. E, entre tudo
isto, julgando que nada tem que comparar, lembro-me das relações. Entre
pessoas. Do amor e do desamor. Da amizade e da desamizade. Do afecto e do
desafecto. Como que as sentando rivais. Afastando qualquer cotejo. Desde logo,
refuto qualquer maneirismo de psicologia enviesada com filosofia de mesa de
café. Mas, tal como, os lugares, as pessoa ganham estratégias de viver e
sobreviver. As relações, se quisermos, espelham factos do nosso reflexo nos outros.
Se me ofereces excitação ou se me desenhas experiências quentes mas serenas.
Somos aprendizes. De qualquer lado da barricada. Mesmo e, sobretudo, se
mudarmos de azo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)