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31.3.16

Em diferido. #47

Um estilo muito próprio - Já é Primavera, num Portugal tomado pela gentileza de ser. Não sei como lhe chamar. Se largo, praceta ou uma rua enviesada. Mas cumpre a função, seja qual for o nome que lhe dão. Nesta cidade de gente nova a passear as roupas despidas, a meia-idade não tem trejeitos à vista. Guarda-os no sossego da sala de estar do apartamento que ainda paga ou no baile de esperança e expectativa, cujo propósito é juntar os divorciados e os viúvos da zona. E dos arredores. Ou, se permitirmos, é tudo mentira. Fatal utopia, a de antecipar a vida alheia. Sinto-me visita quando volto. Por certo, porque nunca fui senão visitante com curiosidade e paixão. Por ser impossível, não esqueço um lugar como este. Onde as tradições nacionais e regionais ainda existem, mas vão falecendo. Tão moribundas como as ruas numa hora vazia. Lá, onde vestir bem e sair para a rua, parece ter um duplo sentido. Desassossegam-se as almas exânimes, tomando fulgor de última temporada. Depois de levar o corpo pela cidade, volto à praça pequena ou rua sem entrada. Fica lá, qual majestade, a padaria. Das antigas, onde o nome do fundador é história relevante. No cimo de uma das portas principais, lá está o nome cravado. Entrei e falavam de idade e do peso de não conseguir contrariar os declínios. Estava, daí a conversa, uma senhora de noventa e quatro anos ao balcão. Um charme. Quando existe, não morre. Jamais. A minha mãe lembrou a minha avó. Viva e tão apta. À saída, a mesma senhora. Ajudamo-la. – Obrigada, meus queridos. A figura tão torpe que uma velha consegue fazer. Obrigada e perdoem-me a desfeita. – Sorrimos. Antecipou um pensamento. Felizmente, em tempo algum, poder-nos-ia invadir a lembrança. Tenha um bom dia. Até qualquer outro.

16.7.15

Em diferido. #38

Tema desenvolvido em verso. Prosa talvez - Em letras garrafais, o nome da sala onde se pode ouvir música variada e guardada numa caixa que soa e ressoa pelo espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas. Onde há fumo fictício e gente a falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente e despidas. Pessoas despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No cimo daquela porta larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um emaranhado de letras, que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que chama sempre um valente concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos reunidos. Na mesma rua, no lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem varandas curtas, tem janelas de sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro, pé fora. Tem tectos desenhados. Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a conversa antes de subir a escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.

6.7.15

A Lisboa que me apaixona também é isto.

Lá vai Lisboa vestida de qualquer coisa, porque nos falta os adjectivos. Peca o termo, porque não veste senão a inteligência, a simpatia, a ternura e a eterna luz de quem a habita. Neste bairro de nome fácil e conhecido, onde nos lembramos das marchas populares e da sardinha no pão, assim nos vemos chegados ao seu espaço. As conversas paralelas, desta janela para aquela. Aquele grito de verdade, que alude ao pregão de quem, em outros tempos, batia à porta. A vizinha bonacheirona que brinca com as travessuras que vivem na imaginação dos lençóis. Os homens que se encontram para beber qualquer coisinha e falar do que já passou. À esquina, juntam-se as comadres, ouvem-se risadas graves entre as mentiras com dó e as falsas verdades. O fado que vai acompanhando. Não deixa de estar, mesmo que avances rua acima, rua abaixo. As cordas sobre as cabeças, ora cheias da roupa que alguém lavou, ora despidas do branco algodão. Os números pares deste lado, os impares do outro. As plantas em vasos desavindos mas impecavelmente cuidadas. Debaixo desses números, portas que escondem outras pessoas e espaços de convívio. As mesas a espreitar, as toalhas típicas, as paredes no tom, as garrafas no alto. Vende-se aqui. Apelam e não dizem mentira. São os melhores, aqui na Tasquinha da velha senhora. Tem bata axadrezada, o cabelo branco, óculos de avó simpática, jeitos de mãos trabalhadoras. Mesmo a descoberto, ali ao ar livre, não é esquecido o santo, que não é padroeiro da cidade mas é casamenteiro. Não se esgota aqui, o bairrismo encantado. Vive, sem esquecer, o preconceito no outro lado. Aquele snobismo encartado. Como se uns brincos grandes e pendentes fossem empecilho. Ou uma mala com nome influente. Perguntam-me, sempre que falo assim de uma Lisboa que não sendo minha, me apaixona todos os dias, como é que é possível gostar-se assim. Não sei, é a resposta. Continuam as questões, apelando, agora, ao facto de, em momento algum, eu ter vivido a experiência de viver num bairro típico desta cidade. Não sei. Não tenho resposta. Não tenho outra, senão esta.

7.5.15

Ficar por aqui, olhar e voltar.

Aquela rua é vertiginosa. Tem casas de um lado e outras tantas do lado oposto. Tem carros parados num sentido. Muitos e variados, para todos os gostos e carteiras. Não é larga, mas engana. Parece que tudo encaixa na perfeição. É uma rua onde quase não se vêem pessoas. No cimo da mesma, em que as vertigens são ameaçadas, a vista não tem explicação, sequer justificação. Sobrevivem as cores garridas, o azul lá ao fundo. Antes de a conhecer, parecia-me impossível que daquele lugar saíssem tantos tons e tão vivos. Estes são salpicados pelas pingas brancas. Roupa a bailar, o sol a bater. Debaixo do braço uma revista americana, emprestada por quem entende do assunto. Lá dentro, fotografias bonitas, artigos de actualidade, sugestões do que chamam ser moda e o resto do mundo que eu não entendo. Resume-se à básica questão, tão inocente, ou gosto ou não gosto. Muito daquilo que vi, pareceu-me bem. Gosto da palavra singela. E a moda também é isso. Numa estação afunilam-se as tendências e nesse caminho estreito colocam-se as cores possíveis. Num dia é fogo, noutro é água. Quase no final da rua, ainda a revista debaixo do braço, os mesmos carros ficaram para trás, as roupas no estendal. Mais próximo do rio, contudo, perdeu-se a vista maravilhosa. Toca o telemóvel e do outro lado dizem-me que já está, já terminou. Suspiro. Vou ter de subir.

22.4.15

Orientação do instinto.

Pouso o relógio na secretária. Ao lado, o telemóvel, o caderno onde escrevo notas, textos ou, em estando numa de outros desafios, onde desenho. O último tem orelhas grandes, focinho disforme e um olhar divertido. Um insano, tal qual o aspirante a autor. Ao lado, palavras soltas sobre Lisboa. Quem lhes chegar perto, achá-las-á desconexas. Pobres de assunto. Contidas na definição. Mas não é verdade. Escrevia-as há tanto tempo, mas continuam a fazer sentido. Tenho uma paixão sem fim por Lisboa. Não sou filho da terra por acaso. Um descaso feliz. Estas palavras soltas vêm de um momento concreto. Lembro-me, sem tirar um segundo, de descer a Avenida da Liberdade, num jeito quase imberbe. Passei por tantas pessoas sem lhes ver a cara. Depois da entrada do cinema São Jorge, levado pela saudade resumida num corpo electrizado, fui interceptado por uma senhora de uma certa idade. Tinha um ar cuidado, uma mala num braço e um saco de papel no outro. Perguntou-me onde ficava um número daquela avenida. Ajudei-a e, antes de seguir caminho, agradeceu-me sem fim. Confidenciou que tinha saudades da mãe, que se havia mudado para perto. Ouvir alguém daquela idade relatar, sem vergonha, que tem tamanha saudade da ausência da mãe, é um pretexto para um exercício do pensamento tão visceral e essencial. Continuei caminho, desta vez mais calmo. Até encontrá-la. Estivemos num abraço apertado tanto tempo que não tem conta. Olhou-me nos olhos e voltou a dize-lo: Estás apetitoso. Voltámos, agora a subir a avenida. Passámos, novamente, pelo cinema São Jorge e por tantas pessoas. Entrámos no hotel, ela ficou no bar. Quando voltei, no meu caderno, não tinha respostas. Tinha um desenho tão bonito. Há quem se sustente da arte. E viva como se canta no fado.

15.4.15

Em diferido. #32

A aprendiza de coisa nenhuma - Não é mentira, ai não, não é. Conta-se um conto, acrescenta-se um ponto. Voltas e voltas dadas ao redor da verdade escrita e da língua portuguesa a sentir, de boca em boca. Como no tempo das Marias de nome, hoje vale mais o acrescento do ponto, do que o próprio do conto. Fica triste, a verdade escondida. Aldeias pequenas, gente grande. Ou o inverso, mas é timidez no ardor de preferir não dizer. Ainda me lembro de se ouvir falar da Rita. Daquele lugar distante. Maria Rita de nascença, que ao grito maior se lhe despediu o primeiro nome. Rita ficaria daí em diante. A Rita, de novo nome, de lá para cá, não se importa. Nem com o bem maior, nem com o mal menor. É-lhe semelhante. Tem a mesma medida. Não quer saber. Quer a vida que lhe calhou, logo depois do primeiro nome que não vingou. E subia as paredes grossas, os muros que seguram como raízes. De saias leves, colocava os rapazes num chinelo. Repetia a expressão de neta aprendiz. Ria alto e comia amoras silvestres. Corria com pressa e sujava as vestes. O tempo mudou, a Rita não aguentou e partiu. Perdeu os tiques e a conversa de quem, por vontade e educação, lhos ensinou. Largou com a mesma pressa com que corria sobre a terra solta. E, certo dia, voltou o nome primeiro. Maria Rita, a doutora que não desiste do combate. É um caso concreto, desenho de um conto que não tem fim, nem perde protagonistas. É uma correria de trocas. Triste, a verdade escondida. Cruzam-se as medidas. Perdem-se as Marias. Quem conta um conto, por certo e, tantas vezes sem pensar, acrescenta um ponto. Ou dois, ou três. Porventura, uns cinco como conta numa mão.

23.3.15

Um estilo muito próprio.

Já é Primavera, num Portugal tomado pela gentileza de ser. Não sei como lhe chamar. Se largo, praceta ou uma rua enviesada. Mas cumpre a função, seja qual for o nome que lhe dão. Nesta cidade de gente nova a passear as roupas despidas, a meia-idade não tem trejeitos à vista. Guarda-os no sossego da sala de estar do apartamento que ainda paga ou no baile de esperança e expectativa, cujo propósito é juntar os divorciados e os viúvos da zona. E dos arredores. Ou, se permitirmos, é tudo mentira. Fatal utopia, a de antecipar a vida alheia. Sinto-me visita quando volto. Por certo, porque nunca fui senão visitante com curiosidade e paixão. Por ser impossível, não esqueço um lugar como este. Onde as tradições nacionais e regionais ainda existem, mas vão falecendo. Tão moribundas como as ruas numa hora vazia. Lá, onde vestir bem e sair para a rua, parece ter um duplo sentido. Desassossegam-se as almas exânimes, tomando fulgor de última temporada. Depois de levar o corpo pela cidade, volto à praça pequena ou rua sem entrada. Fica lá, qual majestade, a padaria. Das antigas, onde o nome do fundador é história relevante. No cimo de uma das portas principais, lá está o nome cravado. Entrei e falavam de idade e do peso de não conseguir contrariar os declínios. Estava, daí a conversa, uma senhora de noventa e quatro anos ao balcão. Um charme. Quando existe, não morre. Jamais. A minha mãe lembrou a minha avó. Viva e tão apta. À saída, a mesma senhora. Ajudamo-la. – Obrigada, meus queridos. A figura tão torpe que uma velha consegue fazer. Obrigada e perdoem-me a desfeita. – Sorrimos. Antecipou um pensamento. Felizmente, em tempo algum, poder-nos-ia invadir a lembrança. Tenha um bom dia. Até qualquer outro.

5.3.15

Em diferido. #29

Vistoso latejar - Querer saber do raspão que é a história de um país, o percurso de um nome, a criatividade de um cartaz a preto e branco, tão bonito como se tivesse roubado um filtro da rede social, e que permanece, tão misterioso como sensacional. Tudo isto é querer saber de nós. Vale, por demais, a vida e os dias, se nos valermos do amor alheio e das horas vazias. Fazer beicinho, escutar fado, escolher azulejos e admirá-los em cada esquina, as alcofas que são as sacolas da ida ao mercado. As hortas que crescem com tempo. Velozes os testemunhos de quem abre a porta, escancarada, para contar vivências e desmedidas convivências. Avisam-nos os velhos, avisam-se os novos. Supostos ensinamentos. Adquirem, tão lentos, a informação. Cozem-se e assam-se as batatas-doces. Os verdes vão ao lume leve. A cortiça heroína de voltas ao redor do mundo. O mar que não tem defeito e oferece a água e o conduto. Agreste esquecimento devoluto. Tudo isto é sinceridade. Tudo isto é conversa de quem passeia o corpo pela cidade.

7.1.15

A aprendiz de coisa nenhuma.

Não é mentira, ai não, não é. Conta-se um conto, acrescenta-se um ponto. Voltas e voltas dadas ao redor da verdade escrita e da língua portuguesa a sentir, de boca em boca. Como no tempo das Marias de nome, hoje vale mais o acrescento do ponto, do que o próprio do conto. Fica triste, a verdade escondida. Aldeias pequenas, gente grande. Ou o inverso, mas é timidez no ardor de preferir não dizer. Ainda me lembro de se ouvir falar da Rita. Daquele lugar distante. Maria Rita de nascença, que ao grito maior se lhe despediu o primeiro nome. Rita ficaria daí em diante. A Rita, de novo nome, de lá para cá, não se importa. Nem com o bem maior, nem com o mal menor. É-lhe semelhante. Tem a mesma medida. Não quer saber. Quer a vida que lhe calhou, logo depois do primeiro nome que não vingou. E subia as paredes grossas, os muros que seguram como raízes. De saias leves, colocava os rapazes num chinelo. Repetia a expressão de neta aprendiz. Ria alto e comia amoras silvestres. Corria com pressa e sujava as vestes. O tempo mudou, a Rita não aguentou e partiu. Perdeu os tiques e a conversa de quem, por vontade e educação, lhos ensinou. Largou com a mesma pressa com que corria sobre a terra solta. E, certo dia, voltou o nome primeiro. Maria Rita, a doutora que não desiste do combate. É um caso concreto, desenho de um conto que não tem fim, nem perde protagonistas. É uma correria de trocas. Triste, a verdade escondida. Cruzam-se as medidas. Perdem-se as Marias. Quem conta um conto, por certo e, tantas vezes sem pensar, acrescenta um ponto. Ou dois, ou três. Porventura, uns cinco como conta numa mão.

16.12.14

Votos de que algo aconteça.

Pinta por cima de cada movimento de fim de dia, o carro e o menino que não sabia. Pinta a fachada cortada com janelas várias. Pinta de imagens a fugir pela tela melindrada. É a decoração de uma sala. É sala, a cidade mexida e vestida. Fogem histórias em imagens contadas. Fogem por entre os defeitos de finos arcos e quadriculadas janelas. É cenário vivo e sossegado. Como se não fosse possível. Como se impossível fosse não imaginar. A paragem é a estratégia para parar. Um lugar de honra para assistir a história a passar. Terreiro do Paço, praça de excelência, de vídeo pintando com um novo e atractivo ar.

2.12.14

Vistoso latejar.

Querer saber do raspão que é a história de um país, o percurso de um nome, a criatividade de um cartaz a preto e branco, tão bonito como se tivesse roubado um filtro da rede social, e que permanece, tão misterioso como sensacional. Tudo isto é querer saber de nós. Vale, por demais, a vida e os dias, se nos valermos do amor alheio e das horas vazias. Fazer beicinho, escutar fado, escolher azulejos e admirá-los em cada esquina, as alcofas que são as sacolas da ida ao mercado. As hortas que crescem com tempo. Velozes os testemunhos de quem abre a porta, escancarada, para contar vivências e desmedidas convivências. Avisam-nos os velhos, avisam-se os novos. Supostos ensinamentos. Adquirem a informação tão lentos. Cozem-se e assam-se as batatas-doces. Os verdes vão ao lume leve. A cortiça heroína de voltas ao redor do mundo. O mar que não tem defeito e oferece a água e o conduto. Agreste esquecimento devoluto. Tudo isto é sinceridade. Tudo isto é conversa de quem passeia o corpo pela cidade.

13.11.14

Na outra noite.

Cai a noite sobre uma cidade que tem gasto as luzes com o cinza dos dias frios e com a chuva em ritmo frenético. Os chapéus-de-chuva, tão coloridos ou desenxabidos rua abaixo. As castanhas bailam nos assadores e largam fumo de presença. É aviso em cada esquina. Uma, depois outra. As suficientes para chamar as lembranças. Logo se faz noite e ela se engalana de pontos de luz cruzados. As fachadas de cada prédio da baixa, ganham um amarelo que lhes bate no material que os protege e, assim, reflecte. Responde ao descarrilar das vontades concretas sem destino. É melancólico, esse amarelo tão ogre. Mas ao longe, é desenho a ouro. Canta Carlos do Carmo o ponto luz em que acredita que a capital se fica. E tem razão. Cai a noite sobre a bela e feminina Lisboa e as luzes em cada janela e porta de loja dos prédios antigos fazem como se uma casa de bonecas fossem. Nada disto é mentira e quem nos vê de fora, não esquece. Quando falo com amigos estrangeiros, repetem a beleza e a tristeza. Portugal não larga o fado mas em todo o tempo recebe a visita com agrado. Vai longa a noite. Mais tarde volto a matar saudades.

27.10.14

Senta-te comigo e aprecia.

Gosto, se possível, de acompanhar as lides profissionais, depois das pessoais, dos meus amigos. Parte deles é arte em cada decisão. Sem necessidade de segurar verdades e métodos absolutos. As redes sociais amancebadas com o plural e a pluralidade do iPhone e do iPad desta vida. Da forma de viver tão actual, instantânea e, por razão da última, instável. Sem desdém, pois acabei de ver inspiração em estado físico. Através das redes sociais. Já devo ter falado sobre isto. Algures, se não ultrapassei o consumo das ideias e não perdi a última porção de energia e memória. Porque é relevante ver a intelectualidade desenhada em grandes telas. Essas, as telas grandes, podem, sem prejuízo alheio e patrimonial, ser um muro desgrenhado ou uma parede velha e gasta, onde não sobra nada senão restos de uma tinta de massas, um branco que já não é. Rei da tela, altruísta em sessões. E é quase perturbadora, essa dicotomia. Esta minha amiga, por quem ultrapasso o cordial experimentar sentir coisas boas, renovou uma parede. Nasceu, algures numa cidade que já ouvi apelidar de feminina - Lisboa, curvas e postura de mulher que canta a canção da melancolia. Sussurra a visão com pintas. É artista de rua, esta cidade – uma parede de gesto delicado. De verdes e imponentes imitadores de um tecido natural. A natureza de folhas vivas, onde nem o orvalho da neblina matinal fica esquecido. E, contrariando alguns momentos de opinião em caixa, simpatizo com a facilidade de estar ao lado de alguém. Mesmo que tenhas ido procurar outras luzes. Quando voltas, é como se sempre tivesses visto a evolução. Porque te sobram o motivo e a motivação.

17.10.14

Sala de espectáculos.

Se me perguntam, logo de manhã, se gosto do amarelo, o raciocínio quase me trai. Penso de menos. Arrisco um não. Contudo, não é a verdade. Salvo raras excepções. Como naquele dia, antes de subir para o comboio, antes de umas valentes horas de viagem, em que o sono nos deixa trôpegos, e chega quem se alimenta, no que ao vestuário diz respeito, da cor de que vos falo. Era, tal e qual, uma estatueta, das famosas que dão prestígio. As madeixas loiras de um cabelo naturalmente claro confundiam-se com o casaco que roubava espaço e atenção às calças. As calças, nada inocentes, caíam sobre os saltos altos amarelos. Ao lado, sorriam felizes duas malas. Ambas, bem sabemos, amarelas. Toldou-me, porventura, os pensamentos. Tanto que jamais me esqueci. Rouba-me as lembranças. Como quando estou numa das mais bonitas e privilegiadas varandas da cidade. E lá em baixo, a harmonia é, por demais, evidente. O amarelo dos eléctricos, tão tradicionais, e dos transportes que carregam gente, que tocam de cor os lábios da cidade. Se me perguntam, logo cedo, numa manhã como esta, se gosto de amarelo, sem remédio para o raciocínio, responder-lhe-eis, claramente, que sim. Aprecio o amarelo. E, ironicamente, a harmonia que proporciona ao todo.

16.9.14

Toda a esfera nacional.

O tempo tem espaço, corpo e difere do dia para a noite. É uma maré cheia na Praia da Rocha, um pôr-do-sol na Manta Rota, um vendaval da Costa Norte de um outro Portugal, a fama da Meia Praia. O tempo é das pessoas. Mesmo que nos centremos nos minutos que escapam. Seja das Amoreiras ao Chiado. De Alfama à Graça. O Cais do Sodré é a roupa de quem no defeito do tempo, procura as escadinhas de espuma de uma Lisboa que pode ser o leme. E é tão castiço. Da mesma que veste, liberta e valente, de adornos vários e dourado. O pensamento vive profundamente ligado ao tempo a passar. Como lembrar que somos do tempo em que o comércio era, inevitavelmente, rua. Depois, o tempo lembra que viver é coordenar vontades. Como o Bairro Alto desenhado de gente, de lotaria em cada passo. Voltas e mais voltas. Sabes que sentir é ter tempo. Mesmo que supere uma imponente fachada da mais falada estação.

4.9.14

Estado do espírito.

Numa zona de tempos remexidos, pano de fundo de uma cidade que perdeu figuras, conta a história. Lembramos desgoverno de gente, assim se fez a tentação de marcar. Atirar. Hoje, tem outro convite. Por estes dias, volta a ser tela. De movimento exposto nas paredes. De pessoas que regressam ao encontro de ver passar. As idades não têm exclusividade. Os lugares não têm obrigação de coerência. Guardam, se quisermos, a memória da ocorrência. As cabeças seguem as imagens. Começa o espectáculo com data marcada. Dinamizam-se as noites. No entretanto, faz-se silêncio. A rua é palco. Mesmo que a tela não seja a arquitectura datada. Ainda que, mesmo por ela passando, não se lhe perceba a desenvoltura e dedicação. Se possível, é voltar atrás e ver de novo.

15.7.14

Em diferido. #13

A ver a banda passar - As cidades grandes, de resto, como as pequenas, noutra proporção, são um espelho da sensatez ou do desaire do seu povo. Aquele pedinte apoderou-se da esplanada quase despida de gente. Debaixo daquele sol forte de verão a antecipar datas, sem chapéu que lhe valesse. Nem por isso, despido de roupas. O corpo que carrega pelas ruas, tantas vezes de mão estendida, é o seu hall de entrada, é a sua sala de estar, a cozinha e o quarto. É a cadeira de cada divisão e a cama em que faz de conta que dorme. É, também, a sua varanda e o seu jardim. Não deixa de ser o roupeiro, a porta e as janelas. Por tudo isto, guarda em casa, na que é possível chamar de sua casa, a roupa que lhe resta. Sob aquelas temperaturas e a torreira do sol, vestia calças grossas, botas invernosas, casaco de ganga, camisa de tecido felpudo, ainda um lenço caído. De mão dada com o preconceito e a insensibilidade, fingiram convidá-lo a sair. Anuiu, cabisbaixo. Mas, como nem toda a gente se limita a ver passar a banda, alguém que nos acompanhava, perguntou-lhe se precisava de alguma coisa. Tenho bons amigos, felizmente. O jovem pedinte disse que não. Ela insistiu. Fome. Só queria comida. Faltava-lhe comida naquele corpo. Naquela casa. Longe da mediocridade, ofereceu-lhe comida e bebida. O rapaz estava perplexo, no rosto questionava a amabilidade. Porquê, havia de se perguntar lá dentro. Agradeceu sempre. Mais e mais. Seguimos caminho. Ainda voltamos, para a nossa amiga lhe dar uma última coisa. Já não o vimos. Fechou-se em casa. Na sua casa, e seguiu caminho.

7.7.14

Tema desenvolvido em verso. Prosa, talvez.

Em letras garrafais, o nome da sala onde se pode ouvir música variada e guardada numa caixa que soa e ressoa pelo espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas. Onde há fumo fictício e gente a falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente e despidas. Pessoas despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No cimo daquela porta larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um emaranhado de letras, que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que chama sempre um valente concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos reunidos. Na mesma rua, no lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem varandas curtas, tem janelas de sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro, pé fora. Tem tectos desenhados. Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a conversa antes de subir a escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.

18.6.14

A ver a banda passar.

As cidades grandes, de resto, como as pequenas, noutra proporção, são um espelho da sensatez ou do desaire do seu povo. Aquele pedinte apoderou-se da esplanada quase despida de gente. Debaixo daquele sol forte de verão a antecipar datas, sem chapéu que lhe valesse. Nem por isso, despido de roupas. O corpo que carrega pelas ruas, tantas vezes de mão estendida, é o seu hall de entrada, é a sua sala de estar, a cozinha e o quarto. É a cadeira de cada divisão e a cama em que faz de conta que dorme. É, também, a sua varanda e o seu jardim. Não deixa de ser o roupeiro, a porta e as janelas. Por tudo isto, guarda em casa, na que é possível chamar de sua casa, a roupa que lhe resta. Sob aquelas temperaturas e a torreira do sol, vestia calças grossas, botas invernosas, casaco de ganga, camisa de tecido felpudo, ainda um lenço caído. De mão dada com o preconceito e a insensibilidade, fingiram convidá-lo a sair. Anuiu, cabisbaixo. Mas, como nem toda a gente se limita a ver passar a banda, alguém que nos acompanhava, perguntou-lhe se precisava de alguma coisa. Tenho bons amigos, felizmente. O jovem pedinte disse que não. Ela insistiu. Fome. Só queria comida. Faltava-lhe comida naquele corpo. Naquela casa. Longe da mediocridade, ofereceu-lhe comida e bebida. O rapaz estava perplexo, no rosto questionava a amabilidade. Porquê, havia de se perguntar lá dentro. Agradeceu sempre. Mais e mais. Seguimos caminho. Ainda voltamos, para a nossa amiga lhe dar uma última coisa. Já não o vimos. Fechou-se em casa. Na sua casa, e seguiu caminho.

26.5.14

Ensejo propositado.

Aquele movimento frenético, tantas vezes, lhe sentimos a falta. A forma possuída como a cidade grande, de tão impaciente, consegue, roçando a convulsão, gerir o quão rabugento que é o marchar daquele lugar. Quando não estou, por temporadas, em Lisboa, falta-me esse ademane social. Nunca estou o tempo suficiente. Longe, ganho-lhe saudades, da cidade e da impaciência que afasta o vagar. Por seu turno, voltar às raízes de um espaço mediano, oferece-me o descanso da serenidade beliscada meigamente pelo espancar do quotidiano. E, entre tudo isto, julgando que nada tem que comparar, lembro-me das relações. Entre pessoas. Do amor e do desamor. Da amizade e da desamizade. Do afecto e do desafecto. Como que as sentando rivais. Afastando qualquer cotejo. Desde logo, refuto qualquer maneirismo de psicologia enviesada com filosofia de mesa de café. Mas, tal como, os lugares, as pessoa ganham estratégias de viver e sobreviver. As relações, se quisermos, espelham factos do nosso reflexo nos outros. Se me ofereces excitação ou se me desenhas experiências quentes mas serenas. Somos aprendizes. De qualquer lado da barricada. Mesmo e, sobretudo, se mudarmos de azo.