Aquele
prédio é alto. Dos que se impõem. Marca, altivo, a sua presença naquela rua
carregada de movimento, de pessoas, de transportes e de um todo do que se faz
uma cidade central e dinâmica. Também guarda devolutos, tantos. Aquele prédio
tem uma porta grande, de vidros vários, tão alta que convida a cabeça de quem
passa a olhar-lhe nos olhos. Uma montra velha ao lado, esquecida. Tão perdida
no tempo que não passamos sem recuar-lhe o olhar. Tem tantos andares, ainda
mais janelas. As tonturas obrigam a parar-lhes a contagem. Não sei quantas
janelas compõem-lhe a frente, tampouco o verso, que se esconde num dos típicos
jardins recuados. Ainda as janelas e quão diferentes são. Aquele prédio tem
janelas recuperadas, outras renovadas e ainda tantas desprezadas. Algumas
carregam a memória do ar condicionado. Umas limitam-se a ser um vidro inteiro,
as outras de vidros separados. Umas estão abertas, outras fechadas e há ainda
as que, pelo ausente uso, teimaram em tornar-se perras. À entrada, servindo de
tapete à porta grande e à montra zangada, temos calçada portuguesa, num desenho
que fizeram, nos tons que conhecemos. Passam pessoas, param pessoas. Ficam à
conversa sobre todas as coisas e sobre coisa de espécie alguma. Logo a seguir,
há quem entre pelo prédio, depois de avisar, pisando os degraus de madeira,
segurando o corrimão que partilha madeira com ferro. Lá em cima, num terceiro
andar, espera sempre alguém. Com a porta aberta, de sorriso franco, oferecendo
as boas-vindas.
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15.5.14
29.4.14
Português vivaz.
A
janela de cortina a balançar, debaixo ou no enquadramento do que se seguirá
adiante, é o ponto de partida, por dela soar pátria. O céu azul suave, quase
imaculado, não fossem as ternurentas, embonecadas e salpicadas nuvens.
Desmaiadas, é certo. Ainda assim, nuvens. O sol oferecendo brilho, luzindo
pelos cantos vários. Os azulejos azuis e brancos. Tradição, característica,
coração português. Calçada portuguesa, em tom sim, tom não. Num aparece e
desaparece de figuras típicas. Avenida acima. As riscas na blusa, a saudade do
azul e branco que lembra a maresia. A memória a funcionar, as lembranças a
jorrar. A barbearia, no sentido oposto, de cadeira de comando. De espelhos
gastos do tempo, como o couro. Só isso. O verde é sombra. A madeira é repouso.
Calçados, os ténis que repetem a saudosa marca da adolescência. O sorriso faz parelha
com a gargalhada. São proporcionais à dimensão do lugar que açambarca o todo deste
quadro. As pernas cruzadas. As mãos sem sossegar. A máquina fotográfica
pousada. Depois, terminei cortando o cabelo. E aparando a barba. Com óculos de
ver.
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22.4.14
Um apontamento.
É,
apenas, um apontamento literal do que acabei de ver. Daqueles pormenores e
momentos que guardaria, descritos, por tempo indeterminado, num dos meus
cadernos, de capa vigorosa, negra ou azul forte, de elástico a forçar o segredo.
Sobre a calçada portuguesa, está um casal a fotografar-se mutuamente. Em poses
várias. Em emoções diferentes. Em expressões atraentes e atractivas. Imitam um
género de dança. Coordenada à mercê da vontade que os acompanha e sugere que se
procurem. Ali mesmo, no centro da cidade. A calçada portuguesa aos pés. O rio,
se imaginarmos, ao fundo. Um monumento, que é uma cidade, num espectáculo que,
sem convite, merece apontamento. Há quem viva para lá dos murmúrios e lamentos.
Se, por um acaso, os guardasse para lá da memória e dos rabiscos elaborados,
através da minha máquina fotográfica, guardá-los-ia a cores. Esquecia o preto e
o branco, por ora. Guardava-os, num apontamento, tão colorido. E continuaram,
depois de eu dar costas, sobre a calçada, a mímica de se fotografarem. Não sei
se é amor, mas disfarça tão bem.
13.2.14
Quando os tempos são de crise.
O
Outono chegou, por entre modestas folhas caindo, o calor a fazer sala, as mangas
curtas, os calções, as alças ou os casacos de fácil condução fazendo as honras.
Dissipem-se os pregoeiros que conjecturaram verão até ao espoco. Veio, no
entretanto, o Inverno. A chuva chegou, fez-se dama e real proprietária da
época. Agora, para os amantes de ruas cintilantes e compostas de gente desempoeirada,
resta-nos as fachadas desmoralizadas, no centro da cidade, vazando a chuva até
à última gota, as cabeças baixas, as galochas e os sobretudos a ganhar estatuto
de protecção. Nos escombros da crise meteorológica, ficamo-nos pelas imagens em
movimento, dissecadas pelo olho nu, mascará-las de sépia ou num preto e branco
tão português, pulando à vista o colorido e atrevido chapéu-de-chuva. Lilás, se
preciso for.
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24.1.14
O sol (já) brilha.
Numa
qualquer ruela de cidade distante, apequenada no terreno, bebericada de
mexericos, rica em tradições e gente genuína de rumores opinados, de gente que
trabalha as terras, quando não lhes roubam os terrenos e as enxadas. O verde
que refulgia a direito, esconde o abandono pervertido. Sob um sol que se impõe,
mas não aquece. Nessa ruela, bastam quatro cadeiras e duas mesas de esplanada jogadas,
rústicas e desajustadas, acomodadas à porta corrida de uma casa que já fora
conhecida como o retiro espiritual de senhores de bem que, em casa e causa
próprias, deixavam as legítimas, as esposas. Por ali, para lá da porta apagada
com marcas do tempo, fumavam-se cigarros e charutos. Baixavam-se calças, caídas
sobre botas rudes e subiam-se saias plissadas enquanto o decote ganhava emoção.
Bebiam-se vinhos e águas que ardem ao cair. A escadaria, depois do balcão maciço,
convidava a um outro nível. Dizem, escutavam-se barulhos vários. Arrastavam-se.
Hoje, que o sol brilha e bate neste prédio alto de janelas relevantes, que o
devolve sem problemas de consciência, à porta está uma mulher com perto de
trinta e seis anos, arrisco eu. Cabelo corrido e pouco escovado, as mãos
escondidas nas algibeiras de um casaco quente. O rosto cansado e um sorriso
tímido. Dois dedos de conversa e contou-me o que, durante décadas, por ali
aconteceu. O sol fugia, nesses anos. Pedi para a fotografar, envolvida pelo
prédio que me convidou a atenção. Sorriu, envergonhada. “Só se não sair daí”, da minha máquina, entenda-se. E não vai sair,
garanti-lhe. Pausei, entre a conversa buliçosa, para tomar um café. No final, a
mulher que toma conta, contou-me que, em tempos, naquela rua sobressaía bem
mais a chuva, a chuva de quem chora sem tempo. Do que o sol, que perdia. Choravam
sempre as mesmas. As que ficavam para dentro das portas, debaixo de corpos
grosseiros e as que, à porta, esperavam os mesmos corpos.
2.12.13
Say cheese. Please!
No
centro da cidade, junto a uma farmácia, uma turista de máquina fotográfica em
punho, pediu-me autorização, num inglês turístico, para me fotografar.
Olhei-lhe sem reacção. Disse-me, entre o meu silêncio, que procurava um postal.
Uma imagem que representasse lugares. Sorri-lhe, não ganhei outra resposta.
Acabei por aceitar. Disparou, então, o flash na minha direcção. Terminou, devolvendo-me
o sorriso. Gosto disto, rematou, por esta altura num inglês mais trabalhado,
enquanto via o resultado. Fazendo-me sinal, aproximou-se para me mostrar.
Obrigado. Agora, sou parte integrante de um postal virado que viaja por aí.
Habilito-me a ser mais viajado que o compacto das minhas lembranças. Virei
costas e segui. Dentro da farmácia, esperavam por mim.
12.11.13
As fontes das nossas cidades.
Cidade
é gente. A criatividade aguça a moderna actualidade. Das pessoas e dos lugares.
As pequenas cidades, assim conhecidas, guardando o passado e, recusando, a cada
momento, o rotulo de ultrapassadas e paupérrimas, fazem-se novas, jovens e
dinâmicas. Quando as vontades cimeiras, os cofres e as gentes se fazem
empreendedoras. Quando, não se esquecem que, cosmopolita e na moda pode ser o
que entendermos. Quando não têm as lojas das marcas sobejamente visitadas e
comentadas, número sim, número sim. Mesmo quando o centro histórico é pouco
dinâmico. Quando as grandes discotecas e bares da moda são tomados pelos salões
de baile e pelos bares escuros, onde se batem copos de vidro baços e se canta
karaoke alegremente. As linhas de metro cedem e, encurta-se a distância com
sete ou oito linhas de autocarros, de cores vivas, cujo nome é para lá de
imaginativo. Quando os hipermercados atrofiam as pequenas mercearias e estão a
cada esquina. Muda apenas o nome. A pressa no andar, cabisbaixos, talvez, seja
o que mais se assemelha. Os teatros, nas cidades descentralizadas, são
esquecidos de receber peças de teatro. Os grandes nomes da música que ganham
rotina no top de vendas, surgem de longe a longe, quando assim é. Os sotaques
não esmorecem. As avenidas são pequenas. Vale-lhes a música a soar dos rádios
do carro. As rotundas aparecem sempre. E calemo-nos. Porque, cidade grande ou
pequena, os interesses enviesam e toldam as acções. Quando as gentes não se
fazem valer e não se cultivam, não importa o nome, a área, o número de
habitantes nem, tão pouco, a vida cultural. Centremo-nos, à priori, na
construção de cada um. Eduquemo-nos. Sempre. Para fazermos da nossa ou da
cidade que nos recebe, um centro de cultura e educação, onde de pequena e vazia,
nem a fonte que tem nome de poeta.
3.10.13
Lisboa à capela.
Viver
Lisboa é encanto, extensão e opulência. Ver o eléctrico passar, de um amarelo
luzidio sob tintas especulando garatujas, levando gentes da terra e turistas
que procuram os encantos da capital. Embora, soando o fado, Lisboa é azul e luz.
Também alegria e ondas de calor. É espaço e colinas. A história atravessou-a,
propagando-se até aos nossos dias. Mas, agora que acabo de passar a Calçada do
Combro, perto da igreja, novamente o eléctrico soando, recordando o que me
haviam contado uns amigos e, lamento com aspereza, nunca ter tido o privilegio
de outros. Ouvir Gisela João cantar, junto ao gradeamento, à capela.
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10.9.13
Gostar da cidade.
Fatalmente,
gosto da cidade. Por outras ocasiões, gosto do campo. A cidade é portento. Gosto.
Da agitação. Das ruas movimentadas. Dos carros apressados. Das pessoas bonitas.
Dos corpos envergando actuais vestimentas. Das lojas. Do barulho. Dos semáforos
regendo. Dos aviões soando. Das pessoas, à conversa e a fumar. Do palavreado à
entrada dos grandes prédios. Do metro ali tão perto. Da varanda de um oitavo
andar. Do gato da vizinha, sossegado, nas escadas. Da proximidade ludibriada. De
tudo isto. Porque, doutras vezes, parado numa dessas ruas, numa das ruas da
cidade, percebo que, afinal, é normal. Tudo o que a compõe é regular. E, assim,
tomo nota. Gosto da normativa.
24.8.13
Manhã. Cedo. Sábado. Sol. Calor. Verão. Agosto. Cidade.
Podiam
ser palavras para descrever a manhã do último sábado. E definem, até certo
ponto. Perante este cenário, seria expectável uma ida à praia. Um momento numa
esplanada. Mergulhos numa piscina. Não. É cedo, em Agosto, na minha cidade,
numa manhã de sábado, onde o calor sabe bem, a propósito do verão.
Manhã,
é fim-de-semana. Impossível não reparar nas pessoas, nas ruas cheias, na
avenida ao fundo. O cheiro forte a mar e verão. Numa cidade que, de outros, é
igualmente minha. Com calor, ainda assim, decido sair. É verão na minha cidade.
Não deixo de reparar nas silhuetas em jeito veranil a ocuparem a rua. É cor, é
diversão e disponibilidade. É, de forma simples e pura, o viver o verão. Os
óculos de sol não falham naqueles que vão passando, tal como, os chinelos, as
alpercatas, os calções e os tops. É rápido. Tudo, sem excepção. Já passei a
avenida. As lojas, as montras. Aqui, ou noutro lugar, sendo verão, há
movimento. Há protector solar e bronzeador. De manhã, cedo, com calor, na minha
cidade, saí, não para a tal ida a praia, nem para o salto na piscina, muito menos
para um momento numa esplanada no centro. Não. Saí, vi tudo isto e, na verdade,
comprei uns óculos. Mais uns óculos de sol.
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