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10.2.16

Em diferido. #44

Um café e um romance, por favor - Estás a pensar em quê? Perguntou-me o homem de idade, cabelo grisalho e desportista nato. Não dispensa caminhadas longas e uma certa dedicação à vida saudável. Eu não me lembro da última vez que entrei no ginásio. Talvez passe o tempo de forma desencontrada com a força e o vagar com que uma mão passa pelo cabelo. Não há afagos para o corpo, rasga num mergulho inventado e faz-te homem em cada sentido. Crueldade tamanha. Nada dói, ninguém esquece. Tudo dói, ninguém perdoa. Toma o café, antes que arrefeça. Prefiro assim mesmo, disse-lhe. Também não coloco açúcar, sou incapaz, continuei. Perdes o doce e amargo ímpeto da palavra numa chávena branca, útil, mas básica, atiçou-me. Ri-me e olhei-lhe nos olhos. Para, se possível, tentar perceber a mensagem. Imitei, no lado esquerdo, um olhar que questiona. Ando a ler, voltei-me para a literatura, adiantou. Uma leitura que fala de amor, desabafou. Enquanto eu pensava que, por ignorância, tenho lido substancialmente menos, aplaudi-lhe a decisão. Conte-me, então, o que aprendeu, entretanto, pedi-lhe. Pouco ou nada, fico-me pelas mentiras que vêm lá e gabo-me por ter mentido pouco, disse-me. Isso ou soube fazê-lo, respondi-lhe. Gargalhou. E, agora sim, tomei o café. Ainda vou vê-lo a imitar um romance.

2.11.15

Ideias não nos faltam.

Não venhas tarde, meu bom conviva. Ora, gente afoita e dada à rambóia, façam o favor de entrar. Na mão, a surpresa da ocasião. Nesta sala por almas trivialmente apaixonantes composta. Logo adiante, já o tempo se sumiu. Sobre a mesa já jazem várias garrafas. Por restarem vazias, já lhes perdemos a conta. Os copos multiplicam-se e com destino. O vinho é senhor, na voz é rei. Podia rimar, mas fico-me pela conversa. A troca de prosa válida e com substância. A noite é grande, nada curta. Olhos nos olhos, que dos senhores e da verdade reza a história. Boa comida para sossegar as ânsias. Estômago compostinho abrevia caminho. A pitada apimentada, a dona da gargalhada. Hei-de, numa corrida cheia de paleio, tão breve quanto a minha memória desmembrada, falar sobre a artista de variedades que encabeçou a arte e monopolizou, para gáudio dos comensais, o humor da mesa. Guardam-se, algures, fotografias e vídeos. Escondem-se porque a intimidade tem barreiras. Nunca a força do vinho, sempre as ideias que não nos largam. Imaginamo-la, baixa e frenética, num palco grande. Cartazes à porta, anúncios com trejeitos de outros tempos. Ora, tomem atenção, é chegada a hora da comédia que agrada ao povo. Pois, entre linguagem habilmente prosaica e gestos esbeltos, vem do coração.

16.7.15

Em diferido. #38

Tema desenvolvido em verso. Prosa talvez - Em letras garrafais, o nome da sala onde se pode ouvir música variada e guardada numa caixa que soa e ressoa pelo espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas. Onde há fumo fictício e gente a falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente e despidas. Pessoas despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No cimo daquela porta larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um emaranhado de letras, que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que chama sempre um valente concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos reunidos. Na mesma rua, no lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem varandas curtas, tem janelas de sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro, pé fora. Tem tectos desenhados. Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a conversa antes de subir a escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.

11.5.15

Objecto desse entusiasmo.

Depois de um bom livro, um passeio. Sol quente, pessoas no parque. Rua com boa cara, a companhia que importa. Conversámos sobre tantas coisas, que tivemos tempo para discordar. Alguém aventou que eu tenho tendência para, ora defender os fracos, os pobres e os oprimidos, ora para apontar-lhes alguns pontos negativos. Fica-lhe bem lembrar-se de um chavão tão ridículo. Julgava eu que vivíamos em sociedade e que haviam termos tão obsoletos. É uma questão de integração, nunca de evasão. Aliás, não vejo estatutos, profissões, contas bancárias, nomes compridos ou outros critérios desse instrumento de medição inventado, quando opino. Limito-me aos actos, à posição. Argumentos válidos e sentidos, chegam sempre a bom porto. Deu o braço a torcer. À volta, continuava a cor e o movimento tão típicos do bom tempo. Aqueles óculos de sol são extraordinários. Quem os usa fá-los parecer os melhores. São quase redondos, sem serem círculos imaculados. A dona coloca-os e tira-os. Volta a fazê-lo vezes sem conta. Parte das madeixas do cabelo comprido caem-lhe sobre as lentes. Movimenta a cabeça e espera-se que os fios entendam que devem seguir outro rumo. Tem vinte e cinco anos e um rosto de miúda, um ar jovem e fresco, tão característico da idade. O cabelo é claro mas o sol mostra que não há harmonia. Solta um ou outro tom. Conversa com genica e nunca lhe falta assunto. Cruza as pernas e senta-se no chão. Enquanto ri e mexe no telemóvel, diz-nos que sonha com o dia em que lhe desafiem a subir um monte íngreme. Porque gosta da palavra que é sinónimo de difícil de subir. E não tem medo de desafios. Também os quer a dois. Aplaudi-lhe a conversa cheia de sentido. E, totalmente de acordo, dei-lhe toda a convicção. Acredito nesse amor enraizado e nessa trovoada que testa os limites. Vivendo-o ou não. Tenho, também, tendência para, entre tudo o resto, acreditar num amor em tudo semelhante ao que os intervenientes imaginam. Aproveita o sonho, miúda dos óculos cheios de pinta.

21.4.15

Um café e um romance, por favor.

Estás a pensar em quê? Perguntou-me o homem de idade, cabelo grisalho e desportista nato. Não dispensa caminhadas longas e uma certa dedicação à vida saudável. Eu não me lembro da última vez que entrei no ginásio. Talvez passe o tempo de forma desencontrada com a força e o vagar com que uma mão passa pelo cabelo. Não há afagos para o corpo, rasga num mergulho inventado e faz-te homem em cada sentido. Crueldade tamanha. Nada dói, ninguém esquece. Tudo dói, ninguém perdoa. Toma o café, antes que arrefeça. Prefiro assim mesmo, disse-lhe. Também não coloco açúcar, sou incapaz, continuei. Perdes o doce e amargo ímpeto da palavra numa chávena branca, útil mas básica, atiçou-me. Ri-me e olhei-lhe nos olhos. Para, se possível, tentar perceber a mensagem. Imitei, no lado esquerdo, um olhar que questiona. Ando a ler, voltei-me para a literatura, adiantou. Uma leitura que fala de amor, desabafou. Enquanto eu pensava que, por ignorância, tenho lido substancialmente menos, aplaudi-lhe a decisão. Conte-me, então, o que aprendeu, entretanto, pedi-lhe. Pouco ou nada, fico-me pelas mentiras que vêm lá e gabo-me por ter mentido pouco, disse-me. Isso ou soube fazê-lo, respondi-lhe. Gargalhou. E, agora sim, tomei o café. Ainda vou vê-lo a imitar um romance.

2.2.15

Uma noite de risada pegada e uma imagem bem guardada.

Aí em casa. Aqui também. Prestem atenção, gente de bom coração. Volta, tempo sim, tempo não. Queremos sempre, escolhemos quando dá. Temos coisas para ti, tenho coisas para vocês. Batem as pestanas das meninas, piscam os olhos dos rapazes. Tudo bem medido. Conversas sem fim, como se insiste no termo da semana. Ascende a tentação de ficar no sossego. Gente minha, à volta das palavras, das histórias com final. Uns felizes, outros tristes aprendizes. À volta da ironia característica, no conforto da partilha e do quente tão típico. Pediram-me, no meio de tudo isto, que desenhasse. Que a desenhasse. No mínimo, que fotografasse. Que a fotografasse. Por favor, voltou a insistir. Não dou tréguas com facilidade. Não é maldade de génio caprichoso e altivo. É o lamento do receio. Porque não é uma opção. Nem sei se, porventura, é uma necessidade. Permanece por aí, pedi. Vamos ver. Ligámos, via Skype, para outra parte deste grupo, para um país que nos levou uma boa margem. Agora, todos, fizemos um relato sem fim. Bebemos e brindámos à amizade longa. Rimos com vontade. Até do sarcasmo voraz. Partilhámos. Nisto, decidi guardar-lhe a pose. Sem dar por isso. Enquanto ouvia atenta e ria em resposta. Voltava a cabeça e girava o longo cabelo. Não lhe disse. Voltámos ao brinde, à conversa sem medida e à partilha à distância. Toma. Beijou-me, antes de ver. Obrigada, disse-me. Vou dançar com outra convicção. Tão contente por me fazeres em pausa nesta noite de feliz confusão, continuou. Outro beijo. Rimo-nos. A sério, rimo-nos sempre. Por bem. Juntos, seja qual for o motivo. Todos os dias que o ano tem.

15.9.14

Assento de espera.

Um banco de jardim, numa noite destemida, pode ser a equação de um grupo. Juntam-se pessoas, num jardim da cidade, com o propósito de esperar e trocar prosa. Noite longa não tem preceito. Tem a alegria e a sinceridade no peito. Saiu-lhe a sorte grande. Como que dando elasticidade à sorte. Ao lado, sugerem que a sorte não se mede. Acontece. Ou surge, ou nunca vem. Ou constróis, ou alguém foge com ela. Ou trabalhas como se o mundo respirasse no compasso em que te desenvencilhas na corrida pela sorte, ou perde-la para sempre. Para um sempre que tem elástico como a sorte. Ao lado, um indivíduo desmente. O sempre não tem tamanho. Tem distância. Saiu-lhe a sorte grande de saber esperar. Sempre e pelo sempre eterno.

4.8.14

De soslaio num Algarve de agitação sem fim.

Praia, sol de quando em vez, esplanadas carregadas de gente, conversas e bebidas frescas, uma típica aragem de fim de tarde num dia de céu mais buliçoso. Pelo Algarve de pessoas sem fim. No Algarve que vive o ano inteiro, mas exprime excelso movimento por esta altura. Verão quente, como dantes. Verão desregrado, como agora. Chegados ao portão grande, aguardamos que a câmara de vigilância nos anunciasse. Aguardamos no carro. Havia sossego, do que nos era possível entender. Contudo, esperar-nos-ia uma festa. Por fim, abriu-se o portão. Entramos. Fomos recebidos e convidaram-nos a entrar. Bem-vindos, desfrutem. Disse-nos o dono da casa enquanto nos encaminhava para o jardim, um patamar acima da piscina. As colunas estrategicamente colocadas pelo espaço, salpicavam o ambiente. O resto, quando for propositado, saber-se-á. De qualquer modo, não deixou de ser um agradável amuse bouche para o aniversário que se seguiria. Algarve, mar de qualquer destino.

7.7.14

Tema desenvolvido em verso. Prosa, talvez.

Em letras garrafais, o nome da sala onde se pode ouvir música variada e guardada numa caixa que soa e ressoa pelo espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas. Onde há fumo fictício e gente a falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente e despidas. Pessoas despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No cimo daquela porta larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um emaranhado de letras, que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que chama sempre um valente concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos reunidos. Na mesma rua, no lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem varandas curtas, tem janelas de sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro, pé fora. Tem tectos desenhados. Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a conversa antes de subir a escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.

11.6.14

Amor e um chapéu.

Nunca usei chapéu da porta para fora. Talvez, como se isso fervesse importância, porque o desconforto é superior à vontade. É tão absurdo como verídico. Como se jogasse com valores ou tivesse qualquer validade para lá de uma simples vontade. Lembro-me de usar um ou outro boné, ainda, um ou outro gorro. Usava-os em circunstâncias pontuais. Podiam ser os mais caros e ter as marcas da moda a gritar por todos os poros do que servia para cobrir a cabeça, que não me tomavam qualquer paixão. Viessem de que ponto do mundo viessem. Em serviço da verdade, embora, as tivesse a todas, as marcas, a dado instante, deixaram de ser um todo. Talvez ficassem pelo acessório. Pousei-os algures, aos bonés e gorros, e deixei-os para destino incerto. Em tempo algum voltei a usá-los. Mas o chapéu é diferente. Não sei se desenho ligação com o facto de, há uns anos, ter herdado um. Do meu avô. Era, para mim e para o meu avô, uma peça importante, por diferentes motivos, claro. Não me esqueço, mesmo quando a memória fraqueja, de vê-lo num dos quartos da casa dos meus avós, em jeito de exposição. Qual obra de arte. Era um apontamento de uma decoração cuidada. Um quarto, como outros, a ser de visitas, mas raramente usado. Raras, também, eram as vezes em que, ao visitá-los, não passava por ele. Pelo quarto e pelo chapéu. Também este, nunca usei. As razões, aqui, conduzem outras avaliações. Guardo-o com estimação. Mas outros, havia de usá-los. Gosto de chapéus, sem explicação, mas nunca os ousei usar. Lembro-me disto, se tem relevante sentimento, porque partilhei, este fim-de-semana, a esplanada com gente boa e genuína. Entre essa gente, estava um homem com bem mais idade do que eu, com uma pinta sem igual. Daquelas de capa de revista. Barba cerrada, mas cuidada. Óculos de sol vintage, como se diz. E, claro, um brutal chapéu. Inevitavelmente, falei-lhe de chapéus. E gabei-lho. Depois de me passar tantos relatos, ficou de me levar a uma chapelaria de outros tempos. Quem lá entra, apaixona-se. Que eu aproveite enquanto dura.

4.6.14

Conter para continuar a ter.

É um compincha de idade maior, daqueles que já perderam parte da farta cabeleira, onde os fios de cabelo que restam, já desbotaram. Junta aos olhos cansados, os óculos suspensos no nariz. Com a distância perfeita, para que, nas letras desenhadas no jornal, seja ajuda e compreensão, e para quando levantar o olhar, seja desprotecção. Para que, sem oferecer grandes desajustes, enxergue com atenção. Entre a conversa atenta e a leitura demorada do jornal, ia-me falando, divagando nos pormenores, estórias de outros tempos. Ligações de uma vida cheia às composições das reportagens de jornal. Acredita na formação dos jovens. A sina castra oportunidades. A intuição e vocação não são suficientes, contava-me com a certeza de quem fala com conhecimento de causa. Uma causa própria que, irremediavelmente, guarda dores medidas. O tempo esgota as reservas da dor. Traçou-me o perfil do que havia desejado ser. Desenhou o percurso da profissão. Do profissional. Sem que, em momento algum, houvesse experimentado, guarda a certeza de que teria sido um dos melhores. Os superiores em quantidade e qualidade também se perdem. Sofrem o prejuízo antes mesmo de tentar. Depois, bem depois, cai em desuso. Em esquecimento falado. Fica, somente, no interior guardado.

10.2.14

Estórias de amigos. Com E, precisamente.

Para gáudio dos meus compinchas, proporcionou-se o momento há muito desejado. Avizinha-se um resto de mês e um princípio de um outro, pejado de jantares, provas, estreias e convívios. Concentrados, como se o ano tivesse perdido o querer. Temo que se trate de uma insolvência anunciada. Da minha vida social a caducar, precisamente. Ou, quem sabe, da despromoção de alguém. Temos casamento lá para a frente. Vêm aí anúncios ou despedimentos? Não nos lixem. Não há bem que sempre dure. Mas há tempo e vontade que perdure. Há sempre volta a dar. E estórias para contar.