O
compromisso entre o sotaque e o sorriso largo atribui-lhe qualidades que não
são sem vigor. Chega de cabelos bem desenhados, num cinza e branco bem
combinados, e acena com os olhos. São claros. O corpo é pequeno, magro, mas tem
trejeitos de fazedora de assuntos pesados. Os óculos graduados pendem peito
abaixo, fingindo-se seguros por um frio encarnado. No tom do que traz calçado. O
casaco comprido, para lá dos joelhos, dá-lhe um ar polido. Anda, mas parece que
balança. Dá saltos breves e divertidos. É singela no passo. Pergunta-me se pode
tomar-me com um abraço. Devolvi-lhe com o acto. E foi simpático, sensato e
sossegado. Apresento-me e diz-se conhecedora do que venho fazendo. Fiz,
corrijo. E sorri. Conhece-me pela prosa de outros que lhe foi chegando. Embora,
tenhamos tido vínculo com a mesma empresa, fez-se em tempos desfasados. Jamais
houve oportunidade de nos cruzarmos. Já gosto de si, atirou. E eu dela,
genuinamente. Encaminhou-me e levou-me para o que reconheço como um jardim de
inverno. Uma estrutura cosida a vidro, ligada a ferro escuro. A luz entra sem
remorsos. Faça chuva ou sol. Água miúda ou desgovernada. Calor trivial ou
descomunal. À volta, flores várias, variadas e nada resignadas. Pelo contrário,
feitas de vida. Por fim, sentamo-nos numas cadeiras grandes de braços,
estofadas com um tecido que imita o verde da mostarda. Daí, seguimos o trajecto
da conversa bem temperada. Algures, entre elogios sinceros e ambições um tanto
certeiras, outro tanto lunáticas, reiterou que entende as mudanças. A minha
inclusivamente. É o desassossego dos dias que promove e renova o que há-de vir.
Nisto, passaram tantas horas. Sem que houvéssemos pestanejado. Tanto que me vi
atrasado. Agradeci sem fim. Vamos ter tempo para criar. Devolve o primeiro
abraço, agora envolvidos pelo casulo de inverno. Levou-me, nos seus saltinhos característicos,
até ao carro. E acenou com os olhos. Vestindo o sorriso largo.
Mostrar mensagens com a etiqueta conversas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta conversas. Mostrar todas as mensagens
31.1.18
30.5.17
Prerrogativa de alguns.
A
vista condiz com o balão de gin que tenho à minha frente. A companhia também.
Somos três à espera do quarto elemento. Todos virados para o assombro que pode
ser um lugar aos pés de alguém. A altura não debota as cores, antes dá-lhes
vida, afina os traços e confere-lhes rigor. O mar parece mais azul, o pouco casario
finge-se imaculado. O azul vai bem com tudo (nota de redacção: sem qualquer referência clubista associada). Aqui
não é excepção. Daqui não fugimos à ilusão. Perpetramos o sossego de não ir
para além da prosa. Esta manhã, logo cedo, uma cara amiga gabou-me os ténis –
na verdade, não sei o nome que têm, não são ténis, não são alpergatas,
porventura um híbrido do calçado. Tipicamente veranais. Ao final da manhã, já
havia esgotado um tanto do que me esperava. A tarde foi um soluço dos dias e um
conhecido falou-me do meu bom ar. Agora, com a tarde a fazer-se velha, deleitado
com a companhia destes amigos. Já nem faço referência à vista. Que há-de estar
sempre ali, assim lhe seja feita justiça. Aqui, ao redor das bebidas bem
temperadas, com o quarto elemento já na teia, lembrámos como algumas conversas
já nos maçam. Como redefinimos o foco, a direcção do que nos acrescenta e do
que já não nos sustenta. Noutros tempos, talvez menos dotados de filtro. Mais
reveladores de uma imaturidade que não sendo flagrante, sobrevoava-nos. Temos
tempo para lembrar que o Benfica fez-se rei da época e também veste encarnado. A
última, ideia de um beto que não nega as raízes. Do berço cheio de modos de
peralta e do futebol dos vermelhos. Nele, entre risadas, assenta-lhe bem o
encarnado. Discutimos a influência dos outros nas acções de cada um. E do quão
tardo pode ser embarcar nessa rota. Enfim, a tagarelice de sempre. Com muita
carolice à mistura. Enquanto isto, o mundo ao redor não ferve tanto na banda
das coisas boas. Mas ao nosso lado, duas belas jovens trocam fios de flores
miudinhas. Cruzam as mãos e um beijo singelo. Nem tudo está errado. Quando no
meio de tudo isto, ainda há quem escolha viver.
15.2.16
Ora, atente no busílis.
Numa
sala de espera, os ânimos vivem cabisbaixos. A senhora da recepção não condiz
com o espaço. Um andar privilegiado numa zona central. Tem um ar desligado, a
fazer lembrar um inevitável inanimado cadáver. O cabelo incomodado, revoltado
com o mundo em geral, com o vento que faz lá fora de forma bastante particular.
Os óculos grandes, pontiagudos. Negros com salpicos encarnados. As unhas aludem
ao carnaval bem carioca. E o perfume de cheiro duvidoso toma o ar de assalto. A
janela é grande, desafogada, de madeira velha. O vidro aos quadradinhos mostra
a rua. Ora acinzentada, ora pelo sol visitada. Na mesa de apoio, revistas sem
fim. Amores de uma vida, zangas e rancores. Felicidade eterna, mágoas de
ocasião. Verdades secretas, mentiras repetidas. Nas cadeiras corridas, uma
senhora de cabelos brancos lê José Luís Peixoto. Marca as páginas com uma
andorinha de cartão. Ri-se para as letras e deixa acreditar que as mesmas lhe
devolvem afecto. A seguir, uma miúda alourada, de sardas disfarçadas. De
ouvidos ocupados, o pé num desassossegado movimento ao serviço do ritmo.
Invento-lhe um intérprete, porventura, Chromatics.
Lambe os lábios e finca os dedos na perna. Logo depois, um casal. Ele é grande
e esconde os olhos com uns óculos de sol bem redondos. Ela é estrangeira e
sorri sem que o aparelho que traz nos dentes a incomode. Parecem cúmplices. As
mãos enlaçadas. Ainda, neste rol, um homem sisudo. De barba rija, anel no dedo
e o jornal desportivo no colo. Enquanto observo, divido a minha atenção entre o
ambiente da sala e o telemóvel. Faço de conta que trabalho. Afincadamente, pelo
menos. Quero-me enganar. Escrevo e torno a escrever. Recebo e dou de volta.
Invento que termino depois. Espero. De lá da porta, há-de vir, quero antecipar,
um bom conversador. Alguém que faz milagres. Daqueles terrenos e quase
palpáveis. Que dá aos outros o contrário da ilusão. Para reservar e preservar a
saúde do bem geral. Oferece ajuda. O tempo passa devagar. Continuo atento na
sala de espera. A senhora da leitura coloca a andorinha numa página ao acaso,
no lugar certo, e fecha o livro. Dá um suspiro, chegou ao final da história.
Percebendo o olhar furtivo de todos, desabafa que lhe incomodou. Foi sugestão
de uma amiga. O autor é bom, mas a história é pior. Afoito, aproveitei a
oportunidade e perguntei como era isso possível. Simpática, respondeu-me que o
autor é verdadeiro e escreve como se a conhecesse ou, simplesmente, se lhe
ouvisse o pensamento. Escreve, entre outras coisas, sobre a morte. Sobre a
vida. Ela respirou ao longo de toda a leitura mas, acima de tudo, humilhou o
compasso da mesma. Imitou uma apneia sem fundo. Faz sentido, disse-lhe eu. Não
faz outra coisa, devolveu. Não faz, posso garantir-lhe, senão bater-nos no
coração, continuou. E, se não minto, o coração quer acção e reacção. A massagem
é perfeita para isso, terminou. Ali, naquela sala ocupada, cheia de outros,
esta mulher de cabelo branco, chegou ao fim de um remédio. Bateu-se contra a
dor, a favor do amor. Morreu-lhe alguém. Não perguntei quem. Foi ali, ausente
de privacidade, que o amor voltou. O amor sobrevivente de alguém ausente. Dar
luta ao vazio para que o conteúdo volte. Mesmo que a luta viaje nas palavras
escritas. Na ficção em páginas. Na imaginação de outro. Já passam das onze.
Venha de lá, é a sua vez. Dona Helena, professora em tempos, actual
sobrevivente. Guardá-la-ei na minha mente.
10.2.16
Em diferido. #44
Um café e um romance, por favor - Estás a pensar em quê?
Perguntou-me o homem de idade, cabelo grisalho e desportista nato. Não dispensa
caminhadas longas e uma certa dedicação à vida saudável. Eu não me lembro da
última vez que entrei no ginásio. Talvez passe o tempo de forma desencontrada
com a força e o vagar com que uma mão passa pelo cabelo. Não há afagos para o
corpo, rasga num mergulho inventado e faz-te homem em cada sentido. Crueldade
tamanha. Nada dói, ninguém esquece. Tudo dói, ninguém perdoa. Toma o café,
antes que arrefeça. Prefiro assim mesmo, disse-lhe. Também não coloco açúcar,
sou incapaz, continuei. Perdes o doce e amargo ímpeto da palavra numa chávena
branca, útil, mas básica, atiçou-me. Ri-me e olhei-lhe nos olhos. Para, se
possível, tentar perceber a mensagem. Imitei, no lado esquerdo, um olhar que
questiona. Ando a ler, voltei-me para a literatura, adiantou. Uma leitura que
fala de amor, desabafou. Enquanto eu pensava que, por ignorância, tenho lido
substancialmente menos, aplaudi-lhe a decisão. Conte-me, então, o que aprendeu,
entretanto, pedi-lhe. Pouco ou nada, fico-me pelas mentiras que vêm lá e
gabo-me por ter mentido pouco, disse-me. Isso ou soube fazê-lo, respondi-lhe.
Gargalhou. E, agora sim, tomei o café. Ainda vou vê-lo a imitar um romance.
9.12.15
Em diferido. #43
Um
almoço descapotável e um tubarão no presente de Natal - Dezembro que vem a
descobrir. Vem o inverno e o natal, sem defeito, em omnipresença. Ainda se
vestem os fatos domingueiros, os sapatos engraxados. Escolhem-se as maneiras de
estar fora de casa, não retribuem gentilezas, são feitos de votos de boas
festas. Hoje tive um almoço descapotável, avançou o petiz de palavras
desenvoltas, discurso harmonioso e buliçoso. Enquanto as mãos se ocupavam com o
camião do hipermercado, a máquina retroescavadora, o formula 1 e o carro
familiar. Definiu-os assim. Bem posso assegurar que não falhou. Nada, nem uma
letra da definição imaculada. Alguns, sofridos pela insegurança das mãos que
não procuram sossego. Escolhem a amizade dos actos que apaixonam com a proximidade
da infância que assim já chega. Saltos em altura, em comprimento e o perto que
nunca é chegado na pressa do entendimento. As mãos pequeninas, proporcionais.
Bichos-carpinteiros que não dão tréguas. Brinca, sentado à beira, sem convite.
Troca as pequenas réplicas de saltos em saltos. Boas intenções, aptas piruetas.
Malabarismo que transforma. É a mesa uma gigante pista, como escreveu num
pedido ao pai natal. Logo, sem esperar, avançou a pergunta necessária. – E tu,
já escreveste? – Não, pensei. E não escrevi. Diz que menti. No natal e na
cabeça saudável do petiz da brincadeira não há consoada sem natal e vontade na
carta guardada. Farta mesa e presente na lareira. Frio lá fora, noite acordada.
Sem saber, uma refeição não será, fora da imaginação, descapotável. Por seu
turno, sê-lo-á, assim entenda. Como o carro ligeiro que salta, alegre e
velozmente, sobre o camião que transporta as couves, o arroz e o atum. Petiz em
véspera de natal deliciou-se com uma saborosa e descapotável refeição. No
final, depois de nos despedirmos, chamou-me e saltando na minha direcção,
disse-me que era um coelho. – Posso ser um coelho no natal, não posso? –
Sempre. O ano inteiro. Voltou para a mãe gritando que era um coelho. Como tanto
do que rabisco com palavras, é tão real. Supera, aceito, a imaginação. Petiz
porreiro. Espero que pai natal não se esqueça da pista de corrida gigante com
uma boca de tubarão, igualmente enorme. Por graça, natal houve em que me
apareceu uma portentosa pista na lareira. Natal é ser coelho e gritá-lo sem
medo. Ah, e já agora, já sabe escrever o nome todo. Petiz valente. Natal com
presente.
1.9.15
Em diferido. #39
Sublevação
das gentes - Na sala por onde passei tantas vezes e que me lembro de olhar para
ele, passar os olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo
bem ou, escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que
sempre esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e
sem armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca
beliscam. Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao
pormenor. Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É
uma aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da
liberdade condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores
desprovidos de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer
valorização de um regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a
barbárie de um nome. Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução.
Acusam-me, alguns desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou
depois da revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me
frases feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas
décadas depois, tudo mudou.
11.5.15
Objecto desse entusiasmo.
Depois
de um bom livro, um passeio. Sol quente, pessoas no parque. Rua com boa cara, a
companhia que importa. Conversámos sobre tantas coisas, que tivemos tempo para
discordar. Alguém aventou que eu tenho tendência para, ora defender os fracos,
os pobres e os oprimidos, ora para apontar-lhes alguns pontos negativos.
Fica-lhe bem lembrar-se de um chavão tão ridículo. Julgava eu que vivíamos em
sociedade e que haviam termos tão obsoletos. É uma questão de integração, nunca
de evasão. Aliás, não vejo estatutos, profissões, contas bancárias, nomes
compridos ou outros critérios desse instrumento de medição inventado, quando
opino. Limito-me aos actos, à posição. Argumentos válidos e sentidos, chegam
sempre a bom porto. Deu o braço a torcer. À volta, continuava a cor e o
movimento tão típicos do bom tempo. Aqueles óculos de sol são extraordinários. Quem
os usa fá-los parecer os melhores. São quase redondos, sem serem círculos
imaculados. A dona coloca-os e tira-os. Volta a fazê-lo vezes sem conta. Parte
das madeixas do cabelo comprido caem-lhe sobre as lentes. Movimenta a cabeça e
espera-se que os fios entendam que devem seguir outro rumo. Tem vinte e cinco
anos e um rosto de miúda, um ar jovem e fresco, tão característico da idade. O
cabelo é claro mas o sol mostra que não há harmonia. Solta um ou outro tom.
Conversa com genica e nunca lhe falta assunto. Cruza as pernas e senta-se no
chão. Enquanto ri e mexe no telemóvel, diz-nos que sonha com o dia em que lhe
desafiem a subir um monte íngreme. Porque gosta da palavra que é sinónimo de
difícil de subir. E não tem medo de desafios. Também os quer a dois.
Aplaudi-lhe a conversa cheia de sentido. E, totalmente de acordo, dei-lhe toda
a convicção. Acredito nesse amor enraizado e nessa trovoada que testa os
limites. Vivendo-o ou não. Tenho, também, tendência para, entre tudo o resto,
acreditar num amor em tudo semelhante ao que os intervenientes imaginam.
Aproveita o sonho, miúda dos óculos cheios de pinta.
6.5.15
Quando for grande.
Não
foi jornalista, embora, seja formado precisamente nessa área, por implicação do
destino. Na verdade, não tem carteira de jornalista, porque nunca exerceu nem
em tempo algum fez questão de exercer. Acho mesmo que ele acredita no destino e
na necessidade de se moldar. De desenhar a mente e o corpo em concordância. Não
sei como é que ele faz, mas fá-lo com maestria. Tem mostrado simpatia entre a
mente que nunca sossega e o corpo que nunca tem tempo para parar. Parece
estranho, mas começa a fazer algum sentido, assim que conhecemos alguém como
ele. Nunca o vi apaixonado pelo jornalismo, mas gastava de letras. Fomos para
ciências pela abrangência e, naquela altura, pela necessidade de cortar
caminho. Contudo, tínhamos tudo bem delineado. Algumas coisas aconteceram,
outras nem por isso. Suportando-me nas suas teses, foi o destino. Como deve ter
sido essa combinação de circunstâncias que não fogem ao fado nacional, que o levaram
a viver fora de Portugal. Mais um amigo que vê o nosso país como berço, mas tem
o mundo inteiro como casa e vida. Falamos este fim-de-semana, depois de quase
um ano sem trocarmos uma palavra. É um cliché, e aborrece-me vê-lo assim, mas é
a verdade. Amigos há que nunca deixam perder a proximidade e o à-vontade.
Conversamos como dantes. Esteve no oriente. Agora numa Europa com sabor, que no
sul tudo é fervor. Mas já tem bilhete para terras de sua majestade. Volta no
verão, na força do tempo e das esplanadas que deixam colocar a prosa em dia,
beber com qualidade e ver gente a passar. Obrigou-me a estar por cá nessa
altura. Um café, um jantar. Às vezes, quando falo com ele, ameaço acreditar no
destino. Vindo dele, tenho a certeza, vou ter um ou mais jantares algures no
verão.
4.5.15
Uma pequenina luz.
Sempre
que a vejo de coração nas mãos, ameaço tirar-lhe uma fotografia e guardá-la
para sempre. Podia desenhá-la, pintá-la ou escrever sobre as sensações e as
reacções. Mas a fotografia está sempre ali. Com a geração da tecnologia, o caminho
é fácil, reduz-se o pensamento e escasseiam as dúvidas. Escolhes sempre a chapa
do momento. Que o céu é azul, que o mar é salgado e que Zé canta o fado, já
todos sabemos. Que ela é intimidade e verdade num enredo singelo, é outra
viagem. Perguntaram-me e respondi como da última vez. Volto a estar de copo na
mão. Agora, sentados na avenida da nossa terra. Voltar às raízes também é
segurar o coração com outra convicção. Porventura, aqui, perdem-se os receios e
as questões de um futuro breve. Não se temem as mãos trémulas e o coração
desamparado. Porque isso não acontece sem rede, sem protecção. Alguém lançou
que tinha pena de quem não tem para onde regressar. Lamentamos a cidade que é
berço e vida. Mas volto sempre à cidade que não é minha por um qualquer
desentendimento astral. Falho na escolha do vocábulo, por não acreditar,
tamanha a dúvida. Seguiram-se outras perguntas e a todas respondi da mesma
forma. Os amigos riem juntos e são felizes. Os amigos prestam-se ao silêncio
sem peso e são felizes. Vivam na raiz ou ganhem sustento num lugar que os
adopta. Quando voltava para casa, no carro, tive a certeza de que, de coração
nas mãos ou de risada despreocupada, hei-de querer guardar esta intimidade para
sempre.
23.4.15
A causa do fundamento.
Saiu-lhe
um palavrão sem pensar. O modo de viver que decorre do nascimento até ao ponto
final é digno daquela palavra. Qualquer dia ensandeço, viro costas e vou-me
embora, compro uma quinta que me faça perder o horizonte. Deixo-me ficar lá,
hei-de gozar o triplo. Dizia ele e não deixa de ser verdade. As opções existem,
falta a coragem, a insensatez e o desapego aos nossos. Lembrei-me desta
conversa enquanto ouvia música. Um som dos anos oitenta, se não me engano, de
mil novecentos e oitenta e dois. Está sol lá fora, falam-se dos altos níveis
dos raios UV, antecipando cuidados. Nas ruas há gente a viver as temperaturas
mais secas. Há chinelos no pé, t-shirt no lombo, calções sem condizer. Vestidos
fluídos às cores. Flores e riscas por todo o lado. Chapéus com fitas à volta
que ganham nomes tão técnicos que nos fazem parecer descerebrados. Também
importa, mas não interessa nada. Assusta-me a banalidade com que se abordam
certos temas. A facilidade em tomar a vida do outro pelo nosso olhar. O nosso
prisma, as nossas vivências vão, inevitavelmente, talhar as nossas opiniões.
Ficam inquinadas e, para sermos justos, não traz benefícios. Como a exposição,
tempo sem conta, ao sol. Sem protecção e sem juízo. A última é uma
característica deste homem, do mesmo que ameaça mudar de vida. É mais velho que
eu, habituei-me a escutar-lhe as estórias e a sabedoria. Talvez, seja essa a
procura de todos os dias. Uma das maiores, se quisermos. Pior do que não saber
onde estamos, é não saber quem somos. Não acredita em Deus, mas sabe que quando
lhe chegar perto, será, por demais, bem recebido.
21.4.15
Um café e um romance, por favor.
Estás
a pensar em quê? Perguntou-me o homem de idade, cabelo grisalho e desportista
nato. Não dispensa caminhadas longas e uma certa dedicação à vida saudável. Eu
não me lembro da última vez que entrei no ginásio. Talvez passe o tempo de
forma desencontrada com a força e o vagar com que uma mão passa pelo cabelo.
Não há afagos para o corpo, rasga num mergulho inventado e faz-te homem em cada
sentido. Crueldade tamanha. Nada dói, ninguém esquece. Tudo dói, ninguém
perdoa. Toma o café, antes que arrefeça. Prefiro assim mesmo, disse-lhe. Também
não coloco açúcar, sou incapaz, continuei. Perdes o doce e amargo ímpeto da
palavra numa chávena branca, útil mas básica, atiçou-me. Ri-me e olhei-lhe nos
olhos. Para, se possível, tentar perceber a mensagem. Imitei, no lado esquerdo,
um olhar que questiona. Ando a ler, voltei-me para a literatura, adiantou. Uma
leitura que fala de amor, desabafou. Enquanto eu pensava que, por ignorância,
tenho lido substancialmente menos, aplaudi-lhe a decisão. Conte-me, então, o
que aprendeu, entretanto, pedi-lhe. Pouco ou nada, fico-me pelas mentiras que
vêm lá e gabo-me por ter mentido pouco, disse-me. Isso ou soube fazê-lo,
respondi-lhe. Gargalhou. E, agora sim, tomei o café. Ainda vou vê-lo a imitar
um romance.
4.2.15
Em diferido. #27
A
berma de um Portugal igual - Na generalidade, que é por onde tudo vem, até ao
ponto da individualidade. Há pudor, como quando subimos a rua e desviamos o
olhar. É uma incerteza no contexto da mistura de vontades. Do receio de
enfrentar verdades. Há pudor em cada esquina. Como quando descemos a rua e
preferimos passar sem ver. Falávamos de sexo. Há pudor e uma sentença de
geração. Às vezes é preferível assim. Como se escolher desculpar-se com
palavras que embrulham velhas convicções, fosse a concretização. Quem cala
suporta a inexistência. Não voltamos ao tema em cada conversa. É a proporção da
necessidade. Alheia ou da interna trincheira. Mas elas assumem posição. Diz-se,
ouve-se por aí, são elas as mais autênticas no discurso. Mais próximas da
realidade. Eles enganam conforme a falta do que é imprescindível. Nisto, falar
de sexo é a berma deste país. Aponta-se o dedo, passa-se sem olhar. No fim, todos,
sem excepção, são aliciados. Da berma, riem-se para quem passa. Piscam o olho e
ajeitam o decote generoso. Até lá voltar e gastar o que sobrou. Há sempre quem
negue a verdade num tom majestoso, típico de quem não gostou.
22.12.14
Um almoço descapotável e um tubarão no presente de natal.
Dezembro
que vem a descobrir. Vem o inverno e o natal, sem defeito, em omnipresença.
Ainda se vestem os fatos domingueiros, os sapatos engraxados. Escolhem-se as
maneiras de estar fora de casa, não retribuem gentilezas, são feitos de votos
de boas festas. Hoje tive um almoço descapotável, avançou o petiz de palavras
desenvoltas, discurso harmonioso e buliçoso. Enquanto as mãos se ocupavam com o
camião do hipermercado, a máquina retroescavadora, o formula 1 e o carro
familiar. Definiu-os assim. Bem posso assegurar que não falhou. Nada, nem uma
letra da definição imaculada. Alguns, sofridos pela insegurança das mãos que
não procuram sossego. Escolhem a amizade dos actos que apaixonam com a
proximidade da infância que assim já chega. Saltos em altura, em comprimento e
o perto que nunca é chegado na pressa do entendimento. As mãos pequeninas,
proporcionais. Bichos-carpinteiros que não dão tréguas. Brinca, sentado à
beira, sem convite. Troca as pequenas réplicas de saltos em saltos. Boas
intenções, aptas piruetas. Malabarismo que transforma. É a mesa uma gigante
pista, como escreveu num pedido ao pai natal. Logo, sem esperar, avançou a
pergunta necessária. – E tu, já escreveste? – Não, pensei. E não escrevi. Diz
que menti. No natal e na cabeça saudável do petiz da brincadeira não há
consoada sem natal e vontade na carta guardada. Farta mesa e presente na
lareira. Frio lá fora, noite acordada. Sem saber, uma refeição não será, fora
da imaginação, descapotável. Por seu turno, sê-lo-á, assim entenda. Como o
carro ligeiro que salta, alegre e velozmente, sobre o camião que transporta as couves, o arroz e o
atum. Petiz em véspera de natal deliciou-se com uma saborosa e descapotável
refeição. No final, depois de nos despedirmos, chamou-me e saltando na minha
direcção, disse-me que era um coelho. – Posso ser um coelho no natal, não
posso? – Sempre. O ano inteiro. Voltou para a mãe gritando que era um coelho.
Como tanto do que rabisco com palavras, é tão real. Supera, aceito, a
imaginação. Petiz porreiro. Espero que pai natal não se esqueça da pista de
corrida gigante com uma boca de tubarão, igualmente enorme. Por graça, natal
houve em que me apareceu uma portentosa pista na lareira. Natal é ser coelho e
gritá-lo sem medo. Ah, e já agora, já sabe escrever o nome todo. Petiz valente.
Natal com presente.
9.12.14
A berma de um Portugal igual.
Na
generalidade, que é por onde tudo vem, até ao ponto da individualidade. Há
pudor, como quando subimos a rua e desviamos o olhar. É uma incerteza no
contexto da mistura de vontades. Do receio de enfrentar verdades. Há pudor em
cada esquina. Como quando descemos a rua e preferimos passar sem ver. Falávamos
de sexo. Há pudor e uma sentença de geração. Às vezes é preferível assim. Como
se escolher desculpar-se com palavras que embrulham velhas convicções, fosse a
concretização. Quem cala suporta a inexistência. Não voltamos ao tema em cada
conversa. É a proporção da necessidade. Alheia ou da interna trincheira. Mas
elas assumem posição. Diz-se, ouve-se por aí, são elas as mais autênticas no
discurso. Mais próximas da realidade. Eles enganam conforme a falta do que é
imprescindível. Nisto, falar de sexo é a berma deste país. Aponta-se o dedo,
passa-se sem olhar. No fim, todos, sem excepção, são aliciados. Da berma, riem-se
para quem passa. Piscam o olho e ajeitam o decote generoso. Até lá voltar e
gastar o que sobrou. Há sempre quem negue a verdade num tom majestoso, típico
de quem não gostou.
24.11.14
Algures num sumptuoso lar.
Não
me canso de gabar a sala de pé direito alto e elegante, o soalho de madeira
pesado que não deixa a desejar. As portadas largas, brancas como a decoração.
Os vidros, no fim-de-semana de Novembro a findar, ganham pingas a desenhar. A rua
fica lá em baixo, como se fosse a terra a definir. E gosto de ler, mas escolho
o sossego. Não é o caso. Agora, servem-se cafés e infusões. Não é chá porque
vem em latas reinventadas. Biscoitos e scones da padaria que agora é costume. É
um desenrolar de conversas sem fim. Sartre é tema em cima da mesa. Opiniões que
não se medem na informação vazia que percorre o mundo de circunstância. Antes
dele, falámos de Carla Bruni, recordações do seu tema “Tu es ma came”. Logo alguém se lembrou da letra e a cantarolou.
Mais depressa correram ao vídeo online e a saudade voltou. Fazemos da
informação e da canção o que delas nos aprouver. Caso não resulte, problema
resolvido. Compras mais infusões cuja marca nacional os reinventa e oferece
novos sabores. Serves, por fim, de bandeja com os sonhos e os dissabores.
20.10.14
O amor tem uma imagem em cada vivência.
Quando
era bem petiz, desenhar nos vidros pálidos da humidade era entretenha de
momentos mortos. Fazíamo-los vivaços e soberbos. Obrigávamos, se preciso, a
base de quem queria desenhar, a ficar tal e qual necessário. O inverno parecia
que entrava no jogo. Por isso, a sazonalidade trazia a lembrança. Não sei ao
certo, porque me lembro disto agora. Na verdade, antes de começar a escrever,
pensava na realidade que um amigo me contou. Está longe, algures nos meandros
de um país, embora, europeu, com oportunidades guardadas. Mas esse é o lugar, que
aqui é um pormenor de somenos. Ele contava-me que o amor era uma estratégia inútil.
Por mais que inventes e organizes as tuas vontades, misturar-se-á sempre o
descalabro do que guarda o teu corpo. O corpo pode tomar a condução da
entretenha, em detrimento, claro, da vontade de uma cabeça insegura e pouco capaz
de gerir, a partir da base, uma convicção. E continuou no desfio das questões
que lhe vêm roubando tempo. Não cedeu, por entender que assim devia ser. Havia,
contudo, um corpo a provocar. O seu. Porque as relações terminam. É o caso.
Agora, dizia-me ele, não se arrepende de ter castrado a aflição de ir mais
longe no ânimo que o corpo lhe oferecia de quando em vez. Questionar-se, por
seu turno, melindra-lhe a dor de ter gostado. Perguntou-me, por fim, a minha
opinião. Era grande o suficiente para não lha dar por escrito. Pequena,
porventura, capaz de se resumir a silêncio. Sinceramente, não importa o que lhe
disse. Mas uma coisa é certa, nos tempos e/ou momentos mortos, havemos sempre
de ter outras soluções. Ainda que, em algum momento, nos possam ter parecido
tão rudimentares.
30.9.14
Sublevação das gentes.
É na
sala por onde passei tantas vezes, que me lembro de olhar para ele, passar os
olhos e só guardar a moldura de um dourado gasto. Agora que vejo bem ou,
escolhendo melhor as palavras, agora que presto atenção ao quadro que sempre
esteve naquela sala, vejo nele uma recordação que alguns dizem longe e sem
armas para prevalecer numa sociedade em que os mundos confluem e nunca beliscam.
Nesta sociedade. Na falada sociedade do minuto. Contam tudo ao pormenor.
Sabe-se tudo a cada instante. É uma discussão que desconhece lugar. É uma
aventura de linguagem e comportamento. Fala-se da ditadura efectiva e da liberdade
condicionada com a mesma intensidade. Comparam-se termos e valores desprovidos
de ligação. Salvando a verdade, este quadro recusa qualquer valorização de um
regime ditatorial, antes de um povo que sobrevive sob a barbárie de um nome.
Mas é de um tempo que fugir nem sequer era solução. Acusam-me, alguns
desmemoriados, quando opino sobre o quanto este país ganhou depois da
revolução, de desconhecer a vida de então. Argumento e respondem-me frases
feitas. Um discurso com tão pouco volume, como acreditar que algumas décadas
depois, tudo mudou.
15.9.14
Assento de espera.
Um
banco de jardim, numa noite destemida, pode ser a equação de um grupo.
Juntam-se pessoas, num jardim da cidade, com o propósito de esperar e trocar
prosa. Noite longa não tem preceito. Tem a alegria e a sinceridade no peito. Saiu-lhe
a sorte grande. Como que dando elasticidade à sorte. Ao lado, sugerem que a
sorte não se mede. Acontece. Ou surge, ou nunca vem. Ou constróis, ou alguém
foge com ela. Ou trabalhas como se o mundo respirasse no compasso em que te
desenvencilhas na corrida pela sorte, ou perde-la para sempre. Para um sempre
que tem elástico como a sorte. Ao lado, um indivíduo desmente. O sempre não tem
tamanho. Tem distância. Saiu-lhe a sorte grande de saber esperar. Sempre e pelo
sempre eterno.
4.8.14
De soslaio num Algarve de agitação sem fim.
Praia,
sol de quando em vez, esplanadas carregadas de gente, conversas e bebidas
frescas, uma típica aragem de fim de tarde num dia de céu mais buliçoso. Pelo
Algarve de pessoas sem fim. No Algarve que vive o ano inteiro, mas exprime
excelso movimento por esta altura. Verão quente, como dantes. Verão desregrado,
como agora. Chegados ao portão grande, aguardamos que a câmara de vigilância
nos anunciasse. Aguardamos no carro. Havia sossego, do que nos era possível
entender. Contudo, esperar-nos-ia uma festa. Por fim, abriu-se o portão.
Entramos. Fomos recebidos e convidaram-nos a entrar. Bem-vindos, desfrutem. Disse-nos
o dono da casa enquanto nos encaminhava para o jardim, um patamar acima da
piscina. As colunas estrategicamente colocadas pelo espaço, salpicavam o
ambiente. O resto, quando for propositado, saber-se-á. De qualquer modo, não
deixou de ser um agradável amuse bouche
para o aniversário que se seguiria. Algarve, mar de qualquer destino.
11.6.14
Amor e um chapéu.
Nunca
usei chapéu da porta para fora. Talvez, como se isso fervesse importância,
porque o desconforto é superior à vontade. É tão absurdo como verídico. Como se
jogasse com valores ou tivesse qualquer validade para lá de uma simples vontade.
Lembro-me de usar um ou outro boné, ainda, um ou outro gorro. Usava-os em
circunstâncias pontuais. Podiam ser os mais caros e ter as marcas da moda a
gritar por todos os poros do que servia para cobrir a cabeça, que não me
tomavam qualquer paixão. Viessem de que ponto do mundo viessem. Em serviço da
verdade, embora, as tivesse a todas, as marcas, a dado instante, deixaram de
ser um todo. Talvez ficassem pelo acessório. Pousei-os algures, aos bonés e
gorros, e deixei-os para destino incerto. Em tempo algum voltei a usá-los. Mas
o chapéu é diferente. Não sei se desenho ligação com o facto de, há uns anos,
ter herdado um. Do meu avô. Era, para mim e para o meu avô, uma peça
importante, por diferentes motivos, claro. Não me esqueço, mesmo quando a
memória fraqueja, de vê-lo num dos quartos da casa dos meus avós, em jeito de
exposição. Qual obra de arte. Era um apontamento de uma decoração cuidada. Um
quarto, como outros, a ser de visitas, mas raramente usado. Raras, também, eram
as vezes em que, ao visitá-los, não passava por ele. Pelo quarto e pelo chapéu.
Também este, nunca usei. As razões, aqui, conduzem outras avaliações. Guardo-o
com estimação. Mas outros, havia de usá-los. Gosto de chapéus, sem explicação,
mas nunca os ousei usar. Lembro-me disto, se tem relevante sentimento, porque
partilhei, este fim-de-semana, a esplanada com gente boa e genuína. Entre essa
gente, estava um homem com bem mais idade do que eu, com uma pinta sem igual.
Daquelas de capa de revista. Barba cerrada, mas cuidada. Óculos de sol vintage, como se diz. E, claro, um
brutal chapéu. Inevitavelmente, falei-lhe de chapéus. E gabei-lho. Depois de me
passar tantos relatos, ficou de me levar a uma chapelaria de outros tempos.
Quem lá entra, apaixona-se. Que eu aproveite enquanto dura.
Subscrever:
Mensagens (Atom)