É
um compincha de idade maior, daqueles que já perderam parte da farta cabeleira,
onde os fios de cabelo que restam, já desbotaram. Junta aos olhos cansados, os
óculos suspensos no nariz. Com a distância perfeita, para que, nas letras
desenhadas no jornal, seja ajuda e compreensão, e para quando levantar o olhar,
seja desprotecção. Para que, sem oferecer grandes desajustes, enxergue com
atenção. Entre a conversa atenta e a leitura demorada do jornal, ia-me falando,
divagando nos pormenores, estórias de outros tempos. Ligações de uma vida cheia
às composições das reportagens de jornal. Acredita na formação dos jovens. A
sina castra oportunidades. A intuição e vocação não são suficientes, contava-me
com a certeza de quem fala com conhecimento de causa. Uma causa própria que,
irremediavelmente, guarda dores medidas. O tempo esgota as reservas da dor.
Traçou-me o perfil do que havia desejado ser. Desenhou o percurso da profissão.
Do profissional. Sem que, em momento algum, houvesse experimentado, guarda a
certeza de que teria sido um dos melhores. Os superiores em quantidade e
qualidade também se perdem. Sofrem o prejuízo antes mesmo de tentar. Depois,
bem depois, cai em desuso. Em esquecimento falado. Fica, somente, no interior
guardado.
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4.6.14
19.2.14
Também os temos.
A
banda sonora vale sempre o que vale. O que eu escolheria ouvir em modo repetido
até à agonia, para outros fará parte do top
que compõe a vetada listagem de guilty pleasures.
Vale, a sério que vale, sempre o que vale. Mas, arriscaria escolher um tema
para, uma vez mais e, repetidamente, não parar de tocar, lá ao fundo. Enquanto
os dois, absortos, falávamos de livros. De histórias de amor, de sexo bruto, de
escrita que se suporta em factos históricos. Também nos livros, os guilty pleasures têm espaço. Não estamos
de acordo em tudo. Felizmente. Ela gosta, entre outros estilos, de romances que
aconchegam, por mais que não encerrem nada. Eu prefiro outras leituras.
Concordamos, depois, noutros aspectos. Tão mais relevantes. E são pormenores.
Valem o que lhes quisermos ofertar de valor. Prefiro ouvi-la argumentar. Não
tem valor. Acreditem, não tem.
4.2.14
Memórias quentes. Senhoras e senhores.
Não
ficamos presos à velha discussão, jamais. Somos adultos e gente de espírito
livre. Razoável, pensamos sempre. Não nos centramos nas evidências. Avançamos
para lá disso. Engraçado, o tema surge à mesa, à esquina, no entretanto,
algumas vezes. O calor, real impulsionador das tertúlias. Das conversas até
tarde, até altas horas. As mulheres, os homens. Os defeitos, as virtudes. As
capacidades, as incapacidades. O talento, o desalento. O pensamento, a ausência
dele. A forma, o conteúdo. Tudo. Falamos de tudo, sempre. Senhoras e senhores.
Senhoras ou senhores. Todos. A todos serve os adjectivos e proposições. Não
generalizamos. Definimos ainda menos. Ficamo-nos pelas evidências. Por hoje,
por fim. Contrariando, ficamo-nos pelo irrevogável. Senhoras e senhores. Ambos.
24.1.14
O sol (já) brilha.
Numa
qualquer ruela de cidade distante, apequenada no terreno, bebericada de
mexericos, rica em tradições e gente genuína de rumores opinados, de gente que
trabalha as terras, quando não lhes roubam os terrenos e as enxadas. O verde
que refulgia a direito, esconde o abandono pervertido. Sob um sol que se impõe,
mas não aquece. Nessa ruela, bastam quatro cadeiras e duas mesas de esplanada jogadas,
rústicas e desajustadas, acomodadas à porta corrida de uma casa que já fora
conhecida como o retiro espiritual de senhores de bem que, em casa e causa
próprias, deixavam as legítimas, as esposas. Por ali, para lá da porta apagada
com marcas do tempo, fumavam-se cigarros e charutos. Baixavam-se calças, caídas
sobre botas rudes e subiam-se saias plissadas enquanto o decote ganhava emoção.
Bebiam-se vinhos e águas que ardem ao cair. A escadaria, depois do balcão maciço,
convidava a um outro nível. Dizem, escutavam-se barulhos vários. Arrastavam-se.
Hoje, que o sol brilha e bate neste prédio alto de janelas relevantes, que o
devolve sem problemas de consciência, à porta está uma mulher com perto de
trinta e seis anos, arrisco eu. Cabelo corrido e pouco escovado, as mãos
escondidas nas algibeiras de um casaco quente. O rosto cansado e um sorriso
tímido. Dois dedos de conversa e contou-me o que, durante décadas, por ali
aconteceu. O sol fugia, nesses anos. Pedi para a fotografar, envolvida pelo
prédio que me convidou a atenção. Sorriu, envergonhada. “Só se não sair daí”, da minha máquina, entenda-se. E não vai sair,
garanti-lhe. Pausei, entre a conversa buliçosa, para tomar um café. No final, a
mulher que toma conta, contou-me que, em tempos, naquela rua sobressaía bem
mais a chuva, a chuva de quem chora sem tempo. Do que o sol, que perdia. Choravam
sempre as mesmas. As que ficavam para dentro das portas, debaixo de corpos
grosseiros e as que, à porta, esperavam os mesmos corpos.
9.1.14
Um café e um abatanado, por favor.
Noutro
lugar, voltamos a pedir, não o de sempre. Alguma surpresa. Foi o mote para uma
conversa há muito desejada. Sem pensar, aconteceu. Desenrolamos e partimos numa
narração sem fim. Eu falei. Ela falou. Eu contei-lhe e situei-a. Ela
informou-me e corroborou. Somos aquilo. Somos o que contamos. Somos, fidedignamente
o que partilhamos. Não fomos o que viemos vivendo. A distância dos últimos
tempos que, por esta altura, dissipou-se, foi a razão para tudo isto. Noutro
ambiente, noutra mesa de café. Ao canto, junto aos azulejos. Com verdade,
falamos. Com vontade, olhamo-nos. Naqueles minutos, que desconheço, não
sentimos ninguém. Por fim, reparamos. Havíamos pedido um café. E um abatanado.
16.12.13
O velho que diz favor.
Todos
os dias que a semana tem repetidos, que o sei naquele mesmo lugar. No mesmo
banco e mesa. Lê o jornal, sempre o mesmo nome. Bebe água, chá ou aventura-se
no café. Evita o último, razões da tensão alterada. Escreve, com tinta azul, num
monte de folhas brancas. Alguns rabiscos parecem-me poemas. Nas suas costas,
descansa a fiel amiga e companheira, uma bicicleta elegante e arranjada. Ele,
quando não ignora tudo e todos, fala. E, a cada pergunta, termina com um por
favor. Às vezes, traz chapéu. Não fuma, pois o tabaco chateia-lhe os pulmões,
conta encantado. Tem olhos claros e cabelo grisalho. Usa perfume e camisas.
Arranja-se para não envergonhar a companhia, a elegante bicicleta. Já não se
senta nela. Leva-a pela mão. Tem-lhe respeito aos ossos. Senta-te aqui um
destes dias e falamos. Por favor. Sugeriu-me.
13.9.13
No carro.
É,
em todo o tempo, um lugar de conversas e partilhas. É, descomprometidamente, um
espaço de viagem e comunhão. Assim, sem posições ardilosas ou falsos moldes. É
nele que surgem dúvidas e se colocam questões. Onde nos rimos, contamos e
escutamos. É, igualmente, no carro que acontecem trocas de palavras singelas, humildes
e ausentes de prestígio. Fomos, os três, juntos, no carro dela. No regresso,
perguntávamo-nos quando a última vez que choramos. Todos se lembram. Quase
todos. Há excepções. Há sempre quem se desvie. Há sempre quem não seja regra.
Mas, mesmo assim, todos choramos. Também no carro. Porque, regra ou não,
acontece. Quando somos palpáveis e genuínos.
11.9.13
Tenho um amigo.
Num
bar, largas horas, entre amigos e imperiais, constatamos que, raras vezes, as
pessoas se dão tal e qual como são. Sem defesas ou apoios. Nunca podemos
julga-las conhecer totalmente. Tantas vezes, as próprias, desconhecem-se. Na
essência, no todo. Tenho um amigo que, por esta altura, está longe e, meses
antes de ir embora, tomou coragem e contou-nos. Terá sido mistura de coragem
com incapacidade de gerir, por muito mais tempo, a verdade. Tenho um amigo que
julgava conhecer. Tenho um amigo que, quase dez anos depois, foi sincero.
Ainda, de roda das imperiais, tivemos a certeza, nunca o conhecemos. Nunca o
conhecemos por inteiro. É diferente. Não necessariamente melhor ou pior. Tão
naturalmente diferente. Tenho um amigo que, só muitos anos depois, se sentiu
capaz de ser ele. Não lamento só agora o conhecer melhor. Lamento,
sinceramente, os anos que perdeu. Os anos que deitou fora, por incapacidade.
Lamento, todos os dias, não ter sido sempre ele.
21.8.13
A senhora da vivenda. A mesma do jardim.
O
portão automático abriu, depois da campainha soar. Do lado de lá, um jardim
infindável, recusava mostrar o piso zero da vivenda. Um bonito e bem tratado
jardim. Muito trabalho e horas de entrega, estão espelhados ali. Entre o
colorido das plantas, surge uma senhora. Conta, com certeza falsificada, com
mais de setenta anos. Arrisquei para mim. Sorriu-me. Pediu-me que entrasse.
Fi-lo e retribui-lhe o sorriso. Dois beijos. Gabei-lhe o bonito jardim. Estava
à minha espera. Indicou-me o caminho para o interior da casa. Disse-me o nome.
Perguntou-me o nome. Seguimos para o salão. Ao centro, uma imponente e
portentosa lareira, ladeada por uma, não menos imponente estante. As paredes de
um amarelo pálido, os sofás ao centro. Sentamo-nos. Ali, à conversa. Foi
simpática. De estilo simples e despreocupado, fomos conversando. Temos, vim a
saber, pessoas em comum. Até aqui, desde que mostrei gostar do seu jardim,
explicou-me tudo. Lamenta a quantidade de água que despende. Vive, aos setenta
anos que lhe atribui, sozinha. Naquela casa. A rua, as pessoas, as suas
plantas, o seu jardim, são, com um sorriso, a sua companhia. A cada dia, não
dispensa sair e ver. Todos os dias, com verdade, mantém a necessidade de
socializar, muito viva em si. A senhora que tem uma vivenda é, também, a
senhora que tem e cuida de um bonito jardim. Não obstante, vive. Vive para lá
do portão automático. E gosta de viver. Gosta de ver pessoas e interpelá-las.
Gosta de tudo isso, quando, do portão para fora, não se refugia no jardim.
19.10.12
Saí à rua.
Não quero cair na repetição mas, neste momento, é inevitável. É impressionante a forma displicente com que tratamos aqueles e aquilo que gostamos quando nos encontramos bem e felizes. Por essas alturas recusamos a necessidade de outros e recuamos aquando da verdadeira vontade de nos encontrarmos. É infalível. É recorrente. Não vale a pena contrariar. Por seu turno, quando estamos mal e infelizes, não raras vezes, corremos atrás daquilo e daqueles que negligenciamos e que optamos por colocar à margem da nossa vida. Somos assim, mas não somos iguais. Não quero generalizar, porque caímos sempre num perigo que não merece a pena, mas somos, tantas vezes, assim.
Enfim!
Situações rotineiras à parte, não resisto mostrar um excerto de uma conversa (sim, conversa é o termo correcto neste contexto) que tive, há uns tempos com uma senhora absolutamente encantadora. Não vou, de momento, mostrar na íntegra, porque, a seu tempo, esta conversa tomará outra vida e outro espaço.
"Saí à rua" e contaram-me isto:
"A dona N. é uma senhora septuagenária, que recusa esconder a idade e assume, entre risos, a pessoa que é mas, acima de tudo, a mulher que foi. Entre fado e risadas, apresenta-se sempre no seu melhor e recusa ser politicamente correcta."
...
"Voltamos à risada fácil mas verdadeira e ao tom melodioso na voz, entre uma e outra memória. Disse-me que rir e cantar é a grande e maior herança que havia recebido da mãe e, de mão posta garantiu-me, fez por guardá-los para sempre. E cumpriu, não tive dúvidas."
Gosto da dona N. E vocês?
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