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20.8.14

Sensibilidade no lugar certo.

O fundo é tão verão como um fim de tarde ventoso, uma maré agitada ao fundo, o sol a espreitar e a espalhar pequenos espelhos pela água, o casario pintado de cores vivas e diferentes. Aquela gargalhada, se quisermos uma valente risada, enquanto as duas mãos se juntam e esboçam, tanto quanto lhe é possível, um coração. A maldade do tempo é que, se procrastinarmos, ele fia-se no nosso balanço desassossegado e ajuda-nos a perder vontades. Ela nunca percebeu a necessidade de devolver às mãos, um coração. Seja amostra do carinho e tentação palpitante do seu coração, seja a pretensão de que o de alguém, ali ou distante, lhe pouse, vaidoso, entre os dedos. A risada era tão sonora e descia pelo corpo que respondia com movimentos que mostram incapacidade de resistir. Desmanchou-se, sem remédio, o coração inventado. Lamentava-se, entre risos e o desajusto do corpo, nunca ter feito uma fotografia com o coração nas mãos. Cruzou os braços e posou, desencontradas, as mãos. Uma em cada ombro. Já está. Uma fotografia. Um coração no lugar certo. Vai continuar, felizmente, sem viver com o objecto do afecto nas mãos.

20.2.14

Absurdo como aparatoso.

Se sossegarmos o espírito, ganhamos margem e terreno. Permitimo-nos pensar, lembrar. Recordar, de fisga lançada às memórias. Arremessando-lhes assertivamente. Tão gráfico como doloroso, quantas vezes. Incontroláveis, as memórias equilibram-se no âmago da intempérie. Acontecem, é certo, sem que as convoquemos. Porque, neste mês, que há muito me habituei a ouvir que é mês desastroso, peganhento e de maus fígados. Aceito, precisamente, por ter sido num distante mês de Fevereiro, que me disseram que o meu avô havia partido. Havia morrido. Primeiro, ao telefone, a dona Gracinda desfazia-se em desculpas mil, para a demora do meu pai e para a ausência da minha mãe. O meu pai que tardava em apanhar-me no fim de mais uma manhã de aulas. Estranhei, inevitavelmente. Mas, em tempo algum, suspeitei. Atrasado, o meu pai chegava com a minha mãe e a minha irmã mais velha. Aconteceu assim. O resto, de tão íntimo e assustadoramente expectável, não merece relato. Foi, precisamente, no mês que corre, que o meu avô morreu. Um homem de palavra e dedicação. De família, sempre. De camisas e calças de tecido fino altamente engomadas e vincadas. Os sapatos impecavelmente engraxados, outras vezes, brilhantes. Sem dispensar os relógios. Um é meu para a eternidade. A postura hirta, algo elegante, o passo certo e firme. Da cortiça que lhe guiava o trajecto profissional. A pedreira também lhe preencheu o design da carreira. Com intrepidez, não se limitava a gerir, arregaçava mangas quando preciso. Um homem, um profissional. Sem artifícios. Sou suspeito, bem sei. Não lhe herdei os olhos claros. Somente porque não tinha que ser. Ganhei-lhe outros hábitos e feitios, quero acreditar. A morte é uma ressecção. Mantém-se a moça, mas arranjam-se medidas compensatórias. Contrario-me, pois, lamentavelmente, não acredito na compensação. Arranjam-se, então, medidas de salvação e continuação. Nos meses todos que se seguem. Sem intermitência. Para sempre. Foi neste mês, todos estes anos volvidos, que ouvi que o meu avô havia morrido. Foi neste, podia ter sido noutro qualquer. É uma merda. É, sem metáforas, uma merda.

20.1.14

Arranha-me o coração.

O Manel, de coração dorido e melindrado da angústia de tanto esperar, sonha com o dia em que vai dizer, de convicção na voz, amo-te. Sonha com a oportunidade de alguém, que não o gato ou a varanda a descoberto, o ouvir dizer, gosto de ti. A alma, de tão cansada e perdida, esqueceu-se de pedir, ao mesmo tempo, de escutar, também ele, um gosto de ti, Manel. E sonha. Acalenta a alma, desta forma. Contudo, em iminente desistência. Pesado, até chegar o momento, se esse chegar, permitindo-se duvidar, vai pintando a aguarelas, em telas deitadas. Pinta as almas às cores, define ele. Assim, acredita na felicidade estendida aos salpicos, sobre o branco inócuo. Conhece a diferença no corpo. Também por isso, sonha com o dia em que, apenas, sobrando as almas, o deixem conjugar, dizendo em viva voz, o verbo amar. E, peço eu, lhe deixem ouvir um sincero e conjugado modo do mesmo verbo. Amar.