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9.6.20

Coquetel e torpor dos sentidos.

Perdi a conta às conversas online agendadas no último trimestre. Imperativo da época, sob pena de atentarmos, desde logo, à sanidade e, no mesmo terreno, à amizade. Nada que, nos tempos globais, não seja prática. Como, de resto, já vinha sendo. Afinal, amigos a usar dessa escala é, por demais, habitual. Agora, a distância impondo-se de somenos. E, consumidos pela saudade, ideamos os mais urdidos eventos. Gente com disposição de espírito e extravagância quanto baste. Não fracas vezes, acompanhados por uma taça de vinho, ou garrafa, conforme o arrebatamento. Estoutro amiúde sugestão de um dos convivas, letrado em enologia. Confesso tolerada frustração por, até aqui, não me mostrar disponível para me fazer melhor conhecedor. Enfim, questões tamanhas se apresentam, como uma aventada por um amigo. Assume ele, e não desminto, é feito de humores, mas acima de tudo, de humor. E, com uma arma tremenda entre mãos fê-la sempre prioridade. Na roda de amigos, mas e com outro vigor no investimento que sempre emprestou ao amor. E, esta arquitectura mais ou menos trôpega valeu-lhe, a todos os momentos, a sorte grande. E tudo bem. Mas, não esquece ele, o confinamento traçou-lhe um quadro bastante atípico. Perdeu a graça, avança. Já não partilham risadas dilatadas como dantes, nem experimentam uma dose menor, porém confortável e saborosa. Os silêncios – massa tão valorosa entre duas pessoas que se gostam – ganharam peso e presença residente. A relação que há pouco começara padeceu dessa circunstância. Afastando o corpo e, pior, o interesse. Longe que estou de travar-me entendido nessas matérias, antecipo um diagnóstico que em nada reside no humor, antes na fragilidade do que ambos viviam. As relações são um património, os próprios e os adquiridos. E não confio num aspecto concreto e irrefutável, para atestar o ponto final. Aceito a necessidade de comprovar um erro, para ilibar a seguir. Somos gente e alicerçamos em solecismo. Não é novo o desmoronar, mas é com estupefacção que o olhamos e sentimos. A ilusão, coisa legitima, de que quando partilhamos com o outro, somos uma massa comum, indissociável. O amor, quem o não tem. E quem o não perdeu. Força, caríssimo. A labuta apenas começou.

24.5.17

Moralmente salutar.

As desventuras dos outros, quando terrivelmente pesadas, não têm graça. Só as leves e com airosos acontecimentos associados. Pode parecer o fim do mundo, mas é momentâneo. Nos dias seguintes já ninguém recorda. Senão o protagonista. E esse, uns passos à frente, também já esqueceu. Ou guardou num lugar onde é fácil arrumar. Voltar lá e lembrar. Rir com alguém traz um prazer desmedido. Não importa o motivo. Principalmente com gente inteligente. Esses apuram os sentidos. Podes ser tu a personagem principal, pode ser o outro. Resume-se a minudências que não carecem de discussão. Como há dias, num jantar de amigos, em que alguém perguntava por uma antiga conviva. Só as memórias, de tão felizes, nos fizeram rir e guardar a certeza de que temos de nos juntar todos novamente. Hoje cruzamo-nos, eu e essa amiga, nas redes sociais. Vamos sabendo da evolução das vidas de cada um conforme partilhado. A distância física é tramada. Mas era uma amiga daquelas que faz a festa. Onde e com quem for. A diversão era garantida. Desde o primeiro minuto até ao último segundo. Como naquela noite, já lá vão uns anos largos, numa saída de amigos, em que o parque das nações foi pequeno para tamanha e efusiva excitação. O jantar bem regado. Na discoteca, o pé leve e dotado para a dança. Do que me lembro, pois sei que fiquei à conversa com uma jovem senhora que, embora no mesmo grupo, conheci naquela noite – Bastante interessante e cheia de prosa fluida e com garbo. Mais velha do que eu, profissional activa e apaixonada por viagens e, também por isso, dona de uma pinta sem classificação - Nessa noite, antes da discoteca passámos pelo Casino Lisboa e a minha amiga animada deixou-se prender na porta giratória. Feriu-se, mas felizmente sem gravidade. Mas não deixou de desfrutar. Na discoteca, nas escadas de acesso ao WC, fomos dar com ela feita em lágrimas, com um dos sapatos na mão. No fundo, estávamos todos à espera. Gozar a vida parece fácil mas, não poucas vezes, somos traídos. Apesar das advertências, ela insistiu em sair para jantar connosco. Foi o primeiro contacto com o ex-namorado, também nosso amigo, e com actual namorada da altura. Engolir em seco não é para todos. Mesmo para os festivaleiros de serviço. Depois disso já me ri com ela, sobre isto e outros assuntos. Hoje é uma mulher realizada. Casada, mãe e profissional. Agora dança a roda da vida com um tipo genuinamente bom, que a ama e cuida. É a prova de que o quotidiano se veste de fim do mundo vezes demais, mas que não é a garantia de nada. Ontem caímos, hoje somos mais felizes. De preferência, entre risos e gargalhadas pejados de ganas. Rir contigo é melhor do que rir sem ti. Pode ser sobre mim, pode ser sobre ti.

16.5.17

Trabalho preliminar para (a)testar o amor.

Conheço quem se debruce, não poucas vezes, sobre as questões do amor. Uma espécie de laboratório caseiro. Mas eficaz, garante-me. Um prédio, uma rua, uma empresa ou um espaço dançante, tornam-se, à sua mercê, numa bolha, cujo objectivo máximo é o estudo do amor. Parece irreal, mas é pura verdade. Conheço-a o suficiente para me fazer crente. As suas palavras são um irrepetível esboço de uma putativa tese. Refuto vezes sem conta, mas é na partilha que nos deixamos ficar. Entretemo-nos horas nesse desafio opinativo e assertivo. Gosto dela, da sua sinceridade, da coerência e, inevitavelmente, da forma despojada como aborda este e outros temas. Baseia-se, afirma, nas suas experiências. Depois, galga terreno com o que a sua vista alcança. Com a percepção que lhe chega. Com os relatos que ouve. A profissão, parece-me, ajuda. É uma mulher atenta, inteligente, astuta, cúmplice e uma excelente oradora. Recorreu a todas e a nenhuma no momento em que decidiu que havia de conhecer o vizinho do primeiro andar. Rapaz garboso, sem horários, com um bom carro e que aos fins-de-semana dava valentes festas. Acabou por confidenciar que a primeira vontade foi envolver-se numa tórrida e furtiva relação, mas que a segunda era bem mais imperativa: Acabar com as festas do primeiro andar. Tanto quanto me lembro, a primeira vingou com facilidade. A segunda fez-se demorada. Cá estamos nós os dois e mais uns quantos amigos, num sítio que gostamos de repetir, entre copos e conversas boas. Ela lembra que é uma incansável estudante das vicissitudes do amor. E que, por isso mesmo, é uma mulher incansavelmente insatisfeita. Quando isso mudar, chega ao fim o seu maior passatempo. Gozar a vida como se de um romance de fim de tarde se tratasse. Garanto que gostava de ver o amor com os moldes das novelas que a minha avó guarda lá em casa. Ou como os variadíssimos volumes de romances que a minha mãe foi acumulando. Gostava. Mas é mentira. Não me coube em sorte a crença de que o amor se reproduz em cada esquina. Ou num qualquer primeiro andar da vida.

11.4.17

Combate corpo a corpo.

Chamar-lhe pelo nome próprio ou pelo último, muda tudo. Um amigo de longa data, desde os primórdios das descobertas de cada um, faz-se, ainda hoje, amigo próximo. Apura-se a amizade nas pausas do desassossego dos dias. Corre-nos algures uma massa que é similar. Toleramos o avesso do excedente. Partilhamos noites bem regadas, tardes bem passadas. Manhãs escassas, mas bem aproveitadas. Levamos neste trajecto as nossas vidas cruzadas. Ele, que o trato sempre pelo último nome é um tipo inteligente. Mas carece de menos emoção na hora de experimentar o sexo, de viver o sexo. Sequer chego à paixão, amor ou paixoneta. Tampouco às relações com duração superior a oito horas. É o tipo que, há alguns anos, decidiu inscrever-se num ginásio para, segundo o próprio, chegar-se à linha da frente do acontecimento físico-emocional. Numa frágil certeza de que o cupido andaria mais próximo por aqueles lados. Com ele, fui eu e outros tantos. Era a necessidade de expressar no corpo as entrelinhas do intelecto. Soa estranho, assumo, mas é risada desde lá. Escusado será dizer que dali não saíram senão corpos mais ajeitados e a psique mais aliviada. Hoje continua o mesmo. Visita frequente do ginásio. Bambo nas certezas das relações. Não investe porque julga o fim antes de tudo começar. Não oferece tempo porque teme o depois antes de viver o agora. Procura ficar nas noites rápidas, ao invés dos dias demorados. É um amigo de quem gosto bastante. A inteligência vive numa luta constante com os sentimentos. Embrulhados como num intolerante às águas revoltas. Já lho disse e ele ri-se. Conversamos sobre tanto que, às vezes, este parece um pormenor irrelevante. Mas não é. Assistir à dor que este modo de viver lhe infringe é a prova. Espero que a M.C., amor de perdição dos últimos tempos, consiga navegar neste turbilhão. Embora nessa viagem, meu bom amigo. Fico a assistir e à espera do brinde.

14.2.17

Narração histórica.

As letras garrafais de um jornal renomado a lembrar a necessidade de conjugar o amor e o sexo. Esqueceram outros condimentos e deixaram erros ortográficos bem latentes. Ler um romance. Ler sobre o romance alheio. Parece brincadeira de criança, lembrar que ler é jogar com as palavras e as ocasiões. Aludir às memórias mais recônditas e ao presente desnutrido. Como se do outro lado tudo funcionasse sobre um caminho de felicidade eterna. Ainda se escrevem romances e, quer-me parecer, continuam a ter saída. Mesmo que o resumo seja a tragédia. Encontrar noutros, mesmo que fictícios, o amor ou o desamor que já nos acompanha ou que nos deixou, é facilitar a concretização que a necessidade de sentir aguça. Imaginar o outro é menos pedante do que viver o eu. Tiro um café, deixo ficar. Sem mácula, à espera que arrefeça. Dispenso o açúcar, prefiro temperar com a demora. Ligam-me de uma empresa, com voz exagerada, a dar-me os bons dias, a pedir que lhes dispense minutos e responda a um questionário breve. À minha frente, alguém sorri e pisca-me o olho. Pedi que fosse célere, perdi na aposta. De volta, devolvi o sorriso. À minha frente, já de jornal entre as mãos, dizem-me que o amor finge ser tão frágil de abordar que o preferem ao sexo. Desenganem-se as almas iludidas. O amor pesa e não é para menos. Apostam nele por sugerir dispensar tantas armas. Perde o sexo, que não entra na corrida. Tenho dificuldades em aceitar as generalizações, as opiniões superficiais. Há que oferecer tempo ao tempo. Não sei quem ganha, mas fica sempre o sexo como o perdedor precoce. Por fim, entre a prosa matinal susceptível de dissensão, tomo o café temperado.

1.2.17

Cálidos acontecimentos.

Deixei cair o meu telemóvel nas escadas de casa. Fez o percurso esperado, degrau a degrau, até ao soalho final. Deixou mazelas físicas, graves. Das irreparáveis e capazes de contusão feroz num qualquer coração dotado de sensibilidade. Não foi o caso, que sou avesso à partilha de sentimentos avulsos, a antítese de um basbaque a todo o tempo. Brinco, mas não desminto. Isto, dias antes de ser confrontado com o relato magoado de uma traição. Não a frio, que já me havia relatado a separação, bem como, a fragilidade e o olhar mais caído, que denunciaram. Estou longe de ser o que aponta o dedo, o que reclama pela verdade alheia. Cumpro-me nas minhas convicções, acções e reacções, fugindo à badalada e profundamente desleal necessidade de lembrar que não estiveste bem. Longe de defender ou promover a traição, seja em que termos e condições, afasto-me dessa tentação do facilitismo, da corrosão ainda mais vincada do outro. Prefiro opinar em última instância, apenas e só, se solicitado. Nessas alturas, recuso a mentira, mas escolho a prosa alinhavada com as palavras que aparentam ser as mais confortáveis. O olhar baixo, vindo de alguém tão próximo, a dor de magoar o outro, não me deixam indiferente. Também por conhecer o outro lado e, sem cerimónias, lhe atribuir uma genuína forma de estar, uma entrega e um sorriso que desmontam putativas dúvidas. Se me perguntares, agora e só agora, dir-te-ia que não me revejo na atitude e que, relembro, neste instante e só neste, não mimetizaria. Porque quero sempre encontrar a solução ideal. Mas não me iludo, essa não existe. Quiçá, no momento seguinte, me veja trôpego e ceda à minha verdade. Nessa alegoria às relações perfeitas, desmancham-se objectos e objectivos a cada passo. A metáfora não magoa, mas a palavra balança nessa recta que amedronta o desfecho. O subjectivo é desvalorizado e as marcas da queda são relevadas. Se te segue a culpa, não deixes que o espírito perca. Nessa definição das relações, a perfeição arde antes mesmo de existir. Um passo atrás para garantires dois adiante.

27.6.16

Em diferido. #50

Início  de citação - Ouve-se o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor. Gosto do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e meio. Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á brincar com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é o tipo que já calçou VANS, como se o mundo fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem desmérito, ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como noutras, alguns pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda, há largos meses, a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados atraentes. Uma defensora acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de cabeça das antigas. Até ao momento em que percebeu grande parte do que falámos nessa noite e que, inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque, primeiro acontece, depois porque exige partilha. O argumento de direita que está do outro lado é, por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum, sequer se imaginou que uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão bem. O amor acontece, pelo menos, até ao fim da citação.

2.6.16

Numa espécie de corrida a favor da psique.

Faz tempo, numa saída madrugadora, junto ao rio, numa tentativa desleal de fazer o corpo mexer, fomos conversando. Na companhia de dois, fomos, literalmente, à vontade do vento. Para lá, para lá onde quer que isso seja, até que chegássemos ao ponto certo. Com o corpo fatigado e a mente em liberdade. Não se conheciam, foram por mim apresentados naquele instante. Ele pensa no que já fez, no que alcançou e no que vive. Maldiz da chefe, que o incomoda pelo menor. Antes disso, ele sonhou que chegaria a qualquer estado, próximo do que vem experimentando. É verdade e comprovado. Vai voltar a estudar, fazer uma especialização. Não quer amor, senão uma ou outra relação. Das suas estórias pseudo-amorosas, - a definição com as devidas aspas, - conheço de um todo. Das juras de infidelidade à prova que o sexo por si, não aguenta uniões. Parece desorganizado, mas fica pela aparência. Quem o conhece já lhe entende as linhas e os espaços desnudos. Ela, um pouco mais velha do que nós, mostra maturidade no discurso, até na postura. Mas, ao contrário dele, não se esgota no que aparenta. Cai, aqui e ali, num discurso pesado, de quem vem ganhando pavor aos acontecimentos. Independente, atrevida e recta atitude do corpo. Sonhou, pelo menos desde que a conheço, com o príncipe encantado. E aprecio-lhe a ingenuidade. É tão sincero, que não merece perder a oportunidade. Envolveu-se, tanto quanto vem contando, com tipos mais velhos, em boas posições profissionais, cujas relações não vingaram. Até chegar ao que se apresentou como o tão esperado homem encantando. Juras de paixão intermináveis, trocas de alianças, apresentações à família e amigos. Viveu, começo a acreditar, uma excepção. Teve o que sempre pediu. Contudo, não foi eterno. Primeiro a desavença que ninguém sabe, depois a morte que ninguém conheceu. Não invejo ter razão e contra mim falo, mas os príncipes não saem da imaginação para a vida real, materializando-se no que a outra pessoa procura. No máximo, ficam-se pelo encantamento de aceitar partilhar o quotidiano, o corpo e a mente. Enquanto for verdadeiro, mesmo que redefina o sentido de sempre. O até aqui pode, muito bem, ser um autêntico e saboroso trecho da nossa história. Sem prejuízo para a fantasia do para sempre.

24.3.16

Reunião de gente boa.

Imagino Mozart a irromper, numa sinfonia completa. Entre vinhas vistosas e verdejantes. O soalho é terra de verdade, pisada pelos senhores sabedores e pelos analfabetos da situação. Corredores e mais corredores, tantos sem fim. Imagino galerias, que por ser lerdo, permito-me inventar e largar na mais profunda errata. As folhas têm toque de rainha abismada. E os cachos são límpidos e certos. O ambiente compõe-se, assim, ao jeito de uma sequela da sétima arte. Devolvemos a passada e é acontecimento de verdade. O horizonte é infinito e perdemos a herdade de vista. De costas para a quinta, imaginamos o norte, que os olhos já não alcançam a arquitectura esbranquiçada adornada com a pedra escura. Vamos ao jeito da vontade e da curiosidade. Conhecer e, se possível, aprender. Lá em cima, logo à chegada, um copo servido com o vinho que ganha fama de qualidade. O mote para aguçar a necessidade de saber mais. A convite de uma amiga, agora senhora erudita da vinicultura, lá fomos à descoberta. Lamento, sempre que o vinho partilha a atenção da refeição, não saber mais sobre os processos empregues na sua feitura, assim como, na evolução que o desenvolvimento da qualidade vem sofrendo. Foram, com certeza, umas horas de excelsa convivência e aprendizagem. A suficiente, espero, para não me perder numa próxima. A mesma amiga, cicerone de serviço, impecável na sua posição, foi-nos falando da actualidade. Desmente os rumores, não admite casamento. Largou tudo na cidade, o noivo, a apatia e a infelicidade. Pensar que esta jovem mulher fora, em tempos, vítima de uma relação absolutamente nefasta. Embora, recusasse o semblante lutuoso, foi, a dada altura, perceptível o mal que vinha causando. Física e, por demais, psicologicamente. Agora, brindámos ao sucesso, à vinha rainha e ao amor-próprio. De copos bem servidos, ao alto, rimos de muito. Neste instante, oiço Mozart e não me engano. A música de grau elevado favorece o guião. A ti, ao vinho bom e ao amor que é libertador. Cheers!

23.2.16

Locutório à mercê.

Aquele aloquete atiçou-me a memória. A parede branca, imaculada. A porta de madeira, num castanho vestido de chocolate, meio gasta, de ranhuras descobertas. Numa espécie de armário. De apoio ao jardim. Noutros tempos, um jardim tão cheio. Hoje, inteiro e cuidado, perdeu alguma da variedade. Onde tudo era felicidade e candura. Onde, nesta altura, é simplicidade. Tudo muda, já me lembrou a minha avó. E não mentiu. Que dela, tratando da saúde às plantas do jardim ou bebericando um chá e saboreando levemente um bolo fino, as palavras saem com a mesma dimensão. Sem que recorra a artefactos para dilatar o discurso. Tudo muda, então. Como a C., agora uma mulher prevenida, mas disponível. Uma amiga de longo curso. O G., patrono de uma filosofia de franqueza, de ideias liberais. Até ontem. Amizade mais recente, sem que isso belisque a importância. O que não surpreende é o facto de, há uns anos, o afamado dito sentencioso ter surtido efeito. Inevitavelmente, os opostos atraíram-se. E o balanço foi, sem desprimor, fazendo sentido. A C. e o G. apaixonaram-se e viveram, enquanto possível, um amor às direitas. Ela, um tanto altiva, quase arrogante. Que, no fundo, resumia a fragilidade da autoestima. Ele, desprovido de afectação, dono de uma simpatia e proximidade naturais. Foram cedendo em pontos fundamentais. Outros, mais artificiais. Como numa metáfora, a distribuição parecia fazer-se ao ritmo certo. Até à desarrumação final. Nesta rotina de casal, inverteram-se os papéis. Os opostos mantêm-se. Mas mudaram de lugar. A C. já não aguenta as conversas chatas. O G. aprecia um serão a ouvir relatos sobre viagens de barco, a dimensão das velas e o sentido do vento. A eles, assumidamente, incomoda. Inclusivamente, exerce influência no trato entre ambos. A nós, amigos e espectadores, pouco importa como conduzem, mas preocupa-nos o trajecto. As pessoas alteram minudências, aguçam pormenores, aprimoram o feitio, limam interesses. Sufocam-se e deixam-se sufocar. Em nome de algo, de alguém. Deixam-se enlear num fio tão emaranhado que perdem o foco. A essência do que vieram construindo. Preferem esconder, a ter de avançar a solo. Preferem forçar o aloquete que já não existe, a cometer a tentação. Não devemos, em tempo algum, perder de vista a realidade. Neste jardim, ontem e hoje, não há quem cuide dos males, senão os próprios. Ao contrário do jardim da minha avó. Os anos passam, e a afeição e a adoração são as mesmas. Bons amigos, esqueçam o resto e aproveitem a bonita janela de sacada que têm mesmo à vossa frente. Não há inspiração melhor do que o sol nacional e a conversa entre o casal.

7.12.15

Ladeira acima.

Ligo-te depois, avisou-me a mensagem que fiz esquecida. Travava, no instante, uma luta verdadeira. Querer e fazer. Ladeira acima, a calçada insinua-se húmida, os ténis laranja forte, azul concentrado. New Balance, um pouco da tua atenção. Ladeira acima, o pensamento consome. Quão hipster me parece esta ideia. Havia de ganhar coragem, voltar atrás e, de novo, entrar. Chamam-me atrevido, se avançar. Ladeira abaixo, invertendo o meu sentido, vem uma camisa carregada de beijos, uma mala de um amarelo gritante, uma saia mexida e uns sapatos de menino, não fosse a moda um entendedor que basta. Um cabelo longo de madeixas bronzeadas. Um peito hirto, um decote reservado. Sorri com convicção e os óculos escuros obrigam a adivinhar-lhe toda a expressão. Menina bonita, de passo acertado e flores na mão. Trouxe de um amor preso no coração ou leva para o destino dono da paixão. Ladeira abaixo, não resisto e levo, na sua direcção, o olhar. Lá vai ela, dando os bons dias. Aqui e ali. Acenam-lhe e devolvem a simpatia matinal. Por pela hipster montra passar, da minha vontade tornei-me a lembrar. Quão confuso é pensar, insistir e  não actuar. Ladeira acima, lá vou as ideias a juntar. Jogo assim, para desta ideia me livrar. Olha que a rima no momento do acaso, soa mal mas ajuda a avançar. Bom dia, oiço junto ao ouvido. Bom amigo, que oportuno encontro. Conversa passada, pergunta-me por ela. Diz-me, sem pausa para responder, que já não há casamento. Arranjou um trinta e um. Vai ao sabor do vento. Optou por um bigode e sexo constante. É relativamente incerto, mas não lhe falta humanidade. Certamente, dono de outra liberdade. O tempo voa, até mais ver, bom rapaz. Ladeira íngreme e sem fim. É o ponto de partida. Chegado ao carro, um anúncio de cartomante sapiente. Ri sozinho, livrei-me da publicidade. Já decidi, não levo flores, não defino o bigode. Deixo ficar a barba de dias, os ténis juvenis, a carteira no bolso e o carro no jardim. Leva-me para onde quiseres, fala-me ao ouvido e não leves a mal. Quão hispter pode ser a montra de alguém. Ter a certeza, viver sem receio, sem pensar no eventual desdém. Liga-me quando quiseres. Se a paixão ainda respirar, levo-te um coração a palpitar. Um ramo de flores, a promessa de voltar.

29.10.15

Dérbi (mais ou menos).

A boa gente não se perde, tampouco se esquece. Os bons amigos partilham clubes rivais, muito menos outras coisas. Discute-se sobre o Benfica, os seus e os fracos resultados. Acredita-se com a fé de quem é adepto. Discutem-se medidas que urgem. Não se maldiz, que cai mal. Mas pede-se coerência, mudanças no terreno. Jogar-se nas quatro linhas com o poder e a confiança que se esquece fora delas. Sugerem-se mudanças de posição, até mesmo de jogador. Lamenta-se a actualidade, não se esquece o passado. Surgem gordas nos jornais, caras lavadas, mãos sujas pelo que por elas vai passando. Lembrei-me, a propósito, do antigo compincha de mesa de café, que lia o jornal todos os dias. Uma e outra vez, se necessário. Que, bem me lembro, algumas letras e palavras lhe custavam a entrar. Do Benfica, sempre o discurso mais sincero. A alma deste homem envolve-se com a essência de adepto. Às vezes, de voz no tom certo, desdenhava as actuações, mas não passava da necessidade de arremedar outras núpcias. Muito me diverti com ele, nessas conversas avermelhadas sem fim. Nisto, fica-nos o amor e a cabana. Havemos sempre de a eles voltar. Agora, em frente ao espelho. Ensaiei o nó da gravata, mantive o colarinho subido. Cansei-me da ideia. Mas há sempre quem mereça a pena justificada. Amigos porreiros, tipos convictos. Mesmo que vista verde e branco e cante as suas razões. Nó impecável, fato escolhido a dedo. Embora jogar. E que a sorte dite as regras de um futuro que se espera feliz. Ide, ide.

6.10.15

Início de citação.

Ouve-se o som típico da rolha a saltar. O vinho há-de descansar. Arregaçam-se mangas de camisa. Deixam-se de fora os botões de punho. Não faltam as t-shirts simples, a ganga sempre amiga. Gosto do amor descomprometido, lixado às vezes, conforme as vontades e disforme conforme as necessidades. Gosto daquele amor que pisa as entranhas, do mesmo que repele as palavras bonitas. Gosto do amor que faz sentir, vibrar em cada toque. Mesmo que do outro lado esteja um argumento de direita ferrenha. Gosto do amor que tem sexo e do sexo que só pode ter amor. Gosto do amor que tem fim, porque gosto ainda mais do amor que tem principio e meio. Não foram, taxativamente, estas as suas palavras, mas ele permitir-me-á brincar com o vocábulo que expressa sentimento, dar-lhe volume e corpo. Este é o tipo que já calçou VANS, como se o mundo fosse aquilo. Ainda os calça, que insistimos nos ténis. Aprecio, sem desmérito, ouvi-lo dissertar sobre o amor. Partilhamos, nesta matéria como noutras, alguns pontos conexos, outros nem tanto. Somos amigos, em suma. Anda, há largos meses, a catrapiscar uma jovem senhora. Bonita, de torneados atraentes. Uma defensora acérrima da sua posição política. Para ele, uma dor de cabeça das antigas. Até ao momento em que percebeu grande parte do que falámos nessa noite e que, inopinadamente, aqui publico. Só gosta do amor porque, primeiro acontece, depois porque exige partilha. O argumento de direita que está do outro lado é, por agora, o motor disto tudo. Nunca, em tempo algum, sequer se imaginou que uma coligação tão inusitada quanto esta resultasse tão bem. O amor acontece, pelo menos, até ao fim da citação.

7.7.15

Aperfeiçoar até ao extremo.

As saudades de ver e conviver, ao invés, de ficar por telefonemas rápidos ou mensagens escritas, são o mote. É verão, assim chega o pretexto para marcar vontades pendentes. Nesta altura, acontece as agendas dilatarem. Aceitei o convite, avançamos numa sugestão de última hora. Grandes janelas, parece um aquário. À volta, fora as janelas, um ar tão americano que parece estranho. As cores, o chão, os móveis e os acessórios. O empregado prestável, num português compreensível. Entre a carta e o pedido, vamos conversando. Pergunta por novidades. Nenhuma, pois já as havíamos contado. Sem que lhe provocasse, diz-me que não vai casar. Nem ontem, nem nunca. Por pudor, adiei a questão seguinte. Mas desconfio que o seu feitio dedicado, a sua postura rude e a consciência no lugar certo, a afastam de relações duradouras. De, eventualmente, relações que justifiquem o casamento. Têm medo, diz-me enquanto ri. E, nessa lógica de raciocínio, é bem provável que seja verdade. Não é fácil, numa sociedade aquário, viver fora de órbita. Ser uma mulher convicta e actual, em detrimento, de parecer uma mulher normal. Quer usar saltos altos, uma LV na mão, o cabelo arranjado, lábios encarnados e uma saia ao mesmo tempo que exige sexo com prazer e solta um foda-se. Ainda, se lhe apetecer, quer calçar umas sandálias, levar uma alcofa ao ombro e uns calções daquela loja das massas, enquanto bebe um gin ao fim da tarde. Não te estragues, boa amiga. Vai levando com gosto, que não te cansas. Aquários há, que têm espécies de alto requinte.

18.6.15

Sustento das emoções que se reinventam.

Cheguei da praia. Há coisa reduzida de tempo. A areia no lugar, o mar a ondular. Corpos ao sol, crianças a brincar. Lembrei-me de ti, dessa vontade quase insensata de adiar as férias. De voltar depois. Porque o corpo ganha hábitos, a mente perde-se no prazer que imagina. Faz sentido, não fossem as saudades enormes. À distância, mantemos a conversa, às vezes cara-a-cara, numa ironia profunda. Como se um vídeo oferecesse humanidade. Outras vezes, numa escrita desenvolta. Desta vez, optamos pela última. Escrevemos, escrevemos muito. E não há adágio que me salve. Que me demoro na prosa. Salvo raras excepções, demoro-me com os que me importam. Devolvem-me o mesmo. É assim. Por mais que nos canse, este intervalo entre dois pontos da geografia, é a única opção. Os amigos, homens e mulheres genuínos. Que abrevio caminho garantindo que, em pausa da modéstia, me dou com tipos bons. Gente boa. Esses amigos foram para lá, mas continuamos cá. Depois da prosa demorada, é que te perguntei por outras coisas. Primeiro o amor. Voltámos sempre ao mesmo. As emoções, as reacções físicas, a ambição de chegar ao outro. A faculdade de discernir que se perde. Questiona-se se o amor é paixão. Se a paixão é o amor a escovar os sentimentos. Vai à aventura. Talvez já saibas. Daqui a uns tempos, já saberás responder. Perguntar-te-ei antes que tudo se é amor.

4.6.15

(Silêncio) O que é não desaparece.

Depois de uma longa e animada conversa desligaste a chamada, sem necessidade de puxar pelo poder de argumentação. Tampouco de voltar à matemática feliz. Nunca gostei particularmente de matemática. Ou, para ser fiel, simpatizei durante longos anos com esta disciplina, sem qualquer desmérito, que as notas falavam por si. Até ao momento em que me desliguei e decidi assumir que antes de paixão, era dedicação. Isto, para me lembrar que sei mais do que o sustento obriga. Números e outras matérias provenientes à parte, assim que desligamos a chamada, voltei ao hotel. Àquele hotel, enquanto esperava por ti. Tomo muita atenção, quando não estou envolvido noutros pensamentos, nas entradas dos hotéis. É um espaço de gente díspar. É disparate, dir-me-ás. Mas é verdade. Gosto de observar, de ver passar, como bem sabes. Oiço, furtivamente, uma mulher lamentar o silêncio. Tem a maçã ao lado, vestida de dourado. No mesmo banco, uma mala com as iniciais de uma referência do mundo da moda. A alta-costura também ali tão próxima. Mexe no cabelo comprido e solto, e gesticula com vagar. Deixei de escutar aqui. Prefiro observar a ser bisbilhoteiro. Vocação que admito não me servir. Era bonita, tinha um ar arranjado. O homem que a acompanhava olhava-a em silêncio. É, precisamente pelo silêncio, que tudo isto me prendeu a atenção. Prezo, não raras vezes, a interrupção da comunicação. Tenho o maior respeito por quem fá-lo sem remorsos. Sem cobrar. Aprecio ao mesmo nível, a partilha. A conversa que nunca tem fim. Encontrar alguém que, para além de partilhar a vida, a rotina, a intimidade, o corpo, os gostos e os desgostos e ainda o silêncio é, por demais, difícil. Chegar ao momento em que o silêncio não é constrangedor numa relação, é um alcançar um patamar de excelência. Não preciso de te ouvir para te entender. E isso eu sei.

25.5.15

Narração dos acontecimentos.

Podia contar-te uma história. Dizer-te que o sexo é sempre um compromisso e que amanhã será a realização de todas as convicções e ilusões de hoje. Pedir-te que acredites como se tivesse esse direito. Porque é o amor, sempre o amor. Ou a necessidade física a ir contra a questão fundamental, a lealdade. Estava a pensar nisto, depois de me cruzar com ele. Conheci-o através de uma amiga muito próxima. Foi-me apresentado já como seu namorado, embora, tenha ouvido algumas coisas sobre ele antes de o conhecer. Na boca dela, querida amiga, era um tipo alto, bonito e inteligente. Era formado em medicina e era de boas famílias. Era calado, mas tinha sempre a palavra certa. Imaginei uma capa de revista e nessas, reza a história, há muito pouco conteúdo real por onde apalpar. Mas acabámos por marcar um jantar de amigos. Não foi difícil identificá-lo, pois entrou com ela e as informações anteriores pareciam estar correctas. Boa amiga esta, verdade seja assinalada, sempre foi bastante pragmática. O homem de todas as relações, aventa ela e eu não digo que não. Confirmou-se, então, a timidez. Ainda assim, e sem darmos por isso, foi fazendo cada vez mais parte do grupo. Até ao momento em que numa das vezes em que ele ia tocar para nós, serão garantidamente longo, e ela chegou sozinha. Chegou ao fim, o espectáculo de cordas e o namoro. Estive com ele depois disso um punhado de vezes. Soube fazer as coisas e, ficou-se somente, pelo lamento do fim da relação. A boa amiga tomou outro rumo, porque sexo é incompatível com a necessidade de sinceridade que uma relação exige. Estamos num bom caminho, estamos a conseguir ser fieis a nós. Com a verdade me enganas. Não obstante, podia contar-te uma história.

20.5.15

Idiossincrasia do comum mortal.

O terror acontece. Ameaças vender a alma, apenas e só, com a esperança de que esse fogo, por ora quase extinto, regresse e com as chamas vivas te queime até à alma. Porque é o pensamento que não te dá descanso. Dás crédito porque, teimas com a maior força e insistência e acreditas com piedade que não sabes viver de outra forma. Rasgas fotografias que tinham tomado lugar de honra e espaço de qualidade na decoração, partes este ou aquele objecto. Violas tudo aquilo em que acreditaste até aqui. Ela passa a mão pelo cabelo comprido. Sorri e leva o copo à boca. O amor não tem outra coisa, senão data de validade. Um total de horas, minutos, segundos. Viveste, cada uma delas, cada detalhe deles, à tua maneira. Mesmo que neste instante, tudo se assemelhe, por demais, a um enredo característico de telenovela. Geres a dor ao sabor do Instagram onde a outra parte insiste em mostrar vida e coloca uma fotografia em que te cortou. Era a memória de uma viagem boa. O amor quando chega ao fim tira humanidade. Contudo, não rouba dignidade. Estava a ouvir-te relatar os últimos momentos dessa relação, cara amiga, e só te pude parabenizar no momento em que me dizes que bateste com a porta. Metáfora batida, mas convicção na medida certa. Só fiquei feliz por ti nesse momento porque, como vieste a admitir, esse não foi o método final da relação. Foi, bem sabemos, toda a relação. Baralha as emoções, joga outra vez. Tal como o terror, o amor também acontece. Beijo. Cheers!

9.4.15

Quebrar com força.

Podes fotografar esta ponte. Aquela ponte. Ou outra qualquer. Podes fotografá-las a todas. Podes, se tiveres interesse e perspectivas várias, fotografar a mesma ponte sempre e em cada dia. Podes fotografá-la sobre o tabuleiro. Podes, se assim entenderes, fotografá-la cá de baixo. Se gostas de estar sozinho ou com alguém, é pormenor. Tem maiores artimanhas na objectiva e na edição. Desprende-te disso e foca e desfoca, sem pensar ou remexer na actividade do editor. Podes também, se não te causar enfado, fotografar todas as pontes por onde passes. As grandes, as pequenas. As altas ou as de baixa estatura. As longas ou as de pouca extensão. Resume-se à tua área de expressões. Precisamente sobre uma ponte, enquanto sais para longe, toca-te o telemóvel. Do outro lado, o lamento de mais uma relação que chega ao fim. Sem forçar ou culpar a idade, a efemeridade tem patamares. Nas relações, por certo, não será diferente. Depois, coisas há que se repetem. Só lhes falta, desta vez, um lustre vistoso no centro da sala. Vai lá e concerta a ruptura. Se assim tiver de ser, não há ponte que não alcance.

24.3.15

A completar.

Fecha os olhos, compreende enquanto escutas e sentes, aquilo que te chega e se propaga corpo acima, corpo abaixo. Enquanto leve, sem maneiras e funcionalismos do pensamento, ela leva as mãos ao cabelo arrumado. Contudo, cabelo da moda, mesmo arrumado, denuncia uma flagrante e nada inocente desarrumação. Enquanto ela veste o seu casaco com quadradinhos sem fim. Enquanto se perde num passeio ao ar livre, sobre as suas botas rasas. Enquanto permite que partilhes a cama com ela mais do que uma noite. Ainda que, todas as noites inteiras sejam tão pouco. Enquanto ela se preocupa em dar-te a conhecer o melhor que já lhe passou. Sabendo que uma relação inteira proporciona, por demais, pouco tempo para dispensar uma mostra da prosa e poesia que lemos, das peças sobre as tábuas de um teatro e da arte em geral que se multiplica pelo cinema, museus ou na rua de um país. Tudo o que adquirimos, aprendemos, vimos, vivemos e intuímos juntos. Tudo isto é o amor a propagar. Mesmo sem palpitarmos. Perdemos um tanto, se olharmos para o lado. Perdemos a faculdade do amor, se não sentirmos o verdadeiro. O entusiasmo de ontem.