Mostrar mensagens com a etiqueta ela. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ela. Mostrar todas as mensagens

30.1.18

Não adianta retirar em debandada.

Sentámo-nos na relva bonita, sobre as pernas trocadas. Desafiando a agilidade, temendo desarticular as articulações. Mas tudo bem. Sentámo-nos sem preceito, mas de feição. Com o sol a ferver no rosto, a queimar a pele um tanto franzida, a melindrar os olhos e a afagar os corpos inertes. Mas tudo bem. Sentámo-nos sobre a relva húmida, quase molhada, com os nossos melhores jeans. E eu, imaturo, com os meus mais recentes ténis. Mas tudo bem. Fixámo-nos, ora nos nossos rostos, ora em pontos menos fortes. Às vezes certos, outras feridos pela luz certa e pela miopia dos nossos dias. Mas tudo bem. Falámos sobre as nossas vontades, os nossos projectos e as nossas trivialidades. Ainda dos nossos defeitos e das nossas trôpegas acções. Mas tudo bem. Rimo-nos de felicidade, de lágrimas livres e de estômago aflito. Do presente e do que se fez passado. Mesmo que tenha sido pesado. Mas tudo bem. Pegámos na máquina fotográfica analógica e inventámos os movimentos, as caras e os desenhos. Soubemos depois, ficámos saudavelmente ridículos, caricatos num bom par das fotografias. Mas tudo bem. Decidimos o que havia de ser o jantar, o lugar e o vagar. Desistimos por amor aos nossos, recém-chegados e ansiosos por largarem num frenético discurso, discorrendo sem paragens. E monopolizando o ecrã com os milhares de fotografias que vêm para recordação. Mas tudo bem. Se o nosso destino for, entre outros, também este, encontrámos a comparação do clima. E só pode estar tudo bem.

17.4.17

Nove horas e parcos minutos.

Devo trazer um ar agastado, o rosto por ele desenhado. A afirmação de uma noite que se fez longa, da companhia que não dá folga. De uma semana que lhe antecedeu e foi demorada e trabalhosa. Logo me assomei à rua, pergunta quem me espera se a noite, para além de longa, foi boa. Devo ter esboçado uma resposta breve. Trago os olhos vestidos pelos BOSS de todas as paragens. O corpo temperado sobre os ADIDAS que são novidade. O perfume que foi uma oferta acertada. O relógio, cuja bracelete entrança-se num cinza inocente, invariavelmente, no pulso direito. No carro, deixo que o jazz desenhe o ambiente. E não podia ser melhor. Soa como não há explicação. Em resposta ao som, dizem-me que sou requintado. Largo um sorriso vistoso. E insiste que sou bem desenhado. Que invisto sempre no outro lado. Não será totalmente verdade, mas deixo-me acreditar. Passa a mão esquerda na minha perna direita e o silêncio aconteceu. Falou sem cessar, sem da palavra precisar. Nisto, já o jazz cedeu o lugar. Agora temos reggae. E a atmosfera não esmoreceu. Inverteu e não deixou ficar mal. Sou a garantia de que a extensão dos gostos vive em harmonia com um só ser. Com um corpo e uma mente bem ligados. És como sempre foste, deixou fugir. Mesmo que o sempre tenha começado há um nada de dias. Mesmo que o sempre venha de longe. Isto, a propósito do mistifório que engendro na forma como estou e sou. Chegámos. Espero que termine a chamada. Estão à nossa espera. Num espaço recentemente inaugurado, simulando um duplex improvisado. Os metais são as teias que o seguram. Nunca a arquitectura serviu a metáfora de uma forma tão singela e, ao mesmo tempo, tão certeira. Um passo atrás, deixei-me ir. A acompanhar, a vê-la caminhar.

9.2.17

Pronome pessoal com divinas honras.

Encontrei, entre um tanto de coisas, uma fotografia. Devo tê-la deixado ficar por ali sem propósito. Devo tê-la tirado há uns valentes anos, não arrisco um número, por me ver frágil na contabilidade dos dias e na sinceridade das distâncias. A negro e branco, num estilo desalinhado entre o compromisso de reproduzir por meio de fotografia e a vontade de guardar amor. Facilita ver-me convidado a fotografar pelo impulso. Já naquela época era assim. Vê-la, resumida numa silhueta de tons cinza, pela força da luz de um fim de tarde. Ao lado, o gato no mesmo tom, de olhos claros, a inverter a posição. A janela gigante favoreceu o encanto. Os prédios altos, finos, compostos por janelinhas que jamais terminavam. De costas, com as pernas cruzadas debaixo do corpo, sobre a cadeira estilizada de madeira. O cabelo desarrumado e a beleza natural. Resumia o movimento com a mão repetida sobre o gato que inventava um sorriso de puro deleite. Deixei-me ficar, por temer prejudicar o ambiente. Deixei-me ficar ali, quase inerte, numa folga do pensamento, a apreciar. Peguei na máquina dela, por estar mais próxima e cliquei. Uma e outra vez. Ganhei uma imagem sem legenda. Recebi em mãos, meses mais tarde, num envelope grande, bonito e com escritos, a dita fotografia. Noutro lugar, noutra vibração, mas o beijo de sempre. Encontrei, entre outros valores, uma fotografia que não tem explicação clara ou sucinta. O mote para o desfiar de memórias e de afectos. Lembro-me, sem excepções, de cada segundo. E não minto, se deixar fugir que só guardo o que me acrescenta.

26.11.15

Em diferido. #42

Encher de letras o entusiasmo - Parcimónia silvestre, num travo doce. Amarga surpresa, travessura agreste. Tem nome com cheiro, se quiser pensar. Tem o tom de voz equilibrado, se quiser ouvir. Tem o toque certo na pele, se quiser sentir. Tem aromas sem fim. Tem olhar atento. Joga com as metáforas, compara com a simplicidade da insanidade. Rima e, em tempo algum, havemos de ter outra certeza. Destrói o conceito, insiste na reacção. Fala com a boca, mas quem pensa é o coração. Tem fuga nas entrelinhas, mas escreve fortaleza com os olhos. Fala fluentemente, opina com densidade. Eloquente diária, o pensamento da idade. Não tem definição, não sei se é amor ou paixão. Tinha eu, num passado tão presente, a certeza de que rimar com frequência ou particularizar feitios era sinal de paixão de arromba ou de flagrante demência. Questiono-me sobre a intimidade da desfocada definição. Olho para ela e escrevo sem pensar. Ambiciono uma qualquer dança nesta troca. Em tempos, rir-me-ia da banalidade e franqueza das palavras. Havia de poupa-las, para não estragar. Não brinques com a entrega alheia. Homem bom recebe o dobro. Havia de segreda-las para não gastar. Olho para ela e escrevo sem as ideias ordenar. Escreve, jovem rapaz. Olha para ela e guarda a paz. Não é fácil amar ou apaixonar sem a razão sofrer e melindrar.

4.6.15

(Silêncio) O que é não desaparece.

Depois de uma longa e animada conversa desligaste a chamada, sem necessidade de puxar pelo poder de argumentação. Tampouco de voltar à matemática feliz. Nunca gostei particularmente de matemática. Ou, para ser fiel, simpatizei durante longos anos com esta disciplina, sem qualquer desmérito, que as notas falavam por si. Até ao momento em que me desliguei e decidi assumir que antes de paixão, era dedicação. Isto, para me lembrar que sei mais do que o sustento obriga. Números e outras matérias provenientes à parte, assim que desligamos a chamada, voltei ao hotel. Àquele hotel, enquanto esperava por ti. Tomo muita atenção, quando não estou envolvido noutros pensamentos, nas entradas dos hotéis. É um espaço de gente díspar. É disparate, dir-me-ás. Mas é verdade. Gosto de observar, de ver passar, como bem sabes. Oiço, furtivamente, uma mulher lamentar o silêncio. Tem a maçã ao lado, vestida de dourado. No mesmo banco, uma mala com as iniciais de uma referência do mundo da moda. A alta-costura também ali tão próxima. Mexe no cabelo comprido e solto, e gesticula com vagar. Deixei de escutar aqui. Prefiro observar a ser bisbilhoteiro. Vocação que admito não me servir. Era bonita, tinha um ar arranjado. O homem que a acompanhava olhava-a em silêncio. É, precisamente pelo silêncio, que tudo isto me prendeu a atenção. Prezo, não raras vezes, a interrupção da comunicação. Tenho o maior respeito por quem fá-lo sem remorsos. Sem cobrar. Aprecio ao mesmo nível, a partilha. A conversa que nunca tem fim. Encontrar alguém que, para além de partilhar a vida, a rotina, a intimidade, o corpo, os gostos e os desgostos e ainda o silêncio é, por demais, difícil. Chegar ao momento em que o silêncio não é constrangedor numa relação, é um alcançar um patamar de excelência. Não preciso de te ouvir para te entender. E isso eu sei.

4.5.15

Uma pequenina luz.

Sempre que a vejo de coração nas mãos, ameaço tirar-lhe uma fotografia e guardá-la para sempre. Podia desenhá-la, pintá-la ou escrever sobre as sensações e as reacções. Mas a fotografia está sempre ali. Com a geração da tecnologia, o caminho é fácil, reduz-se o pensamento e escasseiam as dúvidas. Escolhes sempre a chapa do momento. Que o céu é azul, que o mar é salgado e que Zé canta o fado, já todos sabemos. Que ela é intimidade e verdade num enredo singelo, é outra viagem. Perguntaram-me e respondi como da última vez. Volto a estar de copo na mão. Agora, sentados na avenida da nossa terra. Voltar às raízes também é segurar o coração com outra convicção. Porventura, aqui, perdem-se os receios e as questões de um futuro breve. Não se temem as mãos trémulas e o coração desamparado. Porque isso não acontece sem rede, sem protecção. Alguém lançou que tinha pena de quem não tem para onde regressar. Lamentamos a cidade que é berço e vida. Mas volto sempre à cidade que não é minha por um qualquer desentendimento astral. Falho na escolha do vocábulo, por não acreditar, tamanha a dúvida. Seguiram-se outras perguntas e a todas respondi da mesma forma. Os amigos riem juntos e são felizes. Os amigos prestam-se ao silêncio sem peso e são felizes. Vivam na raiz ou ganhem sustento num lugar que os adopta. Quando voltava para casa, no carro, tive a certeza de que, de coração nas mãos ou de risada despreocupada, hei-de querer guardar esta intimidade para sempre.

31.3.15

Encher de letras o entusiasmo.

Parcimónia silvestre, num travo doce. Amarga surpresa, travessura agreste. Tem nome com cheiro, se quiser pensar. Tem o tom de voz equilibrado, se quiser ouvir. Tem o toque certo na pele, se quiser sentir. Tem aromas sem fim. Tem olhar atento. Joga com as metáforas, compara com a simplicidade da insanidade. Rima e, em tempo algum, havemos de ter outra certeza. Destrói o conceito, insiste na reacção. Fala com a boca, mas quem pensa é o coração. Tem fuga nas entrelinhas, mas escreve fortaleza com os olhos. Fala fluentemente, opina com densidade. Eloquente diária, o pensamento da idade. Não tem definição, não sei se é amor ou paixão. Tinha eu, num passado tão presente, a certeza de que rimar com frequência ou particularizar feitios era sinal de paixão de arromba ou de flagrante demência. Questiono-me sobre a intimidade da desfocada definição. Olho para ela e escrevo sem pensar. Ambiciono uma qualquer dança nesta troca. Em tempos, rir-me-ia da banalidade e franqueza das palavras. Havia de poupa-las, para não estragar. Não brinques com a entrega alheia. Homem bom recebe o dobro. Havia de segreda-las para não gastar. Olho para ela e escrevo sem as ideias ordenar. Escreve, jovem rapaz. Olha para ela e guarda a paz. Não é fácil amar ou apaixonar sem a razão sofrer e melindrar.

11.12.14

Em diferido. #24

Derramar luz - A discrição é um facto que se recusa a deixar partir. É a velocidade de um feitio que ganha contornos de mãos que jogam com a vergonha de expor mais do que merece importância. A vergonha, palavra que desvenda sensações e incoerências que dão voltas num monociclo que pensa como gente e obriga a condução de acrobata gingão. Mas ultrapassa a vergonha. É um feitio que está inscrito algures. E atrai esse contexto em que não é defeito, senão feitio. O equilíbrio de um físico que se sustenta nuns saltos altos ou nuns rasos que nada roubam, na elegância de um corpo que não procura revelação, antes convicção. É igual ao que sente. As palavras nunca chegam ao fim, nem deseja fechar os olhos. Gosta de ter tempo e viver numa conversa que tem um sem fim de segundos. O afecto que partilha, sem obrigação, assenta-lhe na essência que impõe em cada relação. Efectiva ou se situação. A discrição, conheço-a de outros tempos. Agora, é infinita a vontade de que a partilha com a proprietária desta discrição e conversa que me prende a atenção, jamais chegue ao fim. Escrevi, acredita, sem receio de me esquecer. Escrevi, podes acreditar, para voltar sempre. E acrescentar. Mesmo que não seja hoje o lugar.

29.9.14

Derramar luz.

A discrição é um facto que se recusa a deixar partir. É a velocidade de um feitio que ganha contornos de mãos que jogam com a vergonha de expor mais do que merece importância. A vergonha, palavra que desvenda sensações e incoerências que dão voltas num monociclo que pensa como gente e obriga a condução de acrobata gingão. Mas ultrapassa a vergonha. É um feitio que está inscrito algures. E atrai esse contexto em que não é defeito, senão feitio. O equilíbrio de um físico que se sustenta nuns saltos altos ou nuns rasos que nada roubam, na elegância de um corpo que não procura revelação, antes convicção. É igual ao que sente. As palavras nunca chegam ao fim, nem deseja fechar os olhos. Gosta de ter tempo e viver numa conversa que tem um sem fim de segundos. O afecto que partilha, sem obrigação, assenta-lhe na essência que impõe em cada relação. Efectiva ou de situação. A discrição, conheço-a de outros tempos. Agora, é infinita a vontade de que a partilha com a proprietária desta discrição e conversa que me prende a atenção, jamais chegue ao fim. Escrevi, acredita, sem receio de me esquecer. Escrevi, podes acreditar, para voltar sempre. E acrescentar.

20.8.14

Sensibilidade no lugar certo.

O fundo é tão verão como um fim de tarde ventoso, uma maré agitada ao fundo, o sol a espreitar e a espalhar pequenos espelhos pela água, o casario pintado de cores vivas e diferentes. Aquela gargalhada, se quisermos uma valente risada, enquanto as duas mãos se juntam e esboçam, tanto quanto lhe é possível, um coração. A maldade do tempo é que, se procrastinarmos, ele fia-se no nosso balanço desassossegado e ajuda-nos a perder vontades. Ela nunca percebeu a necessidade de devolver às mãos, um coração. Seja amostra do carinho e tentação palpitante do seu coração, seja a pretensão de que o de alguém, ali ou distante, lhe pouse, vaidoso, entre os dedos. A risada era tão sonora e descia pelo corpo que respondia com movimentos que mostram incapacidade de resistir. Desmanchou-se, sem remédio, o coração inventado. Lamentava-se, entre risos e o desajusto do corpo, nunca ter feito uma fotografia com o coração nas mãos. Cruzou os braços e posou, desencontradas, as mãos. Uma em cada ombro. Já está. Uma fotografia. Um coração no lugar certo. Vai continuar, felizmente, sem viver com o objecto do afecto nas mãos.

21.7.14

Dialecto temperado e prosa retalhada.

Dizem-nos, a conjuntura social e os clichés, que já não se escrevem cartas, seja por que motivo for. Guardou-se, algures, o hábito de escrever em papel, de caneta em punho, as palavras que, verdadeiras ou não, passavam mensagens. Impediam, porventura, que se deixasse para depois. Fazendo a ressalva, claro, do período entre o envio e a recepção. Enfim, questões sociais à parte, aproveito o escrito fechado e a data de hoje, tão importante, para deixar correr prosa. O léxico, daqui em diante, pode confundir-se e parecer vulgar, mas é sentido e ajeitado pela vasta gama de sensações. Longe vai o tempo em que nos conhecemos. Lamento, sempre, o facto de a minha memória ser afoita e, por isso, fugir-me amiúde. Não encontro precisão em tudo o que ficou para trás. As datas preferem oferecer-lhe companhia, à memória, e, assim sendo, deixam-me longe de chegar às ocasiões. Algumas, por certo. Gabo-te, inevitavelmente, o teu jeito seguro de opinar sobre tudo, de arriscar numa vida diferente, de seguir por caminhos distantes do óbvio. Gabo-te, igualmente, o sentido de humor timbrado e apurado, a ousadia que imprimes na série de palavras que deixas fugir faladas. São características que imortalizam a imagem que todos, sem excepção, guardam de ti. São pedaços do que, enfim, todos encontram em ti. Tens essa particularidade, um tanto extravagante, que fortalece os laços. Acho graça. Fica-te tão bem, que ficarias a perder se os deixasses, sossegados, no lugar devido. Seja qual for o valor que somemos, importa o vagar como voltas e conduzes a tua vida. Este jogo é, como sabemos, uma sombra disso. Não te canso mais com o meu discurso dotado de sensibilidade, nem desgasto as tuas dioptrias. Até já!

30.6.14

Escolhe uma cor.

Constantemente não é óbvio, remédio que convém à torção de um músculo que já não ensaia. Na terra batida encontramos tudo. As botas com desenhos distraídos da terra fugidia, os botins de todas as estrelas, os ténis de corrida, os ténis com a marca adornada no desenho da mais recente moda, os sapatos assimétricos, também os clássicos e, imagine-se, os chinelos e os saltos. No pé de cada nome, naquela terra batida, olhamos de tudo. Tanta gente junta, tanta diversidade feliz. Calca-se a terra a cada passo adiante. Tanta gente reunida. Fazem-se grupos de amizade. Amigos e conhecidos em roda. Risada, conversa e gargalhada. Mas há sempre quem nos arrepie. A pele ganha outra textura, um toque de relevo robusto da sensação desprevenida. E ficamos a vê-la. E ficamos a ouvi-la. Só me interessa se tiver passagem desligada de repetidas imagens. Na terra batida sustentam-se relações. Investem-se razões para conhecer quem és.

9.6.14

Maravilhas num banho de delicado caldo cor de vinho.

Partilhei um prato requintado, um crepe atrevido e um vinho de qualidade. Derreti um beijo de vagar demorado. Disse palavras bonitas, por serem sentidas. Sinto-me espontaneamente romântico. Tal e qual um repentista. Quiçá, esteja certo. Já me posso casar. Já sou um rapaz de interesse público. Vista-se a noiva a rigor. Salte-se-lhe o ramo das mãos para lá do véu. Mas não me ofereçam máquinas. Entendo que sou aquele que não as dispensa, mas não traz sempre consigo o que ainda não se inventou. Tanto havia para partilhar à entrada. Vamos numa demorada troca de olhares? O espectáculo merece-nos atenção. Rufem os tambores. Aproveitemos a acústica. Há dias que vão. Outros tantos que se resumem a vir. Românticos ou não.

5.6.14

Em diferido. #10

Um beijo e um segredo - Pode, no desenrolar, não fazer sentido, mas a ocasião é portentosa e valiosa, qual sorriso. No sossego, queremos saber do envolvimento que faz bem ao ânimo e que sugere a pausa obrigatória. O telemóvel toca, agora não sabemos se é uma chamada perdida, uma mensagem pendente, uma fotografia do cão na praia ou de sushi a chegar ao Instagram ou uma novidade, mascarada de likes, marcações em fotografias ou convites sem voz, numa qualquer outra rede social. Adiamos, por força da procrastinação. Porque, a dada altura, não interessa assim tanto. Mas, porque eles insistem, rendemo-nos à evidência da curiosidade, e vamos ver. Não sei bem que respostas havemos de devolver às solicitações cruelmente repetidas. Enfim, percebo que não. Há fotografias várias, convites sem sustento, likes a inventarem atenção, mas a mensagem é outra. Vem de lá, do número que nos leva para o remetente que procuramos sempre. E é tremendamente pontual, ao mesmo tempo que está carregada de sentimento. É, inequivocamente, um sinal de lembrança. É sedutor e pesado. Ela não sabe tudo, mas é melhor nas emoções, no seu tratamento e na forma como as fala. Por tudo, e por muito mais, é que não deixo de querer comer algodão doce com ela. E dizer-lho ao ouvido.

25.3.14

Um beijo e um segredo.

Pode, no desenrolar, não fazer sentido, mas a ocasião é portentosa e valiosa, qual sorriso. No sossego, queremos saber do envolvimento que faz bem ao ânimo e que sugere a pausa obrigatória. O telemóvel toca, agora não sabemos se é uma chamada perdida, uma mensagem pendente, uma fotografia do cão na praia ou de sushi a chegar ao Instagram ou uma novidade, mascarada de likes, marcações em fotografias ou convites sem voz, numa qualquer outra rede social. Adiamos, por força da procrastinação. Porque, a dada altura, não interessa assim tanto. Mas, porque eles insistem, rendemo-nos à evidência da curiosidade, e vamos ver. Não sei bem que respostas havemos de devolver às solicitações cruelmente repetidas. Enfim, percebo que não. Há fotografias várias, convites sem sustento, likes a inventarem atenção, mas a mensagem é outra. Vem de lá, do número que nos leva para o remetente que procuramos sempre. E é tremendamente pontual, ao mesmo tempo que está carregada de sentimento. É, inequivocamente, um sinal de lembrança. É sedutor e pesado. Ela não sabe tudo, mas é melhor nas emoções, no seu tratamento e na forma como as fala. Por tudo, e por muito mais, é que não deixo de querer comer algodão doce com ela. E dizer-lho ao ouvido.

24.3.14

Aumentar a parada.

Olha, senta-te aí. Ficamos a olhar. Senta-te no passeio, sobreposto. Deixas, sem medo, os pés a marcar a estrada. Afagas a máquina fotográfica no colo. Aqueces-te com o cachecol, as luvas e o sobretudo. Atinas a vista, fugindo do sol invernoso, com os óculos de sol. Do lado de lá está uma montra pejada de livros. Carregada de títulos. Sobrecarregada de quadros na parede. Acumulando memórias. Vamos namorá-la antes de entrar. Aprecio convites súbitos. Aceito, claro. Temos tempo.

18.3.14

Composição de um moço primário.

É um linguarejar que não tem pretensões. É uma brasa que serve de assinatura e que marca distintivamente. São emoções. Ela é elegante, tímida e sossegada. Ela é divertida, tagarela e de sorriso fácil. Ela é cúmplice. Ela é assertiva. Ela é dedicação. Ela é inteligência e perspicácia. Ela é inocência no entendimento. Ela é distância ficcionada. Ela preocupa-se, também, com o resto do mundo, mesmo que esse mundo e esse resto nada lhe mereçam. Ela não quer saber se os seus actos e opiniões fazem bem ou mal ao destino. Ela tem medos vários. Ela não se importa com as dúvidas. Ela quer sempre conhecer mais. Ela não é capaz de mudar as escolhas. Ela quer saber de novidades e adquiri-las. Ela não se perde à primeira. Ela fica na história. Ela faz a história. E ele, quer continuar a enumerar, enquanto vive. E, se não for pedir muito, ele quer comer algodão doce com ela. Se preciso, na feira da aldeia. Ou no quarto de hotel de muitas estrelas do outro dia. Continua.

28.2.14

Vinte e duas horas e vinte e dois minutos.

O enquadramento é o requinte de saber quem é, de saber quem sou, de saber quem somos. Querendo, dava destaque à tela cuja pintura inteira vinga em toda a parede. Mas não consigo. Também, não sou o mais entendido na matéria. Do tecto caem lustres deslumbrantes. Ainda assim, difíceis de roubar a atenção. Mas absorvo-me nela. Nos cabelos compridos, à solta, a cobrirem-lhe parte do busto. O rosto brilhante e maquilhado. As jóias sóbrias e discretas. O olhar que me cruza. As pernas cruzadas entre a bainha do vestido e os saltos altos. A postura que, em tudo, converge com o esqueleto do discurso e do pensamento. Estava a olhá-la e fiquei a pensar no quão me influência os pensamentos e os sentimentos. Não os baralha. Antes, une-os e excita-os. No melhor do sustento de ambos. Como me tolda a escrita e protagoniza a raiz de onde me inspiro. Sempre. Desde que nos deixamos conhecer. Por ela, para ela. Estava a olhá-la e, por fim, não restaram dúvidas. Faz sentido.

19.2.14

Também os temos.

A banda sonora vale sempre o que vale. O que eu escolheria ouvir em modo repetido até à agonia, para outros fará parte do top que compõe a vetada listagem de guilty pleasures. Vale, a sério que vale, sempre o que vale. Mas, arriscaria escolher um tema para, uma vez mais e, repetidamente, não parar de tocar, lá ao fundo. Enquanto os dois, absortos, falávamos de livros. De histórias de amor, de sexo bruto, de escrita que se suporta em factos históricos. Também nos livros, os guilty pleasures têm espaço. Não estamos de acordo em tudo. Felizmente. Ela gosta, entre outros estilos, de romances que aconchegam, por mais que não encerrem nada. Eu prefiro outras leituras. Concordamos, depois, noutros aspectos. Tão mais relevantes. E são pormenores. Valem o que lhes quisermos ofertar de valor. Prefiro ouvi-la argumentar. Não tem valor. Acreditem, não tem.

21.1.14

À maneira.

Não me canso, jamais, de ficar a vê-la. Tão simples e natural, ali. A saber, observada com verdade. A sinceridade possível. Enquanto, aparentemente alheia, se deixa observar, ficamos. Absortos. Em nós. Porventura, da melhor maneira. À nossa melhor maneira.