Sentámo-nos
na relva bonita, sobre as pernas trocadas. Desafiando a agilidade, temendo
desarticular as articulações. Mas tudo bem. Sentámo-nos sem preceito, mas de
feição. Com o sol a ferver no rosto, a queimar a pele um tanto franzida, a
melindrar os olhos e a afagar os corpos inertes. Mas tudo bem. Sentámo-nos
sobre a relva húmida, quase molhada, com os nossos melhores jeans. E eu, imaturo, com os meus mais
recentes ténis. Mas tudo bem. Fixámo-nos, ora nos nossos rostos, ora em pontos
menos fortes. Às vezes certos, outras feridos pela luz certa e pela miopia dos
nossos dias. Mas tudo bem. Falámos sobre as nossas vontades, os nossos
projectos e as nossas trivialidades. Ainda dos nossos defeitos e das nossas
trôpegas acções. Mas tudo bem. Rimo-nos de felicidade, de lágrimas livres e de estômago
aflito. Do presente e do que se fez passado. Mesmo que tenha sido pesado. Mas
tudo bem. Pegámos na máquina fotográfica analógica e inventámos os movimentos,
as caras e os desenhos. Soubemos depois, ficámos saudavelmente ridículos,
caricatos num bom par das fotografias. Mas tudo bem. Decidimos o que havia de ser
o jantar, o lugar e o vagar. Desistimos por amor aos nossos, recém-chegados e
ansiosos por largarem num frenético discurso, discorrendo sem paragens. E
monopolizando o ecrã com os milhares de fotografias que vêm para recordação.
Mas tudo bem. Se o nosso destino for, entre outros, também este, encontrámos a
comparação do clima. E só pode estar tudo bem.
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30.1.18
17.4.17
Nove horas e parcos minutos.
Devo
trazer um ar agastado, o rosto por ele desenhado. A afirmação de uma noite que
se fez longa, da companhia que não dá folga. De uma semana que lhe antecedeu e
foi demorada e trabalhosa. Logo me assomei à rua, pergunta quem me espera se a
noite, para além de longa, foi boa. Devo ter esboçado uma resposta breve. Trago
os olhos vestidos pelos BOSS de todas
as paragens. O corpo temperado sobre os ADIDAS
que são novidade. O perfume que foi uma oferta acertada. O relógio, cuja
bracelete entrança-se num cinza inocente, invariavelmente, no pulso direito. No
carro, deixo que o jazz desenhe o
ambiente. E não podia ser melhor. Soa como não há explicação. Em resposta ao
som, dizem-me que sou requintado. Largo um sorriso vistoso. E insiste que sou
bem desenhado. Que invisto sempre no outro lado. Não será totalmente verdade,
mas deixo-me acreditar. Passa a mão esquerda na minha perna direita e o
silêncio aconteceu. Falou sem cessar, sem da palavra precisar. Nisto, já o jazz cedeu o lugar. Agora temos reggae. E a atmosfera não esmoreceu.
Inverteu e não deixou ficar mal. Sou a garantia de que a extensão dos gostos
vive em harmonia com um só ser. Com um corpo e uma mente bem ligados. És como
sempre foste, deixou fugir. Mesmo que o sempre tenha começado há um nada de
dias. Mesmo que o sempre venha de longe. Isto, a propósito do mistifório que
engendro na forma como estou e sou. Chegámos. Espero que termine a chamada.
Estão à nossa espera. Num espaço recentemente inaugurado, simulando um duplex
improvisado. Os metais são as teias que o seguram. Nunca a arquitectura serviu
a metáfora de uma forma tão singela e, ao mesmo tempo, tão certeira. Um passo
atrás, deixei-me ir. A acompanhar, a vê-la caminhar.
9.2.17
Pronome pessoal com divinas honras.
Encontrei,
entre um tanto de coisas, uma fotografia. Devo tê-la deixado ficar por ali sem
propósito. Devo tê-la tirado há uns valentes anos, não arrisco um número, por
me ver frágil na contabilidade dos dias e na sinceridade das distâncias. A
negro e branco, num estilo desalinhado entre o compromisso de reproduzir por
meio de fotografia e a vontade de guardar amor. Facilita ver-me convidado a
fotografar pelo impulso. Já naquela época era assim. Vê-la, resumida numa
silhueta de tons cinza, pela força da luz de um fim de tarde. Ao lado, o gato
no mesmo tom, de olhos claros, a inverter a posição. A janela gigante favoreceu
o encanto. Os prédios altos, finos, compostos por janelinhas que jamais
terminavam. De costas, com as pernas cruzadas debaixo do corpo, sobre a cadeira
estilizada de madeira. O cabelo desarrumado e a beleza natural. Resumia o
movimento com a mão repetida sobre o gato que inventava um sorriso de puro
deleite. Deixei-me ficar, por temer prejudicar o ambiente. Deixei-me ficar ali,
quase inerte, numa folga do pensamento, a apreciar. Peguei na máquina dela, por
estar mais próxima e cliquei. Uma e outra vez. Ganhei uma imagem sem legenda.
Recebi em mãos, meses mais tarde, num envelope grande, bonito e com escritos, a
dita fotografia. Noutro lugar, noutra vibração, mas o beijo de sempre.
Encontrei, entre outros valores, uma fotografia que não tem explicação clara ou
sucinta. O mote para o desfiar de memórias e de afectos. Lembro-me, sem
excepções, de cada segundo. E não minto, se deixar fugir que só guardo o que me
acrescenta.
26.11.15
Em diferido. #42
Encher de letras o entusiasmo - Parcimónia
silvestre, num travo doce. Amarga surpresa, travessura agreste. Tem nome com
cheiro, se quiser pensar. Tem o tom de voz equilibrado, se quiser ouvir. Tem o
toque certo na pele, se quiser sentir. Tem aromas sem fim. Tem olhar atento.
Joga com as metáforas, compara com a simplicidade da insanidade. Rima e, em
tempo algum, havemos de ter outra certeza. Destrói o conceito, insiste na
reacção. Fala com a boca, mas quem pensa é o coração. Tem fuga nas entrelinhas,
mas escreve fortaleza com os olhos. Fala fluentemente, opina com densidade.
Eloquente diária, o pensamento da idade. Não tem definição, não sei se é amor
ou paixão. Tinha eu, num passado tão presente, a certeza de que rimar com
frequência ou particularizar feitios era sinal de paixão de arromba ou de
flagrante demência. Questiono-me sobre a intimidade da desfocada definição.
Olho para ela e escrevo sem pensar. Ambiciono uma qualquer dança nesta troca.
Em tempos, rir-me-ia da banalidade e franqueza das palavras. Havia de
poupa-las, para não estragar. Não brinques com a entrega alheia. Homem bom
recebe o dobro. Havia de segreda-las para não gastar. Olho para ela e escrevo
sem as ideias ordenar. Escreve, jovem rapaz. Olha para ela e guarda a paz. Não
é fácil amar ou apaixonar sem a razão sofrer e melindrar.
4.6.15
(Silêncio) O que é não desaparece.
Depois
de uma longa e animada conversa desligaste a chamada, sem necessidade de puxar
pelo poder de argumentação. Tampouco de voltar à matemática feliz. Nunca gostei
particularmente de matemática. Ou, para ser fiel, simpatizei durante longos
anos com esta disciplina, sem qualquer desmérito, que as notas falavam por si.
Até ao momento em que me desliguei e decidi assumir que antes de paixão, era
dedicação. Isto, para me lembrar que sei mais do que o sustento obriga. Números
e outras matérias provenientes à parte, assim que desligamos a chamada, voltei
ao hotel. Àquele hotel, enquanto esperava por ti. Tomo muita atenção, quando
não estou envolvido noutros pensamentos, nas entradas dos hotéis. É um espaço
de gente díspar. É disparate, dir-me-ás. Mas é verdade. Gosto de observar, de
ver passar, como bem sabes. Oiço, furtivamente, uma mulher lamentar o silêncio.
Tem a maçã ao lado, vestida de dourado. No mesmo banco, uma mala com as
iniciais de uma referência do mundo da moda. A alta-costura também ali tão
próxima. Mexe no cabelo comprido e solto, e gesticula com vagar. Deixei de
escutar aqui. Prefiro observar a ser bisbilhoteiro. Vocação que admito não me
servir. Era bonita, tinha um ar arranjado. O homem que a acompanhava olhava-a
em silêncio. É, precisamente pelo silêncio, que tudo isto me prendeu a atenção.
Prezo, não raras vezes, a interrupção da comunicação. Tenho o maior respeito
por quem fá-lo sem remorsos. Sem cobrar. Aprecio ao mesmo nível, a partilha. A
conversa que nunca tem fim. Encontrar alguém que, para além de partilhar a
vida, a rotina, a intimidade, o corpo, os gostos e os desgostos e ainda o
silêncio é, por demais, difícil. Chegar ao momento em que o silêncio não é
constrangedor numa relação, é um alcançar um patamar de excelência. Não preciso
de te ouvir para te entender. E isso eu sei.
4.5.15
Uma pequenina luz.
Sempre
que a vejo de coração nas mãos, ameaço tirar-lhe uma fotografia e guardá-la
para sempre. Podia desenhá-la, pintá-la ou escrever sobre as sensações e as
reacções. Mas a fotografia está sempre ali. Com a geração da tecnologia, o caminho
é fácil, reduz-se o pensamento e escasseiam as dúvidas. Escolhes sempre a chapa
do momento. Que o céu é azul, que o mar é salgado e que Zé canta o fado, já
todos sabemos. Que ela é intimidade e verdade num enredo singelo, é outra
viagem. Perguntaram-me e respondi como da última vez. Volto a estar de copo na
mão. Agora, sentados na avenida da nossa terra. Voltar às raízes também é
segurar o coração com outra convicção. Porventura, aqui, perdem-se os receios e
as questões de um futuro breve. Não se temem as mãos trémulas e o coração
desamparado. Porque isso não acontece sem rede, sem protecção. Alguém lançou
que tinha pena de quem não tem para onde regressar. Lamentamos a cidade que é
berço e vida. Mas volto sempre à cidade que não é minha por um qualquer
desentendimento astral. Falho na escolha do vocábulo, por não acreditar,
tamanha a dúvida. Seguiram-se outras perguntas e a todas respondi da mesma
forma. Os amigos riem juntos e são felizes. Os amigos prestam-se ao silêncio
sem peso e são felizes. Vivam na raiz ou ganhem sustento num lugar que os
adopta. Quando voltava para casa, no carro, tive a certeza de que, de coração
nas mãos ou de risada despreocupada, hei-de querer guardar esta intimidade para
sempre.
31.3.15
Encher de letras o entusiasmo.
Parcimónia silvestre, num travo doce. Amarga
surpresa, travessura agreste. Tem nome com cheiro, se quiser pensar. Tem o tom
de voz equilibrado, se quiser ouvir. Tem o toque certo na pele, se quiser
sentir. Tem aromas sem fim. Tem olhar atento. Joga com as metáforas, compara
com a simplicidade da insanidade. Rima e, em tempo algum, havemos de ter outra
certeza. Destrói o conceito, insiste na reacção. Fala com a boca, mas quem
pensa é o coração. Tem fuga nas entrelinhas, mas escreve fortaleza com os
olhos. Fala fluentemente, opina com densidade. Eloquente diária, o pensamento
da idade. Não tem definição, não sei se é amor ou paixão. Tinha eu, num passado
tão presente, a certeza de que rimar com frequência ou particularizar feitios
era sinal de paixão de arromba ou de flagrante demência. Questiono-me sobre a
intimidade da desfocada definição. Olho para ela e escrevo sem pensar.
Ambiciono uma qualquer dança nesta troca. Em tempos, rir-me-ia da banalidade e
franqueza das palavras. Havia de poupa-las, para não estragar. Não brinques com
a entrega alheia. Homem bom recebe o dobro. Havia de segreda-las para não
gastar. Olho para ela e escrevo sem as ideias ordenar. Escreve, jovem rapaz.
Olha para ela e guarda a paz. Não é fácil amar ou apaixonar sem a razão sofrer
e melindrar.
11.12.14
Em diferido. #24
Derramar
luz - A discrição é um facto que se recusa a deixar partir. É a velocidade de
um feitio que ganha contornos de mãos que jogam com a vergonha de expor mais do
que merece importância. A vergonha, palavra que desvenda sensações e
incoerências que dão voltas num monociclo que pensa como gente e obriga a
condução de acrobata gingão. Mas ultrapassa a vergonha. É um feitio que está
inscrito algures. E atrai esse contexto em que não é defeito, senão feitio. O
equilíbrio de um físico que se sustenta nuns saltos altos ou nuns rasos que
nada roubam, na elegância de um corpo que não procura revelação, antes
convicção. É igual ao que sente. As palavras nunca chegam ao fim, nem deseja
fechar os olhos. Gosta de ter tempo e viver numa conversa que tem um sem fim de
segundos. O afecto que partilha, sem obrigação, assenta-lhe na essência que
impõe em cada relação. Efectiva ou se situação. A discrição, conheço-a de
outros tempos. Agora, é infinita a vontade de que a partilha com a proprietária
desta discrição e conversa que me prende a atenção, jamais chegue ao fim.
Escrevi, acredita, sem receio de me esquecer. Escrevi, podes acreditar, para
voltar sempre. E acrescentar. Mesmo que não seja hoje o lugar.
29.9.14
Derramar luz.
A
discrição é um facto que se recusa a deixar partir. É a velocidade de um feitio
que ganha contornos de mãos que jogam com a vergonha de expor mais do que
merece importância. A vergonha, palavra que desvenda sensações e incoerências
que dão voltas num monociclo que pensa como gente e obriga a condução de
acrobata gingão. Mas ultrapassa a vergonha. É um feitio que está inscrito
algures. E atrai esse contexto em que não é defeito, senão feitio. O equilíbrio
de um físico que se sustenta nuns saltos altos ou nuns rasos que nada roubam,
na elegância de um corpo que não procura revelação, antes convicção. É igual ao
que sente. As palavras nunca chegam ao fim, nem deseja fechar os olhos. Gosta
de ter tempo e viver numa conversa que tem um sem fim de segundos. O afecto que
partilha, sem obrigação, assenta-lhe na essência que impõe em cada relação.
Efectiva ou de situação. A discrição, conheço-a de outros tempos. Agora, é
infinita a vontade de que a partilha com a proprietária desta discrição e conversa
que me prende a atenção, jamais chegue ao fim. Escrevi, acredita, sem receio de
me esquecer. Escrevi, podes acreditar, para voltar sempre. E acrescentar.
20.8.14
Sensibilidade no lugar certo.
O
fundo é tão verão como um fim de tarde ventoso, uma maré agitada ao fundo, o
sol a espreitar e a espalhar pequenos espelhos pela água, o casario pintado de
cores vivas e diferentes. Aquela gargalhada, se quisermos uma valente risada,
enquanto as duas mãos se juntam e esboçam, tanto quanto lhe é possível, um
coração. A maldade do tempo é que, se procrastinarmos, ele fia-se no nosso
balanço desassossegado e ajuda-nos a perder vontades. Ela nunca percebeu a
necessidade de devolver às mãos, um coração. Seja amostra do carinho e tentação
palpitante do seu coração, seja a pretensão de que o de alguém, ali ou
distante, lhe pouse, vaidoso, entre os dedos. A risada era tão sonora e descia
pelo corpo que respondia com movimentos que mostram incapacidade de resistir.
Desmanchou-se, sem remédio, o coração inventado. Lamentava-se, entre risos e o
desajusto do corpo, nunca ter feito uma fotografia com o coração nas mãos.
Cruzou os braços e posou, desencontradas, as mãos. Uma em cada ombro. Já está.
Uma fotografia. Um coração no lugar certo. Vai continuar, felizmente, sem viver
com o objecto do afecto nas mãos.
21.7.14
Dialecto temperado e prosa retalhada.
Dizem-nos,
a conjuntura social e os clichés, que já não se escrevem cartas, seja por que
motivo for. Guardou-se, algures, o hábito de escrever em papel, de caneta em
punho, as palavras que, verdadeiras ou não, passavam mensagens. Impediam, porventura,
que se deixasse para depois. Fazendo a ressalva, claro, do período entre o
envio e a recepção. Enfim, questões sociais à parte, aproveito o escrito
fechado e a data de hoje, tão importante, para deixar correr prosa. O léxico,
daqui em diante, pode confundir-se e parecer vulgar, mas é sentido e ajeitado
pela vasta gama de sensações. Longe vai o tempo em que nos conhecemos. Lamento,
sempre, o facto de a minha memória ser afoita e, por isso, fugir-me amiúde. Não
encontro precisão em tudo o que ficou para trás. As datas preferem oferecer-lhe
companhia, à memória, e, assim sendo, deixam-me longe de chegar às ocasiões.
Algumas, por certo. Gabo-te, inevitavelmente, o teu jeito seguro de opinar
sobre tudo, de arriscar numa vida diferente, de seguir por caminhos distantes
do óbvio. Gabo-te, igualmente, o sentido de humor timbrado e apurado, a ousadia
que imprimes na série de palavras que deixas fugir faladas. São características
que imortalizam a imagem que todos, sem excepção, guardam de ti. São pedaços do
que, enfim, todos encontram em ti. Tens essa particularidade, um tanto extravagante,
que fortalece os laços. Acho graça. Fica-te tão bem, que ficarias a perder se
os deixasses, sossegados, no lugar devido. Seja qual for o valor que somemos,
importa o vagar como voltas e conduzes a tua vida. Este jogo é, como sabemos,
uma sombra disso. Não te canso mais com o meu discurso dotado de sensibilidade,
nem desgasto as tuas dioptrias. Até já!
30.6.14
Escolhe uma cor.
Constantemente
não é óbvio, remédio que convém à torção de um músculo que já não ensaia. Na
terra batida encontramos tudo. As botas com desenhos distraídos da terra
fugidia, os botins de todas as estrelas, os ténis de corrida, os ténis com a
marca adornada no desenho da mais recente moda, os sapatos assimétricos, também
os clássicos e, imagine-se, os chinelos e os saltos. No pé de cada nome,
naquela terra batida, olhamos de tudo. Tanta gente junta, tanta diversidade
feliz. Calca-se a terra a cada passo adiante. Tanta gente reunida. Fazem-se
grupos de amizade. Amigos e conhecidos em roda. Risada, conversa e gargalhada.
Mas há sempre quem nos arrepie. A pele ganha outra textura, um toque de relevo
robusto da sensação desprevenida. E ficamos a vê-la. E ficamos a ouvi-la. Só me
interessa se tiver passagem desligada de repetidas imagens. Na terra batida
sustentam-se relações. Investem-se razões para conhecer quem és.
9.6.14
Maravilhas num banho de delicado caldo cor de vinho.
Partilhei
um prato requintado, um crepe atrevido e um vinho de qualidade. Derreti um
beijo de vagar demorado. Disse palavras bonitas, por serem sentidas. Sinto-me
espontaneamente romântico. Tal e qual um repentista. Quiçá, esteja certo. Já me
posso casar. Já sou um rapaz de interesse público. Vista-se a noiva a rigor.
Salte-se-lhe o ramo das mãos para lá do véu. Mas não me ofereçam máquinas.
Entendo que sou aquele que não as dispensa, mas não traz sempre consigo o que
ainda não se inventou. Tanto havia para partilhar à entrada. Vamos numa
demorada troca de olhares? O espectáculo merece-nos atenção. Rufem os tambores.
Aproveitemos a acústica. Há dias que vão. Outros tantos que se resumem a vir.
Românticos ou não.
5.6.14
Em diferido. #10
Um
beijo e um segredo - Pode, no desenrolar, não fazer sentido, mas a ocasião é
portentosa e valiosa, qual sorriso. No sossego, queremos saber do envolvimento
que faz bem ao ânimo e que sugere a pausa obrigatória. O telemóvel toca, agora
não sabemos se é uma chamada perdida, uma mensagem pendente, uma fotografia do
cão na praia ou de sushi a chegar ao Instagram ou uma novidade, mascarada de likes, marcações em fotografias ou
convites sem voz, numa qualquer outra rede social. Adiamos, por força da
procrastinação. Porque, a dada altura, não interessa assim tanto. Mas, porque
eles insistem, rendemo-nos à evidência da curiosidade, e vamos ver. Não sei bem
que respostas havemos de devolver às solicitações cruelmente repetidas. Enfim,
percebo que não. Há fotografias várias, convites sem sustento, likes a inventarem atenção, mas a
mensagem é outra. Vem de lá, do número que nos leva para o remetente que
procuramos sempre. E é tremendamente pontual, ao mesmo tempo que está carregada
de sentimento. É, inequivocamente, um sinal de lembrança. É sedutor e pesado.
Ela não sabe tudo, mas é melhor nas emoções, no seu tratamento e na forma como
as fala. Por tudo, e por muito mais, é que não deixo de querer comer algodão
doce com ela. E dizer-lho ao ouvido.
25.3.14
Um beijo e um segredo.
Pode,
no desenrolar, não fazer sentido, mas a ocasião é portentosa e valiosa, qual
sorriso. No sossego, queremos saber do envolvimento que faz bem ao ânimo e que
sugere a pausa obrigatória. O telemóvel toca, agora não sabemos se é uma
chamada perdida, uma mensagem pendente, uma fotografia do cão na praia ou de sushi a chegar ao Instagram ou uma novidade, mascarada de likes, marcações em fotografias ou convites sem voz, numa qualquer outra
rede social. Adiamos, por força da procrastinação. Porque, a dada altura, não
interessa assim tanto. Mas, porque eles insistem, rendemo-nos à evidência da
curiosidade, e vamos ver. Não sei bem que respostas havemos de devolver às
solicitações cruelmente repetidas. Enfim, percebo que não. Há fotografias
várias, convites sem sustento, likes
a inventarem atenção, mas a mensagem é outra. Vem de lá, do número que nos leva
para o remetente que procuramos sempre. E é tremendamente pontual, ao mesmo
tempo que está carregada de sentimento. É, inequivocamente, um sinal de
lembrança. É sedutor e pesado. Ela não sabe tudo, mas é melhor nas emoções, no
seu tratamento e na forma como as fala. Por tudo, e por muito mais, é que não
deixo de querer comer algodão doce com ela. E dizer-lho ao ouvido.
24.3.14
Aumentar a parada.
Olha,
senta-te aí. Ficamos a olhar. Senta-te no passeio, sobreposto. Deixas, sem
medo, os pés a marcar a estrada. Afagas a máquina fotográfica no colo.
Aqueces-te com o cachecol, as luvas e o sobretudo. Atinas a vista, fugindo do
sol invernoso, com os óculos de sol. Do lado de lá está uma montra pejada de
livros. Carregada de títulos. Sobrecarregada de quadros na parede. Acumulando
memórias. Vamos namorá-la antes de entrar. Aprecio convites súbitos. Aceito,
claro. Temos tempo.
18.3.14
Composição de um moço primário.
É
um linguarejar que não tem pretensões. É uma brasa que serve de assinatura e
que marca distintivamente. São emoções. Ela é elegante, tímida e sossegada. Ela
é divertida, tagarela e de sorriso fácil. Ela é cúmplice. Ela é assertiva. Ela
é dedicação. Ela é inteligência e perspicácia. Ela é inocência no entendimento.
Ela é distância ficcionada. Ela preocupa-se, também, com o resto do mundo,
mesmo que esse mundo e esse resto nada lhe mereçam. Ela não quer saber se os
seus actos e opiniões fazem bem ou mal ao destino. Ela tem medos vários. Ela
não se importa com as dúvidas. Ela quer sempre conhecer mais. Ela não é capaz
de mudar as escolhas. Ela quer saber de novidades e adquiri-las. Ela não se
perde à primeira. Ela fica na história. Ela faz a história. E ele, quer
continuar a enumerar, enquanto vive. E, se não for pedir muito, ele quer comer
algodão doce com ela. Se preciso, na feira da aldeia. Ou no quarto de hotel de
muitas estrelas do outro dia. Continua.
28.2.14
Vinte e duas horas e vinte e dois minutos.
O
enquadramento é o requinte de saber quem é, de saber quem sou, de saber quem
somos. Querendo, dava destaque à tela cuja pintura inteira vinga em toda a
parede. Mas não consigo. Também, não sou o mais entendido na matéria. Do tecto
caem lustres deslumbrantes. Ainda assim, difíceis de roubar a atenção. Mas
absorvo-me nela. Nos cabelos compridos, à solta, a cobrirem-lhe parte do busto.
O rosto brilhante e maquilhado. As jóias sóbrias e discretas. O olhar que me
cruza. As pernas cruzadas entre a bainha do vestido e os saltos altos. A
postura que, em tudo, converge com o esqueleto do discurso e do pensamento. Estava
a olhá-la e fiquei a pensar no quão me influência os pensamentos e os
sentimentos. Não os baralha. Antes, une-os e excita-os. No melhor do sustento
de ambos. Como me tolda a escrita e protagoniza a raiz de onde me inspiro.
Sempre. Desde que nos deixamos conhecer. Por ela, para ela. Estava a olhá-la e,
por fim, não restaram dúvidas. Faz sentido.
19.2.14
Também os temos.
A
banda sonora vale sempre o que vale. O que eu escolheria ouvir em modo repetido
até à agonia, para outros fará parte do top
que compõe a vetada listagem de guilty pleasures.
Vale, a sério que vale, sempre o que vale. Mas, arriscaria escolher um tema
para, uma vez mais e, repetidamente, não parar de tocar, lá ao fundo. Enquanto
os dois, absortos, falávamos de livros. De histórias de amor, de sexo bruto, de
escrita que se suporta em factos históricos. Também nos livros, os guilty pleasures têm espaço. Não estamos
de acordo em tudo. Felizmente. Ela gosta, entre outros estilos, de romances que
aconchegam, por mais que não encerrem nada. Eu prefiro outras leituras.
Concordamos, depois, noutros aspectos. Tão mais relevantes. E são pormenores.
Valem o que lhes quisermos ofertar de valor. Prefiro ouvi-la argumentar. Não
tem valor. Acreditem, não tem.
21.1.14
À maneira.
Não
me canso, jamais, de ficar a vê-la. Tão simples e natural, ali. A saber,
observada com verdade. A sinceridade possível. Enquanto, aparentemente alheia,
se deixa observar, ficamos. Absortos. Em nós. Porventura, da melhor maneira. À
nossa melhor maneira.
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