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27.3.17

Receio palpável num encontro inusitado.

Estou sentado numa sala toda bonita, com vasos bem revestidos. Flores largas, coloridas, cheias de pormenores. Num andar que testa a minha capacidade de gestão de alturas, de um delíquio que tenta assomar-se. Nas minhas costas uma janela gigante, vestida de vidro, limitada por um material que espero que ofereça segurança. Numa furtiva troca de olhar com o exterior, percebo que sobre a placa de um dos prédios da frente, habita um simpático jardim. Lembrou-me uma cidade que guardou, em tempos, uma das minhas pessoas. Das que os laços não são de sangue, são de amor e verdade. De volta à sala, as cadeiras, simpaticamente trajadas com um azul forte. Confortáveis, como que a ensinar a demora. Senta-se ao meu lado uma mulher. Havíamo-nos cruzado na entrada, no piso zero, e partilhámos o elevador. Repete-me os bons dias, e devolvo com simpatia. Nesta área prefiro o repetido, ao invés do interdito. No silêncio seguinte, respondi ao seu sorriso com outro. Perguntou-me, no mesmo soluço – como que ganhando terreno sobre a possibilidade de um novo hiato de silêncio se sobrepor – se estava nervoso. Olhei-lhe – e devo ter arqueado a sobrancelha, no meu mais corriqueiro ar de surpresa – e devolvi prosa resumida. Disse-lhe que não. Não havia razão. O que me trouxe aqui é uma simples reunião. Agarrou a mala preta, sobre o colo, e garantiu que também não estava. Procurava ser ela, sem outras diligências. Percebi, no decorrer no discurso, que estava à espera para entrar para uma entrevista. Mexia no cabelo, olhava o ambiente à volta, segurava a mala com fé. Andou nisto até que a chamassem. Antes de entrar, junto à porta, dirigiu-me o olhar, agradeceu-me com um obrigada profundo e desejou-me o melhor dos dias. Tão sui generis quanto genuíno, pareceu-me. Levantei a mão direita, acenei e procurei ser o que esperava naquele momento. Boa sorte, faça da sua melhor maneira – avancei. Bateu a porta. Continuei na sala, de costas voltadas para a janela cuja altura é insana. Dei por mim a rir sozinho. Os medos são fazedores do receio. Contudo, valem tanto quanto o que lhes colocarmos nas mãos. Valem tudo até revolvermos a mecânica, avançarmos no vazio e garantirmos as faculdades do raciocínio. Paro por aqui, não sou orador da demagogia.

19.12.16

Dezembro embrulhado em luzes.

Vim pela rua, sob um frio nada vulgar, sobre a calçada nacional, com a vontade de contar mentalmente os pontos de luzes a enfeitar, a cabeça a magicar. Larguei os sapatos bonitos e os ténis divertidos. Trouxe as botas felizes. Um lenço farto ao pescoço, o casaco capaz a cobrir o corpo. Vim pela rua secundária, com as luzinhas a desenhar a época. Hei-de desaguar no largo, logo adiante, cuja árvore central brilha e agiganta-se. Rodeada, claro, por petizes animados, pais atentos, amigos em poses peculiares e outros a passar, cúmplices da feitura do quadro. Sem apressar o passo, cheguei antes da hora marcada. Feitio que, com gáudio, teimo em não desperdiçar. Recebido com toda a pompa, sem que assim exigisse a circunstância, respondi com um sorriso comedido. Surge, de entre as cabeças aglomeradas, aquele que nos junta por ora, e de cara leve, dirige-se a mim e lança-se num cumprimento efusivo. Fui recebido assim. Depois pela senhora que enverga um cargo sonante. Depois por este, a seguir por aquele, ainda outro e outros tantos. A todos e sem excepção, agradeci a amabilidade e as honrosas palavras. A sala começa a compôr-se, o burburinho não perdoa, os candeeiros empinocados dão outra dimensão a tudo. E a todos. Num olhar furtivo, encontro um rosto verdadeiramente cúmplice. A distância que a sala impõe, as conversas de situação e a comedida emoção, vetaram uma precipitada reacção. Mais adiante, quando a noite corria longa e prometia roubar largar horas, trocámos um beijo no rosto com demora. Cedemos no sorriso que denuncia. Dezembro, esta altura do ano, é um bom acaso para o descaso de, por fim, nos voltarmos a cruzar. À janela, antevendo a prosa adiada, ficámos sem pressa. Neste embrulho sereno. Voltei pela rua, contido no mesmo frio pojante, sobre as mesmas pedras da calçada e, desta feita, com toda a vontade de mentalmente recordar e garantir que a razão sobrepõe-se a tanto. Até que chegamos a Dezembro, cedemos no cumprimento e emburulhamo-nos em luzes. Em tantas, quantas a necessidade.

24.9.15

Expressão de despedida.

O ambiente é pesado, não fosse o descanso eterno um adeus. Sem sobressaltos que venham a seguir. Um ponto final. Sem margem para dúvidas, não raras vezes, um ponto final precoce. Antes do tempo certo. Como se o tempo tivesse essa contabilidade. O ambiente é pesado, não fosse a igreja imponente, idealmente escolhida. Os dourados sobre o branco e a pedra. O frio quase inerente. As vestes elegantes no altar. As imagens à volta. As flores em jeito de homenagem. A cerimónia fúnebre. O peso nos rostos. Da primeira fila à última. O silêncio meio atrofiado. Como se este fosse, assim sem que nos apercebamos, roubado pelo barulho de um género de brisa. A porta da igreja totalmente aberta, deixando o convite. Entra luz por todos os lados. Os tectos trabalhados ganham outra vida. Escondem-se os olhos, desde logo as emoções, atrás de uns óculos escuros. Cumprimentos de quem não vê caras, mas lembra nomes e laços familiares. A saudade, palavra recorrente. A missa, como se ia ouvindo de boca em boca, foi bonita. Os cânticos, fundamentais apontamentos. Seguram-se, aqui e ali, lenços brancos que enxugam as lágrimas teimosas. Não é fácil. E penso nisso, enquanto olho para o marido e para os descendentes na primeira fila. Não é fácil sentar naquele lugar. Como não foram fáceis os últimos dias, os meses que antecederam a morte demorada. Aquele lugar tem um peso que não tem competição. É chegado o momento que também a fez tremer ao longo de toda a cerimónia. De vestido negro, saltos altos e um rosto caído, a filha, minha prima distante, avança na leitura do discurso preparado. Não lhe conheço, senão a cara e o nome. Se noutro tempo trocámos palavras, já me esqueci. Aludiu à vida cheia da mãe, ao amor aos seus, à entrega às causas em que acreditava, sempre carregada de humanidade. Dos meses frios até chegarem ali, da doença, do cancro. Foi, ao longo de cada palavra dita, exibindo um sorriso. Não chorou. Transbordaram, contudo, as emoções. Não sei se é sempre assim, mas há emoções que passam a mensagem, mesmo que olhes fixamente para as tábuas velhas, ou para os pés que não têm sossego. Fechou-se a grande porta. O resto, já sabemos. É saudade e, como lembrou o filho no derradeiro instante, é parar hoje e ganhar balanço para amanhã.

23.2.15

Em diferido. #28

Exclusivas emoções - A passadeira vermelha importa, com certeza. É o entremeio, do que mais vezes vem. Noutra asa golpada pela extensão do que vem de um ano voltado para a sétima arte. A cada ano, é um voltar-lhe aos braços. Mudam, quando mudam, os nomes e os cabeça de cartaz. Faz parte. É, ao pisar o vermelho, que se toma nota das mais turbinadas palavras e figurinos. É o que, para alguns, no dia seguinte, se sobrepõe aos vencedores temidos e aos vencidos perdidos em pensamentos. Um mundo tão próximo do outro. Às tantas, sei que me cansa a ideia de ficar, uma vez mais, a ver a prolongada e, por vezes, desajustada noite dos Óscares. Mas ao contrário, vou insistindo. A cerimónia guarda menos surpresas. Já não aposto. Não tenho dedo para a coisa. Premiar a objectiva é tramado. Escolher o melhor entre tantos, também. Na arte. Que é logo a senhora do que ultrapassa o físico. A dona que se suporta no espírito. Claro que faz sentido a passadeira vermelha. Ali vivem-se corpos. Mais ou menos vestidos. Cores e tecidos trabalhados. Quer queiramos, quer não, será sempre assim. Discute-se a arte. Seja no palco, de título no punho, seja na passadeira, de ansiedade e expectativa no peito. É o que prevalece. As emoções.

22.10.14

Aflição infinita.

Surge uma lágrima antes do discurso. Cai, de seguida, outra. Depois outra. Até que os olhos se desligam e perdem o controlo. Nunca mais interessa, assim se inicie a libertação que não tem fim. É um confronto interno, imagino, antes das palavras lhe saírem boca fora. Lá dentro, onde só ela conhece os meandros onde as guarda, batem-lhe, enquanto as escolhe, no fundo. O coração é o órgão de múltiplas situações. Mas é nele que se sentem as emoções. Como se a amargura de nada combater, lhe ferisse de morte. Como se a dor fosse tão física. Que é, quando se sente é porque é verídico. O coração está ali, mas quer, no desespero da incapacidade de manter a calma, sair-lhe do peito. A voz levanta-se quando mostram outro caminho. Errático, por sinal. Repele o confronto. A ironia de persistir por medo. O descrédito de quem havia de a proteger. Desliga a coerência. Persiste num jogo que não entende e que, neste instante, não tem fim à vista. É uma obrigação que come o corpo até ao fim da carne. É uma infelicidade que não fecha pela guerra de manter a felicidade de outro corpo. É, por fim, perguntar o que é que quem a ouve acha que deve fazer. É, depois disso, um silêncio. A ausência de palavras por não existirem. É, sem sombra de dúvida, estar numa luta que é altamente acerba.

21.8.14

A aldeia veste-se de festivo fato.

Há festa na aldeia. É filme e de inspiração certeira. Fora da grande tela, é aldeia de um Portugal que se escuta no fado, que se lê nas demoradas palavras de Eça de Queiroz e nas linhas estreitas e desformes de Fernando Pessoa. Relíquia de um jogo de palavreado. Que se mostra esquecido, assim de quando em vez. Tinha graça na moça. A que leva saia rodada à festa. Dela ouvir-se um bizarro discurso cantarolado, ouvindo, ao fundo, uma guitarra. Há festa. Na aldeia que vive no verão, apaga no sossego das restantes estações. É dormitório. Voltamos à festa. Palco ao centro. Artes e sabores são o mote. Soa, desde cedo, o popular dos tocadores. Uma voz arranhada e esforçada mede-se com o acordeão que carrega nos braços. É cor espalhada nos enfeites que fazem tecto. Ainda há rigor na farpela dos que lhe pertencem, à aldeia e à romaria. Ainda há novos e velhos. Grupos que naufragam por águas diferentes. Mas partilham o murmúrio dos dias. É regresso. Um ano de ausência, numa festa, a presença. É a lei do distante. Do ausente.

19.8.14

Algarve, posto de obrigação.

Fazer fotografia, ou fotografias, como se alguém as fizesse, é um puro deleite. Talvez, sem que perceba, me roube as palavras, as definições. As esconda antes de colocar rigor na conclusão do que é fotografar. Repetir-me, nessa e noutras questões. Samba na reprodução do repetido. As regras de um léxico que desvenda coisas. Também pessoas, lugares. Um léxico que treme como a lente. Que foca ou desfoca conforme o suporte e ligeireza de um corpo e mente sãos. Teimas, fazes escolhas. Procuras o enquadramento. Fixas pessoas, estratégias de um gosto tão pessoal. Como o negro e o branco. Outras, ganham na forte e infindável raça da cor. Agora, carregas no botão. E tens uma imagem. Num cinzento que tem brilho nos pontos certos. Um verão, num Algarve de requinte. Onde, à beira de uma piscina ou numa praia de água gelada, duas pessoas se sentam. Ela tem uma coroa de flores na cabeça, depois os cabelos caídos e secos do sol. Ele olha-lhe com o mesmo entusiasmo. Há tanto movimento ao redor, que parece mentira. Fazer fotografias ou o plural, é guardar e isolar. Guardar e resguardar. Precisamente para abrigar estes e outros momentos de futuros danos.

24.3.14

Aumentar a parada.

Olha, senta-te aí. Ficamos a olhar. Senta-te no passeio, sobreposto. Deixas, sem medo, os pés a marcar a estrada. Afagas a máquina fotográfica no colo. Aqueces-te com o cachecol, as luvas e o sobretudo. Atinas a vista, fugindo do sol invernoso, com os óculos de sol. Do lado de lá está uma montra pejada de livros. Carregada de títulos. Sobrecarregada de quadros na parede. Acumulando memórias. Vamos namorá-la antes de entrar. Aprecio convites súbitos. Aceito, claro. Temos tempo.

3.3.14

Exclusivas emoções.

A passadeira vermelha importa, com certeza. É o entremeio, do que mais vezes vem. Noutra asa golpada pela extensão do que vem de um ano voltado para a sétima arte. A cada ano, é um voltar-lhe aos braços. Mudam, quando mudam, os nomes e os cabeça de cartaz. Faz parte. É, ao pisar o vermelho, que se toma nota das mais turbinadas palavras e figurinos. É o que, para alguns, no dia seguinte, se sobrepõe aos vencedores temidos e aos vencidos perdidos em pensamentos. Um mundo tão próximo do outro. Às tantas, sei que me cansa a ideia de ficar, uma vez mais, a ver a prolongada e, por vezes, desajustada noite dos Óscares. Mas ao contrário, vou insistindo. A cerimónia guarda menos surpresas. Já não aposto. Não tenho dedo para a coisa. Premiar a objectiva é tramado. Escolher o melhor entre tantos, também. Na arte. Que é logo a senhora do que ultrapassa o físico. A dona que se suporta no espírito. Claro que faz sentido a passadeira vermelha. Ali vivem-se corpos. Mais ou menos vestidos. Cores e tecidos trabalhados. Quer queiramos, quer não, será sempre assim. Discute-se a arte. Seja no palco, de título no punho, seja na passadeira, de ansiedade e expectativa no peito. É o que prevalece. As emoções.

13.11.13

Apresente-se, jubilação.

Sobrancerias à margem, distantes como só o aconchego e a fraternidade da partilha e da intimidade nos oferecem. Encerram-se, sem mais conversa, os valores que nos são caros. De tão caros não nos faltam. Não sendo um objectivo, surgem e seguram-se. Seguram-te. Só quem é e se permite ter, apossa-se do sentimento. Temos a receita. Seguros. Sirvam-se, enquanto pertencem.