Estou
sentado numa sala toda bonita, com vasos bem revestidos. Flores largas,
coloridas, cheias de pormenores. Num andar que testa a minha capacidade de
gestão de alturas, de um delíquio que tenta assomar-se. Nas minhas costas uma
janela gigante, vestida de vidro, limitada por um material que espero que ofereça
segurança. Numa furtiva troca de olhar com o exterior, percebo que sobre a
placa de um dos prédios da frente, habita um simpático jardim. Lembrou-me uma
cidade que guardou, em tempos, uma das minhas pessoas. Das que os laços não são
de sangue, são de amor e verdade. De volta à sala, as cadeiras, simpaticamente
trajadas com um azul forte. Confortáveis, como que a ensinar a demora. Senta-se
ao meu lado uma mulher. Havíamo-nos cruzado na entrada, no piso zero, e
partilhámos o elevador. Repete-me os bons dias, e devolvo com simpatia. Nesta
área prefiro o repetido, ao invés do interdito. No silêncio seguinte, respondi
ao seu sorriso com outro. Perguntou-me, no mesmo soluço – como que ganhando
terreno sobre a possibilidade de um novo hiato de silêncio se sobrepor – se estava
nervoso. Olhei-lhe – e devo ter arqueado a sobrancelha, no meu mais corriqueiro
ar de surpresa – e devolvi prosa resumida. Disse-lhe que não. Não havia razão.
O que me trouxe aqui é uma simples reunião. Agarrou a mala preta, sobre o colo,
e garantiu que também não estava. Procurava ser ela, sem outras diligências. Percebi,
no decorrer no discurso, que estava à espera para entrar para uma entrevista.
Mexia no cabelo, olhava o ambiente à volta, segurava a mala com fé. Andou nisto
até que a chamassem. Antes de entrar, junto à porta, dirigiu-me o olhar,
agradeceu-me com um obrigada profundo e desejou-me o melhor dos dias. Tão sui generis quanto genuíno, pareceu-me.
Levantei a mão direita, acenei e procurei ser o que esperava naquele momento.
Boa sorte, faça da sua melhor maneira – avancei. Bateu a porta. Continuei na
sala, de costas voltadas para a janela cuja altura é insana. Dei por mim a rir
sozinho. Os medos são fazedores do receio. Contudo, valem tanto quanto o que
lhes colocarmos nas mãos. Valem tudo até revolvermos a mecânica, avançarmos no
vazio e garantirmos as faculdades do raciocínio. Paro por aqui, não sou orador
da demagogia.
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27.3.17
19.12.16
Dezembro embrulhado em luzes.
Vim
pela rua, sob um frio nada vulgar, sobre a calçada nacional, com a vontade de
contar mentalmente os pontos de luzes a enfeitar, a cabeça a magicar. Larguei
os sapatos bonitos e os ténis divertidos. Trouxe as botas felizes. Um lenço
farto ao pescoço, o casaco capaz a cobrir o corpo. Vim pela rua secundária, com
as luzinhas a desenhar a época. Hei-de desaguar no largo, logo adiante, cuja
árvore central brilha e agiganta-se. Rodeada, claro, por petizes animados, pais
atentos, amigos em poses peculiares e outros a passar, cúmplices da feitura do
quadro. Sem apressar o passo, cheguei antes da hora marcada. Feitio que, com
gáudio, teimo em não desperdiçar. Recebido com toda a pompa, sem que assim
exigisse a circunstância, respondi com um sorriso comedido. Surge, de entre as
cabeças aglomeradas, aquele que nos junta por ora, e de cara leve, dirige-se a
mim e lança-se num cumprimento efusivo. Fui recebido assim. Depois pela senhora
que enverga um cargo sonante. Depois por este, a seguir por aquele, ainda outro
e outros tantos. A todos e sem excepção, agradeci a amabilidade e as honrosas
palavras. A sala começa a compôr-se, o burburinho não perdoa, os candeeiros
empinocados dão outra dimensão a tudo. E a todos. Num olhar furtivo, encontro
um rosto verdadeiramente cúmplice. A distância que a sala impõe, as conversas
de situação e a comedida emoção, vetaram uma precipitada reacção. Mais adiante,
quando a noite corria longa e prometia roubar largar horas, trocámos um beijo
no rosto com demora. Cedemos no sorriso que denuncia. Dezembro, esta altura do
ano, é um bom acaso para o descaso de, por fim, nos voltarmos a cruzar. À
janela, antevendo a prosa adiada, ficámos sem pressa. Neste embrulho sereno.
Voltei pela rua, contido no mesmo frio pojante, sobre as mesmas pedras da
calçada e, desta feita, com toda a vontade de mentalmente recordar e garantir
que a razão sobrepõe-se a tanto. Até que chegamos a Dezembro, cedemos no
cumprimento e emburulhamo-nos em luzes. Em tantas, quantas a necessidade.
24.9.15
Expressão de despedida.
O
ambiente é pesado, não fosse o descanso eterno um adeus. Sem sobressaltos que
venham a seguir. Um ponto final. Sem margem para dúvidas, não raras vezes, um
ponto final precoce. Antes do tempo certo. Como se o tempo tivesse essa
contabilidade. O ambiente é pesado, não fosse a igreja imponente, idealmente
escolhida. Os dourados sobre o branco e a pedra. O frio quase inerente. As
vestes elegantes no altar. As imagens à volta. As flores em jeito de homenagem.
A cerimónia fúnebre. O peso nos rostos. Da primeira fila à última. O silêncio
meio atrofiado. Como se este fosse, assim sem que nos apercebamos, roubado pelo
barulho de um género de brisa. A porta da igreja totalmente aberta, deixando o
convite. Entra luz por todos os lados. Os tectos trabalhados ganham outra vida.
Escondem-se os olhos, desde logo as emoções, atrás de uns óculos escuros.
Cumprimentos de quem não vê caras, mas lembra nomes e laços familiares. A
saudade, palavra recorrente. A missa, como se ia ouvindo de boca em boca, foi
bonita. Os cânticos, fundamentais apontamentos. Seguram-se, aqui e ali, lenços
brancos que enxugam as lágrimas teimosas. Não é fácil. E penso nisso, enquanto
olho para o marido e para os descendentes na primeira fila. Não é fácil sentar
naquele lugar. Como não foram fáceis os últimos dias, os meses que antecederam
a morte demorada. Aquele lugar tem um peso que não tem competição. É chegado o
momento que também a fez tremer ao longo de toda a cerimónia. De vestido negro,
saltos altos e um rosto caído, a filha, minha prima distante, avança na leitura
do discurso preparado. Não lhe conheço, senão a cara e o nome. Se noutro tempo
trocámos palavras, já me esqueci. Aludiu à vida cheia da mãe, ao amor aos seus,
à entrega às causas em que acreditava, sempre carregada de humanidade. Dos
meses frios até chegarem ali, da doença, do cancro. Foi, ao longo de cada
palavra dita, exibindo um sorriso. Não chorou. Transbordaram, contudo, as
emoções. Não sei se é sempre assim, mas há emoções que passam a mensagem, mesmo
que olhes fixamente para as tábuas velhas, ou para os pés que não têm sossego.
Fechou-se a grande porta. O resto, já sabemos. É saudade e, como lembrou o
filho no derradeiro instante, é parar hoje e ganhar balanço para amanhã.
23.2.15
Em diferido. #28
Exclusivas
emoções - A passadeira vermelha importa, com certeza. É o entremeio, do que
mais vezes vem. Noutra asa golpada pela extensão do que vem de um ano voltado
para a sétima arte. A cada ano, é um voltar-lhe aos braços. Mudam, quando
mudam, os nomes e os cabeça de cartaz. Faz parte. É, ao pisar o vermelho, que
se toma nota das mais turbinadas palavras e figurinos. É o que, para alguns, no
dia seguinte, se sobrepõe aos vencedores temidos e aos vencidos perdidos em
pensamentos. Um mundo tão próximo do outro. Às tantas, sei que me cansa a ideia
de ficar, uma vez mais, a ver a prolongada e, por vezes, desajustada noite dos
Óscares. Mas ao contrário, vou insistindo. A cerimónia guarda menos surpresas.
Já não aposto. Não tenho dedo para a coisa. Premiar a objectiva é tramado. Escolher
o melhor entre tantos, também. Na arte. Que é logo a senhora do que ultrapassa
o físico. A dona que se suporta no espírito. Claro que faz sentido a passadeira
vermelha. Ali vivem-se corpos. Mais ou menos vestidos. Cores e tecidos
trabalhados. Quer queiramos, quer não, será sempre assim. Discute-se a arte.
Seja no palco, de título no punho, seja na passadeira, de ansiedade e
expectativa no peito. É o que prevalece. As emoções.
22.10.14
Aflição infinita.
Surge
uma lágrima antes do discurso. Cai, de seguida, outra. Depois outra. Até que os
olhos se desligam e perdem o controlo. Nunca mais interessa, assim se inicie a
libertação que não tem fim. É um confronto interno, imagino, antes das palavras
lhe saírem boca fora. Lá dentro, onde só ela conhece os meandros onde as
guarda, batem-lhe, enquanto as escolhe, no fundo. O coração é o órgão de múltiplas
situações. Mas é nele que se sentem as emoções. Como se a amargura de nada
combater, lhe ferisse de morte. Como se a dor fosse tão física. Que é, quando
se sente é porque é verídico. O coração está ali, mas quer, no desespero da
incapacidade de manter a calma, sair-lhe do peito. A voz levanta-se quando
mostram outro caminho. Errático, por sinal. Repele o confronto. A ironia de
persistir por medo. O descrédito de quem havia de a proteger. Desliga a
coerência. Persiste num jogo que não entende e que, neste instante, não tem fim
à vista. É uma obrigação que come o corpo até ao fim da carne. É uma
infelicidade que não fecha pela guerra de manter a felicidade de outro corpo.
É, por fim, perguntar o que é que quem a ouve acha que deve fazer. É, depois
disso, um silêncio. A ausência de palavras por não existirem. É, sem sombra de
dúvida, estar numa luta que é altamente acerba.
21.8.14
A aldeia veste-se de festivo fato.
Há
festa na aldeia. É filme e de inspiração certeira. Fora da grande tela, é
aldeia de um Portugal que se escuta no fado, que se lê nas demoradas palavras
de Eça de Queiroz e nas linhas estreitas e desformes de Fernando Pessoa. Relíquia
de um jogo de palavreado. Que se mostra esquecido, assim de quando em vez.
Tinha graça na moça. A que leva saia rodada à festa. Dela ouvir-se um bizarro
discurso cantarolado, ouvindo, ao fundo, uma guitarra. Há festa. Na aldeia que
vive no verão, apaga no sossego das restantes estações. É dormitório. Voltamos
à festa. Palco ao centro. Artes e sabores são o mote. Soa, desde cedo, o
popular dos tocadores. Uma voz arranhada e esforçada mede-se com o acordeão que
carrega nos braços. É cor espalhada nos enfeites que fazem tecto. Ainda há
rigor na farpela dos que lhe pertencem, à aldeia e à romaria. Ainda há novos e
velhos. Grupos que naufragam por águas diferentes. Mas partilham o murmúrio dos
dias. É regresso. Um ano de ausência, numa festa, a presença. É a lei do
distante. Do ausente.
19.8.14
Algarve, posto de obrigação.
Fazer
fotografia, ou fotografias, como se alguém as fizesse, é um puro deleite.
Talvez, sem que perceba, me roube as palavras, as definições. As esconda antes
de colocar rigor na conclusão do que é fotografar. Repetir-me, nessa e noutras
questões. Samba na reprodução do repetido. As regras de um léxico que desvenda
coisas. Também pessoas, lugares. Um léxico que treme como a lente. Que foca ou
desfoca conforme o suporte e ligeireza de um corpo e mente sãos. Teimas, fazes
escolhas. Procuras o enquadramento. Fixas pessoas, estratégias de um gosto tão
pessoal. Como o negro e o branco. Outras, ganham na forte e infindável raça da
cor. Agora, carregas no botão. E tens uma imagem. Num cinzento que tem brilho
nos pontos certos. Um verão, num Algarve de requinte. Onde, à beira de uma
piscina ou numa praia de água gelada, duas pessoas se sentam. Ela tem uma coroa
de flores na cabeça, depois os cabelos caídos e secos do sol. Ele olha-lhe com
o mesmo entusiasmo. Há tanto movimento ao redor, que parece mentira. Fazer
fotografias ou o plural, é guardar e isolar. Guardar e resguardar. Precisamente
para abrigar estes e outros momentos de futuros danos.
24.3.14
Aumentar a parada.
Olha,
senta-te aí. Ficamos a olhar. Senta-te no passeio, sobreposto. Deixas, sem
medo, os pés a marcar a estrada. Afagas a máquina fotográfica no colo.
Aqueces-te com o cachecol, as luvas e o sobretudo. Atinas a vista, fugindo do
sol invernoso, com os óculos de sol. Do lado de lá está uma montra pejada de
livros. Carregada de títulos. Sobrecarregada de quadros na parede. Acumulando
memórias. Vamos namorá-la antes de entrar. Aprecio convites súbitos. Aceito,
claro. Temos tempo.
3.3.14
Exclusivas emoções.
A
passadeira vermelha importa, com certeza. É o entremeio, do que mais vezes vem.
Noutra asa golpada pela extensão do que vem de um ano voltado para a sétima
arte. A cada ano, é um voltar-lhe aos braços. Mudam, quando mudam, os nomes e
os cabeça de cartaz. Faz parte. É, ao pisar o vermelho, que se toma nota das
mais turbinadas palavras e figurinos. É o que, para alguns, no dia seguinte, se
sobrepõe aos vencedores temidos e aos vencidos perdidos em pensamentos. Um
mundo tão próximo do outro. Às tantas, sei que me cansa a ideia de ficar, uma
vez mais, a ver a prolongada e, por vezes, desajustada noite dos Óscares. Mas
ao contrário, vou insistindo. A cerimónia guarda menos surpresas. Já não
aposto. Não tenho dedo para a coisa. Premiar a objectiva é tramado. Escolher o
melhor entre tantos, também. Na arte. Que é logo a senhora do que ultrapassa o
físico. A dona que se suporta no espírito. Claro que faz sentido a passadeira
vermelha. Ali vivem-se corpos. Mais ou menos vestidos. Cores e tecidos
trabalhados. Quer queiramos, quer não, será sempre assim. Discute-se a arte.
Seja no palco, de título no punho, seja na passadeira, de ansiedade e expectativa
no peito. É o que prevalece. As emoções.
13.11.13
Apresente-se, jubilação.
Sobrancerias
à margem, distantes como só o aconchego e a fraternidade da partilha e da
intimidade nos oferecem. Encerram-se, sem mais conversa, os valores que nos são
caros. De tão caros não nos faltam. Não sendo um objectivo, surgem e
seguram-se. Seguram-te. Só quem é e se permite ter, apossa-se do sentimento.
Temos a receita. Seguros. Sirvam-se, enquanto pertencem.
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