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10.3.16

Em diferido. #46

Sem a reflexão imprescindível - Lamentavelmente, os convites já não vêm em carta fechada, com o endereço certo e o nome do destinatário com todas as letras. Sem erros, nem ausentes letras. Por fim, entregues em mão. Hoje em dia, vêm por bem, mas na força proporcional ao quotidiano desta gente invertida. O rio pode ser a passadeira perfeita. As palmeiras que abanam ao sabor do vento, enquanto dão um toque de paraíso à esplanada, podem, perfeitamente, ser bailarinas de serviço. Mas de qualidade. Não têm beleza no nome. Os caixotes de lixo, tão disfarçados, podem ser pratos imaculados de uma bateria. Os sofás que vemos no interior, numa putativa referência vaga às elegantes zebras, podem ser um qualquer piano de cauda. O funcionário, que nos atendeu com a postura correcta, contudo caída em desuso, de braços no lugar, podia, sem mazelas, ser um actor de uma película branca e negra. O sol que nos apanha não tem comparação. Éramos quatro à mesa. Um deles, um puto com graça. Levantou uma questão, que não tem resposta e da qual falarei em breve. Outra, uma mulher que conhecemos no acaso. Simpática, católica praticante e defensora dos grupos e de uma sociedade em definição constante. Posso ter-me enganado, mas foi o que me passou. A terceira pessoa, olhando-me nos olhos, atiça-me com – Quem diria que havíamos de estar numa esplanada, a esta hora, numa segunda-feira, a tomar algo. – É verdade, ninguém. O tempo não acalmou. Gastamo-lo sem dar por isso. Agora é um novo dia e chove copiosamente. Bad girl, bad girl.

9.6.15

Um livro rabiscado e a jovem do fim de tarde.

Vem de vestido florido, Converse All Star nos pés. Tem a mala num braço, um livro na outra mão. Senta-se e cumprimenta quem está à volta. O cabelo está sossegado, mas nunca impossível de mexer um ou mais centímetros. Ameaça viajar sem sair dali. Sorri para o empregado, e fala baixo. Esboça um sorriso enquanto pega no livro e abre na página assinalada. Não usa separador, as páginas estão marcadas. Imagino-as cheias de letras, tais os apontamentos que surgem das passagens relevantes. O livro sobre a mesa de madeira, a mão direita comanda a passagem das páginas, a mão esquerda brinca com o rosto. Chega a bebida e faz uma pausa. Agradece ao empregado. Toma um pouco da bebida e volta à leitura. Eu continuo à espera, que teimo em ser pontual. A vista é soberba, a esplanada que irrompe pela piscina que, por sua vez, faz pensar que se nos deixarmos ir, vamos precipitar-nos pelo verde adentro. Finalmente, chega quem eu aguardava. Tomamos algo e conversámos. Disse-lhe, outra vez, para largar o tabaco. Que vício pernicioso, meu bom amigo. Retorquiu, usando dos factos: Não sei ser outra coisa. Já sabes disso. Só vivo para ter o prazer de viver todos os vícios. Aceito, disse-lhe. Contudo, só até ao dia em que chegues ao desprazer. Adiamos, pois a filosofia, sem ter hora marcada, tem exigências tamanhas. Na mesma mesa, logo depois da nossa, continua a jovem. Agora acompanhada por uma senhora, que chegou de chapéu e daí para a frente, conversaram e riram juntas. E tem nome, a jovem do livro rabiscado, Maria Francisca.

17.3.15

Sem a reflexão imprescindível.

Lamentavelmente, os convites já não vêm em carta fechada, com o endereço certo e o nome do destinatário com todas as letras. Sem erros, nem ausentes letras. Por fim, entregues em mão. Hoje em dia, vêm por bem, mas na força proporcional ao quotidiano desta gente invertida. O rio pode ser a passadeira perfeita. As palmeiras que abanam ao sabor do vento, enquanto dão um toque de paraíso à esplanada, podem, perfeitamente, ser bailarinas de serviço. Mas de qualidade. Não têm beleza no nome. Os caixotes de lixo, tão disfarçados, podem ser pratos imaculados de uma bateria. Os sofás que vemos no interior, numa putativa referência vaga às elegantes zebras, podem ser um qualquer piano de cauda. O funcionário, que nos atendeu com a postura correcta, contudo caída em desuso, de braços no lugar, podia, sem mazelas, ser um actor de uma película branca e negra. O sol que nos apanha não tem comparação. Éramos quatro à mesa. Um deles, um puto com graça. Levantou uma questão, que não tem resposta e da qual falarei em breve. Outra, uma mulher que conhecemos no acaso. Simpática, católica praticante e defensora dos grupos e de uma sociedade em definição constante. Posso ter-me enganado, mas foi o que me passou. A terceira pessoa, olhando-me nos olhos, atiça-me com – Quem diria que havíamos de estar numa esplanada, a esta hora, numa segunda-feira, a tomar algo. – É verdade, ninguém. O tempo não acalmou. Gastamo-lo sem dar por isso. Agora é um novo dia e chove copiosamente. Bad girl, bad girl.

4.8.14

De soslaio num Algarve de agitação sem fim.

Praia, sol de quando em vez, esplanadas carregadas de gente, conversas e bebidas frescas, uma típica aragem de fim de tarde num dia de céu mais buliçoso. Pelo Algarve de pessoas sem fim. No Algarve que vive o ano inteiro, mas exprime excelso movimento por esta altura. Verão quente, como dantes. Verão desregrado, como agora. Chegados ao portão grande, aguardamos que a câmara de vigilância nos anunciasse. Aguardamos no carro. Havia sossego, do que nos era possível entender. Contudo, esperar-nos-ia uma festa. Por fim, abriu-se o portão. Entramos. Fomos recebidos e convidaram-nos a entrar. Bem-vindos, desfrutem. Disse-nos o dono da casa enquanto nos encaminhava para o jardim, um patamar acima da piscina. As colunas estrategicamente colocadas pelo espaço, salpicavam o ambiente. O resto, quando for propositado, saber-se-á. De qualquer modo, não deixou de ser um agradável amuse bouche para o aniversário que se seguiria. Algarve, mar de qualquer destino.

17.7.14

Míngua de opções.

Sob um calor que pesa, numa esplanada de pessoas a conviver. Aquele top de cor atraente e envolvente como uma chama bamboleante, naquele corpo que tem na pele a cor do bronze, chama a atenção. Ambos, o top, logo de seguida, o corpo. Entre nós, não há fumadores. A tempo inteiro, por ora. Pede-lhe um cigarro, apenas porque quer saber os seus hábitos e ouvir a sua voz sem que, por qualquer instante, ceda à fraqueza de lhe perguntar o que lhe interessa. Mudam as regras, neste jogo de fogo e água. Deste jogo do apanha e foge. Do chega e segue. Aumenta o som e a desenvoltura com que tantos de nós, deliberadamente, expõem a sua íntimidade. Na forma descompensada como muitos de nós se entrega sem que lhes perguntem. No jeito fácil e frágil em que se tornou a exposição do que nos deve ser mais intrínseco e profundo. Neste vício de criar relações. Um espécie de paródia mal sucessida, que envergonha a obra que está a ser imitada. Esqueçemo-nos do tempo de falar. Esqueçemo-nos da palavra. Inventam-se e compõem-se subterfúgios para chegar mais perto e mais depressa. Mudam-se os tempos, mudam-se as verdades. E esquecemo-nos das reais raridades. Fugiu-nos a discrição, chegou-nos a copiosa exposição.

11.6.14

Amor e um chapéu.

Nunca usei chapéu da porta para fora. Talvez, como se isso fervesse importância, porque o desconforto é superior à vontade. É tão absurdo como verídico. Como se jogasse com valores ou tivesse qualquer validade para lá de uma simples vontade. Lembro-me de usar um ou outro boné, ainda, um ou outro gorro. Usava-os em circunstâncias pontuais. Podiam ser os mais caros e ter as marcas da moda a gritar por todos os poros do que servia para cobrir a cabeça, que não me tomavam qualquer paixão. Viessem de que ponto do mundo viessem. Em serviço da verdade, embora, as tivesse a todas, as marcas, a dado instante, deixaram de ser um todo. Talvez ficassem pelo acessório. Pousei-os algures, aos bonés e gorros, e deixei-os para destino incerto. Em tempo algum voltei a usá-los. Mas o chapéu é diferente. Não sei se desenho ligação com o facto de, há uns anos, ter herdado um. Do meu avô. Era, para mim e para o meu avô, uma peça importante, por diferentes motivos, claro. Não me esqueço, mesmo quando a memória fraqueja, de vê-lo num dos quartos da casa dos meus avós, em jeito de exposição. Qual obra de arte. Era um apontamento de uma decoração cuidada. Um quarto, como outros, a ser de visitas, mas raramente usado. Raras, também, eram as vezes em que, ao visitá-los, não passava por ele. Pelo quarto e pelo chapéu. Também este, nunca usei. As razões, aqui, conduzem outras avaliações. Guardo-o com estimação. Mas outros, havia de usá-los. Gosto de chapéus, sem explicação, mas nunca os ousei usar. Lembro-me disto, se tem relevante sentimento, porque partilhei, este fim-de-semana, a esplanada com gente boa e genuína. Entre essa gente, estava um homem com bem mais idade do que eu, com uma pinta sem igual. Daquelas de capa de revista. Barba cerrada, mas cuidada. Óculos de sol vintage, como se diz. E, claro, um brutal chapéu. Inevitavelmente, falei-lhe de chapéus. E gabei-lho. Depois de me passar tantos relatos, ficou de me levar a uma chapelaria de outros tempos. Quem lá entra, apaixona-se. Que eu aproveite enquanto dura.

21.5.14

Em diferido. #9

É o retrato de um bando de petizes. A imagem condói. É doída, castigada. Sofrida. Pela rua, a direito, quando o sol de primavera, ao fim da tarde, ameaça fazer mossa e convida à paragem numa pretensiosa  esplanada, quando já não dispensamos os óculos de sol da nossa marca favorita e guardamos os afazeres para o dia seguinte na agenda do iPhone, surgem três rostos, novos, lá ao fundo. Três crianças num trejeito típico. Num linguajar característico. Num tom de decibéis desconcertados. Cada uma, carregando um balde. De forças melindradas. De ânimo exaltado a disfarçar o peso do que carregam à obrigação de uma herança desgovernada. Os cabelos empeçados, as roupas tingidas, os olhos remelentos e de vislumbre penetrante, os rostos pintalgados com a cor da terra. A insensibilidade do hábito, escorrendo-lhes rosto abaixo. As roupas tão saturadas do tempo e do vivenciar tão quotidiano. Com isto, começaram a aproximar-se e tudo o que ficou para trás no relato está, nesta altura, mais focado. As vozes mais próximas, os decibéis confirmam-se carregados. O perfil desalinhado de quem nunca tomou o conhecimento de outra vida. E apregoavam, numa tentativa, até aqui, infrutífera de vender. Fosse o que fosse. Entre um transeunte e outro, entre o apregoar, voltavam a insistir. A pedir também, que lhes dessem um euro. Pode ser só um euro, diziam. E ninguém, ao passar, levanta o rosto ou parava para os ouvir, tão pouco lhes olhavam. Mas os petizes insistiam, sem que parassem, ou pousassem os baldes. A ladainha mantinha-se. Quando, já junto a nós, perguntaram se queríamos comprar. Agradecemos, mas dissemos que não. Sorrimos-lhes. Ela, como sempre, dirigiu-se-lhes, tornou a agradecer e com a sensibilidade de sempre, voltou-lhes algumas palavras. E eles sorriram, ao mesmo tempo que quase paralisaram a olhar-lhe. Obrigado, menina. Disseram-lhe os três. E seguiram caminho. De baldes nas mãos. Voltando a arrematar pregão. Nós, igualmente, seguimos caminho, enquanto pensávamos o mesmo. Preferimos não falar. Novamente, colocámos os óculos de sol. Estamos em Portugal. Que aperto pensar. Que aperto é observar.

14.4.14

Um bando de petizes.

A imagem condói. É doída, castigada. Sofrida. Pela rua, a direito, quando o sol de primavera, ao fim fim da tarde, ameaça fazer mossa e convida à paragem numa pretensiosa  esplanada, quando já não dispensamos os óculos de sol da nossa marca favorita e guardamos os afazeres para o dia seguinte na agenda do iPhone, surgem três rostos, novos, lá ao fundo. Três crianças num trejeito típico. Num linguajar característico. Num tom de decibéis desconcertados. Cada uma, carregando um balde. De forças melindradas. De ânimo exaltado a disfarçar o peso do que carregam à obrigação de uma herança desgovernada. Os cabelos empeçados, as roupas tingidas, os olhos remelentos e de vislumbre penetrante, os rostos pintalgados com a cor da terra. A insensibilidade do hábito, escorrendo-lhes rosto abaixo. As roupas tão saturadas do tempo e do vivenciar tão quotidiano. Com isto, começaram a aproximar-se e tudo o que ficou para trás no relato está, nesta altura, mais focado. As vozes mais próximas, os decibéis confirmam-se carregados. O perfil desalinhado de quem nunca tomou o conhecimento de outra vida. E apregoavam, numa tentativa, até aqui, infrutífera de vender. Fosse o que fosse. Entre um transeunte e outro, entre o apregoar, voltavam a insistir. A pedir também, que lhes dessem um euro. Pode ser só um euro, diziam. E ninguém, ao passar, levanta o rosto ou parava para os ouvir, tão pouco lhes olhavam. Mas os petizes insistiam, sem que parassem, ou pousassem os baldes. A ladainha mantinha-se. Quando, já junto a nós, perguntaram se queríamos comprar. Agradecemos, mas dissemos que não. Sorrimos-lhes. Ela, como sempre, dirigiu-se-lhes, tornou a agradecer e com a sensibilidade de sempre, voltou-lhes algumas palavras. E eles sorriram, ao mesmo tempo que quase paralisaram a olhar-lhe. Obrigado, menina. Disseram-lhe os três. E seguiram caminho. De baldes nas mãos. Voltando a arrematar pregão. Nós, igualmente, seguimos caminho, enquanto pensávamos o mesmo. Preferimos não falar. Novamente, colocámos os óculos de sol. Estamos em Portugal. Que aperto pensar. Que aperto é observar.

21.5.12

É uma esplanada, sff.

Adoro esplanadas. São um admirável mundo, onde tomamos um lugar privilegiado. Sentamo-nos, partilhamos, ou não, uma mesa e ficamos por ali, entre conversa e consumo que nos obriga a movimentos repetidos. Mas, para mim, o que torna este espaço tão especial e tão característico é a possibilidade de ficarmos, sem pressa, por ali, a observar quem passa. Passam homens e mulheres, velhos e novos, portugueses e estrangeiros. Eu fico a imaginar o que cada pessoa leva consigo. Não me refiro a sacos nem malas, mas à vida que cada um guarda para si. Se são bons ou maus, não interessa. Sem julgamentos. É um passatempo como outro qualquer. Uma mania como outra. Esta é, entre outras, uma das minhas e, não duvido, muitos haverá a partilhar comigo este gosto. Não se trata de coscuvilhice, é uma questão de imaginação e criatividade.