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26.1.15

À sua.

Conta-me histórias. Avô babado ou vizinho interessado. Avó atenta ou vizinha ternurenta. O cuidador do jardim sempre com tempo ou a senhora que criava e mantinha o lar, enquanto cuidava da casa, não deixava de jogar uma palavra. Vá lá, conta-me mais. Verdadeiras ou farsas reais. Prefiro-as mestiças. Pedir que conte mais e mais. Num tempo longe. Quando a inocência era o mote. A dúvida era simples. É mentira pegada ou verdade desenhada. Na carrinha, a cantiga era a mesma e pediam, desta vez, ao senhor condutor, que colocasse o pé no acelerador. Ou aos céus que faça sol ao invés da chuva miúda. A Dona Conceição, funcionária da organização, era paródia no meio da canção. Voltar ao lugar, à escola primária viva. O banco do jardim, momentos de recreio. Brincadeira sem fim. A tal menina mexida, julgava-se a Miss nacional. No ano seguinte, no mesmo banco verde seco, foi namoro de verdade infantil. A entrada é a mesma. O jardim está mais cuidado. Correm crianças. A velhota de negro ainda existe. Mudaram-lhe o corpo e o nome, mas vive à volta. Antes, cadeado na conversa. Agora, chapéu-de-chuva que tapa o sol de inverno. Conta-me histórias, velha de negro. Na rua, num ou noutro banco de paragem. Saudinha!

4.11.14

Vale uma centena.

Era ainda petiz quando ouvi esta conversa. É a certeza de que a cidade te recebe, mas a criação nunca esquece. O possante carro ficou logo ali. Anda à roda num lugarejo de vizinhas curiosas, de jardim à boca da singela capela. Murmúrios de mural em frente ao café das novidades, saudades que atiçam as memórias de amores, relações, traições e tradições. É aldeola de meninas que ainda vestem saias rodadas, que não sustentam da boca para dentro a malvada necessidade de saber e conhecer quem passa. É calçada molhada da humidade da noite fria, é a fonte que seca mais vezes do que os nervos têm ganas de a procurar de garrafão nas mãos. Mas não desiste de pingar. Enquanto se matam lembranças da porta da Maria Etelvina, da mercearia do José Joaquim, da garagem do bonito carro do Cesário. Do coreto inventado nas costas do jardim. Da cantoria da Carmelita. Ora chove, ora faz sol. O vento vai dando tréguas. A idade pesa tanto quanto o estojo do caminho passado. Neste lugarejo que provoca as estruturas de uma cabeça que ainda não esqueceu. Neste cenário, o homem que anda na viva roda, leva um lenço de bolso. Dele, do homem, hei-de voltar a escrever. Dele, do lenço de bolso, hei-de me lembrar de escrever, sobre a estória que conheço e a importância que lhe ofereço.

4.6.14

Conter para continuar a ter.

É um compincha de idade maior, daqueles que já perderam parte da farta cabeleira, onde os fios de cabelo que restam, já desbotaram. Junta aos olhos cansados, os óculos suspensos no nariz. Com a distância perfeita, para que, nas letras desenhadas no jornal, seja ajuda e compreensão, e para quando levantar o olhar, seja desprotecção. Para que, sem oferecer grandes desajustes, enxergue com atenção. Entre a conversa atenta e a leitura demorada do jornal, ia-me falando, divagando nos pormenores, estórias de outros tempos. Ligações de uma vida cheia às composições das reportagens de jornal. Acredita na formação dos jovens. A sina castra oportunidades. A intuição e vocação não são suficientes, contava-me com a certeza de quem fala com conhecimento de causa. Uma causa própria que, irremediavelmente, guarda dores medidas. O tempo esgota as reservas da dor. Traçou-me o perfil do que havia desejado ser. Desenhou o percurso da profissão. Do profissional. Sem que, em momento algum, houvesse experimentado, guarda a certeza de que teria sido um dos melhores. Os superiores em quantidade e qualidade também se perdem. Sofrem o prejuízo antes mesmo de tentar. Depois, bem depois, cai em desuso. Em esquecimento falado. Fica, somente, no interior guardado.

20.5.14

Veste azulejos como quem dorme sem descansar.

Conheci-a num dia solarengo, antes do verão quente, depois das chuvas intensas. Num dia que, num outro tempo, oferecer-nos-ia temperaturas amenas. O meio-termo foge-nos pelos dias, desata num galope de quem não tem espaço na agenda, de quem não guarda lugar para esperar, como a água escorre pela pele abaixo ou a areia investe numa corrida sem fim, por entre os dedos. Não consigo precisar o tempo que passou de lá para cá. Não há muito. Sem pensar, um ano que não parou. Porque o raro tem posição e prerrogativa para recusar parar. Mas, num jardim amplo e que nos engole só de olhar. À primeira vista, perdemo-nos logo, se não focarmos. Foi onde a encontrei. Havíamos marcado de surpresa. De ar pesado, algo másculo, estava de pé. Aquele corpo enérgico tinha um vestido a compor. Segurava, numa mão, partes de azulejos. A sua inspiração de cada dia. As mãos, apercebi-me no entretanto, estavam marcadas do trabalho. Sentamo-nos num baloiço. E, também aqui, o vagar pareceu tudo menos demora. Falou, nos primeiros relatos, a medo. Num tom baixo, num recurso a palavras repetidas. Sintoma de quem guarda nervos. Depois, bem depois agarrou o discurso e as memórias de tal forma, que conduziu sem esforço. Uniu-os, como só quem vive, se permite fazer. Agradeço, sempre, quem partilha vida comigo. Também à árvore que, durante toda a conversa, nos segurou tão bem. Os azulejos são a sua mala de mão. Não me esqueço.

10.2.14

Estórias de amigos. Com E, precisamente.

Para gáudio dos meus compinchas, proporcionou-se o momento há muito desejado. Avizinha-se um resto de mês e um princípio de um outro, pejado de jantares, provas, estreias e convívios. Concentrados, como se o ano tivesse perdido o querer. Temo que se trate de uma insolvência anunciada. Da minha vida social a caducar, precisamente. Ou, quem sabe, da despromoção de alguém. Temos casamento lá para a frente. Vêm aí anúncios ou despedimentos? Não nos lixem. Não há bem que sempre dure. Mas há tempo e vontade que perdure. Há sempre volta a dar. E estórias para contar.

24.1.14

O sol (já) brilha.

Numa qualquer ruela de cidade distante, apequenada no terreno, bebericada de mexericos, rica em tradições e gente genuína de rumores opinados, de gente que trabalha as terras, quando não lhes roubam os terrenos e as enxadas. O verde que refulgia a direito, esconde o abandono pervertido. Sob um sol que se impõe, mas não aquece. Nessa ruela, bastam quatro cadeiras e duas mesas de esplanada jogadas, rústicas e desajustadas, acomodadas à porta corrida de uma casa que já fora conhecida como o retiro espiritual de senhores de bem que, em casa e causa próprias, deixavam as legítimas, as esposas. Por ali, para lá da porta apagada com marcas do tempo, fumavam-se cigarros e charutos. Baixavam-se calças, caídas sobre botas rudes e subiam-se saias plissadas enquanto o decote ganhava emoção. Bebiam-se vinhos e águas que ardem ao cair. A escadaria, depois do balcão maciço, convidava a um outro nível. Dizem, escutavam-se barulhos vários. Arrastavam-se. Hoje, que o sol brilha e bate neste prédio alto de janelas relevantes, que o devolve sem problemas de consciência, à porta está uma mulher com perto de trinta e seis anos, arrisco eu. Cabelo corrido e pouco escovado, as mãos escondidas nas algibeiras de um casaco quente. O rosto cansado e um sorriso tímido. Dois dedos de conversa e contou-me o que, durante décadas, por ali aconteceu. O sol fugia, nesses anos. Pedi para a fotografar, envolvida pelo prédio que me convidou a atenção. Sorriu, envergonhada. “Só se não sair daí”, da minha máquina, entenda-se. E não vai sair, garanti-lhe. Pausei, entre a conversa buliçosa, para tomar um café. No final, a mulher que toma conta, contou-me que, em tempos, naquela rua sobressaía bem mais a chuva, a chuva de quem chora sem tempo. Do que o sol, que perdia. Choravam sempre as mesmas. As que ficavam para dentro das portas, debaixo de corpos grosseiros e as que, à porta, esperavam os mesmos corpos.

16.12.13

O velho que diz favor.

Todos os dias que a semana tem repetidos, que o sei naquele mesmo lugar. No mesmo banco e mesa. Lê o jornal, sempre o mesmo nome. Bebe água, chá ou aventura-se no café. Evita o último, razões da tensão alterada. Escreve, com tinta azul, num monte de folhas brancas. Alguns rabiscos parecem-me poemas. Nas suas costas, descansa a fiel amiga e companheira, uma bicicleta elegante e arranjada. Ele, quando não ignora tudo e todos, fala. E, a cada pergunta, termina com um por favor. Às vezes, traz chapéu. Não fuma, pois o tabaco chateia-lhe os pulmões, conta encantado. Tem olhos claros e cabelo grisalho. Usa perfume e camisas. Arranja-se para não envergonhar a companhia, a elegante bicicleta. Já não se senta nela. Leva-a pela mão. Tem-lhe respeito aos ossos. Senta-te aqui um destes dias e falamos. Por favor. Sugeriu-me.