Conta-me
histórias. Avô babado ou vizinho interessado. Avó atenta ou vizinha ternurenta.
O cuidador do jardim sempre com tempo ou a senhora que criava e mantinha o lar,
enquanto cuidava da casa, não deixava de jogar uma palavra. Vá lá, conta-me
mais. Verdadeiras ou farsas reais. Prefiro-as mestiças. Pedir que conte mais e
mais. Num tempo longe. Quando a inocência era o mote. A dúvida era simples. É
mentira pegada ou verdade desenhada. Na carrinha, a cantiga era a mesma e
pediam, desta vez, ao senhor condutor, que colocasse o pé no acelerador. Ou aos
céus que faça sol ao invés da chuva miúda. A Dona Conceição, funcionária da
organização, era paródia no meio da canção. Voltar ao lugar, à escola primária
viva. O banco do jardim, momentos de recreio. Brincadeira sem fim. A tal menina
mexida, julgava-se a Miss nacional.
No ano seguinte, no mesmo banco verde seco, foi namoro de verdade infantil. A
entrada é a mesma. O jardim está mais cuidado. Correm crianças. A velhota de
negro ainda existe. Mudaram-lhe o corpo e o nome, mas vive à volta. Antes,
cadeado na conversa. Agora, chapéu-de-chuva que tapa o sol de inverno. Conta-me
histórias, velha de negro. Na rua, num ou noutro banco de paragem. Saudinha!
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26.1.15
4.11.14
Vale uma centena.
Era
ainda petiz quando ouvi esta conversa. É a certeza de que a cidade te recebe,
mas a criação nunca esquece. O possante carro ficou logo ali. Anda à roda num
lugarejo de vizinhas curiosas, de jardim à boca da singela capela. Murmúrios de
mural em frente ao café das novidades, saudades que atiçam as memórias de
amores, relações, traições e tradições. É aldeola de meninas que ainda vestem
saias rodadas, que não sustentam da boca para dentro a malvada necessidade de
saber e conhecer quem passa. É calçada molhada da humidade da noite fria, é a
fonte que seca mais vezes do que os nervos têm ganas de a procurar de garrafão
nas mãos. Mas não desiste de pingar. Enquanto se matam lembranças da porta da
Maria Etelvina, da mercearia do José Joaquim, da garagem do bonito carro do
Cesário. Do coreto inventado nas costas do jardim. Da cantoria da Carmelita.
Ora chove, ora faz sol. O vento vai dando tréguas. A idade pesa tanto quanto o
estojo do caminho passado. Neste lugarejo que provoca as estruturas de uma
cabeça que ainda não esqueceu. Neste cenário, o homem que anda na viva roda,
leva um lenço de bolso. Dele, do homem, hei-de voltar a escrever. Dele, do
lenço de bolso, hei-de me lembrar de escrever, sobre a estória que conheço e a
importância que lhe ofereço.
4.6.14
Conter para continuar a ter.
É
um compincha de idade maior, daqueles que já perderam parte da farta cabeleira,
onde os fios de cabelo que restam, já desbotaram. Junta aos olhos cansados, os
óculos suspensos no nariz. Com a distância perfeita, para que, nas letras
desenhadas no jornal, seja ajuda e compreensão, e para quando levantar o olhar,
seja desprotecção. Para que, sem oferecer grandes desajustes, enxergue com
atenção. Entre a conversa atenta e a leitura demorada do jornal, ia-me falando,
divagando nos pormenores, estórias de outros tempos. Ligações de uma vida cheia
às composições das reportagens de jornal. Acredita na formação dos jovens. A
sina castra oportunidades. A intuição e vocação não são suficientes, contava-me
com a certeza de quem fala com conhecimento de causa. Uma causa própria que,
irremediavelmente, guarda dores medidas. O tempo esgota as reservas da dor.
Traçou-me o perfil do que havia desejado ser. Desenhou o percurso da profissão.
Do profissional. Sem que, em momento algum, houvesse experimentado, guarda a
certeza de que teria sido um dos melhores. Os superiores em quantidade e
qualidade também se perdem. Sofrem o prejuízo antes mesmo de tentar. Depois,
bem depois, cai em desuso. Em esquecimento falado. Fica, somente, no interior
guardado.
20.5.14
Veste azulejos como quem dorme sem descansar.
Conheci-a
num dia solarengo, antes do verão quente, depois das chuvas intensas. Num dia
que, num outro tempo, oferecer-nos-ia temperaturas amenas. O meio-termo
foge-nos pelos dias, desata num galope de quem não tem espaço na agenda, de
quem não guarda lugar para esperar, como a água escorre pela pele abaixo ou a
areia investe numa corrida sem fim, por entre os dedos. Não consigo precisar o
tempo que passou de lá para cá. Não há muito. Sem pensar, um ano que não parou.
Porque o raro tem posição e prerrogativa para recusar parar. Mas, num jardim
amplo e que nos engole só de olhar. À primeira vista, perdemo-nos logo, se não
focarmos. Foi onde a encontrei. Havíamos marcado de surpresa. De ar pesado,
algo másculo, estava de pé. Aquele corpo enérgico tinha um vestido a compor.
Segurava, numa mão, partes de azulejos. A sua inspiração de cada dia. As mãos,
apercebi-me no entretanto, estavam marcadas do trabalho. Sentamo-nos num
baloiço. E, também aqui, o vagar pareceu tudo menos demora. Falou, nos
primeiros relatos, a medo. Num tom baixo, num recurso a palavras repetidas.
Sintoma de quem guarda nervos. Depois, bem depois agarrou o discurso e as
memórias de tal forma, que conduziu sem esforço. Uniu-os, como só quem vive, se
permite fazer. Agradeço, sempre, quem partilha vida comigo. Também à árvore
que, durante toda a conversa, nos segurou tão bem. Os azulejos são a sua mala
de mão. Não me esqueço.
10.2.14
Estórias de amigos. Com E, precisamente.
Para
gáudio dos meus compinchas, proporcionou-se o momento há muito desejado.
Avizinha-se um resto de mês e um princípio de um outro, pejado de jantares,
provas, estreias e convívios. Concentrados, como se o ano tivesse perdido o
querer. Temo que se trate de uma insolvência anunciada. Da minha vida social a
caducar, precisamente. Ou, quem sabe, da despromoção de alguém. Temos casamento
lá para a frente. Vêm aí anúncios ou despedimentos? Não nos lixem. Não há bem
que sempre dure. Mas há tempo e vontade que perdure. Há sempre volta a dar. E
estórias para contar.
24.1.14
O sol (já) brilha.
Numa
qualquer ruela de cidade distante, apequenada no terreno, bebericada de
mexericos, rica em tradições e gente genuína de rumores opinados, de gente que
trabalha as terras, quando não lhes roubam os terrenos e as enxadas. O verde
que refulgia a direito, esconde o abandono pervertido. Sob um sol que se impõe,
mas não aquece. Nessa ruela, bastam quatro cadeiras e duas mesas de esplanada jogadas,
rústicas e desajustadas, acomodadas à porta corrida de uma casa que já fora
conhecida como o retiro espiritual de senhores de bem que, em casa e causa
próprias, deixavam as legítimas, as esposas. Por ali, para lá da porta apagada
com marcas do tempo, fumavam-se cigarros e charutos. Baixavam-se calças, caídas
sobre botas rudes e subiam-se saias plissadas enquanto o decote ganhava emoção.
Bebiam-se vinhos e águas que ardem ao cair. A escadaria, depois do balcão maciço,
convidava a um outro nível. Dizem, escutavam-se barulhos vários. Arrastavam-se.
Hoje, que o sol brilha e bate neste prédio alto de janelas relevantes, que o
devolve sem problemas de consciência, à porta está uma mulher com perto de
trinta e seis anos, arrisco eu. Cabelo corrido e pouco escovado, as mãos
escondidas nas algibeiras de um casaco quente. O rosto cansado e um sorriso
tímido. Dois dedos de conversa e contou-me o que, durante décadas, por ali
aconteceu. O sol fugia, nesses anos. Pedi para a fotografar, envolvida pelo
prédio que me convidou a atenção. Sorriu, envergonhada. “Só se não sair daí”, da minha máquina, entenda-se. E não vai sair,
garanti-lhe. Pausei, entre a conversa buliçosa, para tomar um café. No final, a
mulher que toma conta, contou-me que, em tempos, naquela rua sobressaía bem
mais a chuva, a chuva de quem chora sem tempo. Do que o sol, que perdia. Choravam
sempre as mesmas. As que ficavam para dentro das portas, debaixo de corpos
grosseiros e as que, à porta, esperavam os mesmos corpos.
16.12.13
O velho que diz favor.
Todos
os dias que a semana tem repetidos, que o sei naquele mesmo lugar. No mesmo
banco e mesa. Lê o jornal, sempre o mesmo nome. Bebe água, chá ou aventura-se
no café. Evita o último, razões da tensão alterada. Escreve, com tinta azul, num
monte de folhas brancas. Alguns rabiscos parecem-me poemas. Nas suas costas,
descansa a fiel amiga e companheira, uma bicicleta elegante e arranjada. Ele,
quando não ignora tudo e todos, fala. E, a cada pergunta, termina com um por
favor. Às vezes, traz chapéu. Não fuma, pois o tabaco chateia-lhe os pulmões,
conta encantado. Tem olhos claros e cabelo grisalho. Usa perfume e camisas.
Arranja-se para não envergonhar a companhia, a elegante bicicleta. Já não se
senta nela. Leva-a pela mão. Tem-lhe respeito aos ossos. Senta-te aqui um
destes dias e falamos. Por favor. Sugeriu-me.
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