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12.7.16

Aparato sumptuoso e digno.

Não nos cabe no corpo instigado pela euforia, a experiência de chegar lá pela primeira vez. Fogem-nos as palavras. As certas, as oportunas, as erradas e as impensáveis. As outras, dotadas de um certo tabuísmo, também. O desdém foi arremesso de ocasião, a propósito, em todo o percurso. As veias salientes, o coração possante, o punho cerrado e os dentes numa tensão profunda. Os ecrãs gigantes, as mulheres vibrantes, os homens expectantes e as crianças atentas. As bandeiras nacionais nos lugares mais comuns, nos mais inusitados e nos corpos aturdidos. Os movimentos impacientes, as mãos levadas ao rosto. As lágrimas tomando muitos de assalto. Os gritos de dor sossegada e de felicidade estampada. O Hino Nacional na ponta da língua, o tempo de antena que merece. Um soluço de apneia. No relvado a questão. O plantel na discussão, no esquema da emoção, fazendo frente a quem joga e atenta contra todos e cada ponto. Grita-se por Portugal. Da bancada diante da prova até ao café cheio no país natal e à praça da cidade atulhada. Casais suportando as mãos, grupos de amigos fortemente unidos, velhos e novos no mesmo trajecto. Não se negue, é futebol. É o desporto das massas e corrompe grande parte das antipatias. É o pretexto para assomar junto ao outro. Putativo desconhecido. Trocar ideias e vociferar asneiras. Agradecer, por fim, a cada um dos valentes. Viver e comemorar. Fá-lo como melhor te assenta. São emoções. Fortes e quase umbilicais. Por isso, há instantes, na despedida de alguém especial, pedi-lhe que regressasse bem a França e que os encontrasse ainda ressabiados. Pois, bem sabemos, o título já chegou. E é nosso. Do Portugal dos desdenhados. Saudações!

30.6.16

Confundir a espécie que prescinde.

Os estendais fascinam e chamam por todos e cada um. Lamento, mas cedo na generalização. As peças pouco importam, no meu conceito, porque é a janela em jeito de festividade de longa data que interessa e compõe as vistas. De adornos vários, com as peças a bebericarem por quem vai passando. O particular suporta o todo. Andei por aqui e além com a minha máquina fotográfica mais recente. Brinquei, passeei e guardei alguns resultados que não envergonham. Só para atalho do compromisso com a experiência. Não perdoo, no entanto, a difusão do geral, a vulgarização de temas e acções relevantes. A displicência conforme o alvo, também me incomoda. A banalização dos actos que são, em favor da democracia, pessoais e intransmissíveis – para aludir aos termos desusados – confunde. Quem os pratica, desajustados da realidade, factualidade e putativa nocividade, e quem os assiste. Os últimos, em não compreendendo, são grande parte do grupo dos inopinados lesados. E leva-se assim, numas mãos trémulas, pouco inclusivas e nada promotoras do progresso, o mundo. Os tais, que aventam sair do mesmo lugar, sofrem no imediato da escolha, antes mesmo da saída efectiva. Agudizam-se os comportamentos xenófobos, tão nefastos, perniciosos e, não se iludam, humilhantes para a nação, pátria de quem os pratica. Os discursos atirados para o ar, numa tentativa de que alguém, que não o vento, os apanhe e limpe. Há resultados, por seu turno, que jamais serão impecáveis. Por quaisquer tentativas que se sucedam, são maus resultados e que envergonham. Tanto mais, pela dimensão que têm e pela exposição da fragilidade de quem proclama firmeza e intelecto. Morre o compromisso, esquece-se a experiência. Enquanto isso, numa das ruas por onde andei, há estendais sem fim, gente que fala outra línguas, animais simpáticos e senhoras de idade avançada a cantarolar. O mundo não gira por acaso. Quem acredita é mais sabedor. Lastimo, mas cedo, uma vez mais, na generalização.

22.9.14

Gosto delicado de deixar nu.

Recebi na minha caixa de e-mail um anúncio. Nele, um conjunto de imagens, que lado a lado com outras, estão numa exposição. Lembrava-me, o mesmo amigo, no mesmo e-mail, que as fotografias, de um fotografo recente, aconteciam numa cidade, que não sendo capital, é movimento de cultura. Não falo, portanto, de Portugal. Fatalmente, o nosso país prefere esconder a necessidade de viver e conhecer. Não conhecia o recente fotografo, nem de nome. Fui procurar saber. Afinal, o artista apelidado de recente, conta com um vasto número de exposições e imagens premiadas. Desta feita, volto a ter a certeza de que as legendas cansam. Valorizam-se ou perdem-se sem grandes questões. As imagens, voltou a escrever-me o mesmo amigo, eram o espelho de cada corpo nelas representado. Tive de concordar. E, nisto, lembrei-me de uma mulher que conheci há muitos anos atrás. Uma professora de português que desenhava. Era desgovernada e sem feitio para o espartilho de uma educação com cintos. Não será necessário escrever que não tinha particular popularidade entre os da mesma classe. Mas insisto. Soube mais tarde, desenhava corpos. Nus e, preferencialmente, corpos nus de mulheres. No desatino do destino, conheci-lhe algumas obras, anos mais tarde. E percebi. O gosto pelo desenho. A primazia pelo nu. A simpatia pelo nu feminino. Ainda, o afastamento que ela cultivava de uma certa vaidade colectiva que tomava o ambiente por onde, inevitavelmente, tinha de se movimentar. E nas legendas, que dotada de palavra, simplificava o todo. É ver para acreditar.