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23.3.17

Adágio susceptível de discussão.

Finalmente, a carta nas minhas mãos. Já lá vão uns dias, sob um céu carregado, ameaçando com chuva para qualquer instante. Deixei o carro longe, vim pelas ruas da cidade. A calçada húmida. Um cão anda do avesso, parece à descoberta. Logo depois, o dono chama-o. Traz um lenço enrolado na cabeça e isso dá-lhe estilo. Espreitam umas madeixas de cabelo bem enroladas. As calças largas, com riscas desenhadas. Fuma e parece bem, ameno no passeio, capaz nos corredores da vida. Gabo sempre a verdade e o atrevimento de dar-lhe espaço. Prefiro-a à expectativa. Fez-me lembrar um tipo que conheci lá atrás. Era genuíno, testava os outros e refugiava-se nas drogas. Tanto, que vezes havia em que não sentia nada fisicamente, mesmo que o tentássemos esmurrar. Mas isso é garrulice para outras núpcias. Nas minhas mãos, por fim, a carta. Longas linhas de um recheio que já conhecia, uma tabela que justificava o resto. A internet aproximou-nos de tudo, chega sempre no imediato. A carta é a burocracia a fazer das suas, a formalidade dos actos. Guardei-a no bolso interior do trench coat. Disse-me a minha irmã o nome do dito e, por isso, não desminto. Tenho em espera umas ganas valentes. Que me vêm atiçando. Provocando no sentido da mudança. De promover a novidade. De afastar o repetido. A carta não mais foi do que a prova disso. Decisões, decisões e mais decisões. Hei-de tomar rumo. A ver vamos se o certo. Recusar hoje pode trazer frutos amanhã. Aceitar agora pode carregar maleitas no futuro. Absorto, insensível às solicitações, não garante soluções. Estejamos aperaltados e perfumados ou na simplicidade da rotina. Há espaço para ambas. E a verdade gosta disso. A expectativa dá-lhe honras de presidente.

29.12.14

Desculpem a minha pantomima invertida.

Em tempo algum, tu sabes bem, existirão coisas sumárias, sem braços acesos. É um desassossego entre os dedos, que vais conhecendo sorrindo. As mãos cheiram a café. Tal e qual, assim mesmo. Como se, por desaire da sanidade, tivesse feito de uma taça um poço com fundo. Tu sabes bem. Um deslavado líquido enchendo. As mãos, sempre que as levava ao nariz, cheiravam a café. E repetia. Qual ironia. E voltava. A conversa, a descrição do cheiro e o levar das mãos ao nariz. Numa tentativa repetida de, jamais, se esquecer do cheiro. Como se aquela taça fosse o todo. Mergulhava as mãos. Sentia a temperatura morna e e brincava. E voltavam as palavras. O cheiro a café, em nada mudo. Lembro-me deste impensável e rebuscado momento depois de ouvir contar o amor. Como quando uma pessoa se divide e espera a outro. Sente, amiúde, a pulsação da outra. Tu sabes bem. Não tem, por certo, interesse. Para o outro, desligado comparsa. Nem para quem possa ver ou ler. Mas os sentidos importam. Valorizam e dão forma. Mesmo que a mensagem morra numa chávena de café, numas mãos que não sossegam ou num coração que ama sem desarmar. Tu sabes bem. Coragem. Era o que tu querias. Um dia.

29.10.14

Supõe-se real.

A ditadura dos mitos que roubam margem à realidade e das verdades em gomos impõe-se. É a actualidade a pedir atenção. Importa prestar-lhe ouvidos. Ser-se, por instantes, todo ouvidos. É o ADN da insolvência que não suporta, de todo, a procura de informação. Dissolve-se, certamente, na máxima provocação de ter chegado ao patamar que brilha e condiz com a perfeição. Arrisca-se chegar ao absurdo de arremessar, em praça pública, o desleixo que é fugir da corrente. Desse trilho tão estreito e longe de concretas e absolutas verdades. Os fundamentalismos deram as mãos à sobranceria que menospreza. De sobremaneira, falta-nos, à sociedade do minuto e à mesma sociedade do número um, pisar a realidade e nela permanecer. A individualidade esgotou-se algures. Alhear-se é mais fácil do que discutir e entender. Fazer evoluir, acontecer. Por ora, comem-se os mitos e arredam-se os gomos. Não é, se ficarmos pela generalidade, permitido experimentar novas condições. Ou velhas questões.

2.7.14

Em diferido. #12

Veleidade carente - Aquela roda gigante era um presente em concreto. Uma volta, depois outra, a seguir a essa, outra e mais outra. Outras tantas se seguiriam. Só na imaginação. Vivê-la-ias a velocidades distantes, dispares, tão desiguais. A idade era o patamar. O resto era dado pelo arranque sonoro do motor. No discurso alheio, era essa a conversa, aquela roda era o quão funcional se torna, a dado compasso, um percurso. Meio desavisado, entras na roda gigante e, daí em diante, não mais comandas. És engrenado no sustento da volta inventada. Restar-te-á a escolha ilusória. Ou desfrutas e não ousas, sequer, pensar no segundo seguinte ou passas a primeira, segunda, terceira e todas as voltas que se sigam, num pranto sem fim. Aquela roda gigante, maior do que todas as outras rodas, era um presente. Daqueles que te compram mas não pensam em ti, julgam-te pelo comprador. Depois de entrares, atreve-te, nem que por um instante, reclamar. E vais entender. Cai-te o céu azul em cima. O mesmo que serve de pano de fundo às voltas. Porque, no momento em que te dão sinal verde para um visto sem fim previsível, não te podes queixar. Do queixume não reza o entretenimento. Que não te passe pela moleira cogitar qualquer fim antecipado. Por seu turno, podes recusar tudo o que está para trás e seres apenas. Mandas parar, desces e procuras uma fortuna diferente. Não te esqueças, é claro, de agradecer. E pagar, que é o mais importante. Há sempre quem viva preso à quimera que sempre fora a sua própria roda.

16.6.14

Relação, para que te quero?

Encontrei a Maria, no jeito da ocasião. Vinha sorridente e leve, de sol a bater, de óculos escuros na mão, como se deles não se lembrasse, por isso, de olhos piscos, a esconderem-se e a defenderem-se da luz que lhe roubava a visão. Vinha depois daquele arco, antes do outro. E o sorriso vinha no rosto. Cruzamo-nos e, inevitavelmente, cumprimentamo-nos. É boa disposição. Dois beijos, abraço e conversa de situação. Não falámos sobre o Tiago. Estranha-se, depois é corriqueiro. Antes desta separação, não me lembro de os ver sozinhos. Um sem o outro. Era uma combinação, se quisermos, improvável, mas fazia um todo convincente. Divertimo-nos, sempre, bastante. Tanto que, antes do anúncio e da argumentação, havíamos repetido um excelente momento. Agora, iam separar-se. No dia anterior, enquanto planeavam mudar os estores da casa nova, depois da restante remodelação, perceberam que não mais fazia sentido. Pode parecer cruel. Mas é sustento. Inventar para procrastinar, rouba identidade. Sustente-se enquanto é tempo, sob pena de serem, a curto prazo, dois arrumados bonecos no maple da sala lá de casa, tão bem decorada ou no carro dos sonhos de muitos, no regresso de um fim-de-semana prolongado. A crueldade de um acto causa dor. Dor que passa. Ao contrário da inércia que abate qualquer títere.

2.6.14

Veleidade carente.

Aquela roda gigante era um presente em concreto. Uma volta, depois outra, a seguir a essa, outra e mais outra. Outras tantas se seguiriam. Só na imaginação. Vivê-la-ias a velocidades distantes, dispares, tão desiguais. A idade era o patamar. O resto era dado pelo arranque sonoro do motor. No discurso alheio, era essa a conversa, aquela roda era o quão funcional se torna, a dado compasso, um percurso. Meio desavisado, entras na roda gigante e, daí em diante, não mais comandas. És engrenado no sustento da volta inventada. Restar-te-á a escolha ilusória. Ou desfrutas e não ousas, sequer, pensar no segundo seguinte ou passas a primeira, segunda, terceira e todas as voltas que se sigam, num pranto sem fim. Aquela roda gigante, maior do que todas as outras rodas, era um presente. Daqueles que te compram mas não pensam em ti, julgam-te pelo comprador. Depois de entrares, atreve-te, nem que por um instante, reclamar. E vais entender. Cai-te o céu azul em cima. O mesmo que serve de pano de fundo às voltas. Porque, no momento em que te dão sinal verde para um visto sem fim previsível, não te podes queixar. Do queixume não reza o entretenimento. Que não te passe pela moleira cogitar qualquer fim antecipado. Por seu turno, podes recusar tudo o que está para trás e seres apenas. Mandas parar, desces e procuras uma fortuna diferente. Não te esqueças, é claro, de agradecer. E pagar, que é o mais importante. Há sempre quem viva preso à quimera que sempre fora a sua própria roda.