Finalmente,
a carta nas minhas mãos. Já lá vão uns dias, sob um céu carregado, ameaçando
com chuva para qualquer instante. Deixei o carro longe, vim pelas ruas da
cidade. A calçada húmida. Um cão anda do avesso, parece à descoberta. Logo
depois, o dono chama-o. Traz um lenço enrolado na cabeça e isso dá-lhe estilo.
Espreitam umas madeixas de cabelo bem enroladas. As calças largas, com riscas
desenhadas. Fuma e parece bem, ameno no passeio, capaz nos corredores da vida.
Gabo sempre a verdade e o atrevimento de dar-lhe espaço. Prefiro-a à
expectativa. Fez-me lembrar um tipo que conheci lá atrás. Era genuíno, testava
os outros e refugiava-se nas drogas. Tanto, que vezes havia em que não sentia
nada fisicamente, mesmo que o tentássemos esmurrar. Mas isso é garrulice para
outras núpcias. Nas minhas mãos, por fim, a carta. Longas linhas de um recheio
que já conhecia, uma tabela que justificava o resto. A internet aproximou-nos
de tudo, chega sempre no imediato. A carta é a burocracia a fazer das suas, a
formalidade dos actos. Guardei-a no bolso interior do trench coat. Disse-me a minha irmã o nome do dito e, por isso, não
desminto. Tenho em espera umas ganas valentes. Que me vêm atiçando. Provocando
no sentido da mudança. De promover a novidade. De afastar o repetido. A carta
não mais foi do que a prova disso. Decisões, decisões e mais decisões. Hei-de
tomar rumo. A ver vamos se o certo. Recusar hoje pode trazer frutos amanhã.
Aceitar agora pode carregar maleitas no futuro. Absorto, insensível às
solicitações, não garante soluções. Estejamos aperaltados e perfumados ou na
simplicidade da rotina. Há espaço para ambas. E a verdade gosta disso. A
expectativa dá-lhe honras de presidente.
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23.3.17
29.12.14
Desculpem a minha pantomima invertida.
Em
tempo algum, tu sabes bem, existirão coisas sumárias, sem braços acesos. É um
desassossego entre os dedos, que vais conhecendo sorrindo. As mãos cheiram a
café. Tal e qual, assim mesmo. Como se, por desaire da sanidade, tivesse feito
de uma taça um poço com fundo. Tu sabes bem. Um deslavado líquido enchendo. As
mãos, sempre que as levava ao nariz, cheiravam a café. E repetia. Qual ironia.
E voltava. A conversa, a descrição do cheiro e o levar das mãos ao nariz. Numa
tentativa repetida de, jamais, se esquecer do cheiro. Como se aquela taça fosse
o todo. Mergulhava as mãos. Sentia a temperatura morna e e brincava. E voltavam
as palavras. O cheiro a café, em nada mudo. Lembro-me deste impensável e
rebuscado momento depois de ouvir contar o amor. Como quando uma pessoa se
divide e espera a outro. Sente, amiúde, a pulsação da outra. Tu sabes bem. Não
tem, por certo, interesse. Para o outro, desligado comparsa. Nem para quem
possa ver ou ler. Mas os sentidos importam. Valorizam e dão forma. Mesmo que a
mensagem morra numa chávena de café, numas mãos que não sossegam ou num coração
que ama sem desarmar. Tu sabes bem. Coragem. Era o que tu querias. Um dia.
29.10.14
Supõe-se real.
A
ditadura dos mitos que roubam margem à realidade e das verdades em gomos
impõe-se. É a actualidade a pedir atenção. Importa prestar-lhe ouvidos. Ser-se,
por instantes, todo ouvidos. É o ADN da insolvência que não suporta, de todo, a
procura de informação. Dissolve-se, certamente, na máxima provocação de ter
chegado ao patamar que brilha e condiz com a perfeição. Arrisca-se chegar ao
absurdo de arremessar, em praça pública, o desleixo que é fugir da corrente.
Desse trilho tão estreito e longe de concretas e absolutas verdades. Os
fundamentalismos deram as mãos à sobranceria que menospreza. De sobremaneira,
falta-nos, à sociedade do minuto e à mesma sociedade do número um, pisar a
realidade e nela permanecer. A individualidade esgotou-se algures. Alhear-se é
mais fácil do que discutir e entender. Fazer evoluir, acontecer. Por ora,
comem-se os mitos e arredam-se os gomos. Não é, se ficarmos pela generalidade,
permitido experimentar novas condições. Ou velhas questões.
2.7.14
Em diferido. #12
Veleidade
carente - Aquela roda gigante era um presente em concreto. Uma volta, depois
outra, a seguir a essa, outra e mais outra. Outras tantas se seguiriam. Só na
imaginação. Vivê-la-ias a velocidades distantes, dispares, tão desiguais. A
idade era o patamar. O resto era dado pelo arranque sonoro do motor. No
discurso alheio, era essa a conversa, aquela roda era o quão funcional se
torna, a dado compasso, um percurso. Meio desavisado, entras na roda gigante e,
daí em diante, não mais comandas. És engrenado no sustento da volta inventada.
Restar-te-á a escolha ilusória. Ou desfrutas e não ousas, sequer, pensar no
segundo seguinte ou passas a primeira, segunda, terceira e todas as voltas que
se sigam, num pranto sem fim. Aquela roda gigante, maior do que todas as outras
rodas, era um presente. Daqueles que te compram mas não pensam em ti, julgam-te
pelo comprador. Depois de entrares, atreve-te, nem que por um instante,
reclamar. E vais entender. Cai-te o céu azul em cima. O mesmo que serve de pano
de fundo às voltas. Porque, no momento em que te dão sinal verde para um visto
sem fim previsível, não te podes queixar. Do queixume não reza o entretenimento.
Que não te passe pela moleira cogitar qualquer fim antecipado. Por seu turno,
podes recusar tudo o que está para trás e seres apenas. Mandas parar, desces e
procuras uma fortuna diferente. Não te esqueças, é claro, de agradecer. E
pagar, que é o mais importante. Há sempre quem viva preso à quimera que sempre
fora a sua própria roda.
16.6.14
Relação, para que te quero?
Encontrei
a Maria, no jeito da ocasião. Vinha sorridente e leve, de sol a bater, de
óculos escuros na mão, como se deles não se lembrasse, por isso, de olhos piscos,
a esconderem-se e a defenderem-se da luz que lhe roubava a visão. Vinha depois
daquele arco, antes do outro. E o sorriso vinha no rosto. Cruzamo-nos e,
inevitavelmente, cumprimentamo-nos. É boa disposição. Dois beijos, abraço e
conversa de situação. Não falámos sobre o Tiago. Estranha-se, depois é
corriqueiro. Antes desta separação, não me lembro de os ver sozinhos. Um sem o
outro. Era uma combinação, se quisermos, improvável, mas fazia um todo convincente.
Divertimo-nos, sempre, bastante. Tanto que, antes do anúncio e da argumentação,
havíamos repetido um excelente momento. Agora, iam separar-se. No dia anterior,
enquanto planeavam mudar os estores da casa nova, depois da restante
remodelação, perceberam que não mais fazia sentido. Pode parecer cruel. Mas é
sustento. Inventar para procrastinar, rouba identidade. Sustente-se enquanto é
tempo, sob pena de serem, a curto prazo, dois arrumados bonecos no maple da
sala lá de casa, tão bem decorada ou no carro dos sonhos de muitos, no regresso
de um fim-de-semana prolongado. A crueldade de um acto causa dor. Dor que
passa. Ao contrário da inércia que abate qualquer títere.
2.6.14
Veleidade carente.
Aquela
roda gigante era um presente em concreto. Uma volta, depois outra, a seguir a
essa, outra e mais outra. Outras tantas se seguiriam. Só na imaginação. Vivê-la-ias
a velocidades distantes, dispares, tão desiguais. A idade era o patamar. O
resto era dado pelo arranque sonoro do motor. No discurso alheio, era essa a
conversa, aquela roda era o quão funcional se torna, a dado compasso, um
percurso. Meio desavisado, entras na roda gigante e, daí em diante, não mais
comandas. És engrenado no sustento da volta inventada. Restar-te-á a escolha
ilusória. Ou desfrutas e não ousas, sequer, pensar no segundo seguinte ou
passas a primeira, segunda, terceira e todas as voltas que se sigam, num pranto
sem fim. Aquela roda gigante, maior do que todas as outras rodas, era um
presente. Daqueles que te compram mas não pensam em ti, julgam-te pelo
comprador. Depois de entrares, atreve-te, nem que por um instante, reclamar. E
vais entender. Cai-te o céu azul em cima. O mesmo que serve de pano de fundo às
voltas. Porque, no momento em que te dão sinal verde para um visto sem fim
previsível, não te podes queixar. Do queixume não reza o entretenimento. Que
não te passe pela moleira cogitar qualquer fim antecipado. Por seu turno, podes
recusar tudo o que está para trás e seres apenas. Mandas parar, desces e
procuras uma fortuna diferente. Não te esqueças, é claro, de agradecer. E pagar,
que é o mais importante. Há sempre quem viva preso à quimera que sempre fora a sua
própria roda.
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