Conheci
o D. ainda petiz. Éramos dois putos, imberbes como a idade exigia, aflitos na
vontade de aproveitar todo e cada momento. Às vezes menos. Mas, sucintamente,
era assim. Não me lembro do instante exacto. Mas sei que foi na primeira classe
– cuja distância potencia a minha sobejamente conhecida falta de memória. Os
anos seguintes foram de amizade e proximidade. Concluímos juntos a primária e
todos os restantes anos de escolaridade até que, à porta do ensino secundário,
escolhemos destinos diferentes. Partilhámos muitas horas, fosse sentados na
mesma carteira, fosse nos acontecimentos fora da escola. O D. era um puto
pejado de sonhos. Tinha uma característica que ele olhava com cautela, tinha-a
como sendo o seu tendão de Aquiles. Nunca lhe atribui importância, pela sua vã
relevância. O D. vivia no limite. Ele respirava fora do tempo nos momentos em
que a ansiedade tomava conta do corpo. E não foram raras as vezes em que
sucumbia aos nervos a fervilhar. Atropelava-se no discurso quando o tema lhe
importava. Desde sempre foi um sonhador. Preferia a imaginação à realidade. Não
coincidíamos em muito. Mas fomos amigos por isso mesmo. Soube, em primeira mão,
da primeira paixão. Não teríamos muita idade. Conheceu-a numa caixa de
supermercado. Trocaram uns olhares e isso bastou-lhe. Pensou nela nos meses
seguintes e voltou à mesma hora e ao mesmo local noutros dias para garantir uma
nova troca. Sem sucesso. Anos mais tarde, conhecemos uma rapariga. Nova na
escola. Foi a primeira namorada. Ela era tímida, ele também. Ela usava óculos e
isso dava-lhe toda a graça. Ele era ansioso inveterado. Ela tinha calma para
partilhar. Foram felizes até onde foi possível. Lembro-me do discurso nervoso
mas cauteloso no momento em que me contou da primeira vez. Brilhavam-lhe os
olhos e isso resumia o coração. Os anos avançaram, fomos ficando afastados, por
força da distância. Fomo-nos cruzando, sempre com a simpatia de sempre. Fui
conhecendo outras relações e uma que lhe roubou horas de sossego. As redes
sociais aproximam a informação, mas é só. O D. sempre sonhou na medida certa,
nunca foi alto demais. Porque isso não existe. O D. foi embora de Portugal.
Está num país bem mais cinzento, mas mais livre no pensamento de rua. O D. quis
um dia ser DJ. Foi em Portugal mas quis mais. Hoje trabalha num bar típico da
região. E quando pode, dá asas à imaginação. Largar tudo não é para todos. É
para alguns. Genuinamente capazes. E de convicção dotados.
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30.3.17
2.9.15
Nomes fictícios. #3
O
Felipe não quer casar. Não é uma questão de tempo ou de vivências. É peremptório.
Sempre que o assunto é casório. Repete-se, quantas vezes se multiplicam as
questões. Verdade lhe seja entregue, não baixa a capacidade de voltar a sacudir
as letras, formando-as resposta. Afirma, de mão passando na barba desfeita, e
pelas linhas do rosto, acentuadas pela nudez, que casar não é ser-se. É
estar-se. Ele não é muita coisa. Sabe que está muitas outras. Por outro lado,
entende-se incapaz de gostar muito tempo. Não saberia viver, suportando alguém,
num longo prazo. Sempre o soube. Escassos os namoros longos. Apreciou, sem
forçar, os relacionamentos efémeros. O casamento, ilusões desfeitas, não é para
ele. Diz, de expressão suportada na voz e com ar displicente, que para o homem,
casar é ceder o lugar. Há homens que se desfazem desde tenra idade. O Felipe
não esconde a desmedida relação e atracção pelo lugar primeiro. Pelo vazio da
enganada liberdade. Pelo papel principal, não fossem a expressão e o conteúdo
foleiros. Seja com este, seja com outro. Nome, fictício ou de certidão.
20.4.15
Podes fazer o que quiseres.
Voltei
a cruzar-me com a Joana. Pode, para já, não fazer sentido. Mas ela divertia-se
imenso e rodava com as emoções com a facilidade com que escondia tudo e inventava
como se vivesse faminta. Era menina de cores certas e queria, porque queria,
ser capa de revista. Mudava a cor do cabelo e desmentia as evidências, porque
queria à força, mostrar que era loira natural. Tão lógico como o afago de
algumas manias. Há uns tempos atrás, as casas de banho influenciavam a escolha
do espaço. Uma amiga limitava as saídas em grupo com os seus conhecimentos do
equipamento sanitário vizinho. Imagina um balcão, uma sala escura. Um bar que já
conheceu tantos donos quantos os dias que um mês conhece. Já foi ponto de
encontro, já foi lembrança de última hora. Quando já não restava outra
hipótese. Válida, pelo menos. No verão passado voltámos uma ou duas vezes, no
máximo. Uma alteração ou outra no espaço. Uma rapariga gira a servir ao balcão.
Outra sentada à conversa enquanto era servida. Uns quantos tipos de pé.
Sentamo-nos. Risada fácil, conversa com memórias. As bebidas sempre a girar.
Nisto, enquanto a líder da decoração (vulgo amiga limitadora de escolha) ia
confirmar se o roxo mantinha-se na parede, do balcão oiço um olá seguido do meu
nome. Afinal, a jovem sentada ao balcão era a Catarina. Cumprimentei-a e
trocámos algumas palavras. A servir no escuro, continuava a loira simpática. As
noites entre amigos não fazem sentido se não voarem. De regresso da casa de
banho, a amiga que encerra restrições, lamenta a troca do roxo pelo vermelho.
Diz, não combina com os espelhos. A culpa, continuou, só pode ser da aspirante
a actriz de novelas da meia-noite. A Joana era a miúda gira a servir no balcão.
Lamento sempre o meu pouco jeito para memorizar algumas coisas. Não me fez
confusão a Joana ter virado menina do bar. Gostei, isso sim, de vê-la ainda
mais gira e simpática. Noutros tempos, era um sufoco estar sempre à espera do
momento em que, ficcionando um desmaio, se jogava ao chão. Grande Joana, o
vermelho sempre te ficou bem.
11.3.15
Símbolo químico de ambos.
Longe
de enaltecer o erudito, mas perto de dividir a sabedoria individual. Voltamos
sempre à incoerente necessidade de falar do que move todos e cada um. Juntar
pessoas com tempo para conversar, independentemente do pretexto, é ter
oportunidade para aprimorar opiniões e ler nas entrelinhas das vivências. A
riqueza existe, logo nos lembramos do mais comum e constitutivo da essência. Ele,
aparentemente despojado da necessidade de afectos, defende que deve adormecer,
assim como, amanhecer ao lado de quem lhe mexe com as emoções, com quem sinta
vontade de jurar amor eterno. Ela, de postura rija, garante que não partilha a
cama depois do sexo. Em momento algum, ouvimo-la falar de amor, tampouco, do
impulso da paixão. Ele, garante, investe na partilha dos corpos, a verdadeira
indução do acto. Ela, sem reservas, diz que aposta no toque, nas mãos que
esculpem as formas e dão dimensão e corpo às carnes. Apresentam-nos uma química
invertida e uma física que tem ameaças hipotéticas. Salve-se a humanidade. Há
esperança. Quando escutas, deixando de ouvir, percebes que já não vivemos na
média da diferença de género. Ainda que, daquelas bocas saia, somente, aquilo
que eles querem que saia.
29.12.14
Desculpem a minha pantomima invertida.
Em
tempo algum, tu sabes bem, existirão coisas sumárias, sem braços acesos. É um
desassossego entre os dedos, que vais conhecendo sorrindo. As mãos cheiram a
café. Tal e qual, assim mesmo. Como se, por desaire da sanidade, tivesse feito
de uma taça um poço com fundo. Tu sabes bem. Um deslavado líquido enchendo. As
mãos, sempre que as levava ao nariz, cheiravam a café. E repetia. Qual ironia.
E voltava. A conversa, a descrição do cheiro e o levar das mãos ao nariz. Numa
tentativa repetida de, jamais, se esquecer do cheiro. Como se aquela taça fosse
o todo. Mergulhava as mãos. Sentia a temperatura morna e e brincava. E voltavam
as palavras. O cheiro a café, em nada mudo. Lembro-me deste impensável e
rebuscado momento depois de ouvir contar o amor. Como quando uma pessoa se
divide e espera a outro. Sente, amiúde, a pulsação da outra. Tu sabes bem. Não
tem, por certo, interesse. Para o outro, desligado comparsa. Nem para quem
possa ver ou ler. Mas os sentidos importam. Valorizam e dão forma. Mesmo que a
mensagem morra numa chávena de café, numas mãos que não sossegam ou num coração
que ama sem desarmar. Tu sabes bem. Coragem. Era o que tu querias. Um dia.
17.12.14
Lenços dos namorados.
Para
si, pensou que o amor dever-se-ia inspirar nos lenços dos namorados, tal como,
estes se inspiraram nele. Sarcástico. No amor. Assim, pensou, o amor permitir-se-ia
ter erros. Talvez, assim, já seja. Já é. Sem oferecer razão à semântica e fugindo
da obrigação de fazer sentido. Sem ofender. Defeito este, de pessoa atordoada,
que me acompanha. Trocadilhos de palavra a palavra. Ninguém percebe ou nenhum
se apercebe. Como quando o cigarro apaga.
15.12.14
Conto de fadas e heróis.
A
noite e um candeeiro. A noite certeira e certa. A noite com tanto pela frente,
um candeeiro antigo de luz pisca. Um passeio ali tão perto. Ninguém acredita.
Duas pessoas, uma rua deserta. Não passa nada nem ninguém. Não se passa nada.
Nem se ouve a cantiga que convém. Agasalho quente em noite fria. Ambição
guardada em convicção moldada. Avista-se o brinquedo da noite. Um deserto de
janelas vazias. Pedaços de prédios antigos. Juram-se certezas do momento de
porta fechada. Acende a luz, janela sim, janela não. Não é ouro o que reluz. A razão
não é vista nem achada. Ninguém acredita. Senão os protagonistas da noite
desdita. São ruas vividas por heróis. Sonhes com a cabeça no travesseiro ou
ambiciones conhecer a lua que brilha como fortes faróis.
4.12.14
Individualidade consciente.
Prevalece
a privacidade, a felicidade de ter um antes e um agora. Fumas um cigarro, mesmo
que nunca tenhas adquirido o hábito. É voltar às festas de fim-de-semana que
terminavam tarde. Tão tarde, roubávamos horas e mais horas. Sem que ninguém,
senão os convidados se decidissem entrar daquele portão grande para dentro. A
piscina, a casa no centro, o longo jardim que, sem grande esforço, perdíamos de
vista. A sala de convívio lá no fundo. A música típica do tempo em que
inventávamos que fumávamos. Um cigarro e um sem número de grades de cervejas, em
igual número bebidas várias. Rapazes e raparigas que marcaram. Estórias de
leves amores e de escondidas paixões. Num lugar distante. Tal como o tempo que
é agora longínquo. Não tanto quanto isso, mas mais na medida em que nos
sentamos e contamos os anos. Não foi há tanto tempo assim. Ela não estava lá.
Hoje partilhamos factos aos pedaços. Eu não estava noutras ocasiões dela. É o
tempo certo. Para começar, ao invés, de recomeçar. Tantas coisas novas para
contar.
26.11.14
Em diferido. #23
Dar
e possuir vida - Presta atenção ao que te digo. Esse vaivém em que ficas quando
visitas o que alguém expõe, não acrescenta nada de novo à tua interpretação das
telas. Complica-te, desde logo, as ideias, depois as sensações e os sentimentos
que possas, porventura, adquirir enquanto desfocas o olhar e a atenção, quando
pretendes o inverso. É bem mais difícil conheceres a raiz e a matriz deste
autor. Nem te apercebes dos tons, das texturas, no fundo, dos materiais, da
obra. Puxa uma cadeira, encosta-a à parede ou coloca-a no centro da sala. E,
então sossegado, permite-te admirar. Não há cadeiras? Claro que não. O espaço
é, propositadamente, clean e destaca
a obra. Não há cadeiras? Bem sabemos que não. Distancia-te do vaivém em que
ficas quando visitas a manifestação da produção intelectual de alguém. E
aproveita. Puxa da imaginação. E, se preciso for, senta-te na cadeira composta
pela criação, no chão. Em frente, o tal objecto artístico. Aproveita o
privilégio de habilitar o conhecimento.
5.11.14
É um emaranhado de palavreado.
Não
sabemos o bem que nos fazia. É recuar ao tempo em que as verdades não eram mais
do que deixar andar e alicerçar mais adiante, se caso disso, os fundamentos. A
maçã é amiga do Homem. É a imagem que vai na frente, em representação de um
grupo que faz bem. Que valoriza a saúde, que valida certas manias e teorias. Li
nos livros, ouvi de sabidos intelectuais e aprendizes. Fi-lo para remédio das
dúvidas. O sotaque britânico que visita as lusas terras, ajuda a lembrar o
adágio anglo-saxónico. Em boa verdade, não é um ritmo certo e incapaz de fugir
da linha que se quer, ilusoriamente, recta e uniforme, que pode enraivecer o
quotidiano e tornar-se, em menos de um discreto piscar de olhos, numa mania
mais intrínseca que a maçã e os seus infindáveis benefícios. Antes de uma convicção,
é um modo de inclusão. Claro está, é oportuno ressalvar, para os mais
despercebidos, que neste texto, a maçã é uma imagem rasa de uma vida saudável. Não
tão literal quanto possa afligir na forma escorreita como se escolhem palavras.
Longe de surgirem em Portugal os discursos sem fim sobre os sumos e os batidos
que desintoxicam, as sementes e as bagas, mudei de hábitos. Para me lembrar
quando foi, tenho de fazer contas. O passado é a guarda de uma lembrança
necessariamente presente. Escolher é uma opção. E as opções, se aptos e
detentores das nossas funções intelectuais, devem ir de encontro às reais
necessidades. A individualidade é, voltando à corrida da liberdade, um posto e
uma postura. A alimentação é grande parte do que somos e do que nos capacita.
Não é viver num vacilo, é optar por um novo caminho.
29.10.14
Supõe-se real.
A
ditadura dos mitos que roubam margem à realidade e das verdades em gomos
impõe-se. É a actualidade a pedir atenção. Importa prestar-lhe ouvidos. Ser-se,
por instantes, todo ouvidos. É o ADN da insolvência que não suporta, de todo, a
procura de informação. Dissolve-se, certamente, na máxima provocação de ter
chegado ao patamar que brilha e condiz com a perfeição. Arrisca-se chegar ao
absurdo de arremessar, em praça pública, o desleixo que é fugir da corrente.
Desse trilho tão estreito e longe de concretas e absolutas verdades. Os
fundamentalismos deram as mãos à sobranceria que menospreza. De sobremaneira,
falta-nos, à sociedade do minuto e à mesma sociedade do número um, pisar a
realidade e nela permanecer. A individualidade esgotou-se algures. Alhear-se é
mais fácil do que discutir e entender. Fazer evoluir, acontecer. Por ora,
comem-se os mitos e arredam-se os gomos. Não é, se ficarmos pela generalidade,
permitido experimentar novas condições. Ou velhas questões.
28.10.14
Em diferido. #21
Fado
em cada linha - Confunde-se a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de
um carimbo de qualidade e de certificação de um povo. É um fado que desvenda a
sonoridade dos arrepios da inevitável e inconsequente evolução de um ramo que
não larga o tronco enraizado numa cultura que respeita e canta desentoada temas
mais ou menos característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado.
Permitir que a canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos
graves dissonâncias. Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão
portuguesa, nos desmotivemos. É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li
algures. Em tantos textos de opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas
outras conversas, também. Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos
conhecidos. Ainda, nas conversas descomprometidas em televisão, tão válidas
pelo entretenimento a que se propõem e que o espectador não nega. Antes desta
vaga, houve dedicação, amor e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que
desgrenhava veias como se fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a
cimentar uma canção com poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem
mais conhecidas e usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge,
mas experimenta, enquanto alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num
lençol branco, é sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois,
seguem-se as restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta
reformulação da arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.
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27.10.14
Senta-te comigo e aprecia.
Gosto,
se possível, de acompanhar as lides profissionais, depois das pessoais, dos
meus amigos. Parte deles é arte em cada decisão. Sem necessidade de segurar
verdades e métodos absolutos. As redes sociais amancebadas com o plural e a
pluralidade do iPhone e do iPad desta vida. Da forma de viver tão actual,
instantânea e, por razão da última, instável. Sem desdém, pois acabei de ver
inspiração em estado físico. Através das redes sociais. Já devo ter falado
sobre isto. Algures, se não ultrapassei o consumo das ideias e não perdi a
última porção de energia e memória. Porque é relevante ver a intelectualidade
desenhada em grandes telas. Essas, as telas grandes, podem, sem prejuízo alheio
e patrimonial, ser um muro desgrenhado ou uma parede velha e gasta, onde não
sobra nada senão restos de uma tinta de massas, um branco que já não é. Rei da
tela, altruísta em sessões. E é quase perturbadora, essa dicotomia. Esta minha
amiga, por quem ultrapasso o cordial experimentar sentir coisas boas, renovou
uma parede. Nasceu, algures numa cidade que já ouvi apelidar de feminina -
Lisboa, curvas e postura de mulher que canta a canção da melancolia. Sussurra a
visão com pintas. É artista de rua, esta cidade – uma parede de gesto delicado.
De verdes e imponentes imitadores de um tecido natural. A natureza de folhas
vivas, onde nem o orvalho da neblina matinal fica esquecido. E, contrariando
alguns momentos de opinião em caixa, simpatizo com a facilidade de estar ao
lado de alguém. Mesmo que tenhas ido procurar outras luzes. Quando voltas, é
como se sempre tivesses visto a evolução. Porque te sobram o motivo e a
motivação.
22.10.14
Aflição infinita.
Surge
uma lágrima antes do discurso. Cai, de seguida, outra. Depois outra. Até que os
olhos se desligam e perdem o controlo. Nunca mais interessa, assim se inicie a
libertação que não tem fim. É um confronto interno, imagino, antes das palavras
lhe saírem boca fora. Lá dentro, onde só ela conhece os meandros onde as
guarda, batem-lhe, enquanto as escolhe, no fundo. O coração é o órgão de múltiplas
situações. Mas é nele que se sentem as emoções. Como se a amargura de nada
combater, lhe ferisse de morte. Como se a dor fosse tão física. Que é, quando
se sente é porque é verídico. O coração está ali, mas quer, no desespero da
incapacidade de manter a calma, sair-lhe do peito. A voz levanta-se quando
mostram outro caminho. Errático, por sinal. Repele o confronto. A ironia de
persistir por medo. O descrédito de quem havia de a proteger. Desliga a
coerência. Persiste num jogo que não entende e que, neste instante, não tem fim
à vista. É uma obrigação que come o corpo até ao fim da carne. É uma
infelicidade que não fecha pela guerra de manter a felicidade de outro corpo.
É, por fim, perguntar o que é que quem a ouve acha que deve fazer. É, depois
disso, um silêncio. A ausência de palavras por não existirem. É, sem sombra de
dúvida, estar numa luta que é altamente acerba.
15.10.14
Em diferido. #20
Nas
linhas, alguma parcimónia - A psicologia é um fascínio tremendo. Antes dela, o
corpo e a mente. Alinhados numa proporção válida, desencontrados na antítese.
Todos, sem excepção, são termos de pouca ou nenhuma importância. Vale a
essência de ambos, das carnes que, somando outros, fazem o corpo. Da mente, que
canta suspensa na delicada e desconexa surpresa. Dirigir atenção e génio
travesso a um corpo que, com linhas rudes, esboça movimentos agrestes e pinta
nas paredes uma mensagem grosseira. Avaliar um corpo pelo que veste e faz.
Adivinhar uma personalidade por actos isolados. A psicologia é um encanto. Por
força do corpo e da mente. É um valor maior, do corpo e da mente, que ganham
tanto.
17.9.14
Apontamentos de outros tempos.
Lembro-me
de ler, ainda petiz, algures num livro de desfasada atenção para a tenra idade,
que o amor era pertença dos adultos, por serem precisas armas para o fortalecer
e, acima de tudo, entender. O autor havia de ser lido por um número sem fim de
fiéis a este sentimento. Afinal, é
conversa de quem se assume um perdido nesta arte. Dos outros também se ouve,
muda a postura, passa a inquiridor. Falar sobre o amor é sobrenatural. Todavia,
fala-se de amor em cada canto. Persistindo, contudo, que o amor seja um
desenrolar de audições mal conseguidas. Se partirmos do ponto primeiro. Pode,
por seu turno, ser a mais proveitosa e fiel audição. O descarrilamento vem
depois. Escrevo sobre isto depois de falar com um amigo. E de ouvir relatos de
uma amiga. Ele, feliz numa audição que muitos ditaram amaldiçoada. Ela, nos
escombros de uma relação que prometia o melhor dos desfechos. Falar de amor não
cansa, só pode ser essa a justificação. Porque não cansa discutir a humanidade,
os seus inevitáveis destinos e os sinais do que lhe é intrínseco. Aos dois, a
maior e melhor das sortes. Atenção, não escrevas tudo o que lês. Ou vês.
11.9.14
Glosar enquanto toma um vinho.
Desliguei
a pretensão deste acto se tornar num mote. Pelo menos, vistoso, válido e
pertinente. Mesmo com o ambiente certo à volta. As paredes seguram molduras
para não esquecer. As paredes têm um tom gasto, propositado. O matizado de dois
tons. A moda evoluiu, a decoração de tantos espaços mantém-se fiel. Ao
proprietário, à sala, aos clientes que o procuram e, inevitavelmente, voltam.
Tenho para mim, que à essência. A madeira que sobe desde o rodapé até à medida
certa. As toalhas de ponto trabalhoso sobre a mesa. O vinho tinto que chega
como deve ser pegado. O requinte e a malvadez dão as mãos. Pernicioso, este
atentado que é a vontade de escolher sem conhecer. Perde-se o desenvolvimento,
pelo mote mal interpretado. Surpresa. Pode servir.
8.9.14
Em diferido. #17
Plano
de uma peça - O carro num tom verde alface, tão chamativo como desconcertante
no meio-termo e inócuo corredor de estacionados. Todos de cores iguais. Junto à
praia, permitindo avistar os muitos chapéus-de-sol, também eles todos
similares. Quase repetidos. Dois ou três tonalidades. Duas ou três marcas
expostas. A postos, os nadadores salvadores. As ondas a rebentar levemente, os
pés a conhecerem a temperatura do mar. As toalhas estendidas, os corpos a
ganhar cor. O sol a dispensar detalhe, dá de oferta uma vida diferente aos
lugares. Jogam à bola e não dispensam as raquetas típicas. Ouvem-se vozes sem
parar. Por trás, bicicletas a passar. Elas vestem biquínis, triquínis e fazem topless. Eles optam pelos calções curtos
ou a meio da perna, outros vestem ainda as importadas sungas. A bandeira exposta a anunciar calmaria. Pais e filhos, avós
e netos, casais e grupos. No horizonte, a imaginação. Voltamos ao carro, aquele
verde que lembra alegria. Tão chamativo. Alguém, de porta aberta, troca o que
traz calçado por uns ténis de corrida. Vem equipada a rigor. Levanta-se, fecha
a porta e começa a correr. O cenário é o mesmo. O propósito é diferente. As
pessoas fazem e vivem os lugares. Experimentam conforme o traço. O perfeito
nível de personalidade.
26.8.14
A causa das semelhanças.
Apoquentam-me
as incongruências, o desfasamento de opinião. Pouco me importa se a estudante
de comunicação social veste um pano com o desenho da pele do leopardo, enquanto
puxa de um cigarro de ocasião. Não me interessa se aqueles dois corpos
despidos, sentados à beira do mar, têm outro propósito. Tampouco me atropela a
atenção se despir a voz no cimo de um prédio alto é, para um corpo, um acto de
sinceridade. Rala-me, se me mostrar disponível, outros retornos, outros
excertos. Dos que importunam o todo. É como os olhos. Exercem o oportuno estimulo
de olhar e decidir. É devido esperar pelo desenvolvimento de todo e qualquer
acontecimento.
19.8.14
Algarve, posto de obrigação.
Fazer
fotografia, ou fotografias, como se alguém as fizesse, é um puro deleite.
Talvez, sem que perceba, me roube as palavras, as definições. As esconda antes
de colocar rigor na conclusão do que é fotografar. Repetir-me, nessa e noutras
questões. Samba na reprodução do repetido. As regras de um léxico que desvenda
coisas. Também pessoas, lugares. Um léxico que treme como a lente. Que foca ou
desfoca conforme o suporte e ligeireza de um corpo e mente sãos. Teimas, fazes
escolhas. Procuras o enquadramento. Fixas pessoas, estratégias de um gosto tão
pessoal. Como o negro e o branco. Outras, ganham na forte e infindável raça da
cor. Agora, carregas no botão. E tens uma imagem. Num cinzento que tem brilho
nos pontos certos. Um verão, num Algarve de requinte. Onde, à beira de uma
piscina ou numa praia de água gelada, duas pessoas se sentam. Ela tem uma coroa
de flores na cabeça, depois os cabelos caídos e secos do sol. Ele olha-lhe com
o mesmo entusiasmo. Há tanto movimento ao redor, que parece mentira. Fazer
fotografias ou o plural, é guardar e isolar. Guardar e resguardar. Precisamente
para abrigar estes e outros momentos de futuros danos.
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