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13.8.14

Manifestação conforme o tremor da vontade.

Ao redor, pessoas com vibrações felizes, mergulhos e salpicos na água, areia e terra, árvores. Os ambientes adversos - se quisermos com esta definição ressalvar o hábito normativo de um qualquer lugar onde uma instalação denominada arte se expõe. Seja peça, seja pessoa. – são um trocadilho certeiro no ensejo de liberdade. Uma respiração. Depois outra. Desordenadas. Desencontradas no acerto. Uma atiçava. A outra era a resposta imediata. Assim, com tão mais sentido. Um ventre despido e dançador, porventura, amador. Por tudo, denunciando uma irracional concupiscência. De parte a parte. Findo o espectáculo, aplaudiu. De seguida, fecham-se as portas da intimidade. Não importa, senão a consciência e a vontade. Não sabemos os nomes, nem o sexo, sequer, a orientação. Fica-nos a demonstração e o sentimento embrulhados numa acção. Naquela acção.

5.8.14

Verão matizado, impetuoso como sereno.

Veranear algures. Percorrer o encanto nacional, conhecer e fotografar o ambiente de um exterior tão desejado como a saudável condução de um país. Também o nosso, de preferência. Guardem-se os costumes, poupem-se as palavras, apavorem-se as pessoas, ridicularizem-se as acções. De umas e das outras. Toca desafinado o movimento bolsista de um antro. Um cenário que soa desacorde com uma sucessão de opções que persistem numa alinhavada separação de classes. Opiniões de outrora, recentes como o verão delicado, suportavam a solução interna, poupando o desgaste, mal-grado a dificuldade de encontrar concordância e veracidade na combinação das ideias expelidas em discurso de horário nobre. É um mistifório pegado, ausente de senso. Experimentam-se, neste canto de privilégios sem fim, um pedaço do tanto que é um rolo sem fim de expectativas e necessidades imediatas de fazer acontecer. Fazem-se ensaios. Depois perguntas. Escutam-se os mesmos. Discursos e aqueles que os lêem. Enquanto nos assaltam os primitivos acontecimentos, penso como é sereno olhá-la a passar a mão no cabelo. Há sempre melhor.

31.7.14

Nas linhas, alguma parcimónia.

A psicologia é um fascínio tremendo. Antes dela, o corpo e a mente. Alinhados numa proporção válida, desencontrados na antítese. Todos, sem excepção, são termos de pouca ou nenhuma importância. Vale a essência de ambos, das carnes que, somando outros, fazem o corpo. Da mente, que canta suspensa na delicada e desconexa surpresa. Dirigir atenção e génio travesso a um corpo que, com linhas rudes, esboça movimentos agrestes e pinta nas paredes uma mensagem grosseira. Avaliar um corpo pelo que veste e faz. Adivinhar uma personalidade por actos isolados. A psicologia é um encanto. Por força do corpo e da mente. É um valor maior, do corpo e da mente, que ganham tanto.

28.7.14

Fado em cada linha.

Confunde-se a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de um carimbo de qualidade e de certificação de um povo. É um fado que desvenda a sonoridade dos arrepios da inevitável e inconsequente evolução de um ramo que não larga o tronco enraizado numa cultura que respeita e canta desentoada temas mais ou menos característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado. Permitir que a canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos graves dissonâncias. Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão portuguesa, nos desmotivemos. É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li algures. Em tantos textos de opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas outras conversas, também. Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos conhecidos. Ainda, nas conversas descomprometidas em televisão, tão válidas pelo entretenimento a que se propõem e que o espectador não nega. Antes desta vaga, houve dedicação, amor e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que desgrenhava veias como se fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a cimentar uma canção com poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem mais conhecidas e usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge, mas experimenta, enquanto alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num lençol branco, é sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois, seguem-se as restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta reformulação da arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.

23.7.14

Do nascimento em diante.

A infância e a adolescência são, vezes sem conta, alvo das mais desgrenhadas palavras e definições rasteiras. A inocência, a inexperiência e o imprevisto. Depois, as acções azougadas, os amores e desamores desavindos, as relações familiares tão beliscadas, as amizades que vão e, se voltarem, voltaram. A seguir, bem, tudo muda, é o que nos oferecem como verdade. Reconheço sinceridade em muito desse raciocínio. Mas as excepções nunca ficam a perder. E, no passado fim-de-semana, num local público, onde devíamos optar por alguma parcimónia no discurso, uma jovem mulher, certamente com, pelo menos, trinta anos, exprimia-se com a força e fluidez do pensamento. A prosa comprova, se não colocarmos tantos entraves, que somos eternos em tanto das experiências que escolhemos ou que, de jeito inevitável, vivemos. A jovem mulher questionava-se, pelo que deu a entender, a uma amiga de longa data, da relação “tão de liceu”, como a própria definia. Não vou relatar o que se seguiu daí em diante, porque não é relevante e, sinceramente, não guardei. Mas ficou-me a certeza de que, crescer, soprar mais uma vela e evoluir pessoal e profissionalmente, nunca será a certeza de que maturamos. Ressalvo todas as excepções. Siga o passo.

11.7.14

Plano de uma peça.

O carro num tom verde alface, tão chamativo como desconcertante no meio-termo e inócuo corredor de estacionados. Todos de cores iguais. Junto à praia, permitindo avistar os muitos chapéus-de-sol, também eles todos similares. Quase repetidos. Dois ou três tonalidades. Duas ou três marcas expostas. A postos, os nadadores salvadores. As ondas a rebentar levemente, os pés a conhecerem a temperatura do mar. As toalhas estendidas, os corpos a ganhar cor. O sol a dispensar detalhe, dá de oferta uma vida diferente aos lugares. Jogam à bola e não dispensam as raquetas típicas. Ouvem-se vozes sem parar. Por trás, bicicletas a passar. Elas vestem biquínis, triquínis e fazem topless. Eles optam pelos calções curtos ou a meio da perna, outros vestem ainda as importadas sungas. A bandeira exposta a anunciar calmaria. Pais e filhos, avós e netos, casais e grupos. No horizonte, a imaginação. Voltamos ao carro, aquele verde que lembra alegria. Tão chamativo. Alguém, de porta aberta, troca o que traz calçado por uns ténis de corrida. Vem equipada a rigor. Levanta-se, fecha a porta e começa a correr. O cenário é o mesmo. O propósito é diferente. As pessoas fazem e vivem os lugares. Experimentam conforme o traço. O perfeito nível de personalidade.

8.7.14

Pintado à mão.

Falava esta manhã, logo cedo, da minha ausência, enquanto espectador, do grande movimento dos espectáculos onde se tratam, com respeito, as tábuas pelo nome, das visitas a exposições várias, onde cada objecto é uma certeza de que nunca conhecemos uma ínfima parte de um todo. Desse todo que gritamos querer conhecer, como se fosse um dos cinco desejos obrigatórios, mas nunca o havemos de concretizar. No meio dessas linhas de incoerentes vontades, lembrei-me de outro ponto. Tenho uma amiga maquilhadora, não sei se há um padrão para imaginarmos nas nossas cabeças a definição física quando pensamos em maquilhadoras. Contudo, quando olho para ela, vejo-a como tal. Bem sei, posso estar a ser tomado por uma questão de simpatia entre a minha memória e a sua imagem. Esta amiga é assertiva e vivaz no discurso. Um tanto altiva. É cuidada no todo. Veste-se de forma coincidente com o discurso. O rosto, porque chama a atenção, é a tela maior do seu trabalho. A própria diz, não poucas vezes, que a sua imagem e, lá está, o rosto em particular, são o seu cartão-de-visita. É uma entrada que convida a conhecer o resto da obra. Levanta-se, escolhe as cores, aproveita a tela despida e cria. Ao fim do dia desmonta o serviço, limpa a tela. É uma espécie de roda. Uma roda inventada que não pára. Não cessa enquanto se gosta do que se faz. Enquanto o que se faz comporta sentimento. A resiliência tem sempre lugar. De honra.

2.7.14

Em diferido. #12

Veleidade carente - Aquela roda gigante era um presente em concreto. Uma volta, depois outra, a seguir a essa, outra e mais outra. Outras tantas se seguiriam. Só na imaginação. Vivê-la-ias a velocidades distantes, dispares, tão desiguais. A idade era o patamar. O resto era dado pelo arranque sonoro do motor. No discurso alheio, era essa a conversa, aquela roda era o quão funcional se torna, a dado compasso, um percurso. Meio desavisado, entras na roda gigante e, daí em diante, não mais comandas. És engrenado no sustento da volta inventada. Restar-te-á a escolha ilusória. Ou desfrutas e não ousas, sequer, pensar no segundo seguinte ou passas a primeira, segunda, terceira e todas as voltas que se sigam, num pranto sem fim. Aquela roda gigante, maior do que todas as outras rodas, era um presente. Daqueles que te compram mas não pensam em ti, julgam-te pelo comprador. Depois de entrares, atreve-te, nem que por um instante, reclamar. E vais entender. Cai-te o céu azul em cima. O mesmo que serve de pano de fundo às voltas. Porque, no momento em que te dão sinal verde para um visto sem fim previsível, não te podes queixar. Do queixume não reza o entretenimento. Que não te passe pela moleira cogitar qualquer fim antecipado. Por seu turno, podes recusar tudo o que está para trás e seres apenas. Mandas parar, desces e procuras uma fortuna diferente. Não te esqueças, é claro, de agradecer. E pagar, que é o mais importante. Há sempre quem viva preso à quimera que sempre fora a sua própria roda.

24.6.14

Contas de um corpo desenhado.

A matemática é o absurdo de uns, a paixão de tantos, o desgosto de um sem fim de progenitores, a máxima descoberta de alguns, o desaire de uns quantos. Mas, o que não se ousaria supor, é que a matemática pudesse, em algum momento, intervir na decisão de desenhar num corpo despido. A barba desgrenhada, tal o seu comprimento, as calças de ganga largas da marca que todos conhecemos, os ténis imponentes que chamam para si todos os olhares, o pólo que ganha logótipo no lugar do coração, os óculos graduados grandes e estilosos, oferecem aos disponíveis de definir com a antecipação de conceitos vagos e memorizados, que o rapaz é um noctívago, deambulante por tentações desmedidas e piedosas. Lamento, não é. Preferiu, se escolho bem a palavra, manter-se fiel às convicções que só a ele lhes competem respeito, em detrimento de um lugar na norma de uma sociedade de obrigações proporcionais à idade de um indivíduo. Escolheu, algures na matemática que não tem fim, um motivo para tatuar. Um motor que impulsionou e um conjunto de linhas com sentido que, por fim, desenhou.

20.6.14

Em diferido. #11

São coisas confusas - De costas voltadas para a atenção. De fronte para a janela escancarada. Lá em baixo, a cidade quente. Os primeiros dias de sol que se sente. Do braço elegante, exaspera uma tatuagem. Tão bonita, como enigmática. Quase impossível de entender. Deve ser uma tela. A arte, muitas vezes, leva tempo a conhecer e a compreender. Demora. As costas magras e despidas. A mala a imitar as da moda. O mesmo braço que carrega a tatuagem, eleva-se e oferece a mão ao carrapicho, desarranjado que enaltece a cabeça. Na outra mão, depois do relógio prateado, um casaco que, por ora, não faz falta e um iPhone. Já tirou fotografias ao que se vive lá fora. Veste um descontraído-chique. Como já ouvi e li por aí. Parece distante, continua somente o brincar da mão com o cabelo. Largou, então, o balanço entre madeixas e pousou a mão nos ferros de moldes datados que protegem a varanda. Virou-se, por fim, para a atenção. Sorriu, de jeito tímido. E passou a mão pelo rosto. Os cartões de visita são falsos. Ou errantes, se preferirmos. Porque findam na antestreia. Não mostram pitada. Não chegam à exibição final.

19.6.14

Um triz de encontro.

Não é fácil juntar pessoas numa mesa. Fingir que se conhecem, quando nunca se haviam visto. Talvez, numa ou outra ocasião, tivessem oportunidade de ouvir o nome, ler umas palavras sobre ou da autoria dos convivas inesperados. Nunca mais do que isso. Mas a curiosidade matou o gato. E, em podendo, ninguém fica indiferente à possibilidade de dividir uma qualquer refeição abstracta, num prato de loiça fina, desenhado e pensado com o máximo e pertinente primor, com um bom vinho nacional. Mesmo que a cumplicidade seja a única desistente da reunião à mesa. Degustam o menu enquanto, todos eloquentes, vociferam palavras ordenadas pela vantagem de ter um vasto – coerente ou não – currículo. No final, se os recebêssemos à saída, dir-nos-iam que foi bastante agradável, produtivo. Mas não sabem nada de quem os ladeou. Gabo a ginástica de forçar o ajuntamento de pessoas. Seja à mesa, seja na cúpula de uma sociedade.

16.6.14

Relação, para que te quero?

Encontrei a Maria, no jeito da ocasião. Vinha sorridente e leve, de sol a bater, de óculos escuros na mão, como se deles não se lembrasse, por isso, de olhos piscos, a esconderem-se e a defenderem-se da luz que lhe roubava a visão. Vinha depois daquele arco, antes do outro. E o sorriso vinha no rosto. Cruzamo-nos e, inevitavelmente, cumprimentamo-nos. É boa disposição. Dois beijos, abraço e conversa de situação. Não falámos sobre o Tiago. Estranha-se, depois é corriqueiro. Antes desta separação, não me lembro de os ver sozinhos. Um sem o outro. Era uma combinação, se quisermos, improvável, mas fazia um todo convincente. Divertimo-nos, sempre, bastante. Tanto que, antes do anúncio e da argumentação, havíamos repetido um excelente momento. Agora, iam separar-se. No dia anterior, enquanto planeavam mudar os estores da casa nova, depois da restante remodelação, perceberam que não mais fazia sentido. Pode parecer cruel. Mas é sustento. Inventar para procrastinar, rouba identidade. Sustente-se enquanto é tempo, sob pena de serem, a curto prazo, dois arrumados bonecos no maple da sala lá de casa, tão bem decorada ou no carro dos sonhos de muitos, no regresso de um fim-de-semana prolongado. A crueldade de um acto causa dor. Dor que passa. Ao contrário da inércia que abate qualquer títere.

2.6.14

Veleidade carente.

Aquela roda gigante era um presente em concreto. Uma volta, depois outra, a seguir a essa, outra e mais outra. Outras tantas se seguiriam. Só na imaginação. Vivê-la-ias a velocidades distantes, dispares, tão desiguais. A idade era o patamar. O resto era dado pelo arranque sonoro do motor. No discurso alheio, era essa a conversa, aquela roda era o quão funcional se torna, a dado compasso, um percurso. Meio desavisado, entras na roda gigante e, daí em diante, não mais comandas. És engrenado no sustento da volta inventada. Restar-te-á a escolha ilusória. Ou desfrutas e não ousas, sequer, pensar no segundo seguinte ou passas a primeira, segunda, terceira e todas as voltas que se sigam, num pranto sem fim. Aquela roda gigante, maior do que todas as outras rodas, era um presente. Daqueles que te compram mas não pensam em ti, julgam-te pelo comprador. Depois de entrares, atreve-te, nem que por um instante, reclamar. E vais entender. Cai-te o céu azul em cima. O mesmo que serve de pano de fundo às voltas. Porque, no momento em que te dão sinal verde para um visto sem fim previsível, não te podes queixar. Do queixume não reza o entretenimento. Que não te passe pela moleira cogitar qualquer fim antecipado. Por seu turno, podes recusar tudo o que está para trás e seres apenas. Mandas parar, desces e procuras uma fortuna diferente. Não te esqueças, é claro, de agradecer. E pagar, que é o mais importante. Há sempre quem viva preso à quimera que sempre fora a sua própria roda.

16.5.14

Um amigo sujeito à ventura.

Feliz de quem tem ginástica intelectual para escolher, em conformidade, ser feliz. A perfeição junta as palavras e as imagens. Às vezes, proporciona encontros entre pessoas que se colam na personalidade e ganham vida daí em diante. Por força da experiência que é extravasar. Mas, porque persiste, fazemo-lo, apenas, a seguir ao efeito de ter realizado. Um dos meus mais próximos amigos contava, desde tenra idade, que a sua vida seria como vinha idealizando. Não se justificaria a ninguém, mas responderia, ao invés do comum, do uso das palavras, com um sorriso gigante. Todos lhe apontam essa qualidade, nunca desiste e sempre insiste em devolver um sorriso. Haveria de correr mundo, de desleixo no corpo e de ganas na alma. Procrastinou por obrigação. Contudo, em cada encontro de amigos, ou em conversas isoladas, voltava o discurso e a sede de viver como criou na imaginação, de voar sem destino, de conhecer outras raízes, de brincar com a novidade e de quando em vez esquecer o enfadonho e o espartilho de cada dia aqui, num país e família castradores. Afiançávamos-lhe, então, rijeza e apoio no compromisso. Foi carregando a ansiedade. Até que, chegado o encontro de condição, largou tudo e foi embora. Avisou, somente, uns quantos. Onde me incluo. À família prometeu que eram uns dias de férias. À antiga namorada agradeceu o carinho e a entrega, a disponibilidade de tantos momentos. Deixou quantos e quanto lhe fizeram passado. Entrou no avião, devolveu sorriso. Já lá vão uns bons meses, mais do que um ano, ainda menos que dois. Sentimos-lhe a falta. A família roça a tentativa de rogar-lhe pragas. Pela ingratidão, justificam-se desse modo. Ele, pelos diferentes meios, vai fazendo chegar-nos a sua experiência. As vivências que guardou, só para si, antes mesmo de saber, no íntimo do seu interior. Relata-nos, de viva voz, as peripécias mais convidativas, outras que superam o surreal. As fotografias com que nos vai brindando falam por si. Entre paisagens sem classificação, de tão belas e imponentes, e ele que as usa como décor. Mantém o sorriso rasgado. Ainda mais. Um dos meus amigos mais chegados teve a ousadia de riscar. E arriscar. Num período em que o país carrega problemas de várias frentes. Numa altura em que tudo tira a esperança. Sujeitou-se ao risco. Hoje é francamente feliz e realizado. Cumpriu um sonho de raiz. Voltará um dia, sem data. E, tem a certeza, vem para mudar e cortar com tudo o que o impediu de sonhar.

12.5.14

O facilitismo instituído.

Num golpe de rodopiar, somos a sombra do muito que nos acontece, somos o que os instantes experimentados nos provocam. Procuram-se refúgios. As ripas de madeira, antes de chegar à praia, já desenhada de pessoas que, ao longo do areal, aproveitam o sol e as temperaturas picantes, cedem barulho ao ritmo das passadas. Mesmo leves, roubam som. Um som que, soa e entoa ao jeito do que nos permitimos sentir. Um regalo para um dos sentidos, se assim quisermos, ou um tormento desgovernado. Num reflexo, tudo se desmorona. E, não penso nas palavras, mas a desarmonia de uma humanidade despida, propina veneno no furto que é desapropriar o outro. Depois, não importa mais nada. Senão erigir.

9.5.14

Chama-se Margarida e recusa roubar a identidade ao tom, negando chamar-lhe de encarnado.

A Margarida é a memória e as lembranças de infância. De uma infância feliz e fornecida de tudo o que nos balizava a felicidade, daquela época em que por mais que a cronologia nos falhe, não perdemos a identidade de outros tempos. Ela é a descoberta da capacidade de gerir, ainda que não se aperceba, a educação centrada e espartilhada de uma família típica daquela região, com a azougada necessidade de se imiscuir com o restante. É tímida e intrometida em simultâneo. Fala de jeito suave, mas ri com sede. Escolheu que as amizades não têm nivelamento. Escolheu, ainda no tempo em que não se media, não ludibriar factos. Senta-se com quem for. Conversa com quem lhe oferecer palavra. Temos, precisamente, a mesma idade. Crescemos desde lá atrás. Desde a altura em que as varandas do andar superior das nossas casas se olhavam de frente. Hoje em dia pousa para as câmaras fotográficas. De pernas esguias e compridas, o décor a rigor, a ventoinha sem parar, o cabelo de um tom castanho mel a esvoaçar. O vestido da cor que não gosta, mesmo que lhe chame vermelho ao invés do encarnado de outras lides. Os saltos altos de uma marca de influente atracção. A pose intuitiva. Os flashes na frente. O rosto maquilhado e luminoso. Neste instante é tão real como quando despe o vermelho, abandona os saltos altos, lhe desligam a ventoinha e despede-se da objectiva. Porque, acredite-se ou não, há sempre quem não recue no momento de fazer a diferença. Boa sorte!

7.5.14

Homem escolhe procurar até encontrar.

Não tem perto da minha idade, porque conta com mais de dez anos que eu, isto sem me perder a fazer as contas de forma conveniente. É um desviado da intelectualidade, embora, viva embrenhado nela. É uma contradição como quase tudo o que lhe conheço. É um amigo que, aos poucos, deixou de ser um mero conhecido. Aproxima-nos um punhado de coisas. Afastar-nos-á outras tantas. Conhecemo-nos por entendimento da circunstância. E dos amigos em comum. É divertido nas expressões e situações mais desengonçadas e sisudo nos momentos mais informais. Outra contradição, lá está. Não é o preferido em muitos dos locais onde se move. Porque não se apresenta, escolhe chegar e não pensa no resto. Não oferece a preocupação de bandeja. Faz de conta que muito do que é não impressiona os outros e repete, se preciso for, que não lhe causa aflição. Teme outros males. Nunca viveu um casamento longo. Nunca, em nenhum dos quatro casamentos. Aflige-lhe outras maleitas. A inesgotável vontade de arriscar no próximo amor. É, nas conversas em que fuma um cigarro e mais outro, um defensor do amor. Não lhe conhece as regras, as soluções. Mas entra na luta. Aqui, não se limita a existir. Avança sem justificar o impulso do corpo e da mente. Defende o casamento. Só é capaz de viver o peso da paixão e a leveza do amor num casamento. Desafiado, responde que só amou o número de vezes em que se casou. Do resto, como em tudo, não se preocupou. Tampouco, senão uma ou outra lembrança lhe restou. Volta o desafio e responde que só pode com o peso do sossego e desassossego exterior. Lá dentro, onde guarda o que é, não suporta o tormento de não viver. Seja porque sim, seja pela infindável necessidade de estimular. De viver até encontrar.

5.5.14

Sem alteração inesperada.

Não é novidade. Acredito nas viagens que fazemos com as marcas da alma, conduzidos por uma qualquer criatividade quente e palpitante no desejo de nunca escassear e pelo convite de um indutor simples. Gosto de livros. Gosto bastante de livros. Gosto, talvez numa luta de proximidade, de ver para lá do instinto. De observar e olhar o que se faz à minha volta. Aprecio reparar na arquitectura particular, de tomar atenção nas construções banais ou de ficar a recordar dos prédios em desfeito abandono. Uma parte dos meus amigos, não negam, gostam de parar para ver passar. Não sei se é opinião de muitos. Mas, a nós, faz-nos felizes. Sossegar e relatar, em silêncio, as palavras que criamos em resposta às imagens sucessivas. Nunca pára. Há de modo infindável, movimento. As pessoas que passam, a quem lhes desenhamos traços de personalidade. As janelas que escondem vidas. Tudo. No entanto, volto sempre aos livros. Gabo sempre as bibliotecas. Tenho-me distanciado, por negligência. Volto às palavras escritas, quietas. Daquelas que dá para partilhar vezes sem conta. Não ficam, somente, em nós. Devemos sempre regressar-lhes e partilhar. Uma das imagens que guardo junta o livro, as pessoas e a pausa para ver. O cenário é limpo. Claro nos tons, requintado na decoração. Duas poltronas e escolhemos o sofá do lado, que nos recebe bem mais juntos. Segurando o livro, segredávamos a história. A experiência de partilhar um livro. Não é novidade que junta pessoas.

30.4.14

São coisas confusas.

De costas voltadas para a atenção. De fronte para a janela escancarada. Lá em baixo, a cidade quente. Os primeiros dias de sol que se sente. Do braço elegante, exaspera uma tatuagem. Tão bonita, como enigmática. Quase impossível de entender. Deve ser uma tela. A arte, muitas vezes, leva tempo a conhecer e a compreender. Demora. As costas magras e despidas. A mala a imitar as da moda. O mesmo braço que carrega a tatuagem, eleva-se e oferece a mão ao carrapicho, desarranjado que enaltece a cabeça. Na outra mão, depois do relógio prateado, um casaco que, por ora, não faz falta e um iPhone. Já tirou fotografias ao que se vive lá fora. Veste um descontraído-chique. Como já ouvi e li por aí. Parece distante, continua somente o brincar da mão com o cabelo. Largou, então, o balanço entre madeixas e pousou a mão nos ferros de moldes datados que protegem a varanda. Virou-se, por fim, para a atenção. Sorriu, de jeito tímido. E passou a mão pelo rosto. Os cartões de visita são falsos. Ou errantes, se preferirmos. Porque findam na antestreia. Não mostram pitada. Não chegam à exibição final.

23.4.14

Conformidade entre vidas.

Os nós das mãos disputam atenção com as veias tão salientes. Pousadas, uma sobre a outra, as mãos agarram com a fé de quem espera não perder a segurança, na bengala. A força de se manter em pé. Castanha, de berloques trabalhados, a bengala ajuda-o no percorrer daquele lugar. Calça umas botas grosseiras da cor do caramelo, veste umas calças vincadas, de um verde seco. Cobre o tronco que veste uma blusa, com uma camisa grossa, axadrezada, em jeito de casaco. Na cabeça, o chapéu. Também castanho, mas bem mais escuro. Não sei se por aqui, lhe chamam chapéu. Apropriei-me do meu termo. Junto ao mar, na praia de pescadores, salvando a já pouca destreza física, mantendo-se no paredão. Mas curva-se para ver. As pequenas embarcações por ali, o mar quieto. À volta, as redes tão características da pesca. As caixas que carregam ou já trouxeram o peixe. Os pescadores a falar, ouvem-se alto, enquanto mexem no peixe. No ar, as gaivotas sobrevoam. Num executar de bailado típico de quem procura alimento. É um quadro feliz. Daqueles em que os protagonistas vivem. Não se limitam a concordar.