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5.4.17

Portugal numa sala especial.

Prometeram-me, há tempos, a ida a uma casa de fados. Que ainda não conheço, mas que, dizem-me, tem a música nacional por todos os lados. Tão travessa, tão sem pressa. Com guitarras afinadas, vozes nada pensadas. Cordas em concordância, mãos cheias de elegância. Ensaios de uma tarde inteira ou de uma manhã bem dormida. Poemas conceituados, outros à hora arranjados. Mesas rústicas e tolhas trabalhadas. Vinho tinto num jarro de barro, os arranjos florais numa jarra ao centro. O rapaz das flores chega num carro. Senhores com a música à flor da pele, senhoras com as gargantas afinadas. Fatos simples e repetidos. Gravatas ora ausentes, ora de tecidos vividos. Vestidos compridos. Xailes negros sobre as costas e outros coloridos. Gente com sabedoria, malta que começa agora à luta pela alegria. As mãos voltadas para o céu cerrado, os olhos num jeito fechado. As paredes vestidas de lembretes bonitos e ricos. A certeza de que não há lugar a esquecimentos. O escuro é companhia de toda a hora, as velas não perdem com a demora. Os clientes pela alma envolvidos oferecem os silêncios devidos. Prometeram-me, há tempo demais, a ida a esta casa de fado. Já a vejo assim, sequer a pisei. Espero com ânsias a semana que vem. Hei-de ouvir música boa e ver-me embrulhado num ambiente que não se repete. Silêncio, vem lá fado. E eu gosto tanto.

16.6.15

Estou à espera de um fado cantado.

As ligações acontecem. Estamos todos ligados e os momentos sucedem-se. Levam partes, trazem lembranças. Saímos para jantar, indecisos de primeira. Levamos a vontade, perdemos a necessidade. Somos turistas de verdade. Aprecio os lugares sui generis, assim como, as pessoas. Fora de qualquer padrão da rotina. E fico-me sempre por este lado. Faço, inclusivamente, força para que a desarrumação física, intelectual ou outra, aconteça e, claro, vença. Como naquele lugar, também ele desenhado ao seu jeito, com fado a passar. Deixo-me fã e havemos de lá voltar. Logo me lembrei, por ser impossível não enlaçar ideias, da avó de uma amiga. Mulher pequena, de corpo macérrimo, olhar vincado e sorriso rasgado. Cabelo comprido, outrora negro como a pérola, agora no tom copiado. Tem raça, a senhora cantadeira. Veste saia comprida e camisa branca, não dispensa os saltos altos, brinca com os anéis nos dedos eleitos. Os brincos generosos destacam-se junto ao pescoço esguio. Tem raça, a dona. Pensei, isto mesmo, no dia em que a conheci. Foi-me apresentada há uns anos, pela neta, e o discurso denunciava que estávamos perante uma mulher com percurso e história. Não me enganei, que vim a ter o prazer de a ouvir. Conversas que, sem mazelas, ficaram monólogos requintados. Dignos de subir às tábuas. Deixei-me ficar, todas as vezes, a escutá-la. Como todos. E, quando era pertinente, questionava-a. Respondeu-me sempre. Acredito, com a sinceridade na voz. Numa dessas conversas demoradas, no ar livre cá de casa, deixou escapar que canta. Cantava, ou cantou. Que perdeu a definição, tamanha a dor de não fazer da voz uma profissão. Um marido com uma posição que não se movia e um tempo que não era este. Canta, disse a neta. De outro jeito não seria, pedi-lhe um fado. À capela, monstruoso desafio. Largou uma risada e levou as mãos ao céu. Não, não, disse-me enquanto negava com a cabeça e sorria. Adiámos o espectáculo de jardim. Nas vezes que se seguiram, voltou a adiar. Será numa ocasião feliz e importante da neta. Vou esperando. Já lá vão uns meses largos, desde a última vez que estivemos juntos. Está frágil, conta a neta. Manda cumprimentos e nós devolvemos. Continuo à espera, obviamente. Que há fados que têm tempo.

13.11.14

Na outra noite.

Cai a noite sobre uma cidade que tem gasto as luzes com o cinza dos dias frios e com a chuva em ritmo frenético. Os chapéus-de-chuva, tão coloridos ou desenxabidos rua abaixo. As castanhas bailam nos assadores e largam fumo de presença. É aviso em cada esquina. Uma, depois outra. As suficientes para chamar as lembranças. Logo se faz noite e ela se engalana de pontos de luz cruzados. As fachadas de cada prédio da baixa, ganham um amarelo que lhes bate no material que os protege e, assim, reflecte. Responde ao descarrilar das vontades concretas sem destino. É melancólico, esse amarelo tão ogre. Mas ao longe, é desenho a ouro. Canta Carlos do Carmo o ponto luz em que acredita que a capital se fica. E tem razão. Cai a noite sobre a bela e feminina Lisboa e as luzes em cada janela e porta de loja dos prédios antigos fazem como se uma casa de bonecas fossem. Nada disto é mentira e quem nos vê de fora, não esquece. Quando falo com amigos estrangeiros, repetem a beleza e a tristeza. Portugal não larga o fado mas em todo o tempo recebe a visita com agrado. Vai longa a noite. Mais tarde volto a matar saudades.

28.10.14

Em diferido. #21

Fado em cada linha - Confunde-se a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de um carimbo de qualidade e de certificação de um povo. É um fado que desvenda a sonoridade dos arrepios da inevitável e inconsequente evolução de um ramo que não larga o tronco enraizado numa cultura que respeita e canta desentoada temas mais ou menos característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado. Permitir que a canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos graves dissonâncias. Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão portuguesa, nos desmotivemos. É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li algures. Em tantos textos de opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas outras conversas, também. Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos conhecidos. Ainda, nas conversas descomprometidas em televisão, tão válidas pelo entretenimento a que se propõem e que o espectador não nega. Antes desta vaga, houve dedicação, amor e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que desgrenhava veias como se fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a cimentar uma canção com poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem mais conhecidas e usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge, mas experimenta, enquanto alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num lençol branco, é sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois, seguem-se as restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta reformulação da arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.

28.7.14

Fado em cada linha.

Confunde-se a iliteracia contextual com a procura, sem fim, de um carimbo de qualidade e de certificação de um povo. É um fado que desvenda a sonoridade dos arrepios da inevitável e inconsequente evolução de um ramo que não larga o tronco enraizado numa cultura que respeita e canta desentoada temas mais ou menos característicos e assertivos de ouvido, do tão afamado fado. Permitir que a canção nacional toque no nosso leitor, sem que lhe apontemos graves dissonâncias. Sem que, pelos primeiros acordes da guitarra tão portuguesa, nos desmotivemos. É moda, contrariar essa corrente, ouvi e li algures. Em tantos textos de opinião e em infindáveis entrevistas de nicho. Nas outras conversas, também. Conversas de rua, de café, de amigos e de entretidos conhecidos. Ainda, nas conversas descomprometidas em televisão, tão válidas pelo entretenimento a que se propõem e que o espectador não nega. Antes desta vaga, houve dedicação, amor e paixão. Formigas na voz, no peito e no corpo que desgrenhava veias como se fossem cabelos soltos. Foi a verdade que ajudou a cimentar uma canção com poemas de palavras vivaças e abatidas. As últimas, bem mais conhecidas e usadas. Ouvir a versão de Ana Moura do tema “A Case of You”, onde a artista não foge, mas experimenta, enquanto alguém esconde o rosto e parte de um corpo desnudado num lençol branco, é sensualidade nacional. A excepção não remata o todo. Depois, seguem-se as restantes faixas de “Desfado”. É um deleite para a irrequieta reformulação da arte. Voluptuoso fado. Canção nacional.

12.2.14

Em diferido. #4

Ter Amália Rodrigues como mote, afinal, não é redutor. Não é pouco, nem é uma tentativa, infrutífera, de trasladar um talento e uma obra impossíveis de reproduzir. Não é, necessariamente, infausto. Não é, quando surgem nomes e talentos que não desapontam. Quando, a voz e a humildade se fundem e dão lugar a algo diferente mas, igualmente, bonito. Na conclusão, onde tudo desagua, encontramos uma artista, de alma na voz e, com convicção, faz jus à epígrafe. Mostra-nos que o título é uma parte, não é o todo. Tantas vezes, não mostra o verdadeiro conteúdo.

3.10.13

Lisboa à capela.

Viver Lisboa é encanto, extensão e opulência. Ver o eléctrico passar, de um amarelo luzidio sob tintas especulando garatujas, levando gentes da terra e turistas que procuram os encantos da capital. Embora, soando o fado, Lisboa é azul e luz. Também alegria e ondas de calor. É espaço e colinas. A história atravessou-a, propagando-se até aos nossos dias. Mas, agora que acabo de passar a Calçada do Combro, perto da igreja, novamente o eléctrico soando, recordando o que me haviam contado uns amigos e, lamento com aspereza, nunca ter tido o privilegio de outros. Ouvir Gisela João cantar, junto ao gradeamento, à capela.

18.9.13

A casa de quem a faz.

Numa varanda, à distância de significativos quilómetros, olho para o ar que me dirige para o céu, na direcção que julgo ser a correcta. Naquele sentido há, há muito, uma casa. Do fundo, do mais íntimo, surge o fado. Novo, velho. A par da voz, da garganta e da guitarra, existe aquela casa onde, juntos, fazem fado. Tantos quilómetros percorridos, chega a casa. A casa que ouve e dá fado. Aquela casa que, inequivocamente, é de quem a faz. É, também, onde sem medo, nos perdemos no fado. Noite dentro, despedimo-nos do lugar e, de surpresa, trazemos o que ouvimos. Na lembrança, uma casa. Uma casa digna, onde o fado é senhor. Senhor, merecedor.

3.9.13

Amália Rodrigues.

Ter Amália Rodrigues como mote, afinal, não é redutor. Não é pouco, nem é uma tentativa, infrutífera, de trasladar um talento e uma obra impossíveis de reproduzir. Não é, necessariamente, infausto. Não é, quando surgem nomes e talentos que não desapontam. Quando, a voz e a humildade se fundem e dão lugar a algo diferente mas, igualmente, bonito. Na conclusão, onde tudo desagua, encontramos uma artista, de alma na voz e, com convicção, faz jus à epígrafe. Mostra-nos que o título é uma parte, não é o todo. Tantas vezes, não mostra o verdadeiro conteúdo.