No meu reflexo noto que preferia que os meus óculos
graduados fossem mais arredondados. Penso nisso antes de os pousar sobre a
secretária. O computador portátil expõe o cumprimento entre o negro das
palavras juntas e o branco da página. Os meus óculos pouco importam, bem como,
a sua forma ou feitio. Só perco para eles no momento em que a miopia acena e as
lentes de contacto ficam esquecidas. E lastimo, só posso fazê-lo. O velho
hábito de ouvir uma e só uma música vezes sem conta, em modo de repetição, até
à exaustão, está presente. O perfume que invade o espaço é genuinamente
simpático. A luz que irrompe pela sacada lembra que estamos na corrida. A
primavera não demora. O telemóvel ao lado, entre uma moldura flausina e outra
de madeira rica. O ecrã negro da televisão macérrima é honra na parede. Uns
quadros aqui e acolá. Soam, num rompante, vários toques. SMS, redes sociais e
grupos de conversação. Todos num alvoroço. Um género de excitação. Um frenético
viver tão parecido à época. Carnaval sem fim. Estes, com o ano inteiro de duração.
Alheio propositado que sou à rapsódia do carnaval, chegam, nada furtivas,
tentativas de testar a minha complacência. Fotografias da folia vivida. Este
tipo, garanto, jamais lhe poderíamos adivinhar nestas lides. Imagens que
merecem destaque na galeria dos donos da pândega, seguramente. Rio-me e não é
forçado. Este tipo é a coerência anual esventrada por estes dias. Amanhã há
mais, legenda ele. Sugiro-lhe sorte grande e outros agaiatados desejos. Volto a
colocar os meus óculos graduados. É impossível escamotear, preferia que fossem
mais redondos.
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27.2.17
16.7.15
Em diferido. #38
Tema
desenvolvido em verso. Prosa talvez - Em letras garrafais, o nome da sala onde
se pode ouvir música variada e guardada numa caixa que soa e ressoa pelo
espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas. Onde há fumo fictício e gente a
falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente e despidas. Pessoas
despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No cimo daquela porta
larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um emaranhado de letras,
que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que chama sempre um valente
concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos reunidos. Na mesma rua, no
lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem varandas curtas, tem janelas de
sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro, pé fora. Tem tectos desenhados.
Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a conversa antes de subir a
escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.
11.6.15
Em diferido. #36
Há
festa Portuguesa (Um e outro ano) - Há cores por cima de cada cabeça, a fazer
de conta um arco-íris. Há verdes fitas, amarelas, vermelhas, azuladas e brancas
até. O bailarico começa lá em cima, onde se bamboleiam as iluminadas faixas
lisas com cores fortes. Esticam-se de um prédio ao outro. Deslizam entre e
sobre os arames estrategicamente colocados. Açambarcam ruas, átrios, pracetas e
becos. Unem janelas e vizinhos. Daquela ponta, onde a janela sossega
escancarada, até ao outro lado, de varanda decorada, de manjericos pousados. Das
afamadas coloridas fitas, caem adornos vários. É alusão ao santo, à folia, à
comemoração. É festa que une população. Pedem-se casamentos felizes e relações
abençoadas. Começam namoros, arrancam casórios. Em cada ruela a surpresa.
Montam-se arraiais em cada esquina. Enquanto se faz caminho passa-se a mão
pelos manjericos vários, cheiram-se as sardinhas no fogo, ouve-se o vinho a
escorrer para cada copo. Lisboa leva atenção. Da terra ou visita, se fazem os
convivas. À noite, as marchas pisam solo requintado, deslizam avenida fora.
Aplausos e vencedores. É noite de animação sem fim. É um festejo popular,
rompendo país fora. É um vai e vem que deixa saudade. Até ao novo ano, até à
festa democrática.
7.7.14
Tema desenvolvido em verso. Prosa, talvez.
Em
letras garrafais, o nome da sala onde se pode ouvir música variada e guardada
numa caixa que soa e ressoa pelo espaço, ainda dançar e tomar umas bebidas.
Onde há fumo fictício e gente a falar de corpos colados. Pessoas bonitas fisicamente
e despidas. Pessoas despojadas de roupa e de outros predicados relevantes. No
cimo daquela porta larga, onde alguém encostado escolhe entradas, está um
emaranhado de letras, que dá o nome à casa. Naquela rua de cidade antiga, que
chama sempre um valente concurso de convivas. Chamam as letras a atenção dos
reunidos. Na mesma rua, no lado oposto, o mesmo traço arquitectónico tem
varandas curtas, tem janelas de sacada escancaradas. Tem movimento. Pé dentro,
pé fora. Tem tectos desenhados. Receberam-nos à entrada, começaram os risos e a
conversa antes de subir a escada. Divirtam-se e desfrutem, foi o mote.
12.6.14
Há festa Portuguesa.
Há
cores por cima de cada cabeça, a fazer de conta um arco-íris. Há verdes fitas,
amarelas, vermelhas, azuladas e brancas até. O bailarico começa lá em cima,
onde se bamboleiam as iluminadas faixas lisas com cores fortes. Esticam-se de
um prédio ao outro. Deslizam entre e sobre os arames estrategicamente
colocados. Açambarcam ruas, átrios, pracetas e becos. Unem janelas e vizinhos.
Daquela ponta, onde a janela sossega escancarada, até ao outro lado, de varanda
decorada, de manjericos pousados. Das afamadas coloridas fitas, caem adornos
vários. É alusão ao santo, à folia, à comemoração. É festa que une população. Pedem-se
casamentos felizes e relações abençoadas. Começam namoros, arrancam casórios. Em
cada ruela a surpresa. Montam-se arraiais em cada esquina. Enquanto se faz
caminho passa-se a mão pelos manjericos vários, cheiram-se as sardinhas no
fogo, ouve-se o vinho a escorrer para cada copo. Lisboa leva atenção. Da terra
ou visita, se fazem os convivas. À noite, as marchas pisam solo requintado,
deslizam avenida fora. Aplausos e vencedores. É noite de animação sem fim. É um
festejo popular, rompendo país fora. É um vai e vem que deixa saudade. Até ao
novo ano, até à festa democrática.
19.5.14
Questiona tudo, nunca deixes de perguntar.
Começo
pela incerteza. Pela ausência de respostas. Pelo facto de que não existem argumentos
para ceder refutação, seja qual for. Seja fiel ou fictícia. Princípio, como
indica, de impulso, sem me segurar numa explicação qualquer daquelas que, de
tão óbvias, esquecemos que têm uma razão de ser. Não tenho nada, senão a
lembrança reproduzida. Recuando, por estes dias, venho ouvindo com frequência esta música. A razão não releva importância. Ainda assim, voltando a ouvi-la, a
imagem é a de um verão passado. Junto à praia, numa das festas típicas da
época, onde só entram os convites. A piscina ao centro, os dois pontos de bar a
ladear o recinto, a pista de dança, as mesas lá ao fundo, a decoração característica,
o DJ a passar as batidas da década escolhida. Ao balcão, descansando o cotovelo
esquerdo, estava a rapariga que, de sorriso rasgado e sardas, chamava a atenção,
por tudo, menos pelo óbvio. O cabelo comprido, castanho escuro, à solta. Um
chapéu arrojado na cabeça. Um top de alças com bolas várias, uns calções curtos
da cor do chapéu. Tinha um olhar tímido, um ar discreto, embora, não surtisse
efeito. Perto dela, perguntou-me o nome. Respondi-lhe. E rimo-nos os dois.
10.10.13
‘Com um vestido preto (nunca) me comprometo’.
A
festa viria a propósito, não fosse a ocasião oca, fraca. Uma autêntica fachada.
Deixo, inocente, a burguesia. Fujo do termo “pequena burguesia”. Em abono da
verdade, vezes há em que não recuso. Em que não perco a oportunidade de
vislumbrar, tanto quanto possível, à margem, todo um circo. Não dos horrores.
Das aparências. Um círculo de falsos cumprimentos e de rijos festejos.
Aproveitam ao máximo. Pelo menos, por ali, vivem-no com franca verdade. Há
espaço para tudo. Para todos. Mas, inevitavelmente, surgem os que importam. Os
que diferem. Os que estão vivem e mostram-se imunes à perturbada vaidade. Nem
tudo é mau. Ninguém é, por todo, mau. Entre todos, aquela que nunca se
compromete e dá sentido à sala. A mesa ganha vida e estatuto digno. Longe de
ser burguesa. De vestido longo, como exige o horário. De cabelo solto e
sandálias altas, espreitando, aos poucos. Aos 50 anos assumidos, é despretensiosa.
Elegante, digna nos movimentos. De sorriso certo e conversa simples e
agradável. Chama a atenção, sem pedir. Sabe-o, contudo. A pista de dança
ilumina-se, quando, entre convites, se permite dançar. A elegância repete-se.
Não tem idade. Gira, por ali, ao som e ritmo de um clássico. E as atenções,
repetidamente, estão nela. Enquanto consente que a vejam. Depois, perde-se pela
pista e ninguém a vê. Minutos passados com fulgor, regressa. Volta à sala, à
pista. Volta do quarto de banho. Onde, soube mais tarde, entre malas, vestidos
e sapatos, se trocou e retocou. Agora, já na sala, olhada é uma nova pessoa. O
vestido, antes longo e de tons claros é, por esta altura, negro e mais curto.
Leve, segura numa rosa branca. Das muitas rosas que por ali estavam. Colocou-a
estrategicamente. E revoluciona. Muda tudo, menos a atenção alheia. Hoje,
alguns dias sumidos, ainda gabam a postura e o vestido. Aos 50 anos,
garantiu-me, recorrendo à velha expressão, “Com um vestido preto nunca me
comprometo. Mesmo que o vestido tenha 27 anos”. Vintage, pensei. Está na moda.
É uma senhora.
14.6.12
Os santos são quando e como o homem quiser.
Isto porque, há dois fins-de-semana seguidos que o jardim/terraço da minha casa se transforma numa verdadeiro lugar de comemoração. Arriscaria dizer que se transformara num arraial, mas seria demais. Não é preciso muito. Amigos e/ou família, comida, bebidas, boa música ao fundo e excelentes conversas. Este fim-de-semana repetimos. Eu gosto disto! A festa fazemos nós. Nem o manjerico faltou!
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