Vem
de longe a vontade de chegar depressa. Num tom de vermelho e branco, sem
preceito, tão a propósito. Vem de outras núpcias a gana de chegar além. Vem,
numa espécie de barba rija, a guerreia de chegar ao ponto. Falo, enquanto o meu
relógio de pulso humilha o tempo, na barba de alguém. Que rija, só a humildade.
A minha, finalmente aparada quase como manda a lei da avó de outros tempos ou
do avô que guarda o cheiro da colónia que assalta o rosto logo depois da
navalha. Há quem insista em passar-me a mão pelo rosto e persista nesta
revelação de emoção, de amor. Cedo-lhe sem pesar. Mesmo quando barafusta e pede
o rosto lisinho. Se pouco ou nada importa o que está atrás, não perde relevo o
que segue adiante. A primavera acordou. Assaltou-me sem aviso e deixou-me à
mercê das suas vontades, numa alergia irregular e acidentada. Ontem, entre
gritos e apitos, a festividade foi longe. Com a raça de quem corre por gosto.
Com a fé de quem ameaça romper com a barba de larguíssimos anos. Temeu-se, a
favor do campeão, perder-se a rija pilosidade facial de um homem cuja idade já
não tem senão contabilidade. Contava-me hoje, entre o sol da manhã e a pressa
do almoço, essa efeméride. Sem me conhecer, lembrou o sem fim de gente que
ontem brincou e saltou. Acenei em jeito de aprovação. Vem de outro tempo a
necessidade de guardar espaço para a vontade, para a gana e a guerra inócua.
Mesmo que o resumo sejam parcas linhas que explanam acerca de um duplo tom. No
fim, o melhor irrompe e deixa-se ficar. Permite a ocasião, sem desprimor para o
intelecto, abusar dos hashtags. Isso
e do português correcto.
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16.5.16
11.6.15
Em diferido. #36
Há
festa Portuguesa (Um e outro ano) - Há cores por cima de cada cabeça, a fazer
de conta um arco-íris. Há verdes fitas, amarelas, vermelhas, azuladas e brancas
até. O bailarico começa lá em cima, onde se bamboleiam as iluminadas faixas
lisas com cores fortes. Esticam-se de um prédio ao outro. Deslizam entre e
sobre os arames estrategicamente colocados. Açambarcam ruas, átrios, pracetas e
becos. Unem janelas e vizinhos. Daquela ponta, onde a janela sossega
escancarada, até ao outro lado, de varanda decorada, de manjericos pousados. Das
afamadas coloridas fitas, caem adornos vários. É alusão ao santo, à folia, à
comemoração. É festa que une população. Pedem-se casamentos felizes e relações
abençoadas. Começam namoros, arrancam casórios. Em cada ruela a surpresa.
Montam-se arraiais em cada esquina. Enquanto se faz caminho passa-se a mão
pelos manjericos vários, cheiram-se as sardinhas no fogo, ouve-se o vinho a
escorrer para cada copo. Lisboa leva atenção. Da terra ou visita, se fazem os
convivas. À noite, as marchas pisam solo requintado, deslizam avenida fora.
Aplausos e vencedores. É noite de animação sem fim. É um festejo popular,
rompendo país fora. É um vai e vem que deixa saudade. Até ao novo ano, até à
festa democrática.
21.8.14
A aldeia veste-se de festivo fato.
Há
festa na aldeia. É filme e de inspiração certeira. Fora da grande tela, é
aldeia de um Portugal que se escuta no fado, que se lê nas demoradas palavras
de Eça de Queiroz e nas linhas estreitas e desformes de Fernando Pessoa. Relíquia
de um jogo de palavreado. Que se mostra esquecido, assim de quando em vez.
Tinha graça na moça. A que leva saia rodada à festa. Dela ouvir-se um bizarro
discurso cantarolado, ouvindo, ao fundo, uma guitarra. Há festa. Na aldeia que
vive no verão, apaga no sossego das restantes estações. É dormitório. Voltamos
à festa. Palco ao centro. Artes e sabores são o mote. Soa, desde cedo, o
popular dos tocadores. Uma voz arranhada e esforçada mede-se com o acordeão que
carrega nos braços. É cor espalhada nos enfeites que fazem tecto. Ainda há
rigor na farpela dos que lhe pertencem, à aldeia e à romaria. Ainda há novos e
velhos. Grupos que naufragam por águas diferentes. Mas partilham o murmúrio dos
dias. É regresso. Um ano de ausência, numa festa, a presença. É a lei do
distante. Do ausente.
12.6.14
Há festa Portuguesa.
Há
cores por cima de cada cabeça, a fazer de conta um arco-íris. Há verdes fitas,
amarelas, vermelhas, azuladas e brancas até. O bailarico começa lá em cima,
onde se bamboleiam as iluminadas faixas lisas com cores fortes. Esticam-se de
um prédio ao outro. Deslizam entre e sobre os arames estrategicamente
colocados. Açambarcam ruas, átrios, pracetas e becos. Unem janelas e vizinhos.
Daquela ponta, onde a janela sossega escancarada, até ao outro lado, de varanda
decorada, de manjericos pousados. Das afamadas coloridas fitas, caem adornos
vários. É alusão ao santo, à folia, à comemoração. É festa que une população. Pedem-se
casamentos felizes e relações abençoadas. Começam namoros, arrancam casórios. Em
cada ruela a surpresa. Montam-se arraiais em cada esquina. Enquanto se faz
caminho passa-se a mão pelos manjericos vários, cheiram-se as sardinhas no
fogo, ouve-se o vinho a escorrer para cada copo. Lisboa leva atenção. Da terra
ou visita, se fazem os convivas. À noite, as marchas pisam solo requintado,
deslizam avenida fora. Aplausos e vencedores. É noite de animação sem fim. É um
festejo popular, rompendo país fora. É um vai e vem que deixa saudade. Até ao
novo ano, até à festa democrática.
13.5.14
De olhos postos na fiel natureza.
Entre
beijos de reencontros e apresentações, apertar de mãos convictos, risos largos,
penteados tratados, tecidos elegantes ou arrojados no corpo, blazers, casacos cintados, óculos
graduados que fazem moda, fios pendidos, lenços na lapela, saias e calças
diferentes, anéis que diferem das pulseiras, os brincos que nunca falham, a
mala ou a carteira, o cinto e os sapatos brilhantes ou de bom desenho, os
saltos esbeltos, as poses pensadas ou as desconjuntadas e divertidas posições, a
barba aparada ou a maquilhagem de capa de revista. Juntaram-se, nessa data,
todas as características de festa e de partilha. Não foi pelo desfile de
acessórios. Foi, antes e sempre, pela insistência de nos rirmos sem pôr fim à
vontade. Guardamos nos negativos para mais tarde lembrar. Prefiro, por ora,
ouvir os detalhes do que recheia, mas não revela. A minha avó, já dizia no
atrasado de outros tempos, não importa a ocasião se não for com a intenção de vivê-la
com o coração. Vou, parte a parte, entendendo os ensinamentos de quem sabe.
8.5.14
Uma casa portuguesa.
Lembro-me
do espelho desenhado em tons dourados, nos contornos trabalhados da data, na
parede de entrada, centímetros acima da mesa de apoio. A parede, escondida pelo
aparatoso espelho, era coberta por papel de parede inocente. De cores sóbrias,
de riscos simples. Liso, talvez. Logo depois da porta grande, aquele espelho
era a estrela. Era a festa de muitos que por ali passavam. Não me lembro se, na
não menos majestosa mesa de apoio, havia mais do que uma base de prata, uma
jarra com flores frescas e um candeeiro vindo de fora. Uma vez por outra, um
livro. A memória falta-me sempre. Menos, quando é festejo. Não simpatizo ou,
melhor contando, não me sinto confortável com o facto de ser o alvo da
comemoração. De tudo o que me diga respeito. Naquele espelho, vi pessoas
observarem-se. De tantas e distintas formas. A mulher que se prepara para sair
e não resiste retocar o cabelo arranjado instantes antes, de voltar a tocar no
batom, de segurar a jóia que prende a atenção para as orelhas. O homem que
chega ao fim do dia, pousa o que lhe pesa nos bolsos, respira enquanto se mira.
Nós, ainda petizes, tentando chegar-lhe. Pouco a pouco. Primeiro, apenas o
rendilhado dourado. Depois, surge-nos o reflexo do cima da cabeça. A seguir, os
olhos ganham vida nesse espelho. Até ao dia em que, sem sabermos, imitávamos selfies imaturas. A risada era pegada.
Naquela casa de sempre. O espelho sente saudades de ver passar. Tal como nós. De
ver chegar. Comemorar, seja o que for, não tem data marcada. Mesmo que espere
por nós sentada.
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