Tipicamente
recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por
casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma
certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando
me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma
matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a
primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes,
surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por
uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da
certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava
com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se
falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca
de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de
neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível,
do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo
fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é
fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de
fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com
uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as
mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns
bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha
dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de
tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a
paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis
calçados.
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20.4.17
9.2.17
Pronome pessoal com divinas honras.
Encontrei,
entre um tanto de coisas, uma fotografia. Devo tê-la deixado ficar por ali sem
propósito. Devo tê-la tirado há uns valentes anos, não arrisco um número, por
me ver frágil na contabilidade dos dias e na sinceridade das distâncias. A
negro e branco, num estilo desalinhado entre o compromisso de reproduzir por
meio de fotografia e a vontade de guardar amor. Facilita ver-me convidado a
fotografar pelo impulso. Já naquela época era assim. Vê-la, resumida numa
silhueta de tons cinza, pela força da luz de um fim de tarde. Ao lado, o gato
no mesmo tom, de olhos claros, a inverter a posição. A janela gigante favoreceu
o encanto. Os prédios altos, finos, compostos por janelinhas que jamais
terminavam. De costas, com as pernas cruzadas debaixo do corpo, sobre a cadeira
estilizada de madeira. O cabelo desarrumado e a beleza natural. Resumia o
movimento com a mão repetida sobre o gato que inventava um sorriso de puro
deleite. Deixei-me ficar, por temer prejudicar o ambiente. Deixei-me ficar ali,
quase inerte, numa folga do pensamento, a apreciar. Peguei na máquina dela, por
estar mais próxima e cliquei. Uma e outra vez. Ganhei uma imagem sem legenda.
Recebi em mãos, meses mais tarde, num envelope grande, bonito e com escritos, a
dita fotografia. Noutro lugar, noutra vibração, mas o beijo de sempre.
Encontrei, entre outros valores, uma fotografia que não tem explicação clara ou
sucinta. O mote para o desfiar de memórias e de afectos. Lembro-me, sem
excepções, de cada segundo. E não minto, se deixar fugir que só guardo o que me
acrescenta.
23.6.15
O lado certo.
Tenho
vários amigos artistas. Já pensei nisto, já falei sobre isto. Fazem coisas,
muitas e bem feitas. Afirmo-o com a ressalva do estereótipo que dá as mãos à
arte. Eu gosto do muito que venho vendo. São todos muito diferentes. Mas
encontro-lhes semelhanças na estrutura. Mulheres e homens de ideias sociais
muito próximas, fazedores de arte mais distantes. Respiram criatividade, falam
com originalidade e sustentam-se no compasso da criação. Não é forçado, é uma
acção natural, uma reacção visceral. Louvo-lhes o dom, uma e outra vez. Chegou
e deixou cair sobre a mesa uma revista. Disse-me, logo a seguir, que era a
revista de que me havia falado. Trouxe-ma para que, entre os muitos artigos de
interesse, me deixe levar por um conjunto de fotografias que são o espelho do
mundo. Um mundo honestamente desonesto. Um retrato de outro continente. Já lá
esteve e, garante-me, é impressionante. A qualidade das fotografias é
indiscutível, mas não se esgota na técnica apurada, na luz certa, na objectiva
concreta. Morre em cada uma, a esperança. Porque não é ver, é ver e não restar
um miserável pingo de dúvida de que o julgamento se faz aos solavancos e não
tem beira. Ironizando, porque nos falta discurso, já dizia uma velha amiga,
quando ainda éramos uns putos entre aulas e conversas de corredor, que
lamentava não se chamar Esperança. Todas as vezes, alguém lhe perguntava
porquê. Ela justificava, imaculadamente: Porque a Esperança é sempre a última a
morrer. É tão verdade, que me rio enquanto escrevo. Tal como nesses idos anos.
Havia sempre uma gargalhada como ponto final. Agora, depois de folhear esta
revista um punhado de vezes, faz sentido. Que aos protagonistas desta realidade
nunca lhes falte a esperança. Mesmo que morram antes dela. É o outro lado. O
lado da consciencialização.
28.4.15
Em diferido. #33
Tipicamente
recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há
em mim um certo distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me
obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há
em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou
porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de
ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi
esse o caso, estava a passar os olhos por uma revista de fotografia das boas.
No entretanto, perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida.
Induzido, claro, por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma
fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com
quem olha. Distinta será quando promove a troca de sensações, ainda que,
fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no
pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que
diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória,
do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se
apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa
engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É
lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada
altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois
os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade
distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a
arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra.
Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis calçados.
18.3.15
Em diferido. #30
Objectiva
arrefecida - Um dia destes, daqueles em que o frio jamais é impedimento para me
levantar da cama e sair para a rua, fui fotografar. Sob uma brisa e neblina tão
típicas da madrugada a correr para o dia. Embora, questione, em cada um desses
dias, a necessidade de me ultrapassar, num horário e temperatura tão
descuidados e nada estimulantes. Ou, porventura, seja esse regelar que pica a
vontade. Mas, fugindo à fuga desordenada de ideias, que fluem conforme vou
escrevendo. É um desafio. Como redigir na máquina de escrever que tínhamos lá
em casa. Hoje tão obsoleta. Então, a elegância e a ilusão de ser escritor de
verdade. Lembro-me tão bem da mecânica e da saudade de voltar a ela. Em
detrimento do computador. Hoje nem sei onde vive. Algures numa arrecadação sem
alma. Não tem mais de duzentos anos, mas é e será, de modo eterno, parte da
pele de quem escreve. Torno a embrulhar as ideias e as memórias. Um dia destes,
voltei a sair cedo para fazer, do meu jeito, uma das artes que mais prazer de
dá, fotografar. Junto ao rio, num passadiço, passou um velho homem numa
bicicleta. Fotografei-o, inevitavelmente. Agradou-me a luz contrária ao seu
destino. As costas dele voltadas para a minha objectiva. Ficou leve e natural.
Como andar de bicicleta. Já em casa, ao voltar a elas com outro cuidado,
chamaram-me a atenção as peúgas do mesmo homem. Encarnadas. Vermelhas, se
preferirmos corrigir o snobismo. E fazendo força para não fugir dos lugares
comuns, há apontamentos que fazem a diferença. E, se permitirmos, nos marcam,
em cada uma das manhãs frias de um outono de verdade.
12.3.15
Tipicamente recalcitrante.
As
revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há em mim um certo
distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a
ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há em que mudo o rumo e
revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou porque me apetece tornar
a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me,
não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a
passar os olhos por uma revista de fotografia das boas. No entretanto,
perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro,
por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte
ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com quem olha. Distinta
será quando promove a troca de sensações, ainda que, fugindo totalmente a
qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no pensamento e depressa me
lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que diz respeito aos ténis.
Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória, do meu pai. Um homem
adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se apresentar, defende
ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa engomada, gravata de
um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É lamentável, termina.
Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada altura, num empate
técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois os ténis. De
preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade distintiva e
personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a arte em destaque,
sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas
acabo de escrever com uns ténis calçados.
3.3.15
Desalentam-se os dias.
Os
dias já não se esgotam da mesma forma e compasso. Alguma vez os príncipes
haviam de ficar nos livros e os cavalos num bonito e verdejante pasto. Os
puzzles já não se guardam em caixas perdidas, os carros ganham nomes de coisas,
o inverno tem caprichos de petiz desavindo, os casacos de cabedal já vão ao jazz e o sushi é a linha da frente das
opções gastronómicas do cosmopolita informado. Aquela cantora nacional que o
mundo apelidava de pimba e, cujo tamanho do silicone, diziam ser inversamente proporcional
ao talento das canções é, agora, a diva terrestre. E, felizmente, ficam as
marionetas, que vivem felizes e contentes entre as linhas do domador e a
alegria de quem as vê com vida. Gritaram por mim. Chamaram-me para a varanda do
primeiro andar. Vem cá, anda ver. Sucumbi. Douta ignorância. Fotografei as nuvens.
Ironia do sarcasmo, fotografei as nuvens no céu. Voltei a vergar. Postei no
instante. Terminam, num remate sorridente – As coisas simples da vida são boas.
– Ainda vão amolecer e deturpar as minhas teorias da origem.
27.11.14
Objectiva arrefecida.
Um
dia destes, daqueles em que o frio jamais é impedimento para me levantar da
cama e sair para a rua, fui fotografar. Sob uma brisa e neblina tão típicas da
madrugada a correr para o dia. Embora, questione, em cada um desses dias, a
necessidade de me ultrapassar, num horário e temperatura tão descuidados e nada
estimulantes. Ou, porventura, seja esse regelar que pica a vontade. Mas,
fugindo à fuga desordenada de ideias, que fluem conforme vou escrevendo. É um
desafio. Como redigir na máquina de escrever que tínhamos lá em casa. Hoje tão
obsoleta. Então, a elegância e a ilusão de ser escritor de verdade. Lembro-me
tão bem da mecânica e da saudade de voltar a ela. Em detrimento do computador.
Hoje nem sei onde vive. Algures numa arrecadação sem alma. Não tem mais de
duzentos anos, mas é e será, de modo eterno, parte da pele de quem escreve.
Torno a embrulhar as ideias e as memórias. Um dia destes, voltei a sair cedo
para fazer, do meu jeito, uma das artes que mais prazer de dá, fotografar.
Junto ao rio, num passadiço, passou um velho homem numa bicicleta.
Fotografei-o, inevitavelmente. Agradou-me a luz contrária ao seu destino. As
costas dele voltadas para a minha objectiva. Ficou leve e natural. Como andar de
bicicleta. Já em casa, ao voltar a elas com outro cuidado, chamaram-me a
atenção as peúgas do mesmo homem. Encarnadas. Vermelhas, se preferirmos
corrigir o snobismo. E fazendo força para não fugir dos lugares comuns, há
apontamentos que fazem a diferença. E, se permitirmos, nos marcam, em cada uma
das manhãs frias de um outono de verdade.
23.10.14
Nomes ao vento.
A
vida, se não induzida pelo espicaçar de gostar de observar, não foge da rotina.
De fotografar o ambiente que tem raça. A fotografia que não vai de encontro com
a comodidade de viver naquele número, naquela porta e rua concretas. Desviar um
segundo da monotonia, conhecer o passeio de outras bandas. As costas quase nuas
daquele corpo sobem e descem a rua com o prazer de quem escolheu na noite
anterior. A farpela, o trajecto repetido, a ausência de vergonha, a vontade de ser
e permanecer como é. Não é rapariga de evitar, temendo que nunca resulte. Que
fuja do certo. Faz a cara da moda, mudou as pontas do cabelo longo. É discreta
na conversa. Não quer saber de vós. De nós, se mesmo visita, me juntar ao
camarote. Não chama a atenção para o relato da vida que nunca será igual, como
o trajecto que volta e repete. Do chão nasce o seu estilo que tem ginga. As
costas um tanto despidas daquele corpo descem e sobem a rua. Parece-me, do que
nos deixa ver, com a verdade e consolo de quem jamais se importa com os ruídos
das muitas vozes que se juntam à esquina. É, também disto, que se fazem os
lugares típicos. Tão castiços. O bairro ali tão perto. Não lhe conheço o nome. Todavia,
quem me acompanhava chamou-lhe Carmo.
24.9.14
O verde do campo.
Barafustando
com o campo. No fel do que guarda. Só se permite visitar o que sempre lhe foi
proposto quando, em trabalho, o verde do campo deixa de ser recordações e
verdades. Quando o campo não é sinónimo de distância e pobres de espírito. Quando,
o verde e o fiel retrato do campo passam a ser o cenário perfeito para a
fotografia. Metáforas. Aprecio-as.
22.9.14
Gosto delicado de deixar nu.
Recebi
na minha caixa de e-mail um anúncio. Nele, um conjunto de imagens, que lado a
lado com outras, estão numa exposição. Lembrava-me, o mesmo amigo, no mesmo
e-mail, que as fotografias, de um fotografo recente, aconteciam numa cidade,
que não sendo capital, é movimento de cultura. Não falo, portanto, de Portugal.
Fatalmente, o nosso país prefere esconder a necessidade de viver e conhecer. Não
conhecia o recente fotografo, nem de nome. Fui procurar saber. Afinal, o
artista apelidado de recente, conta com um vasto número de exposições e imagens
premiadas. Desta feita, volto a ter a certeza de que as legendas cansam.
Valorizam-se ou perdem-se sem grandes questões. As imagens, voltou a
escrever-me o mesmo amigo, eram o espelho de cada corpo nelas representado.
Tive de concordar. E, nisto, lembrei-me de uma mulher que conheci há muitos
anos atrás. Uma professora de português que desenhava. Era desgovernada e sem
feitio para o espartilho de uma educação com cintos. Não será necessário
escrever que não tinha particular popularidade entre os da mesma classe. Mas
insisto. Soube mais tarde, desenhava corpos. Nus e, preferencialmente, corpos
nus de mulheres. No desatino do destino, conheci-lhe algumas obras, anos mais
tarde. E percebi. O gosto pelo desenho. A primazia pelo nu. A simpatia pelo nu feminino.
Ainda, o afastamento que ela cultivava de uma certa vaidade colectiva que
tomava o ambiente por onde, inevitavelmente, tinha de se movimentar. E nas
legendas, que dotada de palavra, simplificava o todo. É ver para acreditar.
27.8.14
Formar ideias sobre o (des)embaraço.
Justifica
a selfie, ou o desfile de selfies que, guardadas no iPhone, desafiam várias caras, com a
independência. A vulgaridade do termo e do acto desinteressa-lhe. Importa-se um
nada. Perturba-lhe tanto como o destino de bandas desapossadas de talento.
Fotografar-se é um talento. Um privilégio fazer um retrato sem que precise de
outras mãos. É um tempo que não ganha rugas de espera e desespero. É
instantâneo, como se pretende por estes dias. A alternativa da longevidade é o
desinvestimento. Não convém prestar atenção à qualidade. Veste-se a vaidade.
Mostra-se o momento à sociedade. Ganham-se posturas e posições que favorecem a
fotografia de objectiva que treme. Justificar, por si só, comporta culpa. Ou,
no limite, desconforto, constrangimento. A selfie,
assim como, outras modas e manias, é uma opção. Válida se não contrariar.
Altera-se todo o tabuleiro de posturas e coerência no jogo, quando a explicação
e sobrepõe à acção. Quando demora bem mais do que a reacção.
20.8.14
Sensibilidade no lugar certo.
O
fundo é tão verão como um fim de tarde ventoso, uma maré agitada ao fundo, o
sol a espreitar e a espalhar pequenos espelhos pela água, o casario pintado de
cores vivas e diferentes. Aquela gargalhada, se quisermos uma valente risada,
enquanto as duas mãos se juntam e esboçam, tanto quanto lhe é possível, um
coração. A maldade do tempo é que, se procrastinarmos, ele fia-se no nosso
balanço desassossegado e ajuda-nos a perder vontades. Ela nunca percebeu a
necessidade de devolver às mãos, um coração. Seja amostra do carinho e tentação
palpitante do seu coração, seja a pretensão de que o de alguém, ali ou
distante, lhe pouse, vaidoso, entre os dedos. A risada era tão sonora e descia
pelo corpo que respondia com movimentos que mostram incapacidade de resistir.
Desmanchou-se, sem remédio, o coração inventado. Lamentava-se, entre risos e o
desajusto do corpo, nunca ter feito uma fotografia com o coração nas mãos.
Cruzou os braços e posou, desencontradas, as mãos. Uma em cada ombro. Já está.
Uma fotografia. Um coração no lugar certo. Vai continuar, felizmente, sem viver
com o objecto do afecto nas mãos.
19.8.14
Algarve, posto de obrigação.
Fazer
fotografia, ou fotografias, como se alguém as fizesse, é um puro deleite.
Talvez, sem que perceba, me roube as palavras, as definições. As esconda antes
de colocar rigor na conclusão do que é fotografar. Repetir-me, nessa e noutras
questões. Samba na reprodução do repetido. As regras de um léxico que desvenda
coisas. Também pessoas, lugares. Um léxico que treme como a lente. Que foca ou
desfoca conforme o suporte e ligeireza de um corpo e mente sãos. Teimas, fazes
escolhas. Procuras o enquadramento. Fixas pessoas, estratégias de um gosto tão
pessoal. Como o negro e o branco. Outras, ganham na forte e infindável raça da
cor. Agora, carregas no botão. E tens uma imagem. Num cinzento que tem brilho
nos pontos certos. Um verão, num Algarve de requinte. Onde, à beira de uma
piscina ou numa praia de água gelada, duas pessoas se sentam. Ela tem uma coroa
de flores na cabeça, depois os cabelos caídos e secos do sol. Ele olha-lhe com
o mesmo entusiasmo. Há tanto movimento ao redor, que parece mentira. Fazer
fotografias ou o plural, é guardar e isolar. Guardar e resguardar. Precisamente
para abrigar estes e outros momentos de futuros danos.
6.8.14
A minha pátria num muro exterior.
Escrevi
na imagem acima, a frase de um povo. Conhecida como quem não se cansa. Sabida
na ponta da língua por quem não se recusa a ler e a entender. Nas entrelinhas.
Nas linhas corridas, de pontuação a decorar. Num torneio arredondado de
pensamentos entrelaçados com emoções e valentes composições. De ideias, entenda-se.
Lamento-me sempre. A minha desajustada coerência e, se quisermos, o meu equilíbrio
bambo. No epicentro da decisão, escolho não carregar uma máquina. Tão especial
objecto. Uma oportunidade brava. O telemóvel não me serve, quando ganho outras
ideias. Mas, neste verão à pressão, estava feita em grafítis, a expressão. A rua movimentada, pareceu-me, não prestou
atenção. Qual carimbo numa parede de branco a desfazer. Letras negras. Fernando
Pessoa, nacionalista de crença contemplativa, ali. Tão cru. Em bruto. A fonte
escolhida para letra. Os tons sem especial atenção. Uma pátria que lhe ganha as
formas. Salve-se a cultura. A língua. Ironia, a verdade desenhada numa parede
portuguesa.
30.5.14
Da miopia captada à mercê de um telemóvel. #6

Doçura, candura, cores e
travessura. Espaço para, lá ao fundo, a brincadeira se desenhar no carrinho. O
entusiasmo e o carinho, apoderam-se, livres, dos olhos e dos movimentos das
mãos. Que aplaudem, enquanto sorri. Já lá vai o tempo da expressão, mas faz
sempre todo o sentido. As crianças, nossas e felizes ou longe e dos outros, são
o melhor. Do mundo.
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29.4.14
Português vivaz.
A
janela de cortina a balançar, debaixo ou no enquadramento do que se seguirá
adiante, é o ponto de partida, por dela soar pátria. O céu azul suave, quase
imaculado, não fossem as ternurentas, embonecadas e salpicadas nuvens.
Desmaiadas, é certo. Ainda assim, nuvens. O sol oferecendo brilho, luzindo
pelos cantos vários. Os azulejos azuis e brancos. Tradição, característica,
coração português. Calçada portuguesa, em tom sim, tom não. Num aparece e
desaparece de figuras típicas. Avenida acima. As riscas na blusa, a saudade do
azul e branco que lembra a maresia. A memória a funcionar, as lembranças a
jorrar. A barbearia, no sentido oposto, de cadeira de comando. De espelhos
gastos do tempo, como o couro. Só isso. O verde é sombra. A madeira é repouso.
Calçados, os ténis que repetem a saudosa marca da adolescência. O sorriso faz parelha
com a gargalhada. São proporcionais à dimensão do lugar que açambarca o todo deste
quadro. As pernas cruzadas. As mãos sem sossegar. A máquina fotográfica
pousada. Depois, terminei cortando o cabelo. E aparando a barba. Com óculos de
ver.
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24.4.14
Democracia. Portugal.

De lá para cá. Do vinte e cinco
de Abril, do tão revolucionário ano de mil novecentos e setenta e quatro. Da
Democracia em Portugal, tenra no percurso. De estrutura manca, por lhe faltar
experiência e experientes. Do mesclado de intentos vários. Contudo, que nunca
se castre, mesmo que se questione, o que nasceu daí. Mesmo que nos surja
desfocado. Mesmo que nos vendam o percorrer da miopia ideológica. Há questões
de uma vida que se espalham por aí. Porque nem tudo o que nos servem numa
bandeja adornada, é elegância. E a sobranceria que se opõe, tantas vezes se
sobrepõe.
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22.4.14
Um apontamento.
É,
apenas, um apontamento literal do que acabei de ver. Daqueles pormenores e
momentos que guardaria, descritos, por tempo indeterminado, num dos meus
cadernos, de capa vigorosa, negra ou azul forte, de elástico a forçar o segredo.
Sobre a calçada portuguesa, está um casal a fotografar-se mutuamente. Em poses
várias. Em emoções diferentes. Em expressões atraentes e atractivas. Imitam um
género de dança. Coordenada à mercê da vontade que os acompanha e sugere que se
procurem. Ali mesmo, no centro da cidade. A calçada portuguesa aos pés. O rio,
se imaginarmos, ao fundo. Um monumento, que é uma cidade, num espectáculo que,
sem convite, merece apontamento. Há quem viva para lá dos murmúrios e lamentos.
Se, por um acaso, os guardasse para lá da memória e dos rabiscos elaborados,
através da minha máquina fotográfica, guardá-los-ia a cores. Esquecia o preto e
o branco, por ora. Guardava-os, num apontamento, tão colorido. E continuaram,
depois de eu dar costas, sobre a calçada, a mímica de se fotografarem. Não sei
se é amor, mas disfarça tão bem.
16.4.14
Impressão viva.
Ainda
a fotografia. O tempo deseja, com frequência, pregar partidas. O céu tapado, a
neblina a tomar conta de tudo. Os verdes ao redor, estão molhados. Não está
frio, mas sente-se o ar. A taça que carrega os cereais atabalhoadamente
misturados com o iogurte e a fruta, embora, colorido e agradávelmente
apetitoso, disfarçam a hora de começar mais um dia. É precoce o horário. Marcámos
para as cinco horas. Cinco horas da manhã e alguns minutos. Antes, parece-me sempre
tão plausível. No momento, praguejo, desejando não mais me comprometer. O meu
amigo ficou de me apanhar. Vamos fotografar, como outras vezes. Carregamos o
material, meio sem norte, e vamos à procura da tal sensibilidade. Vamos até, ver
se essa sensibilidade é intrínseca ou floresce de quando em vez. Procuramos, no
meio disto, encontrar o nascer do sol. A luz e o enquadramento. Uma vez mais,
testamos não mais do que o senso para a fotografia. E, quando a manhã já se
aproximava da procura pela hora do almoço, encontramos um senhor, de mãos nos
bolsos, numa caminhada sossegada, no sentido contrário ao nosso. Viramos à
esquerda, queriamos aproveitar aquele ponto. E, quando reparamos, o senhor
estava junto a nós. E ensinou-nos tanto. Conto depois. Vale a pena, garanto.
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