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20.4.17

Em diferido. #58

Tipicamente recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis calçados.

9.2.17

Pronome pessoal com divinas honras.

Encontrei, entre um tanto de coisas, uma fotografia. Devo tê-la deixado ficar por ali sem propósito. Devo tê-la tirado há uns valentes anos, não arrisco um número, por me ver frágil na contabilidade dos dias e na sinceridade das distâncias. A negro e branco, num estilo desalinhado entre o compromisso de reproduzir por meio de fotografia e a vontade de guardar amor. Facilita ver-me convidado a fotografar pelo impulso. Já naquela época era assim. Vê-la, resumida numa silhueta de tons cinza, pela força da luz de um fim de tarde. Ao lado, o gato no mesmo tom, de olhos claros, a inverter a posição. A janela gigante favoreceu o encanto. Os prédios altos, finos, compostos por janelinhas que jamais terminavam. De costas, com as pernas cruzadas debaixo do corpo, sobre a cadeira estilizada de madeira. O cabelo desarrumado e a beleza natural. Resumia o movimento com a mão repetida sobre o gato que inventava um sorriso de puro deleite. Deixei-me ficar, por temer prejudicar o ambiente. Deixei-me ficar ali, quase inerte, numa folga do pensamento, a apreciar. Peguei na máquina dela, por estar mais próxima e cliquei. Uma e outra vez. Ganhei uma imagem sem legenda. Recebi em mãos, meses mais tarde, num envelope grande, bonito e com escritos, a dita fotografia. Noutro lugar, noutra vibração, mas o beijo de sempre. Encontrei, entre outros valores, uma fotografia que não tem explicação clara ou sucinta. O mote para o desfiar de memórias e de afectos. Lembro-me, sem excepções, de cada segundo. E não minto, se deixar fugir que só guardo o que me acrescenta.

23.6.15

O lado certo.

Tenho vários amigos artistas. Já pensei nisto, já falei sobre isto. Fazem coisas, muitas e bem feitas. Afirmo-o com a ressalva do estereótipo que dá as mãos à arte. Eu gosto do muito que venho vendo. São todos muito diferentes. Mas encontro-lhes semelhanças na estrutura. Mulheres e homens de ideias sociais muito próximas, fazedores de arte mais distantes. Respiram criatividade, falam com originalidade e sustentam-se no compasso da criação. Não é forçado, é uma acção natural, uma reacção visceral. Louvo-lhes o dom, uma e outra vez. Chegou e deixou cair sobre a mesa uma revista. Disse-me, logo a seguir, que era a revista de que me havia falado. Trouxe-ma para que, entre os muitos artigos de interesse, me deixe levar por um conjunto de fotografias que são o espelho do mundo. Um mundo honestamente desonesto. Um retrato de outro continente. Já lá esteve e, garante-me, é impressionante. A qualidade das fotografias é indiscutível, mas não se esgota na técnica apurada, na luz certa, na objectiva concreta. Morre em cada uma, a esperança. Porque não é ver, é ver e não restar um miserável pingo de dúvida de que o julgamento se faz aos solavancos e não tem beira. Ironizando, porque nos falta discurso, já dizia uma velha amiga, quando ainda éramos uns putos entre aulas e conversas de corredor, que lamentava não se chamar Esperança. Todas as vezes, alguém lhe perguntava porquê. Ela justificava, imaculadamente: Porque a Esperança é sempre a última a morrer. É tão verdade, que me rio enquanto escrevo. Tal como nesses idos anos. Havia sempre uma gargalhada como ponto final. Agora, depois de folhear esta revista um punhado de vezes, faz sentido. Que aos protagonistas desta realidade nunca lhes falte a esperança. Mesmo que morram antes dela. É o outro lado. O lado da consciencialização.

28.4.15

Em diferido. #33

Tipicamente recalcitrante - As revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis calçados.

18.3.15

Em diferido. #30

Objectiva arrefecida - Um dia destes, daqueles em que o frio jamais é impedimento para me levantar da cama e sair para a rua, fui fotografar. Sob uma brisa e neblina tão típicas da madrugada a correr para o dia. Embora, questione, em cada um desses dias, a necessidade de me ultrapassar, num horário e temperatura tão descuidados e nada estimulantes. Ou, porventura, seja esse regelar que pica a vontade. Mas, fugindo à fuga desordenada de ideias, que fluem conforme vou escrevendo. É um desafio. Como redigir na máquina de escrever que tínhamos lá em casa. Hoje tão obsoleta. Então, a elegância e a ilusão de ser escritor de verdade. Lembro-me tão bem da mecânica e da saudade de voltar a ela. Em detrimento do computador. Hoje nem sei onde vive. Algures numa arrecadação sem alma. Não tem mais de duzentos anos, mas é e será, de modo eterno, parte da pele de quem escreve. Torno a embrulhar as ideias e as memórias. Um dia destes, voltei a sair cedo para fazer, do meu jeito, uma das artes que mais prazer de dá, fotografar. Junto ao rio, num passadiço, passou um velho homem numa bicicleta. Fotografei-o, inevitavelmente. Agradou-me a luz contrária ao seu destino. As costas dele voltadas para a minha objectiva. Ficou leve e natural. Como andar de bicicleta. Já em casa, ao voltar a elas com outro cuidado, chamaram-me a atenção as peúgas do mesmo homem. Encarnadas. Vermelhas, se preferirmos corrigir o snobismo. E fazendo força para não fugir dos lugares comuns, há apontamentos que fazem a diferença. E, se permitirmos, nos marcam, em cada uma das manhãs frias de um outono de verdade.

12.3.15

Tipicamente recalcitrante.

As revistas multiplicam-se cá por casa, mas já foram mais. Há em mim um certo distanciamento, porventura, uma certa sobranceria que me obriga, fatalmente, a ser selectivo. Guardo-as quando me importam. Momentos há em que mudo o rumo e revisito-as. Porque procuro uma matéria em concreto ou porque me apetece tornar a fazê-lo como se fosse a primeira vez. Qual dom de ocasião graciosa acontece-me, não raras vezes, surpreender-me com o conteúdo. Foi esse o caso, estava a passar os olhos por uma revista de fotografia das boas. No entretanto, perguntava-me pelo poder da certeza absoluta sobre a dúvida. Induzido, claro, por uma reportagem que falava com a imagem. Não sei se uma fotografia só é arte ou, pelo menos, digna, se falar e trocar impressões com quem olha. Distinta será quando promove a troca de sensações, ainda que, fugindo totalmente a qualquer toque na pele. A bola de neve instala-se no pensamento e depressa me lembro da opinião, tão irredutível, do meu pai no que diz respeito aos ténis. Paixão minha de longa data. Inimigo fatal, sem memória, do meu pai. Um homem adulto tem de saber calçar porque é fundamental para se apresentar, defende ele. E continua, ninguém fica bem de fato completo, camisa engomada, gravata de um bom tecido e botões de punho com uns ténis nos pés. É lamentável, termina. Esgrimimos no mesmo terreno, com as mesmas armas. A dada altura, num empate técnico, cedo a vitória. Primeiro, uns bons sapatos. Depois os ténis. De preferência, sempre um calçado que tenha dignidade, qualidade distintiva e personalidade. Tal e qual uma revista de tiragem mundial, com a arte em destaque, sem se permitir melindrar desde a paginação ao tipo de letra. Obrigado pai, mas acabo de escrever com uns ténis calçados.

3.3.15

Desalentam-se os dias.

Os dias já não se esgotam da mesma forma e compasso. Alguma vez os príncipes haviam de ficar nos livros e os cavalos num bonito e verdejante pasto. Os puzzles já não se guardam em caixas perdidas, os carros ganham nomes de coisas, o inverno tem caprichos de petiz desavindo, os casacos de cabedal já vão ao jazz e o sushi é a linha da frente das opções gastronómicas do cosmopolita informado. Aquela cantora nacional que o mundo apelidava de pimba e, cujo tamanho do silicone, diziam ser inversamente proporcional ao talento das canções é, agora, a diva terrestre. E, felizmente, ficam as marionetas, que vivem felizes e contentes entre as linhas do domador e a alegria de quem as vê com vida. Gritaram por mim. Chamaram-me para a varanda do primeiro andar. Vem cá, anda ver. Sucumbi. Douta ignorância. Fotografei as nuvens. Ironia do sarcasmo, fotografei as nuvens no céu. Voltei a vergar. Postei no instante. Terminam, num remate sorridente – As coisas simples da vida são boas. – Ainda vão amolecer e deturpar as minhas teorias da origem.

27.11.14

Objectiva arrefecida.

Um dia destes, daqueles em que o frio jamais é impedimento para me levantar da cama e sair para a rua, fui fotografar. Sob uma brisa e neblina tão típicas da madrugada a correr para o dia. Embora, questione, em cada um desses dias, a necessidade de me ultrapassar, num horário e temperatura tão descuidados e nada estimulantes. Ou, porventura, seja esse regelar que pica a vontade. Mas, fugindo à fuga desordenada de ideias, que fluem conforme vou escrevendo. É um desafio. Como redigir na máquina de escrever que tínhamos lá em casa. Hoje tão obsoleta. Então, a elegância e a ilusão de ser escritor de verdade. Lembro-me tão bem da mecânica e da saudade de voltar a ela. Em detrimento do computador. Hoje nem sei onde vive. Algures numa arrecadação sem alma. Não tem mais de duzentos anos, mas é e será, de modo eterno, parte da pele de quem escreve. Torno a embrulhar as ideias e as memórias. Um dia destes, voltei a sair cedo para fazer, do meu jeito, uma das artes que mais prazer de dá, fotografar. Junto ao rio, num passadiço, passou um velho homem numa bicicleta. Fotografei-o, inevitavelmente. Agradou-me a luz contrária ao seu destino. As costas dele voltadas para a minha objectiva. Ficou leve e natural. Como andar de bicicleta. Já em casa, ao voltar a elas com outro cuidado, chamaram-me a atenção as peúgas do mesmo homem. Encarnadas. Vermelhas, se preferirmos corrigir o snobismo. E fazendo força para não fugir dos lugares comuns, há apontamentos que fazem a diferença. E, se permitirmos, nos marcam, em cada uma das manhãs frias de um outono de verdade.

23.10.14

Nomes ao vento.

A vida, se não induzida pelo espicaçar de gostar de observar, não foge da rotina. De fotografar o ambiente que tem raça. A fotografia que não vai de encontro com a comodidade de viver naquele número, naquela porta e rua concretas. Desviar um segundo da monotonia, conhecer o passeio de outras bandas. As costas quase nuas daquele corpo sobem e descem a rua com o prazer de quem escolheu na noite anterior. A farpela, o trajecto repetido, a ausência de vergonha, a vontade de ser e permanecer como é. Não é rapariga de evitar, temendo que nunca resulte. Que fuja do certo. Faz a cara da moda, mudou as pontas do cabelo longo. É discreta na conversa. Não quer saber de vós. De nós, se mesmo visita, me juntar ao camarote. Não chama a atenção para o relato da vida que nunca será igual, como o trajecto que volta e repete. Do chão nasce o seu estilo que tem ginga. As costas um tanto despidas daquele corpo descem e sobem a rua. Parece-me, do que nos deixa ver, com a verdade e consolo de quem jamais se importa com os ruídos das muitas vozes que se juntam à esquina. É, também disto, que se fazem os lugares típicos. Tão castiços. O bairro ali tão perto. Não lhe conheço o nome. Todavia, quem me acompanhava chamou-lhe Carmo.

24.9.14

O verde do campo.

Barafustando com o campo. No fel do que guarda. Só se permite visitar o que sempre lhe foi proposto quando, em trabalho, o verde do campo deixa de ser recordações e verdades. Quando o campo não é sinónimo de distância e pobres de espírito. Quando, o verde e o fiel retrato do campo passam a ser o cenário perfeito para a fotografia. Metáforas. Aprecio-as.

22.9.14

Gosto delicado de deixar nu.

Recebi na minha caixa de e-mail um anúncio. Nele, um conjunto de imagens, que lado a lado com outras, estão numa exposição. Lembrava-me, o mesmo amigo, no mesmo e-mail, que as fotografias, de um fotografo recente, aconteciam numa cidade, que não sendo capital, é movimento de cultura. Não falo, portanto, de Portugal. Fatalmente, o nosso país prefere esconder a necessidade de viver e conhecer. Não conhecia o recente fotografo, nem de nome. Fui procurar saber. Afinal, o artista apelidado de recente, conta com um vasto número de exposições e imagens premiadas. Desta feita, volto a ter a certeza de que as legendas cansam. Valorizam-se ou perdem-se sem grandes questões. As imagens, voltou a escrever-me o mesmo amigo, eram o espelho de cada corpo nelas representado. Tive de concordar. E, nisto, lembrei-me de uma mulher que conheci há muitos anos atrás. Uma professora de português que desenhava. Era desgovernada e sem feitio para o espartilho de uma educação com cintos. Não será necessário escrever que não tinha particular popularidade entre os da mesma classe. Mas insisto. Soube mais tarde, desenhava corpos. Nus e, preferencialmente, corpos nus de mulheres. No desatino do destino, conheci-lhe algumas obras, anos mais tarde. E percebi. O gosto pelo desenho. A primazia pelo nu. A simpatia pelo nu feminino. Ainda, o afastamento que ela cultivava de uma certa vaidade colectiva que tomava o ambiente por onde, inevitavelmente, tinha de se movimentar. E nas legendas, que dotada de palavra, simplificava o todo. É ver para acreditar.

27.8.14

Formar ideias sobre o (des)embaraço.

Justifica a selfie, ou o desfile de selfies que, guardadas no iPhone, desafiam várias caras, com a independência. A vulgaridade do termo e do acto desinteressa-lhe. Importa-se um nada. Perturba-lhe tanto como o destino de bandas desapossadas de talento. Fotografar-se é um talento. Um privilégio fazer um retrato sem que precise de outras mãos. É um tempo que não ganha rugas de espera e desespero. É instantâneo, como se pretende por estes dias. A alternativa da longevidade é o desinvestimento. Não convém prestar atenção à qualidade. Veste-se a vaidade. Mostra-se o momento à sociedade. Ganham-se posturas e posições que favorecem a fotografia de objectiva que treme. Justificar, por si só, comporta culpa. Ou, no limite, desconforto, constrangimento. A selfie, assim como, outras modas e manias, é uma opção. Válida se não contrariar. Altera-se todo o tabuleiro de posturas e coerência no jogo, quando a explicação e sobrepõe à acção. Quando demora bem mais do que a reacção.

20.8.14

Sensibilidade no lugar certo.

O fundo é tão verão como um fim de tarde ventoso, uma maré agitada ao fundo, o sol a espreitar e a espalhar pequenos espelhos pela água, o casario pintado de cores vivas e diferentes. Aquela gargalhada, se quisermos uma valente risada, enquanto as duas mãos se juntam e esboçam, tanto quanto lhe é possível, um coração. A maldade do tempo é que, se procrastinarmos, ele fia-se no nosso balanço desassossegado e ajuda-nos a perder vontades. Ela nunca percebeu a necessidade de devolver às mãos, um coração. Seja amostra do carinho e tentação palpitante do seu coração, seja a pretensão de que o de alguém, ali ou distante, lhe pouse, vaidoso, entre os dedos. A risada era tão sonora e descia pelo corpo que respondia com movimentos que mostram incapacidade de resistir. Desmanchou-se, sem remédio, o coração inventado. Lamentava-se, entre risos e o desajusto do corpo, nunca ter feito uma fotografia com o coração nas mãos. Cruzou os braços e posou, desencontradas, as mãos. Uma em cada ombro. Já está. Uma fotografia. Um coração no lugar certo. Vai continuar, felizmente, sem viver com o objecto do afecto nas mãos.

19.8.14

Algarve, posto de obrigação.

Fazer fotografia, ou fotografias, como se alguém as fizesse, é um puro deleite. Talvez, sem que perceba, me roube as palavras, as definições. As esconda antes de colocar rigor na conclusão do que é fotografar. Repetir-me, nessa e noutras questões. Samba na reprodução do repetido. As regras de um léxico que desvenda coisas. Também pessoas, lugares. Um léxico que treme como a lente. Que foca ou desfoca conforme o suporte e ligeireza de um corpo e mente sãos. Teimas, fazes escolhas. Procuras o enquadramento. Fixas pessoas, estratégias de um gosto tão pessoal. Como o negro e o branco. Outras, ganham na forte e infindável raça da cor. Agora, carregas no botão. E tens uma imagem. Num cinzento que tem brilho nos pontos certos. Um verão, num Algarve de requinte. Onde, à beira de uma piscina ou numa praia de água gelada, duas pessoas se sentam. Ela tem uma coroa de flores na cabeça, depois os cabelos caídos e secos do sol. Ele olha-lhe com o mesmo entusiasmo. Há tanto movimento ao redor, que parece mentira. Fazer fotografias ou o plural, é guardar e isolar. Guardar e resguardar. Precisamente para abrigar estes e outros momentos de futuros danos.

6.8.14

A minha pátria num muro exterior.

 
Escrevi na imagem acima, a frase de um povo. Conhecida como quem não se cansa. Sabida na ponta da língua por quem não se recusa a ler e a entender. Nas entrelinhas. Nas linhas corridas, de pontuação a decorar. Num torneio arredondado de pensamentos entrelaçados com emoções e valentes composições. De ideias, entenda-se. Lamento-me sempre. A minha desajustada coerência e, se quisermos, o meu equilíbrio bambo. No epicentro da decisão, escolho não carregar uma máquina. Tão especial objecto. Uma oportunidade brava. O telemóvel não me serve, quando ganho outras ideias. Mas, neste verão à pressão, estava feita em grafítis, a expressão. A rua movimentada, pareceu-me, não prestou atenção. Qual carimbo numa parede de branco a desfazer. Letras negras. Fernando Pessoa, nacionalista de crença contemplativa, ali. Tão cru. Em bruto. A fonte escolhida para letra. Os tons sem especial atenção. Uma pátria que lhe ganha as formas. Salve-se a cultura. A língua. Ironia, a verdade desenhada numa parede portuguesa.

30.5.14

Da miopia captada à mercê de um telemóvel. #6


Doçura, candura, cores e travessura. Espaço para, lá ao fundo, a brincadeira se desenhar no carrinho. O entusiasmo e o carinho, apoderam-se, livres, dos olhos e dos movimentos das mãos. Que aplaudem, enquanto sorri. Já lá vai o tempo da expressão, mas faz sempre todo o sentido. As crianças, nossas e felizes ou longe e dos outros, são o melhor. Do mundo.

29.4.14

Português vivaz.

A janela de cortina a balançar, debaixo ou no enquadramento do que se seguirá adiante, é o ponto de partida, por dela soar pátria. O céu azul suave, quase imaculado, não fossem as ternurentas, embonecadas e salpicadas nuvens. Desmaiadas, é certo. Ainda assim, nuvens. O sol oferecendo brilho, luzindo pelos cantos vários. Os azulejos azuis e brancos. Tradição, característica, coração português. Calçada portuguesa, em tom sim, tom não. Num aparece e desaparece de figuras típicas. Avenida acima. As riscas na blusa, a saudade do azul e branco que lembra a maresia. A memória a funcionar, as lembranças a jorrar. A barbearia, no sentido oposto, de cadeira de comando. De espelhos gastos do tempo, como o couro. Só isso. O verde é sombra. A madeira é repouso. Calçados, os ténis que repetem a saudosa marca da adolescência. O sorriso faz parelha com a gargalhada. São proporcionais à dimensão do lugar que açambarca o todo deste quadro. As pernas cruzadas. As mãos sem sossegar. A máquina fotográfica pousada. Depois, terminei cortando o cabelo. E aparando a barba. Com óculos de ver.

24.4.14

Democracia. Portugal.


De lá para cá. Do vinte e cinco de Abril, do tão revolucionário ano de mil novecentos e setenta e quatro. Da Democracia em Portugal, tenra no percurso. De estrutura manca, por lhe faltar experiência e experientes. Do mesclado de intentos vários. Contudo, que nunca se castre, mesmo que se questione, o que nasceu daí. Mesmo que nos surja desfocado. Mesmo que nos vendam o percorrer da miopia ideológica. Há questões de uma vida que se espalham por aí. Porque nem tudo o que nos servem numa bandeja adornada, é elegância. E a sobranceria que se opõe, tantas vezes se sobrepõe.

22.4.14

Um apontamento.

É, apenas, um apontamento literal do que acabei de ver. Daqueles pormenores e momentos que guardaria, descritos, por tempo indeterminado, num dos meus cadernos, de capa vigorosa, negra ou azul forte, de elástico a forçar o segredo. Sobre a calçada portuguesa, está um casal a fotografar-se mutuamente. Em poses várias. Em emoções diferentes. Em expressões atraentes e atractivas. Imitam um género de dança. Coordenada à mercê da vontade que os acompanha e sugere que se procurem. Ali mesmo, no centro da cidade. A calçada portuguesa aos pés. O rio, se imaginarmos, ao fundo. Um monumento, que é uma cidade, num espectáculo que, sem convite, merece apontamento. Há quem viva para lá dos murmúrios e lamentos. Se, por um acaso, os guardasse para lá da memória e dos rabiscos elaborados, através da minha máquina fotográfica, guardá-los-ia a cores. Esquecia o preto e o branco, por ora. Guardava-os, num apontamento, tão colorido. E continuaram, depois de eu dar costas, sobre a calçada, a mímica de se fotografarem. Não sei se é amor, mas disfarça tão bem.

16.4.14

Impressão viva.

Ainda a fotografia. O tempo deseja, com frequência, pregar partidas. O céu tapado, a neblina a tomar conta de tudo. Os verdes ao redor, estão molhados. Não está frio, mas sente-se o ar. A taça que carrega os cereais atabalhoadamente misturados com o iogurte e a fruta, embora, colorido e agradávelmente apetitoso, disfarçam a hora de começar mais um dia. É precoce o horário. Marcámos para as cinco horas. Cinco horas da manhã e alguns minutos. Antes, parece-me sempre tão plausível. No momento, praguejo, desejando não mais me comprometer. O meu amigo ficou de me apanhar. Vamos fotografar, como outras vezes. Carregamos o material, meio sem norte, e vamos à procura da tal sensibilidade. Vamos até, ver se essa sensibilidade é intrínseca ou floresce de quando em vez. Procuramos, no meio disto, encontrar o nascer do sol. A luz e o enquadramento. Uma vez mais, testamos não mais do que o senso para a fotografia. E, quando a manhã já se aproximava da procura pela hora do almoço, encontramos um senhor, de mãos nos bolsos, numa caminhada sossegada, no sentido contrário ao nosso. Viramos à esquerda, queriamos aproveitar aquele ponto. E, quando reparamos, o senhor estava junto a nós. E ensinou-nos tanto. Conto depois. Vale a pena, garanto.