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15.4.14

Só para dizer.

Ontem, ao final da tarde, estive, uma vez mais, a tratar umas fotografias pendentes, a organizá-las. Dificilmente as apago. Posso, contudo, não mais lhes atribuir utilidade, quando não vejo para lá do óbvio. Até ao instante em que, de algum modo, me regresse a disposição de lhes tomar qualquer coisa. Admiro tanto os pormenores. É essa a certeza que tenho, quando vejo, revejo ou recordo uma, duas ou tantas mais vezes através das minhas fotografias. Não sei se ultrapasso a sensibilidade para fotografar. Não sei mesmo. Não sei se tenho mais do que a essência de tomá-las de olho e obtê-las, posteriormente, na lente. No computador e no papel de fotografia. Não sei, mesmo quando mas gabam. Mesmo quando me dizem, em tom entusiasmado, gostar do que vêem nas minhas fotografias. Gosto de passar, fotografar o que me puxou a atenção. Gosto de tornar a passar e, num golpe de sorte, o mesmo quadro me guarda a atenção noutro pormenor. Apenas ontem, enquanto voltava a olhá-las, reparei que o número trinta daquela rua castiça, carregada de história, de alguma forma preservada sem estragar ou castigar a narração do que de notável ficou, para lá do facto de ser pintada de encarnado, de estar rodeada de uma pedra nobre e trabalhada, de ser coroada com um número par, de ter dourados os puxadores e os postigos protegidos por um rendilhado tão típico, oferece, assim estejamos disponíveis, o ano de mil oitocentos e noventa e cinco. É a certeza de que, para lá da sensibilidade para o enquadramento, gosto tanto de pormenores. O resto vem depois.

1.4.14

Da miopia captada à mercê de um telemóvel. #5


Em Abril, águas mil. No primeiro do mês, uma imagem que guardo desde aquele roteiro. Só não é mentira, a fotografia, por ser retrato de outro tempo. De um mês de inverno. De um mês de festa e de chuva aos soluços. Mas de abertas e sol ao dispor, se fez. De um mês que findou com o ano que passou. Só não é mentira, a fotografia, porque fui eu que registei o pousar e o descanso. Enquanto lia os seus movimentos, antes e depois de recair e dar-se ao descanso em posição cómoda, de permanecer em repouso, também me fiquei no sossego. Devia chamar-se inocência. É o suficiente.

24.3.14

Aumentar a parada.

Olha, senta-te aí. Ficamos a olhar. Senta-te no passeio, sobreposto. Deixas, sem medo, os pés a marcar a estrada. Afagas a máquina fotográfica no colo. Aqueces-te com o cachecol, as luvas e o sobretudo. Atinas a vista, fugindo do sol invernoso, com os óculos de sol. Do lado de lá está uma montra pejada de livros. Carregada de títulos. Sobrecarregada de quadros na parede. Acumulando memórias. Vamos namorá-la antes de entrar. Aprecio convites súbitos. Aceito, claro. Temos tempo.

20.3.14

Da miopia captada à mercê de um telemóvel. #4


Abandonar uma cama nunca é igual, nem é um refúgio da simetria. Depende do que lateja para lá dos lençóis, aqui brancos e de suave trato. Importa se deixarmos amor e vida. Como um hotel, em ocasiões, jamais será, apenas e só, mais um hotel. Vale-lhe o propósito. A companhia ou a ausência. Batemos a porta, descemos no elevador, e esquecemos. À primeira.

12.3.14

Da miopia captada à mercê de um telemóvel. #3



Sei que, às vezes, ele vai tirar umas fotografias junto ao rio. Ou ao mar, depende do tempo. Leva uma daquelas máquinas fotográficas maiores. E pretas. De bom ar. Já o vi algumas vezes. Ainda mal vai o dia nascendo, já para lá caminha. E parece um fotógrafo. Trocamos umas palavras. É um miúdo moderno de cabeça no sítio. Bom rapaz, é um bom rapaz. Frisou o senhor a alguém que me é junto. E, mesmo sem ele saber, agradeço-lhe. Obrigado!

5.3.14

Da miopia captada à mercê de um telemóvel. #2


 
AAAHHH! Fá-lo com ganas. Como se vivesse tudo ao redor do tom. Dos decibéis. Até no silêncio. Começa tudo no ênfase da entrega. Começa tudo no desenho da letra. Do A. Do A que inicia a palavra amizade. Toda ela é amizade. Toda ela começa por A. AAAHHH!

A protagonista vai perdoar-me a exposição.

12.12.13

Eu disse-lhes que são ocupações remuneradas pelo consolo do coração.

Sabem do meu gosto pela arte. Têm conhecimento do meu gosto pela arte da fotografia. Gosto, no meu limiar, pela fotografia. Não vou ao excelso da arte. Dou, ao sabor da paixão de principiante, o meu toque, a minha visão e o meu enquadramento. Sabem. Ou antes, vêm tomando conhecimento. Vêm falando, em ocasiões de lazer, das minhas fotografias. Das minhas imagens. Do meu gosto pela fotografia. Contam, nessas ocasiões, que fotografo, num género de ocupação dos tempos livres e sequioso da experiência, que bate a ternura da eterna entrega a um amor. Não será paixão, que não a tenha efémera. À fotografia, ainda que, muito minha e, quem sabe, no meu jeito de princípio entregue, vejo-a para sempre. Quero-as de rostos limpos ou marcados, sérios de sensibilidade ou bocas agigantando-se em sorrisos reais, paisagens virgens, montes afoitos, pessoas distraídas a viver o compasso, mensagens de rua, portas e janelas, pormenores e maiores atracções. Não tenho sempre uma máquina comigo. Lamento-me quando esqueço teimar que ela não me importa como companhia. Porque deito fora o melhor dos cliques. Dos meus cliques. Porque não me cansam os amores vários, as ocupações do coração. Goste-se ou não. Faço-o por mim, desde logo. Partilho, se me munir de vontade. Os amores, até os vulgares ocupadores de simples actos, não têm que ser louvores. Nem têm razão para que não sejam glórias. Não tem início em ti. Uma vez criados, resultam-se em autónomos retratos partilhados.

4.12.13

Os auto-retratos têm concorrência de rápido consumo.

As redes sociais têm o dobro dos propósitos. São uma montra de egos aumentados, por razão da idolatrada acção munida de um infindável número de likes a chamar a atenção dos mais distraídos e revela, na mesma escala, as fotografias e os enrugados textos curtos, de pequeninos e diminuídos pela coçada auto-estima. Do outro lado, estão as ofertas irrepetíveis. As que nos merecem mais do que um like desinteressado, que marca apenas, tão miseravelmente, a nossa presença. Acontece, que se mostram, de privacidade honrada, os momentos que nos reportam para vivências reais e distintas. Frases que fogem aos chavões retirados de um qualquer site manhoso. Colocam-se fotografias de escolha penalizada e personalizada, ao invés de um shot lunático de imagens fabricadas. Temos o poder, usamo-lo conforme a consequência dos nossos olhos. Estava, há uns tempos, a rever uma fotografia no Facebook. A fotografia pertence a uma amiga. Viajada, de conhecimentos importados. A fotografia, despida de um sem números de filtros da moda, distancia-se da afamada e multiplamente ampliada na rede, selfie. Fosse a minha avó sabe-la existir e arranjava definição, para a dita da selfie, chamando-lhe de auto-retrato de saída rápida sem pausa para as habituais demoras da maquilhagem da fotografia. No flash certeiro dessa minha amiga, de costas, vê-se a silhueta definida, resguardada subtilmente por um conjunto de verão. Nos pés, umas sandálias cruzadas, simples. As calças fluidas, gritavam cores que combinavam com a tela que se encontrava à sua frente. Meia escondida pela sua própria sombra. Um quadro datado, de traços vincados. A legenda, diminuída, avançava os nomes da obra e do autor. Soberbo. Tal e qual o museu que as acolheu. À tela, para a exposição e à minha amiga para uns largos minutos de pura força cultural. Transforma-se a plataforma irreal numa realidade inteligente e sensata. E não precisamos de procurar um espelho rafeiro de uma casa de banho de um centro comercial. Era mudar. Eu julgo que era mudar.

2.12.13

Say cheese. Please!

No centro da cidade, junto a uma farmácia, uma turista de máquina fotográfica em punho, pediu-me autorização, num inglês turístico, para me fotografar. Olhei-lhe sem reacção. Disse-me, entre o meu silêncio, que procurava um postal. Uma imagem que representasse lugares. Sorri-lhe, não ganhei outra resposta. Acabei por aceitar. Disparou, então, o flash na minha direcção. Terminou, devolvendo-me o sorriso. Gosto disto, rematou, por esta altura num inglês mais trabalhado, enquanto via o resultado. Fazendo-me sinal, aproximou-se para me mostrar. Obrigado. Agora, sou parte integrante de um postal virado que viaja por aí. Habilito-me a ser mais viajado que o compacto das minhas lembranças. Virei costas e segui. Dentro da farmácia, esperavam por mim.

25.9.13

Uma canção à beira da piscina.

Numa festa de verão, num dos pontos mais frequentados da cidade, somos abordados por um grupo, junto à piscina central, para que lhes tiremos uma fotografia. Com o teu grupo, entenda-se. É verão e calor. Aceitamos. Quando seguem caminho, percebes quem era um dos membros. É cantor. Com escala nacional. Embriagado é pouco. A máquina é nossa. Agora, sem pedires tens, algures, uma fotografia de grupo. E, é pena, garanto. Não interessa. Não és fã.

23.9.13

Tira-me uma fotografia.

Uma fotografia, todo o processo volvido, tem mais encanto quando, ao olhar, uma, duas ou mais vezes, te lembras de cada passo para a ela chegar. E não esqueceste que, naquele momento, se riram com vontade. Não foi a luz que esteve de feição, nem o fotógrafo num rasgo de criatividade. Foi o coração que deu, depois do mote, o resultado final.

6.9.13

O meu dia começou num estúdio de fotografia. E isto não some da minha cabeça.

Marcada a hora, todos sabem o que fazer. A cada instante, a cada movimento exacto. Todos, disciplinadamente, sabem o seu lugar, o seu posto. Diligentes, as correrias. Rematam os pormenores. Absorto. A figura central deixa-se levar. Faz por se levar. É isto o que procura. É assim que quer viver. Não esquece e faz por manter. Assim, insolente. Os holofotes em cima, a máquina na frente. Ao centro, de cara bonita e maquilhada, de roupa categoricamente escolhida. Esboça exageradamente um sorriso. Aplausos, pede interiormente. Bajulado, sente o destino ficcionado como o seu. Porque viver, supõe, é mais fácil quando se é capa. Esqueceu-se, no entanto, que a capa é mérito. A seguir, o escuro. O escuro e o peso da verdade. A capa já passou. O que vem a seguir?

23.5.12

O privilégio de escutar.

Desde muito cedo que encontro em mim o gosto de ouvir os outros. Não se trata de uma qualidade ou defeito. É natural e faço-o sempre que posso. Ainda hoje. Sempre estive rodeado de pessoas com vidas preenchidas e vividas, não como deve ser, mas como lhes foi permitido viver. Sentar-me com alguém que tem coisas para contar, é extraodinário. Raras vezes se tratam de conversas, é mais um dar e receber de experiências ou expectativas que não se concretizaram ou, pelo contrário, tornaram-se realidade e são uma afamada conquista.

Outras vezes há, em que não conheço a pessoa, não sei o seu nome, a sua idade nem o seu percurso profissional e pessoal, mas o acaso torna possível esta minha necessidade de saber mais e escutá-lo com o mesmo entusiasmo. Há uns meses, num ateliê de fotografia, cruzei-me com um casal que guardava autênticas relíquias da arte de fotografar. Dois exemplares que nunca tivera tido o privilégio de ver e tocar. Nesse dia, percebendo o meu gosto e fascínio pela fotografia, aproximou-se de mim, e tão naturalmente, falou-me daquelas máquinas e de outras que guardava em casa com toda a estima. Falou-me das muitas fotografias que já tirou, umas melhores, outras mais ou menos e, ainda, outras que de nada lhe serviram, tal era o estado amador que transmitiam.

Não sei se quando tiver a idade destas pessoas vou ter tanto para contar ou o entusiasmo pela vida como todos me têm mostrado. Foram-me, até hoje, relatadas vidas simples, vidas cheias, vidas ricas, vidas com sorte, vidas sem sorte, vidas excepcionais, vidas de fartura e vidas de nada. Há muitas outras que quero conhecer para nunca esquecer. Ter o privilégio de escutar alguém não é coisa de alguns, é realidade de quem quer. Eu quero e não dispenso.