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12.7.16

Aparato sumptuoso e digno.

Não nos cabe no corpo instigado pela euforia, a experiência de chegar lá pela primeira vez. Fogem-nos as palavras. As certas, as oportunas, as erradas e as impensáveis. As outras, dotadas de um certo tabuísmo, também. O desdém foi arremesso de ocasião, a propósito, em todo o percurso. As veias salientes, o coração possante, o punho cerrado e os dentes numa tensão profunda. Os ecrãs gigantes, as mulheres vibrantes, os homens expectantes e as crianças atentas. As bandeiras nacionais nos lugares mais comuns, nos mais inusitados e nos corpos aturdidos. Os movimentos impacientes, as mãos levadas ao rosto. As lágrimas tomando muitos de assalto. Os gritos de dor sossegada e de felicidade estampada. O Hino Nacional na ponta da língua, o tempo de antena que merece. Um soluço de apneia. No relvado a questão. O plantel na discussão, no esquema da emoção, fazendo frente a quem joga e atenta contra todos e cada ponto. Grita-se por Portugal. Da bancada diante da prova até ao café cheio no país natal e à praça da cidade atulhada. Casais suportando as mãos, grupos de amigos fortemente unidos, velhos e novos no mesmo trajecto. Não se negue, é futebol. É o desporto das massas e corrompe grande parte das antipatias. É o pretexto para assomar junto ao outro. Putativo desconhecido. Trocar ideias e vociferar asneiras. Agradecer, por fim, a cada um dos valentes. Viver e comemorar. Fá-lo como melhor te assenta. São emoções. Fortes e quase umbilicais. Por isso, há instantes, na despedida de alguém especial, pedi-lhe que regressasse bem a França e que os encontrasse ainda ressabiados. Pois, bem sabemos, o título já chegou. E é nosso. Do Portugal dos desdenhados. Saudações!

26.6.14

Alheios à pressão.

Na norma acontecem, felizmente, excepções. Desconfio de coincidências. Algumas, para não ser tentador generalizar. Factos há que nos parecem tão palpáveis e irrevogáveis que, jamais, lhes colocamos no eixo das coincidências. Ironia, quando, precisamente, no seguimento do primeiro jogo de Portugal neste mundial de futebol, ou seja, frente à Alemanha, me chegaram fotografias de outros tempos. Coincidências à margem, chegaram-me, justamente, da Alemanha. Minutos depois do desditoso resultado. Em dia da derradeira oportunidade, lembro-me disto. Tenho, por esse mundo, amigos espalhados. No caso, amizade de infância, de corpos delgados e travessos nas mais ímpares e desalinhadas aventuras. As saborosas descobertas de então. Gaiatos de linguagens aprendidas no minuto. O português e o alemão misturados para forçar o discurso, comunicação. Funcionava para a argumentação que íamos experimentando entre divertimento. Entendíamo-nos na perfeição. A cada vinda a Portugal, estávamos juntos. Relação que já vinha de trás, dos nossos ascendentes que, de forma tão natural, mantivemos. Devemos ter, em momentos vários, tirado fotografias. Naquele dia, chegaram-me duas. Talvez, em jeito de palmada nas costas, da desdita compreendida. Digo, porque desconfio de coincidências. Gostei de recebê-las. Numa, de máscara a rigor, o tormento de me vestir de outrem. Na outra, todos juntos na piscina lá de casa. O critério tem desvios. Tenho alguma dificuldade em olhar as coincidências. Mesmo quando não uso da generalização, desconfio. O que acabo de escrever serve-se, em pontos concretos, da ironia. Gostei de recordar. Gosto de ter amigos com memória. E, já agora, de me saber amigo de gente com compaixão futebolística.

23.6.14

Selecção de um país em competição.

Portugal foi, durante algumas horas, uma bandeira desenhada, a esvoaçar pela força dos braços de alguém. Foi reunião numa praça a céu aberto, num bar de típicos petiscos, na casa do amigo que recebe sempre bem, ainda, na rua que até agora lembra a azáfama dos Santos Populares, que cheira a sardinhas assadas, que tem vendedores ambulantes e que esconde, atrás das janelas e portas tão características, vidas. Porventura, vidas que, durante as mesmas horas, solitárias ou não, viveram a esperança de Portugal, país em competição. Ouvem-se, a arrepio dos ecrãs gigantes, das televisões datadas ou dos ecrãs de nova geração, vozes que não se cansam, gemidos e figuras a reagirem à ginástica do desassossego de um jogo. Abrem excepção no aproximar da baliza. Em que o silêncio quase que toma corpo. Ouve-se, logo depois, um esgar de decepção. No entremeio da dedicação, houve momentos de explosão. Os dois golos da comemoração. Enganou-se a alma até ao instante final. Apitou e sustentou-se um empate. Agora, relaxa-se o corpo. A boca entreaberta fecha-se. A mão que tapa os lábios deixa-se cair. Os braços cruzam-se por não lhes saber posição. Os olhos fecham-se demoradamente. As bandeiras perdem a dança na medida das forças daqueles braços. Respira-se fundo. De corpo pesado, seguem a sua vida. Portugal foi, pelas mãos da competição, união de pessoas e sensações. Guardas, a seguir, a camisola alusiva ou o todo da classe de adereços. Até ao próximo jogo. Para remate final, não lhes despendi demasiadas expectativas. É um Mundial, fomos apurados. Desapropriaram-se, contudo, da acção e reacção. Portugal fora, durante algumas horas, uma sombra. E um abanar de cabeça, de negação. Até, bem sabemos, à prova seguinte. Portugal, pais em competição.

28.5.14

O meu amigo C.

Ontem, já o dia ia longe, o escuro avisava a distância, lembrei-me do meu amigo C. Nem sei bem porquê, não encontro justificação, porque pensar em alguém não tem razão, senão quando fora induzido. Porventura, porque não lhe ouço as estórias há uns meses valentes. Mas rebentou-me nas lembranças, primeiro a sua imagem, depois o seu movimento frenético, por fim, o seu nome e os discursos sem fim. O meu amigo C. tem sete anos. Sete anos de uma desenvoltura de raciocínio bastante pertinente. Conheço o pai, fui colega de escola dos tios, um sem número de anos. Um lugar, a dada altura, convidou-nos à convivência. Umas vezes seguida, outras tantas compassada. Não consigo, porque me falha a memória, perceber como nos aproximámos. Talvez, pela mão da minha irmã mais velha, rainha entre os miúdos. Desenvolveu-se uma narração feliz de amizade. É um conversador nato, não guarda a opinião nem as questões que lhe assaltam a cada momento. Não tem a maior simpatia pela dinâmica da escola, prefere o desporto escolar. Ainda assim, arrisca os números. Distancia-se das letras. Aprendeu cedo a contar. O raciocínio imediato é-lhe característico, não posso deixar de repetir. Os jogos inventados conforme as suas valências, fá-los acontecer, se preciso, ao redor de uma mesa. Pede a novos e velhos que entrem na brincadeira. É guarda-redes num clube da zona. Relata-me cada jogo com entusiasmo. Não esquece os detalhes, usando da expressão corporal, em precisando, para ilustrar a jogada. Também falha, diz-me ele. Deixa entrar golos. Às vezes, perdem. Mas volta sempre, treina ainda mais. Usa óculos. Tem dificuldade, como é apanágio da idade, em manter-se sossegado. De quando em vez, pede-me o telemóvel para jogar. Quer entrar numa corrida de pontos. É um fã maior do Benfica. Assiste aos jogos, quantas vezes, no estádio. Onde grita e canta em voz esforçada cada cantiga de homenagem. A última vez que nos cruzamos, vinha a fugir, tomando a rua, o pai ao lado. Reparando que eu estava no lugar do costume, parou, entre a porta, gritou o meu nome e perguntou se eu estava bom. Gritei-lhe, de volta, o nome. Está tudo certo. É o meu amigo C., de sete anos. Porque, desde sempre, sei que os amigos não têm idade.

27.2.14

Em diferido. #5

É rotina, quando se proporciona. Um diplomado de recordações. As capas dos jornais acontecem como um painel desbragado na cara de alguém, não arrisco uma abusada e detalhada gargalhada. Tenho-lhes gosto e respeito. A alguns. Na banca, em papel. No computador ou tablet, no digital. A nova era, chamam-lhes. A procura de uma qualquer desculpa para não se repetir. Ou repetirem. Disfarçados os minutos, perdido na leitura matutina de não muitas capas e notícias seguras de interesse. Desci a rua, voltei à direita, em direcção ao lugar de sempre. Coisas há, que não mudam. Rotinas de quem designa um poucochinho de nada. Já no interior, conhecem-me o pedido, acenam-me afirmativamente com a cabeça, respondo-lhes igual. Sento-me. O companheiro de rotina está na mesa ao lado. Cumprimentei-o. E voltou-me a saudação. Já havia terminado, depois de usar o telemóvel para obrigações frívolas, quando o meu cúmplice de café me pergunta se quero ler as boas novas ou as velhas maranhas. Questão que me põe amiúde. Agradeço-lhe e torno a responder-lhe que não, que já golpeei a brasa das novidades que abraçaram as publicações diárias. E, de jeito esquecido a tomar-lhe o rosto e as palavras, diz-me “É verdade”. Para trás, porque não me importo. Gosto de sair e ver estas pessoas, ouvi-las, conversar. Termina, pedindo-me a opinião sobre as gordas dos desportivos. E, em minutos, agitamos o vai e vem do futebol. Benfica, sempre o Benfica. Hoje há mais, logo à noite. Confirmou-me o horário. Quando não é em sinal aberto, prefere ouvir no rádio. Assim, não lhe teimam a ansiedade. Obrigado. Vai lá, rapaz. Volta para os braços do que te espera.

5.2.14

Um diplomado de recordações.

As capas dos jornais acontecem como um painel desbragado na cara de alguém, não arrisco uma abusada e detalhada gargalhada. Tenho-lhes gosto e respeito. A alguns. Na banca, em papel. No computador ou tablet, no digital. A nova era, chamam-lhes. A procura de uma qualquer desculpa para não se repetir. Ou repetirem. Disfarçados os minutos, perdido na leitura matutina de não muitas capas e notícias seguras de interesse. Desci a rua, voltei à direita, em direcção ao lugar de sempre. Coisas há, que não mudam. Rotinas de quem designa um poucochinho de nada. Já no interior, conhecem-me o pedido, acenam-me afirmativamente com a cabeça, respondo-lhes igual. Sento-me. O companheiro de rotina está na mesa ao lado. Cumprimentei-o. E voltou-me a saudação. Já havia terminado, depois de usar o telemóvel para obrigações frívolas, quando o meu cúmplice de café me pergunta se quero ler as boas novas ou as velhas maranhas. Questão que me põe amiúde. Agradeço-lhe e torno a responder-lhe que não, que já golpeei a brasa das novidades que abraçaram as publicações diárias. E, de jeito esquecido a tomar-lhe o rosto e as palavras, diz-me “É verdade”. Para trás, porque não me importo. Gosto de sair e ver estas pessoas, ouvi-las, conversar. Termina, pedindo-me a opinião sobre as gordas dos desportivos. E, em minutos, agitamos o vai e vem do futebol. Benfica, sempre o Benfica. Obrigado. Vai lá, rapaz. Volta para os braços do que te espera.