Tem
as pernas cruzadas, sentado sobre a cadeira larga. De madeira e verga. Uns
sapatos bonitos, castanhos, limpinhos, todos finos. As calças engomadas, beges,
bem vincadas. A camisa de boa qualidade, num azul claro, num tom sincero. Uma
malha escura, elegante, toda delicada. As meias espreitam por entre as calças e
os sapatos. Lisas, sóbrias, nada coloridas, da nação dos sapatos. Como manda a
lei. Lembra-lhe, a falta de vista ao perto, de trazer os óculos pendidos sobre
o peito, ao nariz. Assim mesmo, à pontinha. Brinca com os olhos, na frente vê
com a ajuda, para lá, olha com a vista despida. Pega no jornal que está sobre a
mesa baixa, lê as gigantes da capa. Atesta o descrédito das palavras e dos
actos. Demora-se na leitura habitual de fim-de-semana. Atento, deixa fugir aqui
e acolá, algumas palavras, uma espécie de comentário do absurdo. A
incompreensão a tomar-lhe as veias. Apoquentam-lhe as fragilidades deste
terreno, da sociedade de todos. De cada um. Emergem as vivências de outras
épocas. Enfim, termina a leitura. Fecha o jornal, dobra-o com vagar. Devolve-o
à mesa. Tece um último comentário, garante que não compreende. Um balanço que
entendo. Sugiro que procure outras leituras. Que não fique só pelas notícias.
Com um sorriso típico de quem sabe que tem a resposta certa, responde-me que
sim. Que não vivemos somente do semanário que ainda escreve assente na acção,
tampouco do pasquim diário. Remata dizendo que voltou a Tolstói, e à sua “Ana
Karenina”. Não fui capaz de suster o riso. Tem toda a razão. E leva vantagem.
Que não leio como dantes, nem volto a Tolstói como me apetecia. Ficou definido
que vai dar-mo, assim que termine a releitura. Ora, essa. Muito obrigado. Os
grandes corações agem como se o espaço e o tempo fossem inexistentes. Queria
ser uma ínfima parte. Garanti-lhe.
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20.3.17
2.6.15
Profissão: Postura e autor de obras literárias escritas à mão.
Aqueles
tipos com pinta. Gabo-lhes a postura, a forma aparentemente desinteressada mas
inteligente, como fazem do insuficiente o bastante. Não lhes importa a idade, o
lugar ou a trivial meteorologia. Por certo, vale-lhes e interessa-lhes a
companhia. Têm conversas interessantes e vestem bem. Falam português correcto e
escrevem a mesma língua sem chacinar a ortografia. Contam histórias e não se
cansam de partilhar. Lembro-me dele desde bem novo, eu pequeno, ele jovem e já
calçava as meias encarnadas. Vestia fato completo e umas gravatas elegantes. Os
sapatos sempre impecavelmente tratados. Não fumava por convicção, tomava uma ou
outra bebida ao jeito de quem procura inspiração. Tinha uma posição confortável
numa empresa. Só o fazia competente, nunca feliz. Escrevia e pintava no jardim,
naquela mesa ou naquele alpendre. Sentei-me durante tempo sem fim, vezes sem
conta, a ouvir-lhe as histórias. Ainda um miúdo sobejamente imberbe, já eu roubava
aos adultos da mesa as conversas. Por não fazer, ainda e com sentido, parte
daquelas tertúlias. Não sei se me inspiro em alguém. Mas simpatizo com tipos
com raiz e identidade. Mais ainda, se fugirem às barreiras do socialmente
correcto. A seguir, com outra idade, lembro-me dele, no lugar de sempre, com o
jardim à volta, amigos, comida e conversas sem fim. Amou muito e teve muitas
mulheres. Foi a salvação do desaire que prefere nunca esquecer. Ele mais velho,
contudo, igual ao de sempre. Encontrá-lo, não era fácil. Vivia naquele lugar,
mas podíamos encontrá-lo numa qualquer esplanada com árvores a envolvê-lo, os
carros a passar, o avião a seguir caminho lá no céu. Numa exposição contemporânea
ou numa biblioteca datada. Hoje, homem de idade respeitosa, cabelo mesclado de
branco, diz-me que é feliz. Naquela esquina, enquanto espera. Traz o fato
engomado, a camisa branca e a gravata. A pasta numa mão, dois livros na outra.
Os óculos de sol que são imagem de marca. -
Miúdo, sou feliz. Perdi competência, mas sou feliz. Escrevo o que quero, para
quem quero. Sempre à mão. Escrevo porque amei muito. Senão era uma folha em
branco. - Aqueles tipos com pinta são do caraças. Mesmo que o cabelo tenha
perdido a cor e o corpo o fulgor. Deu-me um toque nas costas, como cumprimento
e chamou um táxi.
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