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4.2.16

Disque, disque.

Cumpre-se a semana com um jantar. Absorto, toco no ecrã. Sem pensar. Devolvo a prosa possível, desdém entendido, nervo de sal. Picante agreste, rosa-dos-ventos na pele. Literal, assim. Percebo o amor, a confusão da interpretação. Chamam-me pelo primeiro nome, seguido do segundo. Gabo-lhe a tatuagem, o bom gosto e a coragem. Se não me atraiçoa a memória, devo ter, algures, um telefone. Daqueles negros, bem robustos, cuja rodela ao centro conta os algarismos. E deixa brincar. Uma volta, depois outra. As voltas de que me lembrasse. Se não me roubaram a memória, estava lá atrás, tão distante quanto a minha infância. No recinto, entre o corredor e as escadas largas. A seguir à porta de entrada. À frente da imponente porta do escritório. Mesmo defronte para a janela enorme, de vidro limpo, de jardim a espreitar. Daquelas vistas que roubam as palavras. Que o quotidiano belisca a relevância. Gatunos perfeitos. A dar atenção à mesa de uso próprio. Madeira forte, cadeira agregada. O espelho gigante, o quadro que lembrava um elefante. Um dia, uma jarra partida. Pequeno curioso, fartei-me de nela pousar. O telefone era a razão para ali ficar, uma e outra vez, a fazer de conta. A inventar. O dedo escolhia um número. Outro e outro.

9.12.15

Em diferido. #43

Um almoço descapotável e um tubarão no presente de Natal - Dezembro que vem a descobrir. Vem o inverno e o natal, sem defeito, em omnipresença. Ainda se vestem os fatos domingueiros, os sapatos engraxados. Escolhem-se as maneiras de estar fora de casa, não retribuem gentilezas, são feitos de votos de boas festas. Hoje tive um almoço descapotável, avançou o petiz de palavras desenvoltas, discurso harmonioso e buliçoso. Enquanto as mãos se ocupavam com o camião do hipermercado, a máquina retroescavadora, o formula 1 e o carro familiar. Definiu-os assim. Bem posso assegurar que não falhou. Nada, nem uma letra da definição imaculada. Alguns, sofridos pela insegurança das mãos que não procuram sossego. Escolhem a amizade dos actos que apaixonam com a proximidade da infância que assim já chega. Saltos em altura, em comprimento e o perto que nunca é chegado na pressa do entendimento. As mãos pequeninas, proporcionais. Bichos-carpinteiros que não dão tréguas. Brinca, sentado à beira, sem convite. Troca as pequenas réplicas de saltos em saltos. Boas intenções, aptas piruetas. Malabarismo que transforma. É a mesa uma gigante pista, como escreveu num pedido ao pai natal. Logo, sem esperar, avançou a pergunta necessária. – E tu, já escreveste? – Não, pensei. E não escrevi. Diz que menti. No natal e na cabeça saudável do petiz da brincadeira não há consoada sem natal e vontade na carta guardada. Farta mesa e presente na lareira. Frio lá fora, noite acordada. Sem saber, uma refeição não será, fora da imaginação, descapotável. Por seu turno, sê-lo-á, assim entenda. Como o carro ligeiro que salta, alegre e velozmente, sobre o camião que transporta as couves, o arroz e o atum. Petiz em véspera de natal deliciou-se com uma saborosa e descapotável refeição. No final, depois de nos despedirmos, chamou-me e saltando na minha direcção, disse-me que era um coelho. – Posso ser um coelho no natal, não posso? – Sempre. O ano inteiro. Voltou para a mãe gritando que era um coelho. Como tanto do que rabisco com palavras, é tão real. Supera, aceito, a imaginação. Petiz porreiro. Espero que pai natal não se esqueça da pista de corrida gigante com uma boca de tubarão, igualmente enorme. Por graça, natal houve em que me apareceu uma portentosa pista na lareira. Natal é ser coelho e gritá-lo sem medo. Ah, e já agora, já sabe escrever o nome todo. Petiz valente. Natal com presente.

12.10.15

Apogeu figurado.

A sala compõe-se ao nível da certeza de querer bem receber. A música presente, as luzes a passar e as velas ao centro. Na folga da comemoração, tempo há para a conversa e a devida reflexão. Os palmos, até certa idade, são grandeza. Desejas medir com a mão, uma e outra vez, até chegares ao resultado final. Os passos, daí até outro tempo, são a validade da medição. Do pequeno carro vermelho de brincar até à fachada sem fim da casa onde moras. Não pensas nisso, mas tudo é enorme. Falava com o petiz do lado e tomei-lhe a graça das palavras. Pertinentes, num português correcto e variado. Largou um lamento sentido, a música de fundo é perfeita para dormir, tão chata lhe parece, a mesa é tão comprida, o bolo é maior do que a vontade de comer que, eventualmente, todos juntos pudéssemos ter. Continuava, lembrando-me que a força da nossa animação estava a perder-se. Rimos muito, aplaudimos outro tanto, falávamos pelos cotovelos. São as horas a passar, como entende ele, petiz cansado pela agitação do dia longo. Somos uma réplica dos loucos. Foge-nos a efusiva erupção da convivência. E nem damos por isso. Amanhã acordamos, as horas teimaram em não esperar. Tudo mudou, até aquele imponente relógio ao fundo da sala. Tão menor, que parece outro. Não arrisques chegar-lhe perto e medir de novo. A desilusão nunca esquece, pior ainda, nunca falha. Guardo a saudade de acreditar que, em subindo ao cume daquela árvore, hoje perfeitamente normal, à época monstruosamente grande, ficaria tão perto do céu. Do palmo e meio ao passo de gigante está tudo. Um aplauso para isso.

26.1.15

À sua.

Conta-me histórias. Avô babado ou vizinho interessado. Avó atenta ou vizinha ternurenta. O cuidador do jardim sempre com tempo ou a senhora que criava e mantinha o lar, enquanto cuidava da casa, não deixava de jogar uma palavra. Vá lá, conta-me mais. Verdadeiras ou farsas reais. Prefiro-as mestiças. Pedir que conte mais e mais. Num tempo longe. Quando a inocência era o mote. A dúvida era simples. É mentira pegada ou verdade desenhada. Na carrinha, a cantiga era a mesma e pediam, desta vez, ao senhor condutor, que colocasse o pé no acelerador. Ou aos céus que faça sol ao invés da chuva miúda. A Dona Conceição, funcionária da organização, era paródia no meio da canção. Voltar ao lugar, à escola primária viva. O banco do jardim, momentos de recreio. Brincadeira sem fim. A tal menina mexida, julgava-se a Miss nacional. No ano seguinte, no mesmo banco verde seco, foi namoro de verdade infantil. A entrada é a mesma. O jardim está mais cuidado. Correm crianças. A velhota de negro ainda existe. Mudaram-lhe o corpo e o nome, mas vive à volta. Antes, cadeado na conversa. Agora, chapéu-de-chuva que tapa o sol de inverno. Conta-me histórias, velha de negro. Na rua, num ou noutro banco de paragem. Saudinha!

22.12.14

Um almoço descapotável e um tubarão no presente de natal.

Dezembro que vem a descobrir. Vem o inverno e o natal, sem defeito, em omnipresença. Ainda se vestem os fatos domingueiros, os sapatos engraxados. Escolhem-se as maneiras de estar fora de casa, não retribuem gentilezas, são feitos de votos de boas festas. Hoje tive um almoço descapotável, avançou o petiz de palavras desenvoltas, discurso harmonioso e buliçoso. Enquanto as mãos se ocupavam com o camião do hipermercado, a máquina retroescavadora, o formula 1 e o carro familiar. Definiu-os assim. Bem posso assegurar que não falhou. Nada, nem uma letra da definição imaculada. Alguns, sofridos pela insegurança das mãos que não procuram sossego. Escolhem a amizade dos actos que apaixonam com a proximidade da infância que assim já chega. Saltos em altura, em comprimento e o perto que nunca é chegado na pressa do entendimento. As mãos pequeninas, proporcionais. Bichos-carpinteiros que não dão tréguas. Brinca, sentado à beira, sem convite. Troca as pequenas réplicas de saltos em saltos. Boas intenções, aptas piruetas. Malabarismo que transforma. É a mesa uma gigante pista, como escreveu num pedido ao pai natal. Logo, sem esperar, avançou a pergunta necessária. – E tu, já escreveste? – Não, pensei. E não escrevi. Diz que menti. No natal e na cabeça saudável do petiz da brincadeira não há consoada sem natal e vontade na carta guardada. Farta mesa e presente na lareira. Frio lá fora, noite acordada. Sem saber, uma refeição não será, fora da imaginação, descapotável. Por seu turno, sê-lo-á, assim entenda. Como o carro ligeiro que salta, alegre e velozmente, sobre o  camião que transporta as couves, o arroz e o atum. Petiz em véspera de natal deliciou-se com uma saborosa e descapotável refeição. No final, depois de nos despedirmos, chamou-me e saltando na minha direcção, disse-me que era um coelho. – Posso ser um coelho no natal, não posso? – Sempre. O ano inteiro. Voltou para a mãe gritando que era um coelho. Como tanto do que rabisco com palavras, é tão real. Supera, aceito, a imaginação. Petiz porreiro. Espero que pai natal não se esqueça da pista de corrida gigante com uma boca de tubarão, igualmente enorme. Por graça, natal houve em que me apareceu uma portentosa pista na lareira. Natal é ser coelho e gritá-lo sem medo. Ah, e já agora, já sabe escrever o nome todo. Petiz valente. Natal com presente.

3.12.14

De distância em distância.

Casos há em que resumir uma resposta sem que me faça parecer um velho que guarda as palavras na proporção da idade e das experiências, pode tornar-se num desafio tremendo. Porque a eloquência tem muito mais genica, raça e piada. É um entusiasmo que não se esgota, senão quando perde para a tensão de não querer brincar mais, ainda que por breves e prudentes instantes. Assim como quando éramos putos e a sinceridade se sobrepunha à vontade de fazer mais actividades. Escolher. Seleccionei-as, embora, poucas. Sempre certo e conhecedor do que queria. Escolhi um desporto diferente. Fui a provas e campeonatos. Não me corria mal, era bom naquilo. E melhor, era feliz a fazer aquilo. Mas é difícil, às vezes. Como quando escrevo e declino toda e cada letra que desenhei para trás. Tão verdade como ter perdido a conta ao número de palavras que desperdicei. Talvez, e muito certamente, por nunca me aguentar na corrida. Fico enfadado da subida e descida das minhas palavras. Também, e muito mais, das histórias que carrego. Contradigo com o que faço. E do desporto da infância e adolescência nunca mais o pratiquei. Lembro-me agora que foi porque, a dada altura, me saturei. Como em tudo, relatos há que fazem parte de um espaço.

20.11.14

Relhas recordações.

A lamechice mora aqui, por certo. Mas não deixa de ser um facto que acontece por acaso. Ou surge no descaso de fazer parte de uma outra fase. Minha, figurando em pontuais momentos. A pausa que decorre de uma espera longa, em minha defesa, é um espicaçar das lembranças. Das lamechas também, inevitavelmente. No carro, sob a chuva copiosa, à espera de alguém. Uma cidade que, ainda assim, não tem espaço para sossegar. O chapéu-de-chuva ainda é uma arma. Das mulheres e dos afoitos homens que não se melindram com a insensatez de lhes chamar, aos protectores da chuva, efeminados. E a vida continua. Eles são negros e cinzas, roxos de listas beges ou a imitar a marca afamada que usa e abusa do preto e branco. Encarnados também. Como se lhes escorresse amoras que já foram mordiscadas. Velhos e novos. Alguns minutos e temos tréguas. Agora, a céu aberto, para alguns, a arma serve outro propósito. Uma bengala de ocupação. E eu no carro. Largos e incontáveis minutos. Continuei a observar. Uma mercearia ao fim da rua. Renovada, de ar pensado, de imagem cuidada. Vintage, por estar na moda e por fazer sentido o comércio de proximidade. Pensei, por acreditar. Nisto, da montra escarnecida pelas pingas da chuva, sobressaiu uma imagem que me remeteu para outros tempos. Uma balança, tal e qual como na mercearia do meu lugar. O cinza que brilha com a luz. Os pratos que ladeiam. Enfim, um indutor de recordação. De pensar em rotinas, lugares e, melhor, pessoas. Não é óbvio, mas esta mercearia e, em particular, aquela balança, simpaticamente, fizeram-me pensar no casal C. e C. Casal que admiro, embora, ausentes. Longe da vista. Distantes na necessidade de chegar o fim. O tempo não perdoa. A vida tem lotaria, mas não perde o prémio. Hei-de falar, noutro dia, dos C. Ambos de nomes reinventados. Pela propriedade da minha tenra idade. Por fim, chegou a companhia que esperava. Voltou a  chover. Tão verdade. Seguimos caminho. Agora, a bravura é da chuva, que nos salpica sem molhar.

13.10.14

Molhado e com um certo brilho.

Fala-se de educação, dos tipos de educação. Os pais que conheço lêem até ao sufoco. No final, voltam a questionar tudo e todos. O excesso consome as gentes. A míngua rouba oportunidades. A infância alimenta-se do que lhe dão. A minha foi cheia e feliz. Reproduzem-se, contudo, actos, factos e misturam-se ensinamentos. Por demais quando a redoma é vigorosa. Sinceramente, por mais que esforce, não consigo lembrar-me da última vez que andei à chuva. É pertinente. Questionável. Até à semana passada. Involuntariamente tive de me fazer ao caminho, sob a chuva copiosa. Juntamente com quem me acompanhava. Andar sob as pingas grossas passa rápido e dá vontade de rir. Mesmo que chegues ao destino tão molhado que desejes, somente, praguejar sem fim. Andar sob a chuva é daquelas coisas que cedo levam para longe de nós. Depois experimentamos e percebemos o que está guardado. Escrevo isto, devo assumir, para voltar a ler já de seguida, e em todas as vezes que lhe sigam, quando tiver de atravessar a porta e esforçar-me por passar por entre os pingos da chuva.

23.7.14

Do nascimento em diante.

A infância e a adolescência são, vezes sem conta, alvo das mais desgrenhadas palavras e definições rasteiras. A inocência, a inexperiência e o imprevisto. Depois, as acções azougadas, os amores e desamores desavindos, as relações familiares tão beliscadas, as amizades que vão e, se voltarem, voltaram. A seguir, bem, tudo muda, é o que nos oferecem como verdade. Reconheço sinceridade em muito desse raciocínio. Mas as excepções nunca ficam a perder. E, no passado fim-de-semana, num local público, onde devíamos optar por alguma parcimónia no discurso, uma jovem mulher, certamente com, pelo menos, trinta anos, exprimia-se com a força e fluidez do pensamento. A prosa comprova, se não colocarmos tantos entraves, que somos eternos em tanto das experiências que escolhemos ou que, de jeito inevitável, vivemos. A jovem mulher questionava-se, pelo que deu a entender, a uma amiga de longa data, da relação “tão de liceu”, como a própria definia. Não vou relatar o que se seguiu daí em diante, porque não é relevante e, sinceramente, não guardei. Mas ficou-me a certeza de que, crescer, soprar mais uma vela e evoluir pessoal e profissionalmente, nunca será a certeza de que maturamos. Ressalvo todas as excepções. Siga o passo.

9.5.14

Chama-se Margarida e recusa roubar a identidade ao tom, negando chamar-lhe de encarnado.

A Margarida é a memória e as lembranças de infância. De uma infância feliz e fornecida de tudo o que nos balizava a felicidade, daquela época em que por mais que a cronologia nos falhe, não perdemos a identidade de outros tempos. Ela é a descoberta da capacidade de gerir, ainda que não se aperceba, a educação centrada e espartilhada de uma família típica daquela região, com a azougada necessidade de se imiscuir com o restante. É tímida e intrometida em simultâneo. Fala de jeito suave, mas ri com sede. Escolheu que as amizades não têm nivelamento. Escolheu, ainda no tempo em que não se media, não ludibriar factos. Senta-se com quem for. Conversa com quem lhe oferecer palavra. Temos, precisamente, a mesma idade. Crescemos desde lá atrás. Desde a altura em que as varandas do andar superior das nossas casas se olhavam de frente. Hoje em dia pousa para as câmaras fotográficas. De pernas esguias e compridas, o décor a rigor, a ventoinha sem parar, o cabelo de um tom castanho mel a esvoaçar. O vestido da cor que não gosta, mesmo que lhe chame vermelho ao invés do encarnado de outras lides. Os saltos altos de uma marca de influente atracção. A pose intuitiva. Os flashes na frente. O rosto maquilhado e luminoso. Neste instante é tão real como quando despe o vermelho, abandona os saltos altos, lhe desligam a ventoinha e despede-se da objectiva. Porque, acredite-se ou não, há sempre quem não recue no momento de fazer a diferença. Boa sorte!

28.11.13

Curiosidade com verdade.

Janela fora, surge um mundo, que da altura, foge ao olhar. De pés a suportar, estende-se para lá do parapeito, forçando a segurança com as pequenas mãos. O olhar, contrariando a estatura menor, abre-se excessivamente, em jeito de contradição. Qual rotina, todos os dias, insistia conhecer. Não sabia o que viria de lá nem o que assistiria para lá. Deste lado, sempre hirto e saltitando, espreitando pela janela. Um dia, novidade, conseguiu descobrir. A janela aberta, agora à sua altura, mostrou-lhe o que guardava para lá do que chamava quadrado. Para lá do que perspectivava. Nesse instante, recusando e fugindo da imaginação, conheci a paisagem das traseiras daquela casa. A casa de família. A praia, misturando pessoas, mar e areia. O sol raiando sobre o jardim, reflectindo na piscina iludida de azul deste lado dos muros. No fim de contas, era igual. Conhecia-o, havia muito. Apenas, dali não via fracções do lugar. Via de uma forma panorâmica. A curiosidade não é tacanha. Espicaça e dá frutos. Finalmente, soube-o.