Cumpre-se
a semana com um jantar. Absorto, toco no ecrã. Sem pensar. Devolvo a prosa
possível, desdém entendido, nervo de sal. Picante agreste, rosa-dos-ventos na
pele. Literal, assim. Percebo o amor, a confusão da interpretação. Chamam-me
pelo primeiro nome, seguido do segundo. Gabo-lhe a tatuagem, o bom gosto e a
coragem. Se não me atraiçoa a memória, devo ter, algures, um telefone. Daqueles
negros, bem robustos, cuja rodela ao centro conta os algarismos. E deixa
brincar. Uma volta, depois outra. As voltas de que me lembrasse. Se não me
roubaram a memória, estava lá atrás, tão distante quanto a minha infância. No
recinto, entre o corredor e as escadas largas. A seguir à porta de entrada. À
frente da imponente porta do escritório. Mesmo defronte para a janela enorme,
de vidro limpo, de jardim a espreitar. Daquelas vistas que roubam as palavras.
Que o quotidiano belisca a relevância. Gatunos perfeitos. A dar atenção à mesa
de uso próprio. Madeira forte, cadeira agregada. O espelho gigante, o quadro
que lembrava um elefante. Um dia, uma jarra partida. Pequeno curioso, fartei-me
de nela pousar. O telefone era a razão para ali ficar, uma e outra vez, a fazer
de conta. A inventar. O dedo escolhia um número. Outro e outro.
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4.2.16
9.12.15
Em diferido. #43
Um
almoço descapotável e um tubarão no presente de Natal - Dezembro que vem a
descobrir. Vem o inverno e o natal, sem defeito, em omnipresença. Ainda se
vestem os fatos domingueiros, os sapatos engraxados. Escolhem-se as maneiras de
estar fora de casa, não retribuem gentilezas, são feitos de votos de boas
festas. Hoje tive um almoço descapotável, avançou o petiz de palavras
desenvoltas, discurso harmonioso e buliçoso. Enquanto as mãos se ocupavam com o
camião do hipermercado, a máquina retroescavadora, o formula 1 e o carro
familiar. Definiu-os assim. Bem posso assegurar que não falhou. Nada, nem uma
letra da definição imaculada. Alguns, sofridos pela insegurança das mãos que
não procuram sossego. Escolhem a amizade dos actos que apaixonam com a proximidade
da infância que assim já chega. Saltos em altura, em comprimento e o perto que
nunca é chegado na pressa do entendimento. As mãos pequeninas, proporcionais.
Bichos-carpinteiros que não dão tréguas. Brinca, sentado à beira, sem convite.
Troca as pequenas réplicas de saltos em saltos. Boas intenções, aptas piruetas.
Malabarismo que transforma. É a mesa uma gigante pista, como escreveu num
pedido ao pai natal. Logo, sem esperar, avançou a pergunta necessária. – E tu,
já escreveste? – Não, pensei. E não escrevi. Diz que menti. No natal e na
cabeça saudável do petiz da brincadeira não há consoada sem natal e vontade na
carta guardada. Farta mesa e presente na lareira. Frio lá fora, noite acordada.
Sem saber, uma refeição não será, fora da imaginação, descapotável. Por seu
turno, sê-lo-á, assim entenda. Como o carro ligeiro que salta, alegre e
velozmente, sobre o camião que transporta as couves, o arroz e o atum. Petiz em
véspera de natal deliciou-se com uma saborosa e descapotável refeição. No
final, depois de nos despedirmos, chamou-me e saltando na minha direcção,
disse-me que era um coelho. – Posso ser um coelho no natal, não posso? –
Sempre. O ano inteiro. Voltou para a mãe gritando que era um coelho. Como tanto
do que rabisco com palavras, é tão real. Supera, aceito, a imaginação. Petiz
porreiro. Espero que pai natal não se esqueça da pista de corrida gigante com
uma boca de tubarão, igualmente enorme. Por graça, natal houve em que me
apareceu uma portentosa pista na lareira. Natal é ser coelho e gritá-lo sem
medo. Ah, e já agora, já sabe escrever o nome todo. Petiz valente. Natal com
presente.
12.10.15
Apogeu figurado.
A
sala compõe-se ao nível da certeza de querer bem receber. A música presente, as
luzes a passar e as velas ao centro. Na folga da comemoração, tempo há para a
conversa e a devida reflexão. Os palmos, até certa idade, são grandeza. Desejas
medir com a mão, uma e outra vez, até chegares ao resultado final. Os passos,
daí até outro tempo, são a validade da medição. Do pequeno carro vermelho de
brincar até à fachada sem fim da casa onde moras. Não pensas nisso, mas tudo é
enorme. Falava com o petiz do lado e tomei-lhe a graça das palavras. Pertinentes,
num português correcto e variado. Largou um lamento sentido, a música de fundo
é perfeita para dormir, tão chata lhe parece, a mesa é tão comprida, o bolo é
maior do que a vontade de comer que, eventualmente, todos juntos pudéssemos
ter. Continuava, lembrando-me que a força da nossa animação estava a perder-se.
Rimos muito, aplaudimos outro tanto, falávamos pelos cotovelos. São as horas a
passar, como entende ele, petiz cansado pela agitação do dia longo. Somos uma
réplica dos loucos. Foge-nos a efusiva erupção da convivência. E nem damos por
isso. Amanhã acordamos, as horas teimaram em não esperar. Tudo mudou, até
aquele imponente relógio ao fundo da sala. Tão menor, que parece outro. Não
arrisques chegar-lhe perto e medir de novo. A desilusão nunca esquece, pior
ainda, nunca falha. Guardo a saudade de acreditar que, em subindo ao cume
daquela árvore, hoje perfeitamente normal, à época monstruosamente grande,
ficaria tão perto do céu. Do palmo e meio ao passo de gigante está tudo. Um
aplauso para isso.
26.1.15
À sua.
Conta-me
histórias. Avô babado ou vizinho interessado. Avó atenta ou vizinha ternurenta.
O cuidador do jardim sempre com tempo ou a senhora que criava e mantinha o lar,
enquanto cuidava da casa, não deixava de jogar uma palavra. Vá lá, conta-me
mais. Verdadeiras ou farsas reais. Prefiro-as mestiças. Pedir que conte mais e
mais. Num tempo longe. Quando a inocência era o mote. A dúvida era simples. É
mentira pegada ou verdade desenhada. Na carrinha, a cantiga era a mesma e
pediam, desta vez, ao senhor condutor, que colocasse o pé no acelerador. Ou aos
céus que faça sol ao invés da chuva miúda. A Dona Conceição, funcionária da
organização, era paródia no meio da canção. Voltar ao lugar, à escola primária
viva. O banco do jardim, momentos de recreio. Brincadeira sem fim. A tal menina
mexida, julgava-se a Miss nacional.
No ano seguinte, no mesmo banco verde seco, foi namoro de verdade infantil. A
entrada é a mesma. O jardim está mais cuidado. Correm crianças. A velhota de
negro ainda existe. Mudaram-lhe o corpo e o nome, mas vive à volta. Antes,
cadeado na conversa. Agora, chapéu-de-chuva que tapa o sol de inverno. Conta-me
histórias, velha de negro. Na rua, num ou noutro banco de paragem. Saudinha!
22.12.14
Um almoço descapotável e um tubarão no presente de natal.
Dezembro
que vem a descobrir. Vem o inverno e o natal, sem defeito, em omnipresença.
Ainda se vestem os fatos domingueiros, os sapatos engraxados. Escolhem-se as
maneiras de estar fora de casa, não retribuem gentilezas, são feitos de votos
de boas festas. Hoje tive um almoço descapotável, avançou o petiz de palavras
desenvoltas, discurso harmonioso e buliçoso. Enquanto as mãos se ocupavam com o
camião do hipermercado, a máquina retroescavadora, o formula 1 e o carro
familiar. Definiu-os assim. Bem posso assegurar que não falhou. Nada, nem uma
letra da definição imaculada. Alguns, sofridos pela insegurança das mãos que
não procuram sossego. Escolhem a amizade dos actos que apaixonam com a
proximidade da infância que assim já chega. Saltos em altura, em comprimento e
o perto que nunca é chegado na pressa do entendimento. As mãos pequeninas,
proporcionais. Bichos-carpinteiros que não dão tréguas. Brinca, sentado à
beira, sem convite. Troca as pequenas réplicas de saltos em saltos. Boas
intenções, aptas piruetas. Malabarismo que transforma. É a mesa uma gigante
pista, como escreveu num pedido ao pai natal. Logo, sem esperar, avançou a
pergunta necessária. – E tu, já escreveste? – Não, pensei. E não escrevi. Diz
que menti. No natal e na cabeça saudável do petiz da brincadeira não há
consoada sem natal e vontade na carta guardada. Farta mesa e presente na
lareira. Frio lá fora, noite acordada. Sem saber, uma refeição não será, fora
da imaginação, descapotável. Por seu turno, sê-lo-á, assim entenda. Como o
carro ligeiro que salta, alegre e velozmente, sobre o camião que transporta as couves, o arroz e o
atum. Petiz em véspera de natal deliciou-se com uma saborosa e descapotável
refeição. No final, depois de nos despedirmos, chamou-me e saltando na minha
direcção, disse-me que era um coelho. – Posso ser um coelho no natal, não
posso? – Sempre. O ano inteiro. Voltou para a mãe gritando que era um coelho.
Como tanto do que rabisco com palavras, é tão real. Supera, aceito, a
imaginação. Petiz porreiro. Espero que pai natal não se esqueça da pista de
corrida gigante com uma boca de tubarão, igualmente enorme. Por graça, natal
houve em que me apareceu uma portentosa pista na lareira. Natal é ser coelho e
gritá-lo sem medo. Ah, e já agora, já sabe escrever o nome todo. Petiz valente.
Natal com presente.
3.12.14
De distância em distância.
Casos
há em que resumir uma resposta sem que me faça parecer um velho que guarda as
palavras na proporção da idade e das experiências, pode tornar-se num desafio
tremendo. Porque a eloquência tem muito mais genica, raça e piada. É um
entusiasmo que não se esgota, senão quando perde para a tensão de não querer
brincar mais, ainda que por breves e prudentes instantes. Assim como quando éramos
putos e a sinceridade se sobrepunha à vontade de fazer mais actividades.
Escolher. Seleccionei-as, embora, poucas. Sempre certo e conhecedor do que
queria. Escolhi um desporto diferente. Fui a provas e campeonatos. Não me
corria mal, era bom naquilo. E melhor, era feliz a fazer aquilo. Mas é difícil,
às vezes. Como quando escrevo e declino toda e cada letra que desenhei para trás.
Tão verdade como ter perdido a conta ao número de palavras que desperdicei.
Talvez, e muito certamente, por nunca me aguentar na corrida. Fico enfadado da
subida e descida das minhas palavras. Também, e muito mais, das histórias que
carrego. Contradigo com o que faço. E do desporto da infância e adolescência
nunca mais o pratiquei. Lembro-me agora que foi porque, a dada altura, me
saturei. Como em tudo, relatos há que fazem parte de um espaço.
20.11.14
Relhas recordações.
A
lamechice mora aqui, por certo. Mas não deixa de ser um facto que acontece por
acaso. Ou surge no descaso de fazer parte de uma outra fase. Minha, figurando
em pontuais momentos. A pausa que decorre de uma espera longa, em minha defesa,
é um espicaçar das lembranças. Das lamechas também, inevitavelmente. No carro,
sob a chuva copiosa, à espera de alguém. Uma cidade que, ainda assim, não tem
espaço para sossegar. O chapéu-de-chuva ainda é uma arma. Das mulheres e dos
afoitos homens que não se melindram com a insensatez de lhes chamar, aos protectores
da chuva, efeminados. E a vida continua. Eles são negros e cinzas, roxos de
listas beges ou a imitar a marca afamada que usa e abusa do preto e branco.
Encarnados também. Como se lhes escorresse amoras que já foram mordiscadas.
Velhos e novos. Alguns minutos e temos tréguas. Agora, a céu aberto, para
alguns, a arma serve outro propósito. Uma bengala de ocupação. E eu no carro.
Largos e incontáveis minutos. Continuei a observar. Uma mercearia ao fim da rua.
Renovada, de ar pensado, de imagem cuidada. Vintage,
por estar na moda e por fazer sentido o comércio de proximidade. Pensei, por
acreditar. Nisto, da montra escarnecida pelas pingas da chuva, sobressaiu uma
imagem que me remeteu para outros tempos. Uma balança, tal e qual como na
mercearia do meu lugar. O cinza que brilha com a luz. Os pratos que ladeiam.
Enfim, um indutor de recordação. De pensar em rotinas, lugares e, melhor,
pessoas. Não é óbvio, mas esta mercearia e, em particular, aquela balança,
simpaticamente, fizeram-me pensar no casal C. e C. Casal que admiro, embora,
ausentes. Longe da vista. Distantes na necessidade de chegar o fim. O tempo não
perdoa. A vida tem lotaria, mas não perde o prémio. Hei-de falar, noutro dia, dos
C. Ambos de nomes reinventados. Pela propriedade da minha tenra idade. Por fim,
chegou a companhia que esperava. Voltou a
chover. Tão verdade. Seguimos caminho. Agora, a bravura é da chuva, que
nos salpica sem molhar.
13.10.14
Molhado e com um certo brilho.
Fala-se
de educação, dos tipos de educação. Os pais que conheço lêem até ao sufoco. No
final, voltam a questionar tudo e todos. O excesso consome as gentes. A míngua
rouba oportunidades. A infância alimenta-se do que lhe dão. A minha foi cheia e
feliz. Reproduzem-se, contudo, actos, factos e misturam-se ensinamentos. Por
demais quando a redoma é vigorosa. Sinceramente, por mais que esforce, não
consigo lembrar-me da última vez que andei à chuva. É pertinente. Questionável.
Até à semana passada. Involuntariamente tive de me fazer ao caminho, sob a
chuva copiosa. Juntamente com quem me acompanhava. Andar sob as pingas grossas
passa rápido e dá vontade de rir. Mesmo que chegues ao destino tão molhado que desejes,
somente, praguejar sem fim. Andar sob a chuva é daquelas coisas que cedo levam
para longe de nós. Depois experimentamos e percebemos o que está guardado.
Escrevo isto, devo assumir, para voltar a ler já de seguida, e em todas as vezes
que lhe sigam, quando tiver de atravessar a porta e esforçar-me por passar por
entre os pingos da chuva.
23.7.14
Do nascimento em diante.
A
infância e a adolescência são, vezes sem conta, alvo das mais desgrenhadas
palavras e definições rasteiras. A inocência, a inexperiência e o imprevisto.
Depois, as acções azougadas, os amores e desamores desavindos, as relações familiares
tão beliscadas, as amizades que vão e, se voltarem, voltaram. A seguir, bem, tudo
muda, é o que nos oferecem como verdade. Reconheço sinceridade em muito desse raciocínio.
Mas as excepções nunca ficam a perder. E, no passado fim-de-semana, num local
público, onde devíamos optar por alguma parcimónia no discurso, uma jovem
mulher, certamente com, pelo menos, trinta anos, exprimia-se com a força e
fluidez do pensamento. A prosa comprova, se não colocarmos tantos entraves, que
somos eternos em tanto das experiências que escolhemos ou que, de jeito inevitável,
vivemos. A jovem mulher questionava-se, pelo que deu a entender, a uma amiga de
longa data, da relação “tão de liceu”, como a própria definia. Não vou relatar
o que se seguiu daí em diante, porque não é relevante e, sinceramente, não
guardei. Mas ficou-me a certeza de que, crescer, soprar mais uma vela e evoluir
pessoal e profissionalmente, nunca será a certeza de que maturamos. Ressalvo
todas as excepções. Siga o passo.
9.5.14
Chama-se Margarida e recusa roubar a identidade ao tom, negando chamar-lhe de encarnado.
A
Margarida é a memória e as lembranças de infância. De uma infância feliz e fornecida
de tudo o que nos balizava a felicidade, daquela época em que por mais que a
cronologia nos falhe, não perdemos a identidade de outros tempos. Ela é a
descoberta da capacidade de gerir, ainda que não se aperceba, a educação
centrada e espartilhada de uma família típica daquela região, com a azougada
necessidade de se imiscuir com o restante. É tímida e intrometida em
simultâneo. Fala de jeito suave, mas ri com sede. Escolheu que as amizades não
têm nivelamento. Escolheu, ainda no tempo em que não se media, não ludibriar
factos. Senta-se com quem for. Conversa com quem lhe oferecer palavra. Temos,
precisamente, a mesma idade. Crescemos desde lá atrás. Desde a altura em que as
varandas do andar superior das nossas casas se olhavam de frente. Hoje em dia
pousa para as câmaras fotográficas. De pernas esguias e compridas, o décor a
rigor, a ventoinha sem parar, o cabelo de um tom castanho mel a esvoaçar. O
vestido da cor que não gosta, mesmo que lhe chame vermelho ao invés do
encarnado de outras lides. Os saltos altos de uma marca de influente atracção.
A pose intuitiva. Os flashes na frente. O rosto maquilhado e luminoso. Neste
instante é tão real como quando despe o vermelho, abandona os saltos altos, lhe
desligam a ventoinha e despede-se da objectiva. Porque, acredite-se ou não, há
sempre quem não recue no momento de fazer a diferença. Boa sorte!
28.11.13
Curiosidade com verdade.
Janela
fora, surge um mundo, que da altura, foge ao olhar. De pés a suportar,
estende-se para lá do parapeito, forçando a segurança com as pequenas mãos. O
olhar, contrariando a estatura menor, abre-se excessivamente, em jeito de contradição.
Qual rotina, todos os dias, insistia conhecer. Não sabia o que viria de lá nem
o que assistiria para lá. Deste lado, sempre hirto e saltitando, espreitando
pela janela. Um dia, novidade, conseguiu descobrir. A janela aberta, agora à
sua altura, mostrou-lhe o que guardava para lá do que chamava quadrado. Para lá
do que perspectivava. Nesse instante, recusando e fugindo da imaginação,
conheci a paisagem das traseiras daquela casa. A casa de família. A praia,
misturando pessoas, mar e areia. O sol raiando sobre o jardim, reflectindo na
piscina iludida de azul deste lado dos muros. No fim de contas, era igual. Conhecia-o,
havia muito. Apenas, dali não via fracções do lugar. Via de uma forma
panorâmica. A curiosidade não é tacanha. Espicaça e dá frutos. Finalmente,
soube-o.
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